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Os Fracasso de Amorim e a inútil Assembléia Geral da ONU

Gustavo Chacra

A Assembléia Geral das Nações Unidas, que cubro pela segunda vez neste ano, não serve para nada. A não ser pelo discurso de Barack Obama e de alguns palhaços como o Kadafi, o Ahmadinejad e o Chávez, nenhuma pessoa presta atenção no que os outros dizem. Ninguém lembra absolutamente de nada que o Lula, o Sarkozy, o rei Abdullah ou qualquer outro chefe de Estado tenha falado no ano passado.

Neste ano, o presidente brasileiro, pela primeira vez em seus dois mandatos, preferiu não vir por causa da proximidade das eleições brasileiras. Muitos questionaram se ele não perderá o palco internacional para poder falar. Mas Lula não perderá porque ninguém ouviria o que ele tem a dizer. A Assembléia Geral da ONU não vale nada. É um corpo gigantesco, caro e ineficiente.

Todas as decisões relevantes são tomadas no Conselho de Segurança. O Brasil sonha em se tornar membro permanente. Foram oito anos de prioridade absoluta no governo Lula. Ontem, em entrevista coletiva, perguntaram a Celso Amorim qual o maior fracasso de seus tempos como ministro. Ele respondeu que nós, jornalistas, poderíamos dizer.

A minha lista é grande, mas certamente um dos fracassos foi gastar capital político em batalhas perdidas e se meter onde não foi chamado. O Brasil não está nem perto de se transformar em membro permanente. O México foi bem mais eficaz ao sabotar a nossa candidatura. No caso do Irã, também demos um vexame. Poderíamos ter sido como a China, que faz negócio com todo o mundo sem querer dar lição de moral. No Oriente Médio, a posição brasileira precisa ser a seguinte – “defendemos uma solução de dois Estados”. E esqueçam os outros assuntos.

Somos um gigante na América Latina. E nesta região também fizemos bobagem ao defender a bizarra figura do Manuel Zelaya. Cobri a sua deposição dele em Honduras no ano passado. O artigo 239 diz que o presidente pode ser removido do cargo e foi isso que aconteceu – verdade, ninguém fala para que apontem armas, o retirem da cama no meio da madrugada e o coloquem em um avião e isso foi lamentável. A queda, não. Zelaya desrespeitou a Constituição ao indiretamente tentar mudá-la para se manter no poder.

No ano passado, neste mesmo mês, Amorim estava aqui em Nova York e praticamente gritava que Zelaya deveria voltar ao poder. O ex-presidente havia conseguido abrigo na Embaixada do Brasil em Honduras.

Não retornou ao poder, já que ninguém na Suprema Corte, no Exército e na maioria do Congresso o queria de volta em Tegucigalpa. Em eleições livres, Pepe Lobo se tornou presidente, apesar da contrariedade do Brasil.

Imagino que o Amorim queria ver mais um palhaço, como o Zelaya, discursando na ONU para poder se divertir. Obviamente, as bobagens proferidas pelo Tiririca de Tegucigalpa são mais divertidas do que as do rei de Tonga, com quem o Brasil estabelecerá relações diplomáticas hoje.

Fonte:  Gustavo Chacra / O ESTADO DE S PAULO

Blogueiro descreve líderes do Oriente Médio e das Américas

Gustavo Chacra

Em seu livro Blink, o escritor americano da revista New Yorker ,  Malcolm Gladwell afirma que as pessoas podem formar uma opinião sobre algo ou alguém em apenas alguns segundos. Ou melhor, em frações de segundo.

Um especialista em arte renascentista pode ver um quadro e dizer imediatamente se é um Leonardo da Vinci original ou uma falsificação. Ao caminhar pelas ruas de Nova York, conseguimos quase sempre acertar quando uma família é brasileira ou não. É algo no andar, no sorriso, difícil de explicar. Na primeira frase de um professor de cursinho, decidimos se cabularemos a aula seguinte dele ou se o idolatraremos pelos corredores.

Nas minhas coberturas internacionais, tive a oportunidade de ver uma série de autoridades. Hoje, irei a uma palestra do premiê de Israel, Benjamin Netanyahu aqui em Nova York. Já o vi antes, no ano passado, durante a Guerra de Gaza, em um hotel de Jerusalém. Ele estava com o Benny Begin, outro político israelense, tomando café da manhã. No pouco que o observei, notei apenas que ele era atarracado, baixinho e seguro. Seu olhar era firme, decisivo.

Mahmoud Ahmadinejad eu vi aqui em Nova York, antes de reunião dele com Lula. Minúsculo, magro e com olhos perdidos. O líder iraniano parece aquele aluno frágil dos colégios, que gosta de provocar. Pode até apanhar, mas, no dia seguinte, já está provocando de novo, mesmo com o olho roxo.

Seu aliado, Bashar al Assad, presidente da Síria, teve um contato maior comigo. Alto, quase gigantesco, e magro, parece aqueles jogadores de basquete de clube. Seria um amador do time do Sírio nos anos 1980. O bigode dá ao líder sírio um ar antiquado, apesar de ele ser uma pessoa antenada com a alta tecnologia.

Entrevistei Rafik Hariri antes de ele morrer. Parecia o dono do mundo. Bilionário, primeiro-ministro, herói nacional, o libanês tinha dinheiro, poder e glória. E sua imagem esbanjava estas três qualidades.

Tzipi Livni, chanceler de Israel, é bonita, dura e com jeito de paulista. Parecia que eu já a conhecia há anos quando a vi depois de reunião com Celso Amorim. Ehud Barak, assim como Netanyahu, era compacto, forte, mas bem menor do que eu imaginava. O ex-premiê Ehud Olmert não exibia a segurança de Bibi e de Barak. Não passou pelo Exército. Era civil. Seu brilho era bem menor.

Vi Barack Obama discursar. Nunca de perto. Literalmente, era como se eu estivesse assistindo a uma TV. Já a secretária de Estado Hillary Clinton tem uma cara de “Nice to meet You”, com o sorriso aberto e forçado. Eu me lembrei imediatamente das amigas da minha mãe americana do intercâmbio na Carolina do Sul.

Manuel Zelaya era o charlatão em pessoa, forçado, com seu chapéu e um discurso populista que não enganou os hondurenhos. Michelleti não era muito melhor. Eu me lembrei imediatamente de dirigentes de clubes de futebol envolvidos em escândalos. Era difícil saber qual dos dois era pior quando os vi em San José. Já o então presidente da Costa Rica e Nobel da Paz, Oscar Arias, parecia um acadêmico americano perto dos dois. Metido, mas com ar de quem sabe do que está falando.

Dos brasileiros, vi Lula algumas vezes aqui nos EUA. É uma pessoa engraçada e que, goste dele ou não, consegue dominar o cenário onde estiver – a não ser que um Maradona ou um Fidel esteja nas redondezas. Fernando Henrique é bem humorado, feliz com a vida, por tudo que realizou. Dilma parece diretora de escola, pronta para dar uma suspensão. Também achei Marina Silva brava e séria em uma palestra da Columbia. Nunca me encontrei com José Serra.

Quem me marcou mesmo foi o argentino Carlos Chacho Alvarez, o vice-presidente que renunciou ao cargo – e deixou de ser presidente, já que tempos depois o ex-presidente Fernando de la Rua deixou o poder. Um dia, na praia de Juquehy, vi um homem de shorts Adidas dos anos 1980 andando em uma rua de terra. Ele levava um pacote de pães e não vestia camiseta. Parei o carro. Perguntei se era Chacho. Meio perdido, ele respondeu que sim com seu sotaque porteño. Era a imagem da decadência. Um homem que poderia ter sido presidente, perdido em uma praia do Litoral Norte paulista.

Sei que quase todas estas descrições acima foram feitas em um “blink”, uma fração de segundos. Conversei apenas por mais tempo com Assad, Hariri e Olmert. Mais tarde, talvez eu tenha uma opinião distinta de Netanyahu. No caso dos brasileiros, não há nenhuma opinião política nas minhas descrições. Este blog fala de política internacional, vivo fora do Brasil há cinco anos e não estou qualificado para falar das eleições ou dar uma opinião. Outros blogueiros do Estadão podem cuidar desta parte

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Seu blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

O que vem depois da resolução contra o Irã?

Gustavo Chacra

A quarta rodada de sanções foi aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. Acabei de acompanhar a votacao aqui nas Nações Unidas. Foram 12 votos a favor, incluindo os dos cinco membros permanentes do conselho. Apenas Brasil e Turquia votaram contra. O Libano se absteve.

É clima de final de Copa, de última dia de aula. E, uma vez aprovadas as sanções, fica a pergunta – e agora? O que vem depois? Será que o regime iraniano cairá? Bom, ainda que isso aconteça, não muda muito. Afinal, quando o presidente era Mohammad Khatami, um moderado para os padrões iranianos, o programa nuclear estava a toda. Os atuais líderes da oposição tampouco se posicionaram contra esta questão.

Na verdade, todos sabem que o Irã pretende desenvolver a bomba. O enriquecimento de urânio serve apenas para duas coisas. Pode ser para fabricar uma bomba ou usar para a produção de energia. No segundo caso, é necessário possuir uma usina. O Irã tem, mas elas funcionam apenas com combustível nuclear russo. E continuará assim, segundo acordo entre os dois países. Caso contrário, Moscou retirará a assistência técnica e os iranianos não terão como operar.

Tampouco há usinas totalmente iranianas em construção. E, como sabemos por Angra, não é de um dia para o outro que elas ficam prontas. O reator médico de pesquisas é estranho. Afinal, ele é oito vezes maior do que qualquer outro existente no mundo.

Logo, o regime de Teerã está disposto a produzir armas atômicas. Não há dúvida sobre esta questão. Pela lógica realista, que eu sigo, é natural o Irã querer ter uma bomba. Os Estados Unidos invadiram e destruíram o Iraque, na sua fronteira ocidental, e o Afeganistão, na oriental. Como impedir os americanos de fazerem o mesmo com os iranianos? Basta seguir o exemplo da Coréia do Norte e do Paquistão. Construa a bomba que, automaticamente, haverá uma forma de dissuadir o seu adversário.

A comunidade internacional tenta pela quarta vez intensificar as pressões. Também já buscaram retirar o Irã do isolamento com ofertas até para entrar na Organização Mundial do Comercio. Nada funcionou. Existe ainda a possibilidade de uma ação militar, mas esta é arriscada.

Muitos já dizem que os países membros aceitam um Irã nuclear. Já ouvi de especialistas sérios que as resoluções seriam apenas para, acreditem, Teerã ganhar tempo e conseguir a sua bomba antes de Israel optar por uma ação unilateral. Isto é, as sanções seriam para acalmar os israelenses, que se sentem ameaçados pelos possíveis armamentos nucleares iranianos no futuro.

De Brasília a Nova York – Brasil comete sucessão de erros em relações públicas na ONU

Gustavo Chacra

O Brasil e a Turquia convocaram para ontem uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O objetivo dos brasileiros e turcos era convencer os demais membros do órgão a organizar um debate público antes da votação de uma resolução contra o Irã, prevista para amanhã ou quinta, ser votada. Não conseguiram.

Independentemente do mérito ou não da posição brasileira, chamou a atenção a falta de habilidade do Itamaraty em lidar com a imprensa e fazer relações públicas. Lembrou o Yasser Arafat pós-Camp David. Na época, o líder palestino foi embora e esqueceu de explicar a sua versão do fracasso das negociações. O então presidente dos EUA, Bill Clinton, e o na época premiê de Israel, Ehud Barak, tiveram todo o tempo do mundo para culpar os palestinos pela falta de um acordo.

Ontem foi uma sucessão de erros no CS. Primeiro, o Itamaraty não informou a imprensa brasileira da reunião. Eu soube pelos mexicanos e por uma ligação da redação em São Paulo, que viu nas agências de notícias. A Cris Fibe, minha concorrente da Folha, também soube por terceiros. Nenhum outro órgão de imprensa brasileiro foi avisado pelo Departamento de Imprensa da missão junto às Nações Unidas.

Quando se dirigiam para a reunião, porta-vozes de países como França, México, China e Áustria pararam para falar com os jornalistas internacionais. A delegação brasileira passou reto. Mal começou o debate, um diplomata americano saiu e deu a posição do seu país e dos seus aliados. Isto é, os primeiros textos das agências tinham as visões dos EUA e de alguns outros países, mas não do Brasil.

Encerrada a reunião, os porta-vozes do México e da França deram um show, falando por mais de meia-hora com os jornalistas e chegando a ironizar o Brasil. A Susan Rice, embaixadora dos EUA, saiu e deixou o recado – “vamos votar nesta semana”.

A manchete dos jornais estava pronta. E nada do Brasil. Um porta-voz brasileiro foi até os jornalistas, mas falou apenas com o Estado e a Folha. Quando a embaixadora Maria Luiza Viotti deixou a sala do Conselho de Segurança, cerca de 45 minutos mais tarde, a maior parte da imprensa havia ido embora. E a posição brasileira não aparecerá em muitos artigos dos jornais. A Turquia conseguiu ser ainda mais lenta.

Como diriam no Oriente Médio, “o Brasil não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade”. Usei outro dia esta frase para Israel. Mas acho que também se aplica ao Brasil.

De Entebbe a Gaza – Israel perde a guerra da opinião pública

Gustavo Chacra

“Abbas Eban, o ex-estadista israelense, teria dito em 1973 que ‘os árabes não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade’. Mas, como disse um rabino no meu Facebook, atualmente ‘é Israel que não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade’”

Nicholas Kristof, colunista do New York Times

Israel sofreu duros golpes na disputa pela opinião pública internacional nos últimos meses. Apenas neste ano, foram cinco episódios em que a imagem israelense saiu afetada, provocando discussões nos jornais de Tel Aviv, Jerusalém e mesmo Nova York sobre quais as falhas da “hasbara” (palavra em hebraico para designar relações públicas diplomáticas).

Houve o assassinato de um membro do Hamas em Dubai, a inclusão de uma forma negativa do nome de Israel na ratificação do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, a irritação do governo americano com o anúncio de novas casas em assentamentos durante a visita do vice-presidente Joe Biden a Jerusalém, a publicação de um livro mostrando as ligações de Israel com o regime de Apartheid na África do Sul e, para completar, o episódio envolvendo a frota de Gaza.

Em quase todos estes casos, na avaliação da imprensa israelense, Israel saiu com uma imagem negativa. A Suécia já entrou com um pedido, segundo o Haaretz, para cancelar uma partida contra os israelenses na categoria sub-21 marcada para esta semana. Pesquisa do Comitê Judaico Americano, divulgada em reportagem de capa da revista New York Review of Books, indica que apenas 16% dos judeus não-ortodoxos dos EUA com menos de 40 anos se sentem muito próximos de Israel.

“Esta nova geração, de 20, 30 anos não se identifica mais com determinadas políticas israelenses e não enxergam mais Israel como um ator moral”, disse a mim o editor da prestigiada revista Foreign Affairs, Sasha Polakov-Suransky, que acabou de publicar nos EUA um livro sobre as relações de Israel com África do Sul do Apartheid.

No passado, operações como a perseguição aos terroristas do massacre em Munique eram vistas com admiração. O resgate de um avião seqüestrado em Entebbe, em 1976, sob o comando do irmão do atual premiê, Benjamin Netanyahu, que acabou morto, recebeu elogios ao redor do mundo.

Agora, os adversários de Israel são rápidos em mostrar o seu lado. No caso da frota, os participantes estavam munidos de câmeras e usaram sites como o Youtube, Twitter e o Facebook para divulgá-las quase imediatamente. Já os filmes do Exército de Israel, mostrando ataques aos seus soldados, demoraram horas para chegar aos jornais e TVs, quando a maioria das pessoas tinha visto as cenas enviadas pelos grupos integrantes da frota.

Em entrevista ao Jerusalem Post, Malcolm Hoenlein, diretor-executivo da Conferência dos Presidentes das Maiores Organizações Judaicas Americanas, afirmou que “há muita irritação com a hasbara e com a forma como ela foi conduzida. Por que demorou tanto para divulgarem os filmes (dos soldados sendo atacados)? Parece até que eles não estavam preparados”.

De Washington e Jerusalém – O manual da crise Israel x EUA

Gustavo Chacra

Os Estados Unidos estão irritados com Israel. Não é a primeira vez neste governo e tampouco na história americana.

Na Guerra de Suez, em 1956, os EUA se posicionaram a favor do Egito e contra seus aliados franceses, ingleses e israelenses. George Bush (o pai) e Bill Clinton também divergiram de Israel ao longo de seus mandatos, apesar de a aliança entre os dois países nunca ter sido colocada em cheque – e tampouco está agora.

O conflito atual envolve a construção de 1.600 novas unidades residenciais em um assentamento em Jerusalém Oriental. Esta parte da cidade é reivindicada pelos palestinos como capital de um futuro Estado. Muçulmanos em sua maioria, mas também incluindo uma minoria cristã, eles defendem o caráter palestino da cidade por questões demográficas e também históricas e religiosas. Já Israel considera Jerusalém sua capital eterna e indivisível também por razões históricas e religiosas.

Balança Demográfica - A construção dos assentamentos visa alterar a balança demográfica, elevando o número de judeus na parte oriental, e também para isolar a cidade do restante da Cisjordânia.

Os EUA e a comunidade internacional consideram esta ação um obstáculo para as negociações de paz. Os americanos nunca disseram oficialmente que consideram a área oriental como palestina. Apenas deixam claro que, até ser encontrada uma solução negociada, deveria haver um congelamento na expansão das colônias. Enquanto isso, mantêm a sua Embaixada em Tel Aviv.

A briga - Na semana passada, quando as relações entre Israel e EUA já não eram boas, Joe Biden, na avaliação da administração americana, foi humilhado durante visita a Jerusalém.

O vice-presidente, que é uma das figuras mais próximas de Israel em Washington, buscava relançar o processo de paz. Em vez disso, recebeu a notícia de que Israel construiria as novas unidades residenciais.

Os americanos reagiram e a secretária de Estado, Hillary Clinton, demandou que Netanyahu voltasse atrás nos planos. O premiê se recusou. O enviado especial dos EUA, George Mitchell, não retornará à região até Israel mudar sua postura – ou, eu diria, até a poeira baixar.

De qualquer forma, o tom assustou inclusive o presidente Lula, que teve a sua viagem ofuscada pela crise envolvendo Washington e Jerusalém.

Divisões - Nos EUA, há divisões. De um lado, o liberal New York Times (isso mesmo que vocês leram) defende Obama.

O governo também conta com o apoio de entidades judaicas liberais, como a J-Street. O conservador lobby pró-Israel AIPAC e o Wall Street Journal consideraram desnecessária a reação do governo americano.

Obama, em relação ao Oriente Médio, escuta três pessoas. Mitchell, o seu chefe de gabinete, Rahm Emmanuel, e seu assessor, David Axelrod. Os dois últimos são judeus. Emmanuel viveu em Israel e fala hebraico fluentemente. Muitos podem achar que este histórico o colocaria sempre a favor da administração israelense.

O problema é que o chefe de gabinete de Obama diverge de Netanyahu por questões pessoais e ideológicas. Os dois se odeiam e Emmanuel possui uma ideologia política liberal, próxima da J-Street, do New York Times e dos judeus do Upper West Side.

Netanyahu simpatiza mais com os republicanos, com os judeus conservadores e o Wall Street Journal.

Aliança – Afinal, Israel é como qualquer país. Muitos leitores não concordam com Lula e mesmo assim amam e defendem o Brasil. O mesmo ocorre com Israel.

Criticar as políticas de Bibi não é ser contra o Estado judaico, mas contra a administração atual. Assim age Obama.

Para completar, os EUA parecem finalmente ter aprendido a lição de John Mearsheimer, de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, autores do livro “O lobby de Israel”. Na visão deles, as relações dos americanos com os israelenses deveriam ser a mesma existente entre os EUA e a Inglaterra ou os EUA e a Alemanha.

São aliados, mas podem divergir. Não precisam concordar sempre. E é isso que ocorre atualmente. A aliança dos EUA e de Israel é muito profunda e necessária para os dois países. Não fossem os americanos, Israel talvez não existisse. E, se não fosse pelos judeus, Nova York não seria a capital financeira do mundo e os EUA teriam bem menos Nobel do que possuem.

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