Continente dividido
As eleições presidenciais em Honduras estão provocando um racha nos países da América Latina. De um lado, estão países que, como os Estados Unidos, dizem que
, "se tudo correr bem" apoiarão o pleito de domingo, alegando que rejeitá-lo só pioraria a crise iniciada com o golpe de Estado que tirou Manuel Zelaya do poder.
Neste grupo, estão ainda Peru, Colômbia, Panamá e Costa Rica. Na sexta-feira, o presidente costa-riquenho, Óscar Arias --mediador das negociações entre o governo de facto de Roberto Micheletti e o presidente deposto--, pediu à comunidade internacional que reconhecesse as eleições em Honduras para que o país centro-americano recupere a normalidade depois da crise política.
"Creio que no final deve reinar a sensatez, e a sensatez diz que deveríamos, se tudo correr bem, normalmente, e os observadores não virem nada mal no domingo 29 de novembro, penso que a grande maioria dos países deve reconhecer a eleição", disse Arias.
Do outro lado, a aliança entre Brasil, Chile, Venezuela, Argentina, Uruguai, Bolívia, Nicarágua, Equador, Paraguai, Guatemala defende que reconhecer a votação sob os golpistas é um mau precedente para a região, posição também defendida pela Espanha.
Muitos deles já anunciaram, inclusive, que não vão reconhecer o pleito por considerá-lo ilegítimo, uma vez que é organizado por um governo que surgiu depois de um golpe.
Na nota em que expressam seu apoio à eleição, os EUA exortam o vencedor a dar continuidade às análises sobre a volta de Zelaya até o fim do mandato, como previsto em acordos.
"Desejamos o melhor ao povo hondurenho na escolha de seus novos líderes e pedimos a todos que exerçam seus direitos pacificamente", diz o texto.
Fora dos dois grupos, ainda há o México, que chama a atenção pelo silêncio eloquente --o país diz não ter escolhido o seu bloco. Na terça, a chanceler mexicana, Patricia Espinosa, disse que não se pronunciaria.
A hesitação do país já marca pontos para o bloco dos EUA, pois todos os chanceleres da região, à exceção do americano, reunidos na reunião preparatória da Calc (Cúpula América Latina e Caribe), que abriga o Grupo do Rio ampliado, já disseram que se oporiam à eleição.
Amorim, questionado pela Folha sobre o México, afirmou:
"Não ouvi o silêncio do México. O México é o presidente do Grupo do Rio, que tem uma posição muito clara sobre isso. Mas cada um faz o que quiser".
O outro caso de silêncio é de El Salvador, vizinho de Honduras. O esquerdista Mauricio Funes, amigo do presidente brasileiro, decidiu que ainda não era hora de se pronunciar.
Lula
Apesar da posição contrária do Brasil às eleições, o candidato favorito em Honduras, Porfirio Lobo, afirmou na sexta que vai 'bater na porta' do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Vamos buscar o presidente Lula para que reconsidere a sua posição e sejamos tão amigos como temos sido sempre, talvez mais amigos", disse Lobo, ressaltando que admira muito o país e que está interessado em conhecer os programas sociais brasileiros, como o Bolsa Família.
A respeito do conflito de posições, o candidato afirmou que
"nenhum país poderá negar o que é o direito de um povo de poder eleger."
Lobo disse ainda que, se eleito, a sua prioridade será recompor as relações internacionais. Com o racha sobre o apoio ao pleito, porém, será uma tarefa difícil.
Eleição de Honduras é "oportunidade única" para democracia, dizem EUA
O governo dos Estados Unidos afirmou nesta sexta-feira que o presidente eleito na eleição hondurenha do próximo domingo (29) terá a oportunidade "única" de impulsionar a "vital" tarefa de restabelecer a ordem democrática no país por meio do Acordo Tegucigalpa-San José, que já foi rejeitado pelo presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya. A maioria dos países do continente, entre eles o Brasil, defende o retorno de Zelaya ao poder antes de qualquer votação.
"O presidente que vier a ser eleito em eleições vistas como livres e justas terá a oportunidade única de promover esta vital missão", declarou o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, em comunicado.
Segundo a nota, a eleição constitui
"outro passo crucial" rumo ao restabelecimento da ordem democrático e constitucional em Honduras depois da assinatura do acordo Tegucigalpa-San José no último dia 30, sob mediação americana. Zelaya acabou rompendo o acordo devido à recusa do Congresso de votar seu retorno a Presidência antes da votação.
Os EUA reiteram que o processo eleitoral hondurenho começou "bem antes" de 28 de junho, dia da deposição de Zelaya --chamada de golpe de Estado no comunicado-- e dele participam candidatos "legítimos" que representam partidos com uma longa tradição democrática e de um amplo espectro ideológico.
Kelly afirma também que as eleições ocorrem sob a responsabilidade de um Tribunal Supremo Eleitoral
"multipartidário e autônomo" que foi constituído também antes da deposição.
Para Washington, as eleições de domingo, nas quais os hondurenhos escolherão presidente, deputados e prefeitos para o período 2010-2014,
"são uma expressão inamovível da vontade soberana" do povo de Honduras.
Assim como fez na segunda-feira o secretário de Estado adjunto americano para o Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, o Departamento de Estado dos EUA reiterou que
"eleições livres, transparentes e justas são necessárias, mas não suficientes, para que Honduras restabeleça a ordem democrática e constitucional".
Kelly destacou que, por esta razão, os EUA, junto com outros países da América, continuarão apoiando a aplicação do Acordo Tegucigalpa-San José
"como uma via democrática para os hondurenhos seguirem adiante".
Nesta sexta-feira, a Costa Rica prometeu restabelecer os laços com Honduras se as eleições presidenciais forem justas.
O candidato presidencial favorito, Porfirio Lobo, louvou a decisão do presidente costa-riquenho, Oscar Arias, dizendo em uma entrevista à agência Associated Press esperar que outros países latino-americanos gradualmente seguissem o exemplo dele.
"Alguns dos que estão dizendo hoje que não vão reconhecer a votação me disseram que irão reconhecer as eleições", disse ele.
Lobo também prometeu que, se vencer, ele iria incluir Zelaya em um diálogo de reconciliação nacional e sugeriu que o presidente deposto poderia deixar seu refúgio na embaixada do Brasil sem medo de detenção. Zelaya está no prédio desde seu retorno clandestino ao país em 21 de setembro.
O Brasil e a maioria dos países do continente se opõem à realização de eleições sem a volta de Zelaya ao poder, dizendo que isso legitimaria um golpe de Estado, mas o tema do reconhecimento da votação hondurenha rachou o consenso inicial da OEA (Organização dos Estados Americanos) em relação a Honduras.
Após a deposição de Zelaya, os países do bloco decidiram por unanimidade suspender o país, classificando de golpe a retirada do presidente do poder pelas Forças Armadas, apesar do apoio do Congresso e da Suprema Corte à ação.
Mas recentemente o governo americano anunciou apoio à votação, com auxilio técnico e envio de observadores, argumentando que as eleições haviam sido convocadas antes da deposição e seriam a melhor saída para a crise política. Além do Peru, países como Colômbia, Canadá e Panamá devem seguir a posição americana.
Fonte: FOLHA