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A política dos socialistas

João Bosco Leal

Tenho observado a política externa do governo Lula, procurando encontrar alguma lógica em suas atitudes, como montar uma embaixada brasileira em Tuvalu, ou a aproximação com o radical Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, e a defesa do programa nuclear deste, contra praticamente todos os países do mundo.

Atitudes como a revisão tarifária do Tratado de Itaipú; a construção de novas e mais modernas pistas e saguão de embarque e desembarque de passageiros de um aeroporto em Havana, Cuba; a aceitação pacífica da perda dos poços de gás construídos pela Petrobrás na Bolívia e a revisão de itens estipulados em contratos ainda vigentes com esse país para a aquisição de gás, obrigando o Brasil ao pagamento de um determinado volume de gás, consumindo ou não esse volume, além de um valor bem superior a ser pago pelo metro cúbico deste; mostram não a negociação entre países, mas a "doação" do Brasil a países governados por "companheiros" políticos.

A economia brasileira passa por uma encruzilhada no mundo globalizado atual. Os ministros da área econômica dizem que não podemos crescer a taxas superiores a 5,5% ao ano, por não possuirmos infraestrutura para tanto, nem recursos para os investimentos necessários na construção, ampliação e modernização de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, e tampouco para novas fontes de produção e distribuição de energia, hoje os verdadeiros gargalos de nosso desenvolvimento, além desse crescimento gerar excesso de consumo e consequente inflação.

O financiamento pelo BNDES de obras no exterior, mesmo quando realizadas por empresas brasileiras, também é uma atitude questionável desse governo, pois como o próprio nome diz, esse deveria ser o Banco "Nacional" de Desenvolvimento Econômico e Social, um banco de fomento "nacional", aqui financiando o desenvolvimento, a infraestrutura e a geração de empregos.

Financiamentos pelo BNDES de obras no exterior são frequentemente divulgados, como os já citados, além da construção de uma rede de transmissão de energia ligando Itaipu a Assunção, no Paraguai, e de um gasoduto entre a Venezuela e o Brasil, para que possamos também adquirir gás de outro querido "companheiro", Hugo Chávez.

Se nosso gargalo é infraestrutura e energia, qual a explicação plausível para que financiemos isso em outros países, ao invés de financiar, no próprio Brasil, a construção de novas hidrelétricas e redes de transmissão de energia? Qual o motivo de não investirmos mais na prospecção e transporte, por gasodutos, de nossas próprias e suficientes já descobertas reservas de gás? Como falta dinheiro para obras internas se podemos financiá-las no exterior? Que interesses são esses?

Como fazer caridade para outros países se não conseguimos sequer evitar que nossos irmãos brasileiros sejam soterrados quando chove, por morarem sobre antigos lixões, ou tenham suas casas alagadas por residirem em barracos instalados em locais impróprios para a construção, mas é o que e onde podem fazer, pois o governo não tem um programa habitacional e financiamentos que os atendam em quantidade suficiente, e os deixa morrer nas filas de hospitais por não possuir os investimentos necessários para a saúde pública?

Os democratas, patriotas e capitalistas realmente não entendem e jamais entenderão o raciocínio dos socialistas, que é, como o próprio nome já diz, o da socialização, divisão de tudo, mesmo do que não se dispõe. Nivela-se tudo por baixo, na pobreza, pois é impossível fazer com que todos sejam ricos, patrões, donos de banco.

Se essa fosse a realidade, ninguém necessitaria do banco alheio, por possuir o próprio, e não teria dinheiro para nele guardar, por não possuir quem lhe pague por um serviço que não haveria prestado, pois é o próprio patrão.

Artigo publicado no ALERTA TOTAL, em 20/11/2010

Diferenças emergentes

Merval Pereira - O GLOBO

Discutir a globalização e as diferenças emergentes no mundo multipolar que vem se impondo à antiga ordem estabelecida, especialmente após a crise financeira internacional de setembro de 2008 que ainda espalha suas conseqüências especialmente nos Estados Unidos e Europa, é o objetivo central da XXII Conferência da Academia da Latinidade que começou ontem no Rio.

Embora entre os participantes estejam também especialistas em América Latina, e as especificidades das experiências políticas no continente venham a ser objeto de debate, sobretudo as chamadas “novas democracias”, o que se destacou mesmo no primeiro dia foi a definição do cientista político Cândido Mendes, secretário-geral da Academia da Latinidade, de que o Brasil está cada vez mais marcado como parte dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), e desta maneira amplia sua importância geopolítica na percepção internacional.

Um dos especialistas em América Latina presentes ao seminário é o professor Javier Sanjinés, da Universidade de Michigan.

Ele desenvolve em seu trabalho a idéia de “descolonização” onde defende a tese de que o tempo histórico do Ocidente “se rompe ao se chocar com a vida de nossos povos”.

Considera que depois de dois longos períodos de projetos de desenvolvimento que eram baseados nos parâmetros predominantes no Ocidente, hoje as regras do jogo estão mudando, “abrindo caminho para que a não-contemporaneidade das várias nações rompam com a noção de Estado-Nação tradicional.

Como representantes dos BRICs, participaram da Conferência dois scholars chineses. Tong Shijun, vice-presidente da Academia Social de Ciências de Shangai, e Wang Ning, professor das Universidades de Shangai e de Tsinghua, desenvolveram temas complementares envolvendo as múltiplas modernidades e as múltiplas democracias chinesas.

O professor Wang Ning definiu a modernidade na China em três períodos: como um projeto iluminista de 1919 até 1949; como um discurso totalitário de Mao em busca da modernização do país de 1949 a 1976 e hoje em dia, com a tentativa de ser global, mas agir local (glocal) em busca de uma modernidade com características chinesas.

Ele defende a tese de que a modernidade na China atual desconstruiu a idéia de que seja possível haver apenas uma definição de modernidade.

Na definição de Cândido Mendes, o mundo hoje está em um segundo estágio da globalização, que representa uma ruptura com a fase da globalização hegemônica dos Estados Unidos ou, como compara, o surgimento dos BRICs em contraposição ao “velho Salão Oval” da era Bush.

Segundo o secretário-geral da Academia, a globalização coloca em discussão hoje uma hegemonia ultrapassada pelo jogo de interações do mundo multipolar onde os BRICs atuam em outra sintonia que não as confrontações “conhecidas e cansadas” dos antigos impérios do Ocidente.

Cândido Mendes vê o Brasil como capaz de ser o mediador entre o velho discurso do Império e as vozes de Estados imensos como a China e a Índia.

Essa certeza não se abala nem mesmo diante do fato recente de que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, apoiou recentemente uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU tanto para a Índia quanto para o Japão, deixando de lado o Brasil, que sempre tentou uma palavra oficial do governo dos Estados Unidos a favor de nossa pretensão.

A relação do governo brasileiro com a administração Obama, que já foi de lua de mel (quando Obama disse que Lula era “o cara” e parecia encantado com o brasileiro), hoje é pelo menos fria, e a sensação é de que a Casa Branca aguarda sinais de como serão as relações no futuro governo Dilma.

A especulação de que a embaixadora do Brasil na ONU poderia ser nomeada Ministra das Relações Exteriores deve ter suscitado preocupações no governo americano.

Ela fez um discurso recentemente na ONU afirmando que o Brasil estava muito preocupado com o aumento da pobreza nos Estados Unidos, e sugerindo que Obama adotasse algumas medidas que o governo Lula vem adotando no combate à miséria no Brasil.

Um discurso provocativo que se esperaria de um representante do governo Chávez, e não do Brasil, comentou um diplomata americano refletindo a percepção do Departamento de Estado.

Mesmo com esses episódios mais recentes e a crise provocada pela tentativa brasileira de intermediar um acordo sobre o programa nuclear do Irã, que acabou deixando o Brasil isolado no Conselho de Segurança da ONU, Cândido Mendes considera que o Brasil tem um protagonismo emergente no cenário internacional e sua Realpolitik do século XXI acabará se impondo.

Cândido Mendes considera que o país é um “parceiro natural” no Oriente Médio e um porta-voz da afirmação das nações africanas. Ele ressalta, no entanto, que os quatro países que formam os BRICs têm em comum um forte mercado de consumo interno, mas também assimetrias quando se verifica que o desenvolvimento sustentável tem que ter um equilíbrio nas suas facetas econômica, social, política e cultural.

O Brasil, dentro desse cenário, é o país mais equilibrado entre os BRICs, pois tem uma democracia estável, não tem questões de fronteiras, nem de divisões internas da sociedade.

Comentário:


Os debatedores não conseguem esconder seu ranço anti-americano e suas simpatias pelos populistas da moda. Populismo autoritário que ora infesta a América Latina.

Ensaio: Democracia na China, na Venezuela, na Bolívia … ainda aquela “apagada e vil tristeza”

Bolívar Lamounier

China, Myamnar, Venezuela e Bolívia : qual deles parece mais promissor, ou menos triste, no que toca aos direitos humanos e ao futuro da democracia ?

Uma hipótese clássica é a de que a economia capitalista só pode funcionar apropriadamente nos quadros da chamada “democracia burguesa”. Dos quatro países citados, seria então a China o mais apto a se abrir e a adotar instituições políticas democráticas, ainda que gradualmente ?

A referida hipótese merece respeito, mas sinais de democracia, na China, decididamente não há. Primeiro porque, por enquanto, o vertiginoso crescimento econômico que lá se observa vem se dando sob clara direção estatal, e não no sentido de uma economia de mercado.

A hipótese aplicável (e não menos clássica) é a de que uma elite mantém as rédeas do poder firmemente em suas mãos ; o que tiver de acontecer na esfera política dependerá portanto de seu grau de coesão e de sua ideologia, vale dizer, de seus valores e seu modo de ver o mundo.

Se assim é, tiremos o cavalo da chuva. Os mandatários chineses podem até afrouxar alguns controles, mas não vacilarão em remontá-los se isto lhes parecer necessário. Talvez não os remontem com toda a exuberância totalitária de poucas décadas atrás, mas que vão manter o sistema de partido único, a polícia política etc etc, lá isso vão.

A notícia do dia ilustra à perfeição a ideologia (e certas paranóias) da cúpula chinesa. O governo chinês estendeu à família de Liu Xiaobo a proibição de viajar a Oslo para receber por ele o Prêmio Nobel .

Entrevistado pela agência EFE, o advogado da família, Shang Baojun , informou que os dois irmãos de Liu pediram para viajar, mas as autoridades lhes negaram a permissão. A esposa de Liu, a poetisa e fotógrafa Liu Xia, se encontra sob prisão domiciliar desde 8 de outubro. Shang acrescentou que as autoridades também impedem que ele e outros advogados do escritório saiam do país.

Ainda segundo a EFE, Hong Lei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores reiterou a postura do Governo de que o agraciado é um delinquente e se recusou a comentar a libertação da dissidente birmanesa e também Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi.

Myamnar, Myamnar … Neste caso, a hipótese econômica é que decididamente não se aplica. Situado no Sudeste Asiático, Myamnar (antiga Birmânia) é um dos países mais pobres da Ásia. Sua economia dista anos-luz da China e pode ser considerada rudimentar até pelo padrão da Tailândia, seu vizinho ao leste. É governado desde 1962 por uma férrea ditadura militar.

Apesar de tudo isso, os militares decidiram finalmente liberar Suu Kyi e parecem inclinados a permitir que ela reassuma paulatinamente o seu papel de líder da oposição. Pelo que consegui ler a respeito, entendo que o fizeram por opção autônoma, ainda que atendendo parcialmente a pressões internacionais.

Mas o que, num sentido mais profundo, os teria levado a tomar tal decisão ?

Salvo em casos de instabilidade extrema ou em ditaduras exercidas por um pequeno grupo de dementes sanguinários, todo governo que começa a alterar o regime vigente o faz com base numa leitura mais ou menos ampla da situação.

Os militares “birmaneses” seguramente se perguntaram sobre o seu próprio futuro como corporação e sobre o futuro do país, de modo geral, nos dois cenários alternativos, ou seja, no de manter e no de começar a relaxar a ditadura.

Optando por mantê-la, a que porto eles poderiam conduzir Myamnar ? A uma espécie de Coréia do Norte, tão pobre quanto, e sem o poder de chantagem nuclear que ela tem ?

Optando por relaxá-la, poderão experimentar um modelo mais flexível, em tese mais seguro e menos custoso para si e para o país, e que lhes propiciará uma maior aceitação por parte da comunidade internacional.

As diferenças são muitas e enormes, mas a opção deles lembra um pouco a dos militares brasileiros nos anos 70.

Para manter o sistema político fechado por tempo indefinido, os generais brasileiros teriam de aceitar a hipótese de uma radicalização muito mais dura, que eventualmente implicasse a supressão dos últimos vestígios do Estado de Direito e da democracia. Decidindo abrir, como decidiram, permitiram o funcionamento da competição política e eleitoral, sem perder o controle do processo .

Estas especulações nos servem de alguma coisa na comparação com a América Latina – especificamente com Venezuela e Bolívia ? Aqui eu estou dando um salto quiçá imprudente, temerário até, pois as diferenças não são apenas geográficas e geopolíticas, são também culturais.

Como ocorre na maior parte da América Latina, a experiência democrática da Venezuela e do Peru é cheia de solavancos e frustrações, mas é, mesmo assim, muito mais extensa e profunda que a da China ou a de Myamnar. No período recente, ambos passaram por um marcado retrocesso e vivem hoje sob governos populistas de indisfarçável vocação autoritária.

Como na maioria das experiências conhecidas na América Latina, o populismo passa por fases de endurecimento, sem chegar à ditadura aberta, e fases de relaxamento, com amplas possibilidades de restabelecimento por meios pacíficos da democracia representativa. Esta segunda possibilidade apresenta-se até mais forte na época atual, graças à maior importância da interdependência econômica e das comunicações internacionais.

Contudo, as notícias de hoje não são alvissareiras. Tanto na Bolívia como na Venezuela, o que estamos vendo é a continuidade – se não o aprofundamento – dos sinais de politização das forças armadas no sentido encarnado por Chávez e Morales.

Na Venezuela, com o evidente intuito de debochar da oposição e da Organização dos Estados Americanos, Chávez decidiu promover à mais alta patente militar o general Henry Rangel Silva – descrito pela imprensa internacional como “um militar controverso”. E põe controverso nisso.

O que o mencionado general declarou recentemente numa cadeia de rádio e televisão foi, nada mais nada menos, que os militares se sublevariam contra um eventual governo da oposição [em 2012] que se propusesse a fazer alterações na organização das Forças Armadas.

Um general se pronunciar sobre hipóteses eleitorais já é inusitado ; nos termos em que o fez o general Rangel Silva, é raro até pelos padrões de nossa trágica América Latina :

“Un hipotético gobierno de la oposición a partir de 2012 sería vender el país, eso no lo va a aceptar la FAN, y el pueblo menos, y un intento por desmantelar al sector castrense, habría una reacción tanto de los uniformados como del pueblo, que sentiría que le quitan algo”.

A noticia boliviana não é muito diferente, a não ser no grau de ridículo, algo mais alto. Falo dos termos utilizados em evento comemorativo de dois séculos da fundação do Exército por seu Comandante, o general Antonio Cueto .

O exército boliviano, segundo a proclamação de seu imberbe general, é agora “socialista, anti-imperialista e anticapitalista”.

Segundo círculos de militares aposentados ouvidos pela imprensa, A declaração do general Cueto parece ter surpreendido seus camaradas de armas, cuja primeira reação foi principalmente de rejeição a uma posição considerada individual e político-partidária. Oxalá isto seja verdade, mas permanece o fato de a profissão de fé ideológica do general Cueto haver sido feita numa cerimônia oficial das Forças Armadas.

Passar do alinhamento incondicional com as posições da direita e dos EUA no contexto da guerra fria a um envolvimento total com o populismo de plantão por certo não é o melhor caminho para preservar o profissionalismo das Forças Armadas e muito menos a possibilidade de um futuro desenvolvimento das instituições democráticas.

Terá alguma moral esta minha história ? Alguma lição a extrair deste apanhado sobre quatro países ?

Lições propriamente, não ; só duas reiterações de coisas que sabemos há muito tempo: 1) a construção da democracia passa necessariamente pelo que as pessoas pensam, por suas mentalidades e valores ; 2) ninguém disse que o percurso seria breve ou fácil.

Fonte: EXAME

O progresso da decadência

Arnaldo Jabor

"O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda a parte: "O País está perdido!" (...) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de "o progresso da decadência"."

Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria de Eça de Queirós, em 1871. Esta era a introdução de As Farpas que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século 19, que nos legou essa herança lamentável. Nada mais parecido conosco.

Esses textos de Eça, reunidos sob o título de Uma Campanha Alegre, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia - eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. E revendo sua vida na internet, lembrei que Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 - daqui a uma semana. Assim, resolvi escrever de novo sobre ele.

Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo, e muito sobre a nossa ridícula loucura ibérica. Depois, descobri um livro roído de traças na casa de meu avô: O Primo Basílio, que minha avó tentou proibir ("Isso não é para criança!..."). Li-o, claro, e minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, vultos, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado.

O mundo ficou claro, através das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Rio. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o Conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da Relíquia e, claro, as coxas de Adélia, sem falar no supremo frisson do famoso "minette" do primo Basílio na "Bovary" Luiza (razão básica da proibição alarmada de minha avó).

E não só o desfile dos medíocres, mas as fileiras dos heróis ecianos: Carlos da Maia, João da Ega, Jacintho de Tormes, Fradique Mendes - cultos, elegantes, ricos, irônicos e corrosivos. Eça me dava a alma viva do século 19, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os melancólicos de charutaria, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do Conde de Abranhos - que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados.

Eu o amava tanto que - acreditem - me postava na porta do colégio na hora da saída, para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça) que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?

Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: "Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queirós?" Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida ratonice.

Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz sempre preferi o português ao nosso grande mulato. "Ah... porque o Machado é bem mais sutil!..." - diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luiza do Primo Basílio (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da Eugenie Grandet). "Ahhh!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica, etc. e tal..." É verdade. Também acho.

O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês; Eça é saído das costelas de Flaubert, Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital "falta de sutileza" que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais "nauseado". Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa.

É verdade que as personagens de Eça não são tão "livres" quanto em Machado. O "tipo" eciano não tem grande "complexidade"; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo "tipos". Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade "profunda", muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político. Ele nos exibe o ridículo das figuras que se consideram nossos "timoneiros" do alto de sua gravidade falsa, com seus interesses mesquinhos no bolso dos jaquetões.

Um artigo que vale a pena

Vez ou outra, deparamo-nos com artigos dignos de reprodução e é o caso com o artigo abaixo. Leiam e reflitam.

Um sistema ficha-suja

Percival Puggina

Ao unir na mesma pessoa chefia do Estado, do governo e da administração - o atual modelo proporciona uma inconveniente concentração de poderes e permite o total aparelhamento partidário do Estado e da administração.

Bem à moda da casa, saímos da eleição de 3 de outubro com pendências para serem decididas pela Justiça. Foram concedidas liminares garantindo algumas candidaturas e são díspares as opiniões sobre a aplicabilidade imediata da lei que dispõe sobre o assunto. Mas, pelo sim, pelo não, a simples intenção de impedir a participação de candidatos cujo passado tem certificado de inconveniência já merece ser saudada. Sem exageros, contudo. A cena política não saiu purificada do pleito. O que vai acontecer, na prática, é mais ou menos o que se passa quando se trancafiam bandidos. Tem-se alguns bandidos a menos perturbando a sociedade, mas continua havendo muito bandido na rua.

O espírito que animou essa lei parte de uma visão política que adota a moral individual como foco do problema ético, como lembrava recentemente o professor de Direito Constitucional da UFRGS, Dr. Cézar Saldanha de Souza Júnior. A moral individual tem importância, é claro, mas está longe de ser a causa maior do que se condena na realidade nacional. Causam espanto o descaso, o desinteresse, a apatia, diante de um vício estrutural, de uma imoralidade institucionalizada que joga o Brasil no fundo do poço das condutas reprováveis. É desse vício estrutural, desse modelo ficha-suja que me ocupo aqui.

Desde antes do processo constituinte integro um grupo de estudiosos que, em vez de apontar o pecado e excomungar o pecador, se dedica exaustivamente a analisar as causas daquilo que tanto desagrada a nação. Em 2005, no auge da crise do mensalão, participei de um programa de debates no qual também estava presente um dos líderes do governo na Câmara dos Deputados. Em meio às conversas, afirmei que nosso sistema político, ao convergir para a mesma pessoa o Estado, o governo e a administração, e ao obrigar essa pessoa a comprar votos para compor sua necessária maioria parlamentar, introduzia na vida nacional uma perversão insanável. Nesse momento, o deputado exclamou: "O sistema é corruptor!". Aquela frase soou como música aos meus ouvidos. Afinal, alguém influente na base do governo e no parlamento nacional estava consciente a respeito do que afirmávamos havia tantos anos. Quem sabe aquela crise haveria de acender mais luzes e promover a necessária reforma institucional? Qual o quê! Serenados os ânimos, retomaram-se as mazelas. Saiu a lei da ficha-suja e preservou-se o pior: o sistema ficha-suja.

Entenda-me o leitor. Num sistema racional, a função governo é tarefa atribuída à maioria parlamentar. No nosso, é o presidente eleito que passa a comprar votos com ministérios, cargos da administração e das estatais, emendas parlamentares e favores de toda ordem. Mas não lhe basta fazer isso uma vez, no início do governo. É preciso continuar firmando essa maioria, com favores, a cada votação importante. Ademais, ao unir na mesma pessoa aquelas três funções antes referidas - chefia do Estado, do governo e da administração - o modelo proporciona uma inconveniente concentração de poderes e permite o total aparelhamento partidário do Estado e da administração. Ora, a neutralidade é atributo exigível de ambos. Partidário é o governo. O Estado e a administração não podem ter partido. O aparelhamento da administração vai fecundar o útero da corrupção.

Não espero que o leitor concorde inteiramente com o conteúdo deste artigo. Mas saiba: a mínima concordância já não permite o sacudir de ombros, o deixa para lá. O assunto é demasiadamente sério. O que seu deputado pensa a respeito disso não é apenas importante: é determinante para os rumos da democracia no Brasil.

Publicado no blog Mídia Sem Máscara, em 13.11.2010

44% ESTÃO NA OPOSIÇÃO

Marco Antonio Villa

A OPOSIÇÃO acreditou que criticar o governo levaria ao isolamento político. O resultado das urnas sinalizou o contrário: 44% do eleitorado disse não a Dilma. Ela era candidata desde 2008. Ninguém falou em prévias, nenhum líder fez muxoxo. Lula uniu não só o partido, como toda a base. Articulou, ainda em 2009, as alianças regionais e centrou fogo para garantir um Congresso com ampla maioria, para que Dilma pudesse governar tranquilamente.Afinal, nem de longe ela tem sua capacidade de articulação política.

E a oposição? Demorou para definir seu candidato. Quando finalmente chegou ao nome de Serra, o partido estava dividido, vítima da fogueira das vaidades. Ao buscar as alianças regionais, encontrou o terreno já ocupado. Não tinha aliados de peso no Norte e Centro-Oeste, e principalmente no Nordeste.

Neste cenário, ter chegado ao segundo turno foi uma vitória. No último mês deu mostras de combatividade, de disposição de enfrentar um governo que usou e abusou como nunca da máquina estatal. Como, agora, fazer oposição? Não cabe aos governadores serem os principais atores desta luta -a União pode retaliar e isso, no Brasil, é considerado "normal".

É principalmente no Congresso Nacional que a oposição deve travar o debate. Lá estará, inicialmente, enfraquecida. Perdeu na última eleição, especialmente na Câmara, quadros importantes. Mesmo assim, pode organizar um "gabinete fantasma" e municiar seus parlamentares e militantes com informações e argumentos. Usar as Câmaras Municipais e as Assembleias estaduais como espaços para atacar o governo federal. E abastecer a imprensa -como sempre o PT fez- com denúncias e críticas.

Espaço para a oposição existe. O primeiro passo é assumir o seu papel. Deve elaborar um projeto alternativo para o Brasil. Sair da esfera dos ataques pessoais e politizar o debate, acabar com o personalismo e o regionalismo tacanho, formar quadros e mobilizar suas bases.

É uma tarefa imediata, não para ser realizada às vésperas da eleição presidencial de 2014.

O lulismo tem pilares de barro. É frágil. Não tem ideologia. Não passa de uma aliança conservadora das velhas oligarquias, de ocupantes de milhares de cargos de confiança, da máfia sindical e do grande capital parasitário. Como disse Monteiro Lobato, preso pelo Estado Novo e agora perseguido pelo lulismo: "Os nossos estadistas nos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro -com o calcanhar, com o cotovelo, com certo penduricalhos, raramente com os miolos".

Fonte: FOLHA

As consequências da vitória de Dilma

Pelo modo como Dilma foi escolhida por Lula, quem tem força política não tem cargo; quem tem cargo não tem força política; quem vai mandar? Dilma ou Lula?

Leôncio Martins Rodrigues - O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - A perspectiva de mais quatro anos de governo presidido por alguém que veio da guerrilha e do PDT de Brizola eleva os temores das classes empresariais e das tendências políticas liberais de que tenhamos um significativo fortalecimento do intervencionismo estatal e do autoritarismo.

É um pouco cedo para previsões, tanto mais que o programa da candidata e o esforço de responder ao que o eleitor desejava ouvir não trouxeram muitos elementos para esclarecimentos do que seria um governo tendo Dilma como presidente. Mas podemos refletir com um pouco mais de segurança sobre algo que logo deverá estar à vista e resulta do próprio processo personalista e autoritário da escolha da candidata vitoriosa. A questão básica pode ser resumida na pergunta que sempre está no centro das disputas políticas: quem vai mandar? Dilma ou Lula? Da resposta a essa questão - que normalmente, no presidencialismo, não precisa nem ser formulada - podem resultar complicações institucionais que dificultarão o bom andamento da máquina administrativa federal.

No presidencialismo, quem legitima e legalmente exerce o poder é o escolhido pelo voto segundo certas regras das disputas. Ele - ou ela, no nosso caso - é o número um. Não há dois números um. Mas a eleita não tem força político-eleitoral, quaisquer que sejam suas qualificações administrativas para o exercício do cargo máximo. Na situação criada pelo modo como Dilma foi escolhida e oferecida ao eleitorado, quem tem força política não tem cargo; quem tem cargo não tem força política. Há uma contradição entre o institucional e o político. O que deve prevalecer? O formal ou o real? O legal ou o legítimo? Quem deve ser o chefe? O criador ou a criatura? Ou não haveria chefe?

Uma saída seria a constituição de um grupo seleto e relativamente informal de subcomandantes que funcionaria como o cérebro do novo governo, uma espécie de seu birô político. Mas chefia coletiva só acontece quando da morte do grande chefe, quando ainda não está consolidada a relação de forças no grupo interno do poder e o sucessor não foi indicado com antecedência.

A União Soviética depois da morte de Stalin ilustra essa situação. Uma direção coletiva foi formada e exaltada depois da morte do Guia Genial dos Povos. Durou pouco tempo. Logo o poder supremo voltou para as mãos de um só. Políticos não gostam de dividir poder.

Em política, nas ditaduras ou nas democracias, dentro de cada partido ou das facções partidárias, o n.º 1 é um só. Em nossa história recente, houve vices eleitos nas costas do titular que assumiram a Presidência sem votos. Pensamos em José Sarney e Itamar Franco. A letra dos ordenamentos jurídicos que dão o controle do Diário Oficial, quer dizer, da distribuição dos benefícios, acabou por impor-se.

A situação originária desta eleição de 2010 é diferente. Quando votaram em Dilma, os eleitores sabiam que não estariam escolhendo Dilma, mas Lula. A primeira presidente do Brasil estaria lá para expressar a vontade de um homem. Sua candidatura era uma oportunidade que Lula oferecia aos eleitores de lhe darem um terceiro mandato. Os eleitores atenderam o desejo do Lula. Mas o político a quem a maioria dos eleitores gostaria de ver permanecer no Palácio do Planalto estará fora do governo. Poderia ser nomeado para algum ministério, caso quisesse. Mas Lula não pode voltar para uma posição subordinada a Dilma. E ela, ocupando a Presidência, não pode ficar subordinada ao ex-chefe.

Talvez, com a ajuda do novo governo, possam acontecer pressões populistas para encontrar alguma fórmula jurídica que permitiria a Lula voltar mais cedo ao poder. A história latino-americana de países que admiram a "democracia substantiva" mostra vários exemplos de lideranças populistas que gostam de arengar para as massas de palanques presidenciais e que gostam de continuar.

Ocorre que, mantido o quadro constitucional, Dilma passará não apenas a habitar o Palácio da Alvorada como a assinar todos os atos importantes de governo. Por mais que adequadamente assessorada, no final caberá a ela decidir. Se deixar a última palavra para Lula, a ex-chefe da Casa Civil estará desmoralizada e terá dificuldade para impor sua autoridade. Se apenas escutar os conselhos do ex-chefe e a eles fizer ouvidos moucos, estará contrariando o político mais popular do Brasil.

Essas são, obviamente, observações especulativas sobre desenvolvimentos possíveis. Mas, se exemplos do passado têm alguma importância, não parece certo que Dilma se encolherá para um segundo plano, limitando-se a cumprir as ordens de Lula.

Geralmente, com o correr do tempo, as criaturas revoltam-se contra o criador. A história brasileira mostra muitos casos de padrinhos políticos que, impedidos legalmente de disputar um novo mandato, conseguiram eleger sucessores quase totalmente desconhecidos do eleitorado.

Ademar de Barros, então governador de São Paulo, em 1950, lançou o professor da Escola Politécnica da USP Lucas Nogueira Garcez para sucedê-lo. Contudo, uma vez no governo, Garcez afastou-se de Ademar e ajudou a eleger Jânio Quadros. Em 1990, Orestes Quércia lançou seu ex-secretário de Segurança Fleury Filho ao governo do Estado. Fleury foi eleito, mas logo rompeu com Quércia e foi para o PTB; Celso Pitta, um desconhecido, eleito prefeito de São Paulo em 1996 com apoio de Paulo Maluf, logo rompeu com seu tutor.

Não é que os afilhados tenham vocação para a ingratidão e para traição. Acontece que, na área das relações políticas envolvendo personalidades, a questão do comando é essencial. Os políticos amam o poder tanto quanto gostam de ocultar esse amor. De outro modo, não tolerariam as chateações que acompanham o desmedido esforço para chegar lá.

Resultados eleitorais afetam não apenas a distribuição do poder entre os partidos, mas também o rumo da organização partidária, da distribuição do poder e, consequentemente, da partilha interna de benefícios e vantagens entre as várias facções.

Normalmente, os partidos conseguem acomodar os interesses das facções e grupos. Se não estariam perdidos na competição com os adversários. Alguma acomodação entre as muitas tendências internas também deverá ocorrer no PT. E, aqui, uma dificuldade maior será o equilíbrio (ou desequilíbrio) decorrente da separação entre a influência política de Lula e a autoridade presidencial de Dilma cuja dignidade do cargo necessita manter para a salvação da República.

Leôncio Martins Rodrigues, é professor titular aposentado do Depto de Ciência Política da USP e da UNICAMP e também, membro da Academia Brasileira de Ciência

Dois pesos

Republicamos o texto da colunista Maria Rita Kehl, do Estadão, por conta do qual foi demitida nesta quinta-feira
Por Maria Rita Khel

Maria Rita Khel

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.


*Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida do site O Escrevinhador

Por um pingo de serenidade

Eugênio Bucci

Por iniciativa pessoal do presidente da República, a imprensa vai se convertendo em ré nesta campanha eleitoral. Nos palanques, ele vem investindo agressivamente contra ela. Diz que vai derrotá-la nas eleições. Lula grita, gesticula, fala com muita virulência. Por que será?

É difícil de entender. Ele sairá consagrado de seus dois mandatos. A aprovação popular que o eleva às alturas é um feito sem precedentes. O clima no País é de otimismo. Os indicadores econômicos, em sua maioria, atestam expansão, crescimento, solidez. Sua candidata ao Planalto lidera as pesquisas com imensa folga. Por que, então, todo esse ressentimento?

Uma ministra da Casa Civil acaba de sair da Pasta porque reportagens revelaram irregularidades graves em torno dela. As notícias que a derrubaram eram mentirosas? Se não eram, por que a demissão (dela e de outros)? Agora: se a demissão procede, por que tanta raiva?

É compreensível, isto sim, que as autoridades guardem mágoas do noticiário. Quem já exerceu cargo público, ainda que de projeção modesta, sabe que a leitura diária dos jornais é uma roleta-russa macabra: de repente, vem lá uma bordoada envolvendo o nome do sujeito em maracutaias das quais ele jamais ouvira falar. Dar de cara com esse tipo de aleivosia é das piores experiências que existem (para quem tem vergonha na cara, vale lembrar). Além de despreparo técnico, que leva as reportagens a confundirem deselegância com ilicitude, assim como confundem mandado com mandato, há também o despreparo humano, emocional, o desrespeito aos semelhantes, o preconceito mais deslavado. Tudo isso é lamentável. Mas tudo isso se refere à dor da pessoa física. O estadista, por dever de ofício, não pode permitir que sua dor pessoal conduza suas atitudes como chefe de Estado. Simplesmente não pode.

Lula sabe disso. Ele sabe disso muito mais do que todos nós. E, também por isso, é difícil aceitar e entender a brutalidade dos seus ataques aos jornalistas. Mas, se nos esforçarmos, podemos encontrar uma linha de explicação.

Ela começa pela necessidade de blindar a candidatura de Dilma Rousseff contra reportagens que possam minar o voto de confiança que ela vem recebendo nas pesquisas. Para isso, Lula caracteriza a imprensa como "partidos de oposição". Ele iguala o discurso jornalístico ao discurso da oposição e, na sequência, conclama os eleitores a "derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos". Eis a fórmula da blindagem necessária. Portanto, o movimento teatral de Lula é estritamente racional, calculado. E faz sentido.

O lastro eleitoral de Dilma vem de Lula. Se o mesmo Lula amaldiçoa os que a criticam, desqualificando-os um a um, pode, além de lastreá-la, vaciná-la contra as críticas. Esse é o sentido eleitoral do discurso do presidente. A logística é bem simples. Primeiro, ele afirma que certos "jornais e revistas" não são imprensa, mas "partidos de oposição". Assim, joga-os no descrédito. Se são partidários, merecem a mesma confiança que os partidos da oposição (embora o governo demita autoridades cujas condutas foram reveladas suspeitas por esses mesmos jornais e revistas, ou seja, na prática, o governo lhes dá crédito, mas no discurso tenta desmoralizá-las).

Em seguida, Lula cuida de se afirmar democrata: "A liberdade de imprensa é uma coisa sagrada." (...) "Significa que você tem a liberdade de informar corretamente a opinião pública, para fazer críticas políticas, e não o que a gente assiste de vez em quando." Portanto, ninguém pode acusá-lo de autoritário. Imediatamente, porém, estabelece condições para a liberdade. "A liberdade de imprensa não significa que você possa inventar coisas o dia inteiro."

Claro: o raciocínio tem problemas sérios. Lula cumpre o seu objetivo eleitoral, sem dúvida. Mas a que preço? Ao preço de promover o engano e a discórdia.

O engano. 

Lula faz crer que liberdade existe apenas para os que informam "corretamente". Não é bem assim. A liberdade de imprensa inclui a liberdade de que veículos impressos - que não são radiodifusão e, portanto, não dependem de concessão pública - assumam uma linha editorial abertamente partidária.

Qualquer órgão impresso (ou na internet) pode, se quiser, fazer oposição sistemática. A liberdade não foi conquistada apenas para os que "informam corretamente", mas também para os que, na opinião desse ou daquele presidente da República, não informam tão corretamente assim. Se um jornal quiser assumir uma postura militante, de cabo eleitoral histérico, e, mais, se quiser não declarar que faz as vezes de cabo eleitoral, o problema é desse jornal, que se arrisca a perder credibilidade. O problema é dele, só dele, não é do governo.

A discórdia. 

Alguém poderá acreditar que cabe ao Estado definir o que é "informação correta" e, com base nessa crença, poderá pedir a perseguição estatal de órgãos de imprensa. Seria tenebroso. Não cabe ao Executivo, ao Legislativo ou ao Judiciário definir o que é "informação correta". Isso é prerrogativa do cidadão e da sociedade. Que setores da sociedade protestem contra esse ou aquele jornal faz parte da vida democrática. Às vezes, é bom. Pode ser profilático. Agora, que o governo emule, patrocine ou encoraje esses movimentos é no mínimo temerário.

Enfim, é possível entender o tom furibundo do maior eleitor de Dilma. É possível, também, criticá-lo. A pessoa do presidente tem direito de se irritar com o noticiário. Tem até o direito de processar jornalistas. Mas o chefe de Estado não deveria semear o ódio, conclamando o povo a "derrotar" órgãos de imprensa. Não que isso ameace a ordem democrática. Não exageremos. Temos ampla liberdade de expressão no Brasil. Mesmo assim, vale anotar: essas declarações presidenciais, ainda que explicáveis, são inaceitáveis.

Fonte: Eugênio Bucci - O Estado de S.Paulo - Jornlaista e Professor da ECA-USP

Economia x política

Rogério Simões

Em 1991, após a fácil vitória sobre as forças de Saddam Hussein no Kuwait, o então presidente americano, George Bush (o pai), tinha uma taxa de aprovação de dar inveja a Luiz Inácio Lula da Silva: 89%. Bush liderou a nação nos anos do colapso do comunismo no Leste Europeu, ou seja, cruzou a linha de chegada na vitória sobre os soviéticos na Guerra Fria. Também fez os americanos superarem o trauma da Guerra do Vietnã ao vencer facilmente o conflito no Golfo Pérsico. Mas, ao tentar obter a reeleição (dever político de todo presidente americano), deparou-se com o slogan adotado pela oposição democrata: "É a economia, estúpido". Colecionador de vitórias políticas no exterior, Bush foi derrotado nas urnas por Bill Clinton por não ter conseguido reduzir o déficit fiscal e por ter descumprido a promessa de campanha de não aumentar impostos. A economia venceu a política. O bolso do eleitor, então furado, falou mais alto.

A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, o noticiário tem sido uma mistura de informações positivas e negativas. As positivas estão diretamente relacionadas à economia (geração de empregos volta a bater recorde, PIB cresce mais do que o esperado etc), enquanto as negativas estão ligadas à forma de se fazer política no país. A quebra do sigilo fiscal de várias pessoas associadas ao tucano José Serra sugeriu a existência de ações ilegais deliberadas contra a oposição. O ministério que serviu de trampolim para Dilma Rousseff se lançar candidata a presidente transformou-se num centro de acusações de tráfico de influência que derrubaram a substituta e ex-assessora da petista. O jornal britânico The Times disse que as suspeitas "tiraram o brilho" do que parecia, até então, uma campanha histórica de uma futura presidente do Brasil. Como consequência, perdeu brilho também o cenário político brasileiro, que, numa espécie de viagem no tempo, nos faz lembrar os episódios do Mensalão, Anões do Orçamento, a Casa da Dinda etc.

Mas, na briga entre notícias positivas e negativas, entre a economia e a política, quem sai ganhando? Pesquisas de opinião devem indicar, nesta semana, se o Erenicegate tem ou não potencial de afetar a disputa pela Presidência. Até agora tudo sugere que Dilma Rousseff receberá de Lula a faixa presidencial, tornando-se a primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto. A economia costuma determinar a maioria dos destinos políticos, no Brasil e mundo afora. O regime militar brasileiro enfraqueceu-se após a crise da dívida, na entrada da década de 80, e Fernando Collor de Mello foi afastado por corrupção, mas em meio ao fracasso de mais um plano econômico. Lula só chegou à Presidência porque, no segundo mandato, o governo Fernando Henrique Cardoso perdeu o controle da economia. Como lembrei acima, Bush pai não conseguiu se reeleger porque o bolso do americano ia mal, e seu filho não fez seu sucessor porque os Estados Unidos enfrentavam a mãe de todas as crises. O mesmo desastre econômico fez com que os trabalhistas britânicos fossem tirados do poder, em maio passado, após 13 anos e três vitórias eleitorais. Nem o todo-poderoso Suharto, que governou a Indonésia por 31 anos, resistiu à falta de dinheiro do cidadão, sendo derrubado um ano após a eclosão da crise asiática.

O Brasil terá em 2010 sua maior taxa de crescimento econômico desde 1986, e dessa vez a população mais pobre se beneficiou. Programas de distribuição de renda do governo e o avanço do emprego formal têm dado a Lula taxas de aprovação que chegam a 80%. O presidente teria de se esforçar muito para perder uma eleição sob condições tão favoráveis. Seria preciso que algo muito grave acontecesse, que alterasse a confiança e a admiração da população pelo chefe da nação. Por exemplo, o presidente ser desmascarado num caso de comportamento sexual impróprio com uma estagiária na ante-sala da Presidência, como aconteceu com Bill Clinton. O escândalo abalou seu partido, o Democrata, e Al Gore fez campanha sem se associar ao então presidente. Acabou perdendo.

A não ser que Lula seja envolvido em algo de tamanho impacto, Dilma segue favorita. Mas vencerá já no primeiro turno? Se seu triunfo for confirmado, ela governará com tranquilidade? Os escândalos recentes, mesmo que não mudem o resultado do pleito, podem vir a abalar o poder político do novo governo. No mínimo servem de alerta para a provável futura presidente de que seu governo será objeto de constante olhar crítico, da oposição e da imprensa, como se espera em uma democracia. A prosperidade econômica provavelmente dará a vitória à candidata de Lula. Já a lama política pode ter consequências além das eleições.

Fonte: Rogério Simões/BBC

O lulismo, ou a mentira como conforto intelectual

Marcos Guterman

Há pelo menos três boas desculpas para os seguidos escândalos do final do mandato do presidente Lula. A primeira delas é o interesse eleitoreiro da oposição. A segunda é a versão segundo a qual o governo anterior também aprontava. A terceira minimiza os crimes, dando-lhes caráter de coisa comum.

Como toda boa desculpa, os argumentos acima servem somente para burlar a realidade, de modo a relativizar os desmandos da administração lulista, isto é, de modo a diminuir-lhes a importância ante a missão histórica que Lula julga cumprir. Tudo o que interessa, ao fim e ao cabo, é o “bem do povo”. Em nome disso, opera-se uma clara inversão moral: aceita-se como “natural” que haja corrupção, porque, afinal, “todo mundo faz” – e, ademais, a vulnerabilidade da administração pública é vista como problema menor, quando não como mera construção da “oposição golpista”, quando colocada na perspectiva das conquistas sociais do lulismo.

A experiência dos grandes regimes autoritários do século 20 mostra que eles se assentaram em modelos desse tipo. Em torno de um líder carismático, o real dá lugar à retórica, e a história é substituída pela certeza de que o passado não existe senão como prova da necessidade da revolução que o líder opera. É dele que emana o sentido de tudo – e então, aos demais, resta renunciar à razão, já que refletir sobre o real e suas contradições é tarefa que cabe somente ao líder, travestido de profeta.

A experiência desses regimes também mostra que mesmo cidadãos intelectualmente muito preparados aceitam a ideia de que o líder está ali para salvá-los da insegurança da democracia, um regime tão frágil que precisa ser cultivado dia a dia para sobreviver. No Estado autoritário de perfil totalitário, por outro lado, nada é confuso – ao contrário: é confortavelmente lógico. Se o líder determina que algo é verdade, então materializa-se a verdade, mesmo que não seja.

Desse modo, as “verdades” emanadas do líder devem ser defendidas a todo custo, porque permitir que elas sejam negadas, por meio do contraditório, significa desmontar todo o sistema de pensamento sobre o qual se assentam as mentiras usadas justamente para destruir a pluralidade democrática.


Fonte: Marcos Guterman/ O ESTADO DE S PAULO

À deriva

Dora Kramer

É o que dá o Congresso despir-se de suas prerrogativas, a oposição não funcionar, a sociedade se alienar, a universidade se calar, a cultura se acovardar, o Ministério Público se intimidar e a Justiça demorar a decidir: perde-se a referência do que seja certo ou errado.

Chega-se ao ponto de uma testemunha dizer com todos os efes e erres que uma quadrilha de traficantes de influência funciona a partir da Casa Civil da Presidência da República e que a segunda pessoa na hierarquia, substituta da ministra hoje candidata a presidente do Brasil, intermediava contatos mediante o pagamento de R$ 40 mil mensais.

Foi essa quantia que o consultor Rubnei Quícoli disse ao jornal Folha de S. Paulo que o filho e o afilhado da ministra cobraram dele para "apressar" a liberação de recursos do BNDES.

Antes disso, a revista Veja já apresentara outro caso - menos contundente até - de venda de influência na Casa Civil, com a mesma família da mesma Erenice Guerra, até ontem ministra e, na época da transação denunciada agora, secretária executiva e braço direito de Dilma Rousseff.

Se Dilma não sabia quem era Erenice, trabalhando com ela desde o Ministério de Minas e Energia, e se Erenice não sabia o que faziam seus parentes é ainda pior. Duas ineptas a quem se pode enganar facilmente, sendo que uma delas se dispõe a dirigir a República, a fazer escolhas estratégicas e a se responsabilizar por milhares de contratações.

Quando se trata de escândalos é arriscado falar em superlativos. Sempre pode haver um maior e um mais grave no dia seguinte. Mas o governo habitualmente dá um jeito de encerrar o assunto, jogar a sujeira para debaixo do tapete de maneira a tornar tudo banal e absolutamente sem importância diante dos benefícios que recebem os mais pobres, o crédito dos remediados e as benesses dos mais ricos.

Será udenismo, farisaísmo, tucanismo, direitismo ou golpismo considerar grave a Casa Civil - o gabinete mais importante da República depois do presidencial - ser o centro de três escândalos, um pior que o outro, no período de seis anos?

No primeiro, em 2004, descobriu-se que o braço direito do ministro era dado à prática da extorsão; foi filmado pedindo propina a um bicheiro. Waldomiro Diniz foi demitido "a pedido" e nada mais aconteceu.

No segundo, em 2007, descobriu-se que fora produzido na Casa Civil um dossiê com os gastos de Fernando Henrique e Ruth Cardoso para chantagear a oposição na investigação sobre gastos da atual Presidência. Um funcionário de baixo escalão foi devolvido ao "órgão de origem".

Na época, a desfaçatez chegou ao ponto de a então ministra Dilma Rousseff dizer que telefonara para se desculpar com a ex-primeira-dama e que fora uma boa conversa. Ruth, falecida pouco depois, não desmentiu Dilma em público, mas nem houve pedido de desculpas nem a conversa foi cordial.

No terceiro, em 2010, é o que se vê e ouve. Erenice Guerra, era mais do que evidente, precisava sair para preservar a candidatura de Dilma e acalmar a grita. Não fosse a proximidade da eleição, a amiga Erenice continuaria sendo defendida como foi até horas antes de aparecer uma testemunha da tentativa de extorsão e enterrar os argumentos sobre golpes, factoides e armações.

Mesmo que seja verdadeira a inverossímil versão de que ela redigiu uma nota de resposta sem consultar nenhum capa preta do palácio, Erenice apenas seguiu o exemplo que vem de cima e carregou nas tintas eleitorais como tem mandado o figurino.

O governo fez uma conta de custo benefício e, pelo jeito, achou que sairia mais barato afastá-la. De fato, por pior que seja a repercussão e por mais que a demissão evidencie o fundamento das denúncias, a manutenção da acusada no cargo seria injustificável. Haveria três problemas: rebater as acusações, defender a ministra e explicar o que ela ainda estava fazendo na chefia da Casa Civil.

A respeito do impacto eleitoral, assim como no caso das quebras de sigilo na Receita Federal, este é o aspecto menos relevante, embora seja de espantar a indiferença geral. É que a eleição passa, o Brasil continua e toda conta um dia é cobrada.


Fonte: Dora Kramer/ O ESTADO DE S PAULO

O PT de Dirceu que Dilma esconde

Eliane Cantanhêde

A declaração de que o PT terá mais poder com Dilma do que com Lula, feita pelo ex-ministro José Dirceu, eterno presidente de fato do partido, é motivo para reflexões, avaliações e projeções muito sérias. Até porque - ou principalmente porque - o PT tem sido um ausente do discurso de Dilma na campanha.

A equação não fecha: Dilma disfarça o partido, mas o partido vai ter ainda mais poder no governo dela?

No debate Rede TV!/Folha, no domingo à noite, Dilma relegou mais uma vez o PT ao segundo plano, referindo-se ao "presidente Lula" e ao "nosso governo" como os seus verdadeiros partidos. Mas Dirceu entregou o jogo: o PT é que vai dar as cartas no governo Dilma - que, não custa lembrar, era do PDT até outro dia.

A julgar pelas pesquisas, o PT vem numericamente forte por aí. Vai fazer uma bancada gra nde e experiente no Senado (calcanhar-de-Aquiles de Lula) e tende a ultrapassar o PMDB como maior bancada na Câmara. (Aliás, desbancando a candidatura do peemedebista Henrique Eduardo Alves para a presidência da Casa.)

O PT, então, será o líder no Congresso de uma imensa tropa formada desde o PCdo B ao PP de Maluf, depois de já ter transformado a CUT, o MST e a UNE em agências do governo, financiadas com recursos públicos; já ter aparelhado o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras, o BNDES; e estar em vias de "extirpar" a oposição, como disse Lula sobre o DEM, enquanto ataca pessoalmente os tucanos Tasso Jereissatti no Ceará e Arthur Virgílio no Amazonas.

E aí entra a fala de Dirceu: "A eleição de Dilma é mais importante do que a do Lula, porque é a eleição do projeto político". Leia-se: Lula foi um meio para se chegar a um fim, ao tal "projeto político". Agora, falta explicar exatamento do que se trata, antes que o governo e o projeto se instalem. Dilma entregou um programa "hard" de manhã ao TSE e, de tarde, retirou e entregou outro "light". Até agora, não se sabe ao certo qual é para valer.

Um dos laboratórios do "projeto político" de Dirceu foi a liderança do PT na Câmara antes da eleição de Lula, que atuava e respirava conforme Dirceu mandava. Era ali o foco dos dossiês, das CPIs, das denúncias de todo tipo contra Collor, contra Itamar, contra Fernando Henrique, contra tudo e contra todos os demais.

E não é que foi dali que saíram Erenice Guerra, José Dias Toffoli, Márcio Silva? Saíram direto da central de dossiês contra adversários para o comando do país.

Erenice surgiu meio do nada e virou ministra da Casa Civil, principal cargo do governo. Toffoli é um ótimo sujeito, mas tinha todas as desvantagens e nenhum dos atributos para ser ministro, nada mais nada menos, do Supremo Tribunal Federal. E o tal do Márci o Silva é advogado da campanha de Dilma e dono de um escritório meteórico que, como diz o Painel da Folha de hoje (15/09/10), "é assunto de advogados há muito estabelecidos em Brasília".

Dilma teve a consideração de indicar a amiga e braço-direito Erenice Guerra como sua sucessora na Casa Civil. Mas, agora que a Casa Civil caiu (de novo) sob o peso da parentada toda dele, teve a desconsideração de rebaixá-la à condição de "mera assessora".

Deve estar aí a chave da questão: tem hora de esconder e tem hora de mostrar. É o PT das Erenices dos dossiês, do aparelhamento e do patrimonialismo que vai tocar o "projeto político" em curso no país?

E com o inestimável apoio do PMDB, evidentemente.

Fonte: FOLHA/Eliane Cantanhêde

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

Democracia virtual

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos, mas no sentido que atribui à palavra "virtual" o dicionário do Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade das formas institucionais se desfaz num eco que indica estar a casa vazia por dentro.

Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana. Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a questão política - como se estivessem tratando com um povo de parvos -, proclamam que "não foi nada, não; apenas um balcão de venda de dados..." E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o tempo passe e nada aconteça.

Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o "dossiê" contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência da República, misturando dados para fazer crer que também nós nos fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos da atual Presidência não se transformaram em "secretos" em nome da segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.

No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que, além de pessoal, é também institucional, na pugna política diária. Chama a atenção que nenhum procurador da República - nem mesmo candidatos ou partidos - haja pedido o cancelamento das candidaturas beneficiadas, se não para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por que não se faz? Porque pouco a pouco nos estamos acostumando a que é assim mesmo.

Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista - que ainda dá para evitar - incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação política ao estilo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano - se o PT conseguir a proeza de ser "hegemônico" - ou do peronismo, se, mais do que a força de um partido, preponderar a figura do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como durante o autoritarismo militar.

Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo renascente, poderá até haver a anuência do povo e a cumplicidade das elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária. Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que nesse tipo de regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O "dirigismo à brasileira", mesmo na economia, não é tão mau assim para os amigos do rei ou da rainha.

É isto que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo o mais pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos das instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso das quebras reiteradas de sigilo. Ainda assim, é preciso tentar impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a convicção de que a democracia é o governo das leis, e não das pessoas.

Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18 que se foram transformando em prática política e que devem ser resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas. É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela "vontade geral" encapsulada na figura do líder. Isso é qualquer coisa, menos democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação), e assim por diante.

É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal).

Por mais restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou mesmo as características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.

Fonte: O ESTADO DE S PAULO

Como o Partido do Polvo vai estendendo seus tentáculos

Reinaldo Azevedo

Já passam de 21 mil os cargos de confiança no governo federal sob a gestão petista. Isso quer dizer que os nomeados não precisam prestar concurso público, mas ter um padrinho — e, não raro, a carteirinha de filiação ao PT. Abaixo, transcrevo trechos da reportagem de Fernando Mello, na VEJA desta semana, com dados sobre o aparelhamento do Estado brasileiro pelo petismo. Não deixe de ler a reportagem completa na revista. Trata-se do documento de um tempo. É nesse ambiente que o estado policial está se instalando, de que os descalabros da Receita são um exemplo. Para Lula, tudo não passa de “futrica”.

(…)
Desde 2003, quando Lula chegou ao poder, seus seguidores aceleraram uma operação de conquista de postos-chave do estado que, aliás, já vinha sendo disciplinadamente seguida em governos anteriores sem que se soassem alarmes. Dos quarenta cargos mais cobiçados do governo, os partidários de Lula e filiados ao PT ocupam 22. Nesses postos eles controlam orçamentos anuais que, somados, chegam a 870 bilhões de reais. Isso representa um quarto do produto interno bruto brasileiro. Ou seja, que 25% da riqueza nacional está sob administração direta de quadros partidários e ligados a sindicatos e centrais sindicais, todos comprometidos com um programa duradouro de poder.
(…)
Com o preenchimento dos 1.219 cargos especiais de “direção e assessoramento superior”, as famosas DAS 5 e 6, os governos formam o que se poderia chamar de “núcleo duro” da administração. Antes de Lula e do PT, esses cargos eram ocupados em parte por indicação política, já que a maioria dos postos era reservada para especialistas de reconhecido conhecimento técnico. No governo de Lula, 45% desses cargos foram entregues a sindicalistas, sendo que, entre eles, 82% são filiados ao PT. (…) Tratar o estado como se fosse o partido é uma liberalidade a que poucos governantes se entregam tão alegremente quanto Lula o fez nos mais de sete anos de governo. (…) Os servidores passaram a agir como funcionários camuflados: apesar de oficialmente desempenharem tarefas públicas e terem remuneração paga pelo estado (ou seja, por todos os contribuintes), dedicam-se a cumprir objetivos táticos e estratégicos definidos pelos líderes de sua sigla.
(…)
Um cruzamento de dados realizado por VEJA mostrou que 6 045 servidores federais de alto nível se filiaram ao PT desde o início do governo Lula. Sete em cada dez desses convertidos tiveram sua carreira turbinada e, em pouco tempo, foram elevados a postos de chefia ou receberam alguma espécie de promoção. (…) “As instituições do estado passaram a ser subservientes aos interesses do governo do PT - e não do restante da população”, diz Maria Celina D’Araujo.
(…)
O cientista político Pedro José Floriano Ribeiro, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). estudou durante oito anos as mudanças na base social do PT e em seus programas. Ele diz que a sigla pode hoje se encaixar na definição de partido cartel: retira cada vez mais do estado recursos vitais à sua sobrevivência.
(…)
Onde faltam carreiras estruturadas e com promoções definidas pelo mérito, a possibilidade de ingerência política é ainda maior. Por exemplo: somente no organograma da Fundação Nacional de Saúde, que tem a missão crucial de gerenciar os recursos destinados a ações de saneamento básico, há 1500 petistas incrustados. O que será que todos eles querem “Quando esse quadro de aparelhamento começa a ser dominante no serviço público, como acontece no Brasil do PT, o estado passa a servir apenas ao partido do polvo e não ao povo.“



Fonte: Veja

Estou nascendo hoje na internet

Arnaldo Jabor

Afinal, quem sou eu? Descobri que há vários jabores dando sopa na web. Uma vez, disse aqui que jamais entraria nos twitters da vida, nos orkuts do pedaço, nos facebooks das quebradas... Claro que dá pra ficar fora dessas "redes sociais", mas sinto-me isolado como aqueles caras que se recusam a ver televisão, para defender sua "individualidade". No entanto, que individualidade, que "eu" se manteria "puro" e protegido longe da TV ou fora da web hoje? Que "eu" sobraria? Não há um "eu" sozinho - esse sonho de pureza e originalidade acabou. O "eu" é feito de detritos de lembranças, de sonhos, de traumas, mas também é fabricado pelas coisas.

A pílula fez mais pelo feminismo que mil livros de militância. A internet criou um "eu" que muda dia a dia como uma máquina que vai se modernizando, recebendo novas engrenagens. Em vez de aniversários, em breve, vamos comemorar aperfeiçoamentos: "Estou comemorando mais 8 gigabytes em minha alma!"

Aliás, acho bom que a internet acabe com as ilusões individualistas que sempre tivemos - de sermos puros e únicos. A verdade é que somos parte de um processo de mutação permanente, e não por "autoanálise", mas pelos avanços da tecnociência. Assim como a biotecnologia cria seres híbridos, somos cada vez mais híbridos... Somos de carne, osso, chips e tocados por milhões de "outros eus" em rede. Rimbaud escreveu: "O eu é um outro." E o grande Mario de Sá Carneiro, poeta português, melhor do que os uivos lamentosos de Fernando Pessoa, também escreveu:

"Eu não sou eu nem o outro/ sou qualquer coisa de intermédio/ pilar da ponte de tédio/ que vai de mim para o outro." Sujeito e objeto se confundem cada vez mais. Além disso, eu também achava que a cultura humana era uma galáxia infinita de pensamentos e obras. O Google acabou com este sonho infinito. Tudo se arquiva, se ordena. O futuro, como um lugar a que chegaríamos um dia, também morreu. Só há um presente incessante, um futuro minuto a minuto, e não temos ideia de onde chegaremos, porque não há onde chegar...

Bem, amigos, todo este "showzinho" de reflexões individualistas é, na verdade, para comunicar que estou entrando no twitter. Resolvi. "Não quero mais ser eterno, quero ser moderno." Eu, que até pouco tempo só ia até o micro-ondas (que sempre me puniu com apitinhos da porta aberta), eu, que tremo diante de um celular, mudei muito.

Saibam que comprei um iPhone e que vou postar coisas no twitter, que se chamará "realjabor". O nome será este porque já existe no twitter um cara que usa meu nome... Existe um "jabor" imaginário com, pasmem, 121.000 seguidores... Não o digo por gabar-me, mas há um jabor com milhares de amigos que não conheço. E aí me pergunto: quem sou eu? E esse cara no twitter - com 121 mil seguidores enganados - por que botou meu nome? Não é por inveja, nem tietagem... Ele parece ser um bom sujeito pelas coisas que fala por mim; não há insultos nem frases que possam me incriminar com meus "seguidores"... (se bem que ele "posta" também bobagens apócrifas que rolam na web, que me matam de vergonha). E ele? Quem será? Será que ele ama alguém? Quem lhe mandará flores se ele morrer de amores?

Por que time ele torce? Como é seu rosto? Vejam meu drama: eu, que não existo, acho boa-praça um cara que não sei quem é... Por que ele não se assume? Eu estava nesta dúvida, quando se fez a luz e entendi: tanto faz ele ser ele ou ser eu. Esta terceira pessoa, meio eu, meio ele, existe no espaço virtual e assim não importa o nome, pois, como disse acima, sujeito e objeto se confundem. Ser eu ou ele é um detalhe desprezível.

Aliás, suponho que esses milhares de seguidores sejam ao menos meus amigos... E aí me ocorre a pergunta: o que é um amigo hoje? Como posso ser amigo de pessoas que nunca vi? Antes, amigos tomavam chope com a gente, davam conselhos, faziam confidências: "Pô, cara, minha mulher me traiu... que que eu faço?" Era assim. Hoje, os amigos você não vê, não toca; os amigos são algoritmos.

As redes sociais estão mudando o conceito de amizade, de amor... A pior forma de solidão talvez seja o sexo virtual, a masturbação a longa distância... Nada mais triste que o post-coitum na internet: gozos, escape e "log off" com os orgasmos se esvaindo na velocidade da luz e a realidade manchando o papel higiênico e as mãos pecadoras.

Assim aprendemos que temos de celebrar as parcialidades; só o fortuito é gozoso. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.

Aceitar a "incompletude" talvez seja a nova forma de felicidade. E isso é bom. A web nos mostra que enquanto sonharmos com a plenitude, seremos infelizes. Nunca seremos acompanhados nem totalmente amados. As redes nos trazem uma desilusão fecunda. As redes sociais unem os homens em uma grande solidão.

Outra coisa que me intriga: dizer o que nos tweets? O que é importante? Antigamente se dizia: este filme é importante, este texto é importante... Mas, hoje, para quê? As revoluções clássicas já não existem, a ideia de reunir objetos para um museu do futuro já era. Não há mais algo a ser preservado para amanhã. A importância do futuro foi substituída pelas "conexões" no presente.

A própria ideia de "profundidade" ficou estranha... O que é profundo? Hegel ou o frisson de informar a 121 mil pessoas que acordei com dor de cabeça ou que detestei A Origem?... As irrelevâncias em rede ganham uma densidade horizontal, uma superficialidade útil, ao invés de uma grandeza definitiva. Quantidade é qualidade, hoje.

Mas, é óbvio que há uma grande vitória para a democracia nas redes sociais. Há pouco, o massacre de dissidentes no Irã escapou pela internet. As redes denunciam crimes, alavancam negócios, expandem a educação política.

Por isso, resolvi nascer. Estou nascendo hoje na web. Meus primeiro gemidos de recém-nascido começam hoje. Chamo-me agora www.twitter.com/realjabor e vou competir com o outro jabor, o falso, que me criou sem me consultar.


Fonte: O ESTADO DE S PAULO/Arnaldo Jabor

Queremos ser repudiados

Olavo de Carvalho

Num dos últimos debates eleitorais, o candidato a subdilma, Michel Temer, negou que o sr. Presidente da República tivesse proposto a mutação das Farc em partido politico. Mas, antes de terminar a frase, já se desmascarou ao defender as lindíssimas intenções da proposta. Como poderia ele conhecer as intenções, adoráveis ou abomináveis, de uma proposta que, segundo ele mesmo, jamais foi feita?

O sr. Temer é, com toda a evidência, um mentiroso cínico. Tão cínico quanto o foi o próprio Lula ao apresentar aquela sugestão indecente. Na ocasião, o sr. Presidente perguntou: "Se um índio e um metalúrgico podem chegar à Presidência, por que alguém das Farc, disputando eleições, não pode?"

A resposta a essa pergunta é simples: ser índio ou metalúrgico não é crime. Matar trinta mil pessoas e sequestrar sete mil, mantendo estas últimas em cativeiro por dez anos ou mais, é uma sucessão formidável de crimes hediondos. Até um retardado mental percebe a diferença entre eleger presidente um índio, um metalúrgico, um zé-ninguém, um mendigo que fosse, e um autor de assassinatos em massa. Nenhum dos presentes à obscena declaração presidencial ousou jogar-lhe na cara essa obviedade gritante que ele, com aquela cara de pau integral que só as mentalidades criminosas têm, fingia desconhecer.

Mais cínico ainda revelou-se o supremo mandatário, bem como todos os seus bajuladores de ofício – o sr. Temer primeirão da lista – ao alardear que a sugestão expressava o repúdio presidencial aos métodos de luta ilegais, cruéis e desumanos da narcoguerrilha colombiana. Que repúdio é esse, que em vez de punição oferece aos criminosos uma ficha limpa, o livre acesso ao poder de Estado e a perspectiva de enriquecimento sem limites, mediante o comércio de drogas legalizado? Se isso é repúdio, não há um só brasileiro que a esta altura não implore de joelhos: Repudie-me, sr. Presidente!

Mas por baixo do cinismo ostensivo vem outro mais discreto – e mais perverso ainda. Guerrilhas e terrorismo são, por definição, muito diferentes de uma guerra travada por exércitos convencionais. Estes buscam a vitória militar e o domínio do território. Só depois de atingidos esses objetivos é possível a instalação de um poder político nas zonas ocupadas – e mesmo assim a transferência de autoridade dos militares para os políticos é lenta, gradual e cheia de precauções.

Grupos guerrilheiros e terroristas, ao contrário, visam à conquista de objetivos políticos antes e independentemente da vitória militar, que quase sempre fica além das suas possibilidades.

Em termos estritamente militares, as Farc estão liquidadas. Nos derradeiros espasmos da agonia, sua única esperança de sobreviver militarmente reside na criação de "zonas desmilitarizadas" onde possam prosseguir clandestinamente suas atividades sob a proteção de seus próprios inimigos, paralisados pela inibição moral de infringir um acordo de paz que, pelo lado das Farc – e segundo os cânones da "guerra assimétrica" –, só existe para ser infringido. (Nota: a denúncia cem por cento falsa espalhada pelo sr. Paulo Henrique Amorim, aqui comentada dias atrás, www.olavodecarvalho.org/semana/100815dc.html, foi uma criativa ajudinha dada pela senadora Piedad Córdoba à campanha das Farc pela criação daquelas zonas).

Em matéria de popularidade, a narcoguerrilha já baixou ao fundo mais obscuro do oceano: é escancaradamente odiada por 97% da população colombiana. Os três por cento restantes são, na quase totalidade, partes interessadas, disputando a tapa um último canudinho por onde respirar.

A transformação das Farc em um partido legal – e, concomitantemente, a legalização do comércio de drogas, que os nossos governantes também defendem, fingindo não ver o reforço mútuo das duas propostas –, seria, com toda a evidência, a salvação do moribundo. Mais do que a salvação, a glória.

Desde logo, a imagem dos criminosos, hoje em frangalhos, será automaticamente recauchutada pela exibição de "intenções pacíficas". Mas, pior ainda: retirados da UTI, os terroristas, com o rótulo de cidadãos respeitáveis, e cheios de dinheiro no bolso, não ocuparão só cargos eletivos, mas lugares estratégicos na burocracia estatal e na magistratura, de onde poderão, com a maior tranquilidade, enviar para a cadeia seus adversários inerme, como seus poucos representantes hoje ali infiltrados já conseguiram fazer com 1.200 soldados colombianos – sim, mil e duzentos – que tiveram o desplante de combatê-los.

Liberem as Farc da sua imagem sangrenta, e em poucos anos não haverá um só inimigo delas à solta.

O sr. Presidente sabe de tudo isso, e é precisamente isso o que ele quer. A prova mais patente disso é que ele fundou o Foro de São Paulo para que as várias correntes de esquerda, legais e ilegais, pudessem discutir e articular suas estratégias.

A articulação do terrorismo, do narcotráfico e da luta política é a definição mesma do Foro de São Paulo, e a transfiguração das Farc em partido é a consumação de suas ambições mais altas, mais avassaladoras, mais criminosas.


Fonte Diário do Comércio, via Alerta Total/Olavo de Carvalho
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia.é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia.

Ideologia e Violência

Por Arlindo Montenegro

No dia 1 de Julho, o Conselho Nacional do Ministério Público divulgou as metas formuladas para o sistema judiciário. Uma delas é eliminar a sub notificação dos crimes de homicídio até Julho de 2011. Isto porque os registros da violência são falhos, distorcidos, insuficientes e distanciados da realidade.

Dos dados obtidos pelo Instituto Sangari e divulgados no "Mapa da Violência 2010", cobrindo registros até o ano de 2004 a 2007, a baixa anual ascenderia a 50 mil vidas por ano. Os pesquisadores e as mesmas Secretarias de Segurança Pública, somente nos últimos anos e ainda de modo deficiente, registram as ocorrências de modo sistemático.

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Eleição sem maquiagem

Fernando Henrique Cardoso

O mundo continua se contorcendo sem encontrar caminhos seguros para superar as consequências da crise desencadeada no sistema financeiro.

Até a ideia (que eu defendi nos anos 1990 e parecia uma heresia) de impor taxas à movimentação financeira reapareceu na voz dos mais ortodoxos defensores do rigor dos bancos centrais e da intocabilidade das leis de mercado. No afã de estancar a sangria produzida pelas exacerbações irracionais dos mercados, outros tantos ortodoxos passaram a usar e até a abusar de incentivos fiscais e benesses de todo tipo para salvar os bancos e o consumo.

Paul Krugman, mais recentemente, lamentou a resistência europeia à frouxidão fiscal. Ele pensa que o corte aos estímulos pode levar a economia mundial a algo semelhante ao que ocorreu em 1929. Quando a crise parecia acalmada, em 1933, suspenderam-se estímulos e medidas facilitadoras do crédito, devolvendo a recessão ao mundo. Será isso mesmo? É cedo para saber. Mas, barbas de molho, as notícias que vêm do exterior, e não só da Europa, mas também da zigue-zagueante economia americana e da letárgica economia japonesa, afora as dúvidas sobre a economia chinesa, não são sinais de uma retomada alentadora.

Enquanto isso, vive-se no Brasil oficial como se nos tivéssemos transformado numa Noruega tropical, na feliz ironia deste jornal em editorial recente. E em tão curto intervalo que estamos todos atônitos com tanto dinheiro e tantas realizações. Basta ler o último artigo presidencial no Financial Times.

A pobreza existia na época da "estagnação". Agora assistimos ao espetáculo do crescimento, sem travas, dispensando reformas e desautorizando preocupações. Se no governo Geisel se dizia que éramos uma ilha de prosperidade num mundo em crise, hoje a retórica oficial nos dá a impressão de que somos um mundo de prosperidade e o mundo, uma distante ilha em crise. Baixo investimento em infraestrutura? Ora, o PAC resolve. Receio com o aumento do endividamento público e o crescente déficit previdenciário? Ora, preocupação com isso é lá na Europa. Aqui, não. Afinal, Deus é brasileiro.

Só que a realidade existe. A prosperidade de uns depende da de outros no mundo globalizado. Por mais que estejamos relativamente bem em comparação com os países de economia mais madura, se estes estagnarem ou crescerem a taxas baixas, haverá problemas.

A queda nos preços das matérias-primas prejudicará as nossas exportações, grande parte delas composta de commodities. A ausência de crescimento complicará a solução dos desequilíbrios monetários e fiscais dos países ricos e isso significará menos recursos disponíveis para o Brasil no mercado financeiro global. Não devemos ser pessimistas, mas não nos podemos deixar embalar em devaneios quase infantis, que nos distraem de discutir os verdadeiros desafios do País.

Infelizmente, estamos às voltas com distrações. Um cântico de louvor às nossas grandezas, de uma falta de realismo assustador. Embarcamos na antiga tese do Brasil potência e, sem olhar em volta, propomo-nos a dar saltos sem saber com que recursos: trem-bala de custos desconhecidos, pré-sal sem atenção ao impacto do desastre no Golfo do México sobre os custos futuros da extração do petróleo, capitalização da Petrobrás de proporções gigantescas, uma Petro-Sal de propósitos incertos e tamanho imprevisível. Tudo grandioso. Fala-se mais do que se faz. E o que se faz é graças a transferências maciças do bolso dos contribuintes para o caixa das grandes empresas amigas do Estado, por meio de empréstimos subsidiados do BNDES, que de quebra engordam a dívida bruta do Tesouro.

A encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que diga, especialmente o que o "mercado" e os parceiros internacionais querem ouvir. Mas a própria candidata já alertou: não é um poste. E não é mesmo, espero. Tem uma história, que não bate com o que se quer que ela diga. Cumprirá o que disse?

No México do PRI, cujo domínio durou décadas, o presidente apontava sozinho o candidato a suceder-lhe, num processo vedado ao olhar e às influências da opinião pública. No entanto, quando a escolha era revelada ao público - "el destape del tapado" -, o escolhido via-se obrigado a dizer o que pensava. Aqui, o "dedazo" de Lula apontou a candidata. Só que ela não pode dizer o que pensa para não pôr em risco a eleição. Estamos diante de uma personagem a ser moldada pelos marqueteiros. Antigamente, no linguajar que já foi da candidata, se chamava isso de "alienação".

Esconde-se, assim, o que realmente está em jogo. Queremos aperfeiçoar nossa democracia ou aceitaremos como normais os grandes delitos de aloprados e as pequenas infrações sistemáticas, como as de um presidente que dá de ombros diante de seis multas a ele aplicadas por desrespeito à legislação eleitoral?

Queremos um Estado partidariamente neutro ou capturado por interesses partidários? Que dialogue com a sociedade ou se feche para tomar decisões baseadas em pretensa superioridade estratégica para escolher o que é melhor para o País? Que confunda a Nação com o Estado e o Estado com empresas e corporações estatais, em aliança com poucos grandes grupos privados, ou saiba distinguir uma coisa da outra em nome do interesse público? Que aposte no desenvolvimento das capacidades de cada indivíduo, para a cidadania e para o trabalho, ou veja o povo como massa e a si próprio como benfeitor? Que enxergue no meio ambiente uma dimensão essencial ou um obstáculo ao desenvolvimento?

Está na hora de cada candidato, com a alma aberta e a cara lavada, dizer ao País o que pensa.

Fonte: O ESTADO DE S PAULO/Fernando Henrique Cardoso

CELSO AMORIM, O MEGALONANICO, E LULA FAZEM DO BRASIL O LÍDER DO “BLOCO DOS SUJOS”

Reinaldo Azevedo

À diferença do que sugere Celso Amorim, o Megalonanico, a questão não é saber se o Brasil mantém ou não relações comerciais com ditaduras. O que importa é como essa relação se estabelece, a sua proximidade e o que o governo pretende com isso. Na fila em que se encontra este patético Obiang Nguema Mbasogo, há quantos outros facinorosos? No que diz respeito aos direitos humanos, qual é a mensagem que o Brasil tem passado ao resto do mundo?

Uma coisa é manter relações comerciais; outra, muito distinta, é fornecer palco à bandidagem. E essa tem sido a política do Itamaraty. “Tem empresa com mais de US$ 1 bilhão investidos. Não é pouca coisa (…). O exemplo tem muito mais força do que a pregação moralista”, diz Amorim. É uma fala de pura delinqüência política. Um bilhão de reais justificam o silêncio cúmplice do Brasil? Não se diz uma miserável palavra em defesa dos direitos humanos. A que exemplo se refere o ministro? Em que a postura do Brasil servirá “de exemplo” a Mbasogo? Ele não conseguiria responder.

O lugar que o Brasil ambiciona no mundo não será conquistado com essa política. Ao contrário. Cada vez mais, o que o mundo percebe é a incongruência entre o tamanho da economia brasileira e o de sua política externa, que não se compromete com os valores essenciais das democracias ocidentais. Ao contrário: cumplicidade vira pragmatismo; liberdade para matar é tomada como autodeterminação; atos terroristas são tomados como resistência.

A fala de Amorim repete a estupidez proclamada ontem por um certo Norton Rapesta, diretor do Departamento de Comércio e Investimentos do Itamaraty: “O fato de o Brasil se aproximar [da Guiné Equatorial], trazendo o seu exemplo, pode ser uma contribuição política. A gente tem de ser pragmático. (…)” Quando a gente tinha ditadura no Brasil, ninguém ia negociar com a gente?”

Rapesta se refere à ditadura militar brasileira. Sim, os demais países negociavam “com a gente”. Mas os ditadores brasileiros não eram tratados como interlocutores de uma suposta nova ordem global. Entendeu, Rapesta, ou quer que desenhe? Não custa lembrar a fala de de Jimmy Carter, então presidente dos EUA, em sua visita ao Brasil, em março de 1978:

“Hoje estamos todos nos unindo num esforço global em prol da causa da liberdade humana e do Estado de Direito. Esta é uma luta que só será vitoriosa quando estivermos dispostos a reconhecer as nossas próprias limitações e a falarmos uns com os outros com franqueza e compreensão”.

Se o Brasil anseia por um lugar honrado no chamado concerto das nações, não será se abraçando aos Mbasogos da vida por causa de qualquer bilhão “de uma empresa” ou dos ridículos US$ 45 milhões que exportados àquele país no ano passado. Até porque tais justificativas são obviamente, fantasiosas. A aproximação com gente dessa estirpe tem o objetivo de fazer o país líder de um grupo de nações, nem que seja do Bloco dos Sujos.

Trata-se de uma política externa asquerosa.

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