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Ativistas de extrema-direita causam pancadaria no Reino Unido

Cerca de 700 pessoas participaram da manifestação contra imigração e o Islã

Policiais dispersam protesto da EDL no centro de Bradford; direitistas agrediram outro grupo/Phil Noble/28.08.2010/Reuters

Cerca de 700 ativistas de extrema-direita entraram em confronto com a polícia na tarde deste sábado (28) no centro da cidade de Bradford, informou o jornal britânico The Guardian.

O protesto foi organizado pela Liga de Defesa Inglesa (EDL, na sigla em inglês) e os participantes jogaram tijolos e bombas de fumaça em um grupo que se manifestou contra o racismo em um evento organizado pela Unidos contra o Facismo.

Mais de 1.600 policiais de 13 forças foram mobilizados para controlar a situação e ocorreram cinco prisões no local.

No último ano, o EDL tem organizado protestos em diversas cidades pelo Reino Unido. Entre os slogans que os participantes diziam estavam alguns que faziam alusão clara a muçulmanos como:

- Tirem os homens-bomba muçulmanos de nossas ruas.

Um residente de Bradford, Mohammed Khan, de 29 anos, disse ao Guardian que os ativistas apenas estavam buscando problemas.

- Nós queremos mostrar para as pessoas no Reino Unido que Bradford é um lugar unido e tranquilo, onde asiáticos, brancos – todos – convivem. Ninguém aqui quer estas pessoas. Eles estão apenas tentando dividir esta cidade e provocar problemas.

Fontes: R7 - Agências

Mitos e preconceitos

Lia Maria dos Santos é economista e artista plástica. Atualmente, está desempregada mas diz que participa de várias entrevistas

Mudar a trajetória dos negros no mercado de trabalho levará ainda muito tempo. Os 122 que separam o País do tempo em que eles eram escravos ainda não foram suficientes para colocá-los próximos da população branca no mercado de trabalho. Os dados mais recentes que traçam esse cenário são de 2008.

Naquele ano, diferentes pesquisas mostraram que o negro ainda ocupa menos cargos de chefia e mais vagas para trabalhos menos qualificados. De acordo com o Instituto Ethos e o Ibope, apenas 3,5% dos trabalhadores afrodescendentes eram chefes nas maiores empresas brasileiras.

O Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas, feito há dois anos, revelou que os brancos ocupavam 94% dos postos executivos. A pesquisa trouxe uma série histórica, já que também havia sido aplicada em 2003 e 2005, cujo resultado demonstra pouca evolução na participação dos negros nas vagas de chefia: de 1,8% na primeira edição para 3,5% em 2007.

Nas conclusões do estudo, os pesquisadores evidenciam um “desequilíbrio” entre a representatividade dos afrodescendentes na população (49,5%) e nos quadros de funcionários dessas grandes empresas (25,1%). “Há uma inequívoca sub-representação dos negros nas grandes empresas brasileiras. Como no caso das mulheres, observa-se um afunilamento hierárquico: quanto mais alto o cargo, menor a participação de negros”, escrevem os autores na publicação.

Lia dos Santos, economista e artista plástica: "Para a gente romper barreiras, precisa enfrentar mitos e preconceitos."/ Foto: Marcos Brandão/OBrittoNews

Lia Maria dos Santos, 30 anos, enfrentou inúmeros preconceitos, mesmo sendo filha de funcionários públicos do Itamaraty. “Dá o estalo que o racismo existe quando se percebe a discriminação no jeito que te olham na loja ou no shopping sem motivo nenhum”, diz. Lia morou na África quando era criança. E em Cuba na adolescência.

Artista plástica formada pela UnB, Lia também estudou economia, está fazendo mestrado em políticas publicas na área de educação para mulheres negras, fala vários idiomas e já atuou como consultora. No momento, está desempregada. Já participou de diversas entrevistas de emprego desde que voltou de um programa da Organização das Nações Unidas em Genebra, Suíça.

“Cheguei ao Brasil e fui trabalhar em telemarketing ganhando R$ 1,5 mil. Fiquei uma semana e saí. Não dá”, lamenta. Lia dá palestras em escolas e organizações para tentar quebrar as barreiras do preconceito e mostrar que as diferenças existem. “Para a gente romper barreiras, precisa enfrentar mitos e preconceitos.”

Racismo

Danielle Valverde, especialista de educação do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) Brasil e Cone Sul, afirma que o racismo estrutura as relações sociais no Brasil. “Isso persiste para além da escravidão. Quando pegamos os dados estatísticos, encontramos desigualdades em educação, situação econômica, saúde. No mercado de trabalho, os negros têm ocupações de menor prestígio e recebem os menores salários.”

Estudo divulgado em 2008 pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que, nos últimos quatro anos, houve um crescimento muito pequeno na quantidade de negros em postos de direção e gerência. Em 2004, o índice era de 5,7%. Em 2008, foi para 6%.

Em Salvador, onde a população negra é majoritária (85% da população economicamente ativa), os brancos ocupam três vezes mais postos de comando que os negros. A maioria dos trabalhadores negros está em funções que não exigem qualificação profissional.

Para a especialista do Unifem, é preciso conjugar diferentes ações para mudar a realidade: punir os crimes de racismo e adotar políticas universais. “As ações afirmativas são indicadas por diferentes países como solução para dar oportunidades de acesso à educação, à saúde e ao trabalho para populações historicamente discriminadas. Se fossem de fato políticas de estado, essa desigualdade diminuiria”, afirma Danielle.

Fonte: IG/Priscilla Borges

ONU denuncia violações da Itália contra direitos dos imigrantes

Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos pedirá o fim da "criminalização e dos maus-tratos"

PARIS - A Itália será denunciada nesta terça-feira, 15, em Genebra, por violação do Direito Internacional por "abandonar e rejeitar" imigrantes "sem que seja verificado de modo adequado se estão fugindo por perseguição". A denúncia será feita em meio à 12a Sessão do Conselho de Direitos Humanos, em pronunciamento da alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay. A autoridade criticará a "política de confronto aos imigrantes" e pedirá o fim da criminalização da imigração ilegal e dos "maus-tratos" contra os clandestinos.

A crítica é motivada pelas leis restritivas aprovadas nos últimos dois anos, em especial durante a gestão de Silvio Berlusconi como presidente do Conselho Italiano, em coalizão com o partido de extrema direita Liga Norte. No domingo e na segunda-feira o Estado abordou os efeitos desse conjunto de leis, chamado Pacote Segurança, que tornou o ato de imigração ilegal um crime - política inédita na União Europeia.

"A prática da detenção de migrantes em situação irregular, sua criminalização e maus-tratos no contexto do controle de fronteiras deve cessar", afirmará Navi Pillay. A alta comissária lembrará a recente morte por inanição de 73 imigrantes eritreus - cujo país vive guerra civil -, em agosto. De acordo com os cinco sobreviventes, a embarcação permaneceu à deriva no Mar Mediterrâneo durante 20 dias, sem ser socorrida pelas guardas costeiras da Itália, de Malta e da Líbia.

"Em muitos casos, as autoridades rejeitam os imigrantes, deixando-os enfrentar dificuldades e perigos, senão a morte, como se tripulassem barcos cheios de rejeitos perigosos", dirá Navi, segundo os extratos de seu discurso obtidos pelo jornal La Repubblica.

Ainda segundo o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), 16 países da União Europeia desrespeitam os direitos dos imigrantes ciganos, romenos, armênios, búlgaros, eslovacos e húngaros. Também nesse ponto, a política do governo italiano será especificamente mencionada pela Comissão de Direitos Humanos. "Na Itália existe uma abundante documentação de discriminação e tratamento degradante nos confrontos com a população cigana", reitera Navi, citando ainda a países como a França, Irlanda, Portugal, Espanha e Reino Unido.

Outras instâncias da ONU, como o Alto Comissariado para Refugiados, e instituições como a Organização Mundial para a Imigração (OMI) vêm alertando para as violações de direitos geradas pela nova legislação italiana. No interior do país, líderes políticos de oposição também reiteram as críticas. "O governo italiano está violando os direitos humanos básicos. E a sentença da ONU, hoje, é apenas a última de uma série de críticas que foram levantadas nas últimas semanas", afirmou Anna Finocchiaro, líder do Partido Democrata no Senado.

O Ministério das Relações Exteriores respondeu às críticas da ONU de forma oficial. "A Itália é o país que tem salvo mais vidas no Mediterrâneo", argumentou a chancelaria, em nota. "As regras do direito internacional são a pedra angular do governo italiano, que promove e defende um compromisso compartilhado por todos", diz o texto, pedindo o apoio dos demais países da União Europeia.

Fontes: O ESTADO/Andrei Netto

Contra ilegais, Itália flerta com o fascismo

Leis que tornam crime imigração clandestina e discurso xenófobo expõem intolerância da sociedade italiana


Barco lotado de imigrantes ilegais chega à ilha de Lampedusa/Reuters

ROMA - Exatos 90 anos após Benito Mussolini lançar o Manifesto Fascista, a Itália está novamente diante do racismo. Com o objetivo de combater a imigração clandestina e a criminalidade, a Justiça italiana já está condenando os primeiros estrangeiros pelo recém-criado "crime de imigração". Por todo o país, exemplos de intolerância alimentam a polêmica sobre o governo de Silvio Berlusconi, mas também sobre a sociedade italiana, cada vez mais acusada de racismo.

A controvérsia sobre o que vem sendo chamado de "deriva fascista" na Itália surgiu há três semanas, quando um bote com cinco imigrantes eritreus foi resgatado na costa da Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo - a principal rota usada por imigrantes ilegais da África para entrar na Europa. Para trás, o grupo havia deixado 73 mortos, vítimas de 20 dias de sede e fome à deriva em águas territoriais europeias. A tragédia transformou-se em debate nacional depois que os imigrantes relataram ter sido avistados por embarcações que lhes negaram socorro durante o trajeto, contrariando uma lei marítima histórica.

A polêmica cresceu depois que a Justiça de Florença condenou o primeiro estrangeiro à luz da nova lei de "imigração clandestina". Acusado de furtar uma bicicleta, Samer al-Shomaly, um palestino de 28 anos, foi condenado a pagar uma multa de 5 mil, pena sujeita à conversão em expulsão do país.

A condenação teve como base o Pacote de Segurança, aprovado pelo governo de coalizão de Silvio Berlusconi com o partido de extrema direita Liga Norte em 2 de julho. A legislação tornou-se símbolo do rigor da Itália em relação aos estrangeiros em situação irregular (leia quadro). O texto prevê, entre outras punições, a desapropriação de imóveis alugados a imigrantes ilegais e aumenta de 60 dias para 6 meses o tempo de detenção de clandestinos - palavra que virou sinônimo de "criminoso" no país .

A ofensiva contra os imigrantes desencadeou uma onda de críticas de intelectuais, organizações não-governamentais (ONGs), militantes dos direitos humanos, da Igreja e de políticos de oposição na Itália e na Europa. Laura Boldrini, alta comissária das Nações Unidas para os Refugiados, considera a lei abusiva. "Há na Itália um estímulo ao ódio que não pode ser aceito em uma sociedade democrática. É como jogar combustível no fogo", advertiu. "A opinião pública vem sendo alvo de uma campanha que confunde imigrantes com criminosos, ignorando que eles são importantes para a economia e para o bem-estar das famílias."

O diretor da Organização Internacional para a Imigração (OMI) para o Mediterrâneo, Peter Schapfer, tem posição semelhante: "A Itália não sabe lidar com o fenômeno da imigração porque o conheceu relativamente tarde. Há 10 ou 15 anos, ainda se considerava um país de emigrantes. Ainda não considero o conjunto da sociedade italiana racista, mas é verdade que grupos políticos e setores minoritários da sociedade têm um discurso racista, xenófobo e islamofóbico."

Foco das críticas, Roberto Maroni, ministro do Interior, vice-presidente do Conselho Italiano e líder da Liga Norte, argumenta que o Pacote de Segurança reduziu a imigração em 92% em um ano. Usando o discurso clássico de seu partido, que costuma responsabilizar os imigrantes pela violência, pela pobreza e até pela transmissão de doenças no país, Maroni sustenta que a criminalidade teria caído 14% desde a vigência das medidas: "A única resposta que continuo a dar é ligada à queda da imigração clandestina. Ano passado desembarcaram 14,2 mil clandestinos e neste ano, 1,3 mil."

Maroni diz que a criação do "delito de imigração" é uma "medida de proteção" da Itália contra os clandestinos. A Liga Norte, que tem 8% dos votos no Parlamento, teve uma página na rede de relacionamentos Facebook bloqueada há dez dias. Criado pela seção do partido da cidade de Mirano, no norte do país, o perfil tinha como slogan o lema "Torturar clandestinos é legítima defesa!".

Um dos mais de 400 "amigos" da página era Umberto Bossi, fundador da Liga Norte e ministro do governo Berlusconi. Ao ser cobrado pela imprensa italiana sobre o conteúdo racista do perfil, Bossi evocou o apoio popular às suas causas: "O pecado que a Liga porta é o voto."

Órgão para denúncias

Em 2008, uma lei proposta pelo Ministério do Interior da Itália passou a autorizar prefeitos a receber denúncias anônimas que levem à prisão de imigrantes clandestinos em todo o país. A"permissão" foi bem aproveitada por Leonardo Ambrogio Carioni, prefeito de Turate, na Lombardia, norte da Itália.

Desde o início do ano, um escritório abre as portas na cidade uma vez por semana para receber a "colaboração" popular contra estrangeiros que vivam sem documentos no país. O Escritório de Controle da Polícia Judiciária de Turate funciona na prefeitura, às quintas-feiras à tarde.

O objetivo é estimular "o cidadão a se tutelar", segundo argumentou Carioni ao Estado, por telefone. No dia em que a reportagem esteve na cidade, nenhum dos moradores apareceu para prestar queixa contra os estrangeiros da região, a maior parte marroquinos.

"Nossa administração adotou esse método para permitir à população evitar que clandestinos ponham em risco sua segurança", disse o prefeito, filiado à Liga Norte. Questionado sobre como encarava as críticas de racismo que sua administração vem recebendo, ele pediu para desligar e não atendeu mais a reportagem. Para Carioni, o novo órgão é um instrumento de combate à violência, não de perseguição de ilegais.

Entre os 9 mil habitantes de Turate, há cerca de 800 estrangeiros. Mas o número dos imigrantes em situação irregular é desconhecido.

Segundo funcionários da prefeitura, as delações normalmente são feitas por telefone e depois uma visita é programada. Entre os habitantes da região, as opiniões sobre o Escritório de Controle se dividem.

"Acho justo. Há muitos imigrantes que não trabalham, nem estudam. Eles não fazem nada", afirmou uma comerciante que não quis se identificar. "Os marroquinos causam problemas."

Para o aposentado Giancarlo Rimoldi, de 75 anos, a iniciativa do prefeito tem fundo eleitoral. "Sou apolítico, mas não é difícil perceber que ele está só levando adiante uma bandeira da Liga Norte", afirmou.

Contrário à medida, Rimoldi disse não ter nada contra os estrangeiros. "Não sou racista contra os que vêm de fora da União Europeia porque os problemas da Itália não têm nada a ver com eles", afirmou. Mas, em seguida, o aposentado revelou um preconceito mais antigo: "Sou racista em relação aos sulistas. O problema da Itália sempre foi e continua sendo o sul, sustentado por nós."

Governo italiano tenta bloquear principal rota de ilegais

São fascistas', diz a nigeriana Queen E., de 21 anos, que obteve status de refugiada/Andrei Netto/AE

A rota marítima mais utilizada pelos imigrantes africanos que se arriscam a atravessar o Mediterrâneo em botes para chegar à Europa está bloqueada. As águas que cercam a ilha siciliana de Lampedusa, a 130 quilômetros da Tunísia, vêm sendo vigiadas por embarcações militares da Itália, da Líbia e de Malta desde abril. O objetivo do cerco é impedir que estrangeiros sem documentos alcancem o território italiano, onde poderiam pedir asilo político. Em terra, o Ministério do Interior italiano faz mutirão para retirar os "clandestinos" da ilha.

O bloqueio da faixa de terra rochosa e desértica de 6 mil habitantes, conhecida pelos naufrágios envolvendo imigrantes, foi ordenado pelo premiê italiano, Silvio Berlusconi, após negociação com o ditador da Líbia, Muamar Kadafi. O acordo estabeleceu uma força-tarefa dos dois países para vigiar o Mediterrâneo e, em especial, as Ilhas Pelagie, ponto mais ao sul da Itália, próximo da África. A ação busca interromper o fluxo de imigração que, em 2008, trouxe à ilha 33 mil estrangeiros, dos 36 mil que alcançaram a Europa por barcos.

A medida foi tomada depois que um bote com 250 imigrantes a bordo afundou na região em abril. Desde então, os três países intensificaram os esforços para impedir a chegada de estrangeiros. Roma também ordenou a fiscalização de todos os meios de saída da ilha e esvaziou os dois centros de retenção de Lampedusa, expulsando os imigrantes de forma sumária ou transferindo-os para outros "núcleos de identificação" espalhados no país.

"As condições para desembarques de imigrantes estão bloqueadas pela Guarda Costeira. As rotas dos imigrantes foram alteradas para outros pontos da Itália e de Malta", explicou ao Estado Mauro Buccarello, assessor da Prefeitura de Lampedusa. "Do ponto de vista político, o bloqueio foi saudável, pois reduziu a pressão migratória sobre a ilha e voltou a aumentar o turismo. Mas, do ponto de vista humanitário, a tragédia continua, pois nada mudou na origem, e os embarques continuam ocorrendo na Líbia, no Egito e na Tunísia."

A prova de que botes superlotados de africanos continuam a atravessar o Mediterrâneo ocorreu no dia 21, quando uma embarcação com refugiados de guerra da Eritreia foi resgatada no mar de Lampedusa com apenas cinco pessoas vivas. Após 20 dias à deriva, sem combustível, água ou alimento, 73 pessoas morreram e tiveram seus corpos jogados ao mar.

À rede de TV italiana Sky, Titi Tazrar, uma das sobreviventes, contou ter assistido a cada uma das mortes. "Éramos 20 mulheres, algumas grávidas. Duas delas perderam os bebês antes de morrer", disse a jovem, internada num hospital.

Organizações internacionais e ONGs instaladas em Lampedusa lembram que estrangeiros que atravessam o Mediterrâneo em botes são entre 5% e 10% do total de clandestinos que chegam à Itália todo ano. Dentre eles, 75% solicitam asilo político, dos quais 50% são aceitos pelos tribunais de Justiça - uma prova de que seus pedidos de refúgio são procedentes do ponto de vista jurídico.

"São pessoas que procuram ajuda porque estão fugindo de guerras, de ditaduras, de violências de toda ordem. Se arriscam suas vidas é porque têm boas razões para isso", diz Laura Boldrini, comissária da ONU para os refugiados.

Enquanto o drama humano continua em alto-mar, os fins de semana de sol agora trazem turistas a Lampedusa. Maria Argento, argentina casada com um italiano e moradora do balneário há sete anos, vê contradições no comportamento da população. "Quando um bote chega cheio de imigrantes, todos os tratam bem. Dão-lhes banho, roupas limpas, água, comida. Fazem tudo, mas os mandam embora", conta. "Nem os chamam de imigrantes, mas de clandestinos, de uma forma preconceituosa."

Porto clandestino

Lampedusa, a ilha mais procurada por quem cruza o Mediterrâneo em botes rumo à Itália, é um deserto de estrangeiros. Mesmo tendo recebido cerca de 33 mil imigrantes africanos só em 2008 - 75% a mais do que no ano anterior -, é praticamente impossível localizar um que resida na ilha.

Por ordem do governo italiano, os 1.800 que chegaram a viver no centro de detenção da cidade foram removidos e estão espalhados pelo país, uma medida que tenta livrar a ilha turística do estigma de porto dos clandestinos. O Estado localizou dezenas de náufragos resgatados em Lampedusa vivendo na cidade de Foggia, na Itália continental, a mais de mil quilômetros do porto de chegada.

Entre os imigrantes, há originários da Nigéria, da Eritreia, de Gana, da Somália, de Burkina-Faso, da Costa do Marfim e até de Bangladesh, entre outros. Em comum, todos têm a passagem por portos da Líbia, de onde embarcaram após pagar, em média, US$ 1 mil aos traficantes que exploram a imigração ilegal na região.

Charity Akhabue é uma das sobreviventes da travessia. Nigeriana de 20 anos, embarcou em novembro para a Europa na cidade de Suara, na Líbia, com outros 71 imigrantes africanos. Cinco dias depois, quando o combustível estava acabando, ela foi resgatada pela Guarda Costeira italiana nas imediações de Lampedusa.

"Nos últimos três dias, não tínhamos mais comida nem água", recorda-se. Desde sua chegada à Itália, Charity passou pelo centro de detenção de Lampedusa e por um centro de acolhimento na Sicília. Hoje, vive em Foggia à espera de trabalho. "Graças a Deus, vou receber meus documentos de refugiada", afirmou.

Um de seus amigos é Samuel Oleike, nigeriano de 25 anos, outra testemunha do drama. Recém-formado em engenharia mecânica, falando inglês com poucas falhas, contou ter chegado à Itália vindo de Trípoli, em 5 de abril, em uma das últimas levas antes que a Guarda Costeira italiana passasse a enviar os barcos de volta para a África.

Oleike aguarda o julgamento de seu pedido de asilo político, cujas razões não aceita comentar. "Temos problemas na Nigéria. Se tiver de voltar, não sei o que farei", diz, em tom angustiado. "Gostaria de ficar, de fazer algo na minha área, a engenharia. Tudo o que eu quero é trabalhar. Aceito qualquer coisa."

A também nigeriana Queen E., de 21 anos, obteve o status de refugiada, mas nada sabe sobre seu destino. "Eu gosto da Itália, mas vou ficar onde me aceitarem. Por enquanto, tenho de ficar no ‘campo’ (centro de detenção), porque ninguém me dá emprego", desabafa. "Os italianos não gostam de ver negros no centro da cidade, pegando seus ônibus ou trabalhando. Eles são racistas."


Fontes: O ESTADO/Andrei Netto - Reuters

Cliente agredido em mercado em SP deve passar por cirurgia nesta semana

Agredido no Carrefour passará por cirurgia

Matéria anterior sobre o tema


O vigilante Januário Alves de Santana, 39 --que acusa cinco seguranças do supermercado Carrefour em Osasco (Grande SP) de agressão--, sofreu uma fratura facial e deverá passar por uma cirurgia na quinta-feira (27), informou o advogado Dojival Vieira dos Santos.

De acordo com o advogado, ele sentia fortes dores no rosto desde o dia da agressão, em 7 de agosto e, nesta terça, chegou a cancelar seu depoimento à polícia devido ao seu estado de saúde.

Ele procurou novamente um hospital hoje e ficou constatado que havia sofrido uma fratura. De acordo com Santos, Januário terá de ser submetido a uma cirurgia no rosto nesta semana, porém, ainda não há detalhes sobre o procedimento.

"Isso só agrava a situação dos agressores. Independentemente do que for concluído no inquérito policial, está comprovado que ele sofreu uma violência grave", disse o advogado à Folha Online.

Nesta quarta (26), os advogados do vigilante pretendem entregar uma representação à polícia explicando detalhes do caso. Segundo eles, Januário não deve comparecer, mas estará à disposição da delegada responsável caso ela considere seu depoimento importante para a investigação.

Agressão

O vigilante registrou um boletim de ocorrência na polícia no qual afirma ter sido espancado após ser confundido com um assaltante. Segundo ele, a agressão ocorreu quando tentava entrar em seu carro --um Ford EcoSport-- na noite do último dia 7. Santana, que é negro, afirma ter sido vítima de racismo.

"O negro com aparência humilde é o suspeito padrão. Mesmo ensanguentado, todo maltratado, ele foi tratado como suspeito até mesmo pelos policiais militares que atenderam a ocorrência, e teve que provar que o carro era seu para deixar o estacionamento", disse Dojival à Folha Online.

Na semana passada, o Carrefour informou na última quinta-feira que afastou a gerência de sua loja em Osasco (Grande São Paulo) e substituiu a empresa que prestava serviços de segurança para o supermercado após o relato do cliente. Em nota, o supermercado afirma ainda que determinou o "máximo rigor na apuração dos fatos".

A Polícia Militar afirma que abriu um procedimento interno para apurar se policiais que atenderam Januário foram negligentes na hora de prestar socorro ao vigilante após a agressão.

Fonte: FOLHA

Carrefour afasta funcionários de Osasco após agressão a cliente

Januário Santana foi espancado na unidade, acusado de roubar próprio carro; segurança também foi trocada

SÃO PAULO - Após a denúncia de agressão por racismo, revelada na quarta pelo Estado, a rede de supermercados Carrefour decidiu afastar a empresa Nacional de Segurança Ltda., que prestava serviços em algumas lojas de São Paulo. A rede também afastou o gerente da loja de Osasco, na Grande São Paulo, onde o vigia e técnico em eletrônica Januário Alves de Santana, de 39 anos, foi confundido com um ladrão, suspeito de roubar seu próprio carro, um EcoSport, e agredido pelos seguranças.

Santana registrou boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial de Osasco. Na próxima semana, ele vai prestar depoimento no 9º DP, onde o inquérito está tramitando. Seu advogado, Dojival Vieira, vai entrar com uma ação de indenização por danos morais contra o Carrefour e contra o Estado. "Queremos que os cinco seguranças e os três policiais sejam identificados e responsabilizados. Esses casos de racismo não podem mais acontecer num País onde a metade da população é negra ou parda."

Enquanto sua família fazia compras na loja, Santana, foi levado por cinco seguranças do supermercado até um quartinho, onde foi espancado por cerca de 20 minutos. "Fui humilhado e acusado como se fosse um criminoso. Quando eu dizia que o EcoSport era meu, eles riam e me batiam ainda mais. Pensei que fosse morrer", conta. Os seguranças não vestiam uniformes nem usavam crachás. "Eles eram morenos, um pouco mais claros do que eu, mas não eram brancos. Quando eu tentava me explicar, um deles disse ?se você não calar a boca, neguinho, vou acabar com você?."

Quando os policiais militares chegaram ao local, eles também não acreditaram que Santana fosse dono do automóvel. "Eles riam e diziam ?sua cara não nega, negão. Você deve ter, pelo menos, três passagens pela polícia?." Depois de insistir muito, eles foram até o automóvel, onde sua família o esperava. Após conferir documentos, os PMs foram embora.

Santana espera que o caso possa servir de exemplo para outras pessoas que sofrem racismo. "Já ouvi piadas, comentários e ameaças, mas nunca tinha apanhado por ser negro. Decidi denunciar porque sofri uma grande injustiça", diz. "Na cabeça de algumas pessoas, só quem é branco e doutor pode ter um carro desses. Eu sou trabalhador. Trabalho dia e noite em dois empregos e com muito esforço estou pagando as prestações."

Grupo faz manifestação em hipermercado onde homem diz ter sido espancado


Um grupo realizou na manhã deste sábado (22) uma manifestação no hipermercado Carrefour de Osasco, na Grande São Paulo. No local, o técnico em eletrônica Januário Alves de Santana, de 39 anos, teria sido agredido por seguranças que o confundiram com um criminoso. Santana estava dentro de seu EcoSport no estacionamento porque a filha dormia no banco de trás. Segundo relato do cliente, os seguranças acharam que ele pretendia roubar o veículo. O Carrefour afastou a empresa que fazia a segurança e prestava serviços em lojas da rede e também o gerente do hipermercado. Em nota divulgada neste sábado, o Carrefour diz que “respeita as manifestações pacíficas e democráticas, desde que sejam preservados a segurança, integridade e bem-estar de seus clientes e funcionários” (Foto: Evelson de Freitas/Agência Estado)

Fontes: ESTADO/Mônica Cardoso

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