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EUA querem 'conquistar' mulheres do Afeganistão com a ajuda de fuzileiras

Marines mulheres aprendem sobre a realidade cultural do país asiático. Elas integram estratégia para ganhar 'corações e mentes' no front afegão.

Elisabeth Bumiller

Do New York Times, em Camp Pendleton, Califórnia


Numa aula recente de “conscientização cultural”, as fuzileiras americanas rabiscavam cuidadosamente anotações enquanto o instrutor as orientava sobre o que fazer e o que não fazer quando abordar moradores de vilas no Afeganistão: não comece a disparar perguntas, comece brincando com as crianças, não deixe o intérprete sequestrar a conversa.

E outra coisa: “Se usar um rabo-de-cavalo”, disse a instrutora Marina Kielpinski, “deixe-o para fora da parte de trás do capacete, para que as pessoas vejam que você é mulher”.

Essas não são as marines típicas aqui no áspero chaparral de Camp Pendleton, onde 40 mulheres jovens estão se preparando para servir no Afeganistão em um dos experimentos mais avançados do Exército americano.

O cabo Michele Greco-Lucchina lidera centro de 'estudos culturais' em Camp Pendleton, Califórnia, antes de ser mandada ao Afeganistão. (Foto: The New York Times)

Em abril, elas começarão a trabalhar como membros das primeiras equipes “de envolvimento feminino”, o nome dado pelos militares a unidades de quatro ou cinco membros que acompanharão os homens em patrulhas na província de Helmand para tentar conquistar mulheres do Afeganistão rural, que culturalmente estão fora do alcance para homens de fora.

Os times, que devem se reunir com mulheres afegãs em suas casas, avaliar sua necessidade de ajuda e coletar informações, são parte da campanha do general Stanley A. McChrystal para conquistar corações e mentes afegãos.

Suas oficiais dizem que não é possível ganhar a confiança da população do Afeganistão se só conversarem com metade dela.

“Sabemos que podemos fazer a diferença”, disse a capitã Emily Naslund, de 26 anos, oficial executiva e segunda em comando.

Como outras 39 mulheres, Naslund se candidatou como voluntária para o programa e radia exuberância, mas disse que não é inocente e sabe das frustrações e perigos pela frente. Metade das mulheres já foi posicionada, a maioria no Iraque.

“Todas nós sabemos que o que esperamos geralmente acaba não acontecendo”, disse a sargenta Melissa Hernandez, de 35 anos, que se alistou porque queria algo diferente do seu trabalho de escritório em Camp Victory, sede militar americana em Bagdá.

Como previsto, as equipes irão trabalhar como políticos americanos que fazem campanha de porta em porta para saber sobre o que os eleitores se interessam. Uma equipe deve chegar a uma vila, obter permissão do ancião para falar com as mulheres, se estabelecer numa área, entregar material escolar e remédio, beber chá, conversar e, idealmente, obter informações sobre a vila, as queixas locais e o Talibã.

Fuzileiras que vão ser mandadas ao front afegão. (Foto: The New York Times)

Qualquer que seja o resultado, as equipes refletem o quanto o exército se adaptou ao longo de nove anos de guerra, não apenas na forma como combate, mas na mudança dos papéis dos sexos em sua hierarquia. As mulheres correspondem a apenas 6% da tropa, que cultiva uma imagem associada à testosterona, e elas ainda são oficialmente barradas de ramos de combate, como a infantaria.

Mas num truque de mágica burocrático, usado pelo Exército e pela Marinha dos EUA no Iraque e no Afeganistao quando se precisou das mulheres para tarefas críticas como destruição de bombas ou inteligência, as equipes de envolvimento feminino devem ser “anexadas” a unidades de infantaria totalmente masculinas dentro da primeira Força Expedicionária da Marinha – uma fonte de orgulho e empolgação para elas.

“Quando fiquei sabendo, disse: ‘É isso, vamos lá!’”, afirmou a militar Vanessa Jones, 25 anos.

A ideia das equipes surgiu do programa “Leoa” no Iraque, que usou marines mulheres para revistar mulheres iraquianas em postos de controle. No último ano no Afeganistão, o exército e a marinha juntaram equipes de envolvimento feminino ad hoc, mas as mulheres foram apressadamente removidas de trabalhos como cozinheiras ou engenheiras.

As mulheres de Pendleton estão entre as primeiras a serem treinadas exclusivamente para a missão. “Todo marine quer sair da cerca”, disse a oficial Michele Greco-Lucchina, 22 anos, referindo-se a tarefas fora da base. “Todos nós nos alistamos por diferentes motivos, mas essa é a base de ser marine”.

As mulheres disseram não estar ansiosas pelo combate e que trabalhariam em áreas livres de militantes. Porém, numa guerra sem linhas de frente, elas frequentaram um curso de reciclagem de treinamento de combate, a fim de estarem preparadas para emboscadas e atiradores.

Nas patrulhas, as mulheres irão carregar rifles M-4, que são mais curtos e mais simples de manusear do que as M-16, o padrão militar, mas elas foram instruídas a, uma vez dentro da base afegã, com os guardas marinhos posicionados do lado de fora, sentindo segurança, remover seus rifles e tirar seus equipamentos intimidadores de guerra, ou seja, capacetes e coletes à prova de balas.

Marines durante treinamento antes da ida ao Afeganistão, prevista para março. (Foto: The New York Times)

Elas também foram orientadas a serem sensíveis aos hábitos locais de vestuário e usar lenços cobrindo a cabeça sob o capacete ou, se estiver quente demais ou incômodo, manter o lenço ao redor do pescoço e usá-los para cobrir a cabeça quando entrarem na casa e tirarem o capacete.

As fuzileirass que trabalharam com as equipes ad hoc no Afeganistão disseram que as mulheres das áreas rurais de lá, raramente vistas por pessoas de fora, tinham mais influência em suas vilas do que os comandantes homens supunham, e que a boa vontade dessas mulheres poderia tornar os afegãos em geral (homens e mulheres) menos cautelosos em relação às tropas americanas.

O capitão Matt Pottinger, oficial de inteligência baseado na capital, Cabul, que ajudou a criar e treinar a primeira equipe de envolvimento do Afeganistão, recentemente escreveu que, quando um de seus times visitou uma vila no sul do país, um homem de barba grisalha abriu sua casa para as mulheres dizendo: “Seus homens vêm para brigar, mas sabemos que as mulheres estão aqui para ajudar”.

O homem também admitiu timidamente, como Pottinger escreveu na publicação online "Small Wars Journal", que as mulheres são “boas para meus velhos olhos”.

Mulheres de zonas rurais do Afeganistão, que se encontram em poços e transmitem notícias sobre a vila, são muitas vezes repositórios de informações sobre o tecido social de um distrito, traficantes de influência e militantes, todos dados cruciais para as forcas armadas americanas.

Em algumas ocasiões, disse Pottinger em mensagem de e-mail, as mulheres fornecem informações sobre insurgentes específicos e os fabricantes de bombas.

Como parte de suas conversas com mulheres afegãs, as marines devem fazer perguntas básicas, como o problema mais difícil enfrentado pela vila. As respostas vão para uma base de dados para orientar trabalhadores militares e de ajuda humanitária. Como a instrutora Kielpinski disse às fuzileiras: “Se a população disse que o maior problema é a irrigação e sua unidade faz algo para melhorá-la, é um grande sucesso”.

Por ora, as marines continuam apreensivas sobre as incertezas que irão encontrar. A capitã Claire Henry, de 27 anos, principal comandante da equipe, disse estar preocupada, como qualquer oficial, com suas responsabilidades para com as mulheres que trabalham sob seu comando. “Estou prestes a levar fuzileiras para o caminho do perigo”, disse ela, “e no final do dia quero garantir que dei o treinamento certo e que elas estejam fisicamente e mentalmente preparadas”.

Fontes: G1- THE NY TIMES

Rodovia no Afeganistão apresenta cenas de beleza e morte

Acidentes já não assustam em estrada que liga Cabul e Jalalabad. Num único dia, 13 acidentes ocorreram em apenas duas horas.

Dexter Filkins Do New York Times, em Sarobi, Afeganistão

Mesmo num país atormentado pela guerra e bombardeios suicidas, é difícil encontrar algo tão aterrorizante quando a estrada nacional que passa por um desfiladeiro em Cabul.

O trecho de 65 quilômetros, um precipício impressionante de montanhas e abismos entre Cabul e Jalalabad, toma vidas com tanta frequência que a maioria das pessoas parou de contar há muito tempo. Carros viram e se achatam. Caminhões despencam no vale. Ônibus se arriscam e batem.

Vista da estrada que liga Cabul a Jalalabad: trecho é emoldurado por abismos de rochas a mais de 600 metros acima do rio Cabul (Foto: Moises Saman / New York Times)

O caos se desdobra num dos cenários mais encantadores do mundo. O desfiladeiro, em alguns lugares com não mais que poucos metros de largura, é emoldurado por abismos de rochas a mais de 600 metros acima do rio Cabul. A maioria das pessoas morre, e a maioria dos carros bate, enquanto passam por uma das curvas impossíveis que oferecem visões mais incríveis das fissuras e colinas.

De fato, dirigir sobre o desfiladeiro de Cabul é uma experiência especialmente afegã, uma dança complexa envolvendo beleza e morte.

“Fico aqui vendo pessoas batendo o carro o dia todo”, disse Mohammed Nabi, que vende peixe frito numa barraca ao ar livre na beira da rodovia. “O curso da história provou que o povo afegão é valentão. Por isso não dirigimos com segurança”.

Recentemente, num único dia 13 acidentes ocorreram na estrada em apenas duas horas, todos eles catastróficos, quase todos fatais. A garoa constante tornou o dia mais calamitoso que os demais.

Numa cena, uma família ensanguentada chorava por parentes presos num carro amassado. Em outra, um micro-ônibus estava esmagado sob o peso de um caminhão. Em outra cena, o fundo de um desfiladeiro estava cheio de destroços contorcidos de carros.

Mesmo com esses acidentes se espalhando por toda a rodovia, os carros passavam por eles negligentemente. Os táxis e ônibus acenavam e ultrapassavam uns aos outros em velocidades assustadoras, com milímetros separando-os de uma catástrofe sangrenta.

“A luta com o Talibã dura apenas um dia ou dois, mas os acidentes ocorrem todo dia”, disse Juma Gul, dono de uma loja de tecidos em Sarobi, olhando diretamente para a estrada. “É tipo um teatro. Às vezes, um carro voa no ar”.

A fatalidade da rodovia vem da mistura única de geografia, da própria estrada, e da indiferença dos motoristas às leis da física.

Vale de 300 metros

A estrada de duas faixas mal tem espaço suficiente para dois carros passarem. Na faixa de dentro, menos de um metro fora da janela, fica uma parede de pedras sem árvores se erguendo quase perpendicularmente. Um aparador curto protege a faixa exterior – atrás dele, o chão de um vale com 300 metros de profundidade.

Para os motoristas, é claro, isso significa que praticamente não existe margem de erro. Ou eles batem de frente para a parede de pedras, ou caem da beirada, ou os carros colidem.

A única observação de alerta é fornecida por crianças, que moram nas pobres vilas ali perto. Geralmente com 4 ou 5 anos de idade, elas ficam nas beiradas, usando garrafas verdes de refrigerante amassadas como bandeiras, acenando para os motoristas quando o caminho está livre.

Soldado afegão desvia o tráfego após colisão envolvendo três veículos que deixaram pelo menos duas pessoas gravemente feridas (Foto: Moises Saman / New York Times)

Nessas circunstâncias, você imaginaria que os motoristas deveriam agir com cautela, lentamente, se arrastando e esticando o pescoço para se proteger contra o tráfego que vem na próxima curva. Na verdade, era assim durante grande parte da história.

Ao longo dos séculos, inúmeras forças invasoras passaram pelo desfiladeiro ou ali perto a caminho da passagem de Khyber. Entre elas estava um grupo de 17 mil soldados e civis britânicos que foram massacrados quando se retiravam de Cabul no fim da primeira guerra anglo-afegã, em 1842. Dr. William Brydon, que entrou em Jalalabad a cavalo, foi o único europeu sobrevivente.

História

A estrada de Cabul a Jalalabad foi pavimentada pela primeira vez pelo governo alemão em 1960. Na década de 1980 ela foi quase totalmente destruída durante a rebelião contra a invasão soviética. Na década seguinte, quando o Talibã e outros grupos armados lutaram pelo controle do país, a estrada foi bombardeada e ficou cheia de buracos. As crateras eram tão grandes que os táxis desapareciam durante minutos e só ressurgiam quando se esforçavam para sair do outro lado.

Era uma estrada difícil e tinha seus próprios perigos - trechos da estrada muitas vezes desmoronavam -, mas a velocidade não era um deles. Isso mudou em 2006, quando um projeto apoiado pela União Europeia finalmente pavimentou toda a estrada. Agora os afegãos podem finalmente dirigir na velocidade em que quisessem.

E eles querem. Os carros passam zunindo em velocidades assustadoras, muito mais depressa do que o permitido em uma estrada semelhante no Ocidente, se houvesse uma. Como pilotos de corrida, os afegãos disparam pelas curvas mais fechadas, puxando os carros de volta para suas pistas ao primeiro sinal de um desastre iminente. Na maior parte das vezes eles se safam.

O perigo é reforçado por outros fatores. Teoricamente, o governo do Afeganistão exige que os motoristas passem por um teste para obter a carteira de motorista, mas poucas pessoas aqui possuem uma.

Fonte: G1

Especial Afeganistão: Megaofensiva da Otan no Afeganistão entra no segundo dia

Ao menos 27 militantes e dois soldados morreram. Próxima etapa se concentra na revista de casas.

Tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ocuparam a maioria da região de Marjah neste sábado (13), ao final do primeiro dia da megaoperação batizada de Mushtarak (que significa "juntos") das forças internacionais contra os insurgentes talibãs no sul do Afeganistão. Tiroteios foram registrados, e 27 militantes e dois soldados morreram. Sete civis estão feridos.

No segundo dia, a ofensiva se concentra em revistar casas. Alguns bairros concentram tiroteios. "Estamos na maioria da cidade neste momento", disse o porta-voz Josh Diddams dos fuzileiros navais. Segundo ele, a natureza da resistência mudou e os militantes estão lutando em solo em alguns bairros.

A Otan espera em poucos dias tomar o controle total de Marjah, a última cidade sob controle do Talibã e ponto chave do tráfico de ópio.

Militar americano cumpre missão na cidade afegã de Marjah (Foto: Patrick Baz/AFP)

O porta-voz da Casa Branca Tommy Vietor disse que o presidente Barack Obama está acompanhando de perto as operações.

O presidente afegão, Hamid Karzai, pediu às tropas que executassem o trabalho com "extremo cuidado para evitar danos aos civis". Em um comunicado ele também pediu aos insurgentes que usassem a oportunidade para reduzir a violência e se reintegrassem na vida civil. As forças da Otan alertaram os civis para que não saiam de casa, embora não esteja clara a intensidade que o conflito possa assumir.

A Mushtarak é a maior operação desde o começo da guerra no país, em 2001, e o grande teste da nova estratégia da Otan focada na proteção de civis. A ofensiva é também a primeira desde que o presidente Barack Obama ordenou o envio de mais 30 mil soldados americanos ao país.

A Operação Moshtarak

Correspondente da BBC em Helmand, Ian Pannell, explica o que está em jogo no Afeganistão.

"A operação Moshtarak marcará o início do fim da insurgência."

Com estas palavras, o general James Cowan, comandante das Forças britânicas na Província de Helmand, marcou o começo da maior operação militar no Afeganistão desde a derrubada do Talebã em 2001.

Milhares de soldados americanos, britânicos e afegãos, apoiados por dinamarqueses e estonianos, estão agora avançando por terra e ar em partes dos distrito de Nad Ali que há muito estavam nas mãos de insurgentes.

A bandeira do Talebã está hasteada sobre a cidade de Showal, no norte. É a sede do governo paralelo local e será um objetivo chave para as forças britânicas no norte da região, que contam com 4 mil soldados, apoiados por 1.650 militares afegãos.

A sudoeste fica a área de Marjah. Estrategistas militares acreditam que a região sirva de base para uma das maiores concentrações de insurgentes no Afeganistão e é aqui que milhares de soldados americanos estão operando.

Ajudando o povo afegão

"Logo vamos eliminar o Talebã de seus redutos no centro de Helmand. Onde chegamos, ficamos. Onde ficamos, construímos", disse o comandante Cowan.

Ele discursou para centenas de soldados reunidos numa área poeirenta, bem ao lado do local onde uma vigília acabava de ser observada em homenagem aos três últimos soldados britânicos mortos no Afeganistão.

O soldado Dale Vincent tem apenas 21 anos e já está no terceiro tour no Afeganistão. Ele sente saudades da avó que acompanha o noticiário com atenção e está sempre preocupada que Dale esteja em perigo.

Mas ele está confiante de que a Operação Moshtarak será bem-sucedida.

"Estamos ajudando o povo afegão e isso protege nosso território contra terroristas. Todos sabíamos que o Afeganistão seria perigoso antes de virmos, mas esta operação não vai ser mais perigosa que antes, é apenas algo em maior escala", diz ele.

"Casa" é a palavra mais ouvida. O soldado britânico Stephen Courtney tem um filho de dois anos e está noivo com casamento marcado para agosto.

"Eu tento não pensar nos perigos. Mal posso esperar para ir para casa e ver a família e os amigos."

Ameaça de bombas

Também há os mais jovens, os rapazes de 18 anos que não parecem ter idade suficiente sequer para estar longe da família. Rhys James é um deles.

"Tem sido assustador às vezes, mas é aí que o treinamento vem à mente", diz ele.

O que realmente o amedronta é trabalhar à frente dos batalhões, varrendo o caminho com um detector de metais em busca de bombas improvisadas, os dispositivos plantados por militantes que já mataram e amputaram tantos por aqui.

"Fazer a varredura é a parte assustadora. Pode haver uma bomba", diz Rhys.

A doutrina do comandante americano Stanley McChrystal diz que a prioridade é proteger a população e não derrotar o Talebã. Mas é claro que os insurgentes prepararam sua própria resposta à operação amplamente anunciada.

Em um aviso sombrio, o general Cowan alertou suas tropas: "Oferecemos um aperto de mão de amizade àqueles que não quiserem lutar. Aqueles que não apertarem nossas mãos encontrarão um punho fechado e serão derrotados".

Baixas são esperadas e o ministro da Defesa britânico, Bob Ainsworth, alertou à população para esperar derramamento de sangue.

"Este não é de forma alguma um ambiente seguro e não importa quanto equipamento nós ofereçamos a nossos soldados, nunca poderemos eliminar o risco dessas operações", disse ele.

Contendo o Talebã

Esta pode ser a maior operação já feita, mas é improvável que seja a última. Os militantes do Talebã já demonstraram ser capazes de evitar confronto direto, de desaparecer em meio à população sem deixar rastros, para voltar mais tarde quando e como os convier.

Os últimos nove anos viram um declínio contínuo de segurança no Afeganistão; milhares de civis e centenas de soldados das forças internacionais foram mortos e, no mesmo período, o Talebã se reagrupou e se transformou em uma poderosa guerrilha.

A missão no Afeganistão até agora fracassou em acabar com o clima favorável aos insurgentes.

De Londres a Washington, o apoio ao conflito está se dissipando e com eleições no horizonte tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos, a situação militar no Afeganistão chegou a uma encruzilhada fundamental.

Houve vitórias importantes em regiões como Garmsir e Nad Ali, mas as forças internacionais fracassaram até agora em controlar áreas suficientes para conter o Talebã. Este é o principal desafio.

Moshtarak significa "juntos" e é a primeira operação em que forças afegãs dividem o peso do combate.

Isso tornará necessário que as forças afegãs preencham o vácuo de segurança e mantenham o Talebã longe. Aí então, os locais devem ser persuadidos a colaborar com o governo.

Esta operação é a maior já realizada neste conflito e também a mais ambiciosa. No fim, ela pretende levar a algo que a maioria dos afegãos jamais conheceu: paz.


Talibã é fruto de vácuo de poder após anos de conflito no Afeganistão

Grupo islâmico radical surgiu em 1994 e tomou Cabul em 1996. Durante seu governo, direitos foram suprimidos, e o país se fechou.

Imagem de 1998 mostra soldados talibãs aguardando para lutar contra milícias opositoras em Bagram (Foto: AFP)

Até os atentados de 11 de Setembro de 2001, quase ninguém tinha ouvido falar nos militantes islâmicos radicais do Talibã, em Osama bin Laden e no papel que eles ocupavam no Afeganistão. A tragédia americana voltou os olhos do mundo para a árida região montanhosa da Ásia central e seus protagonistas, que lutam há séculos pelo controle do país islâmico.

Mas, afinal, quem está por trás do Talibã? Como o grupo surgiu e por onde anda agora, depois da tomada do país pelas tropas americanas em 2001?

Em março deste ano, o presidente Barack Obama afirmou que o combate ao Talibã e à al-Qaeda no Afeganistão e no Paquistão passaria a ser prioridade dos EUA, tirando o foco da luta antiterrorismo do Iraque. Em julho, as tropas lideradas pelos EUA iniciaram uma grande ofensiva contra o movimento na província de Helmand.

Saiba mais sobre os radicais islâmicos que governaram o Afeganistão por cinco anos e que, segundo os norte-americanos, ainda são uma ameaça à segurança do Ocidente.

Histórico

O Talibã surgiu em um momento de lutas internas dentro do país. Voltando um pouco no tempo: o Afeganistão foi unificado em 1747 e foi motivo de briga entre os impérios britânico e russo até sua completa independência, em 1919. Após experimentar a democracia, um golpe em 1973 inaugurou um período de conflitos que dura até hoje no país. Em 1978, um contragolpe comunista estabeleceu a República Democrática do Afeganistão.

De olho no país, a ex-União Soviética invadiu o território no ano seguinte, com 30 mil homens e ajudou os comunistas numa luta ferrenha contra os rebeldes tribais muçulmanos. O número de soviéticos no país chegou a 115 mil, e, nessa época, muitos refugiados foram para o Paquistão e para o Irã.

As guerrilhas rebeldes, conhecidas como Mujahideen (‘santos guerreiros’), não estavam unidas, e de nada adiantava a ajuda em armas e dinheiro enviada pelos EUA aos guerreiros, que estavam concentrados em sua maioria no Paquistão.

Foto de 1997 mostra afegãs cobertas pela burca - que já era um costume na região em épocas anteriores ao Talibã (Foto: Stefan Smith/AFP)

A saída dos soviéticos ocorreu em 1989, mas as diferenças entre os grupos fizeram com que a guerra civil continuasse. Em 1992, os Mujahideen tomaram o poder, e um acordo permitiu a governança até 1994, quando a crise entre as diferentes facções guerreiras explodiu novamente.

Ao mesmo tempo, no sul do Afeganistão, surgiu um outro grupo militante, liderado por Mullah Mohammed Omar e que envolvia aprendizes do Islã sunita que pegavam em armas: o Talibã.

Ele logo conquistou as cidades de Kandahar e Charasiab.

“Após ter conquistado Kandahar, eles entenderam as misturas sociais e étnicas da região e tentaram manipular essas diferenças étnicas para seus ganhos políticos e militares. Eles davam recompensas a quem cooperava e puniam quem ia contra eles. [...] Usavam armas roubadas e ajuda externa militar na formação de seu exército”, escreveu Neamatollah Nojumi no livro "The rise of the Taliban in Afghanistan" (A ascensão do Talibã no Afeganistão, Inédito em português).

Com financiamento paquistanês, eles foram derrotados na primeira tentativa de conquistar Cabul, mas continuaram os bombardeios à cidade, tomando-a por completo em setembro de 1996 e impondo um governo islâmico radical no país.

Apogeu e convivência com a al-Qaeda

Num país assolado por anos seguidos de guerras, a rigidez do Talibã trouxe uma certa calmaria à região. A maioria dos líderes tribais havia sido derrotada, e seus líderes foram enforcados. A população foi desarmada, e as ruas foram desbloqueadas, facilitando o comércio.

O grupo aplicou no país uma interpretação rígida da Sharia, a lei islâmica. Logo as escolas de meninas foram fechadas, e as mulheres foram proibidas de deixar suas casas até para fazer compras. Fontes de entretenimento como música, TV e esportes também foram banidas.

Na esquerda, foto de 1997 mostra uma das estátuas de Buda datadas dos séculos II e V, na província de Bamiyan. Eram os maiores monumentos do tipo, com cerca de 53 metros. Na foto da direita, de 2008, o local aparece sem o Buda, destruído em 2001 por ordem de Mullah Omar (Foto: Jean Claude-Chapon e Shah Marai/AFP)

A aproximação com o líder da rede terrorista da al-Qaeda, Osama bin Laden, não tardou. A princípio um opositor do Talibã, Bin Laden mudou de lado após um encontro com Mullah Mohammed Omar em 1996. Com o apoio de Omar, sua al-Qaeda estava segura para agir no Afeganistão.

“O Talibã teve inigualável sucesso, pois implementou uma teocracia austera e puritana às quais desejavam a al-Qaeda e outro grupos jihadistas. Apesar de só ser reconhecido por três países (Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita), o minicalifado sob ordens de Mullah Omar reinou a vontade para realizar seus experimentos entre 1996 e 2001”, escreveu Abdel Bari Atwan no livro "Historia secreta da al-Qaeda".

Queda e dispersão

E o controle do território foi aumentando até que, pouco antes da invasão americana, em 2001, o Talibã controlava 90% do Afeganistão - embora nunca tenha sido reconhecido pela ONU. Aliás, os únicos países que reconheciam o governo eram a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Paquistão.

New York Times: Afeganistão é desafio para a Otan

O fim da administração do Talibã no Afeganistão está vinculado aos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. O presidente americano à época, George W. Bush, revidou com uma invasão ao país que dava abrigo à rede al-Qaeda, responsável pelos ataques. Paquistão e Arábia Saudita se tornaram aliados na luta ao terror, e os talibãs continuaram a sua luta armada, agora na clandestinidade.

A guerra destituiu os radicais e impôs um novo governo ao país. Até hoje, as tropas americanas lutam contra a insurgência que se divide em diferentes grupos opositores - entre eles, o Talibã.

Em outubro de 2007, uma reportagem do jornal "The New York Times" estimou que o grupo tinha 10 mil combatentes, embora apenas 3 mil fossem soldados exclusivos.

O Talibã que hoje luta no Paquistão foi organizado de maneira distinta que o grupo que atuou no Afeganistão, emergindo em 2002 após ataques do Exército a regiões tribais. Hoje, o Paquistão empenha sua máxima força na luta contra os talibãs no vale do Swat.

Fontes: G1 -  BBC / Ian Pannell

EUA precisam ter 'estratégia de saída' do Afeganistão, diz Obama

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que as forças militares não poderão terminar a guerra no Afeganistão sozinhas, e sugeriu que uma "estratégia de saída" das tropas pode fazer parte de uma nova política mais ampla que ele espera apresentar em breve.

Obama, que foi entrevistado no domingo pelo programa da rede de TV CBS "60 minutes", apresentou uma prévia geral do que seria provável de acontecer numa revisão bastante aguardada da estratégia dos EUA no Afeganistão e no vizinho Paquistão.

Ele deixou claro que sua nova abordagem dará grande ênfase ao desenvolvimento econômico do Afeganistão, intensificará os laços diplomáticos com o Paquistão e terá uma melhor coordenação com parceiros internacionais do que foi com o seu predecessor, George W. Bush.

"O que não podemos fazer é pensar que apenas uma abordagem militar no Afeganistão é capaz de resolver nossos problemas", disse Obama. "Então, o que estamos buscando é uma estratégia mais ampla. E terá que ser uma estratégia de saída... Precisa haver um sentimento de que não é uma operação perpétua."

Obama criticou Bush por ter promovido a invasão do Iraque em 2003 sem um plano de retirada das forças norte-americanas, e por ter deixado que a guerra do Iraque o distraísse do Afeganistão, onde o Taliban se reagrupou.

Em sua primeira grande viagem ao exterior desde que tomou posse em 20 de janeiro, Obama encontrará líderes da Otan no encontro dos dias 3 e 4 de abril, em Estrasburgo, onde o conflito no Afeganistão será um dos principais tópicos entre os assuntos discutidos.

Obama está modificando o foco dos EUA da impopular guerra do Iraque para o Afeganistão, onde a violência atingiu o mais alto nível desde que as forças lideradas pelos EUA derrubaram o Taliban, em 2001.

Ele admitiu que os Estados Unidos e seus aliados não estão vencendo no Afeganistão, e ordenou o envio de mais 17 mil tropas para combate, além das 38 mil que já estão lá para ajudar a combater o ressurgente Taliban e estabilizar o país.

(Reportagem de Matt Spetalnick)

EUA querem nomear premiê afegão para conter Karzai

Os Estados Unidos e seus aliados europeus querem criar o cargo de primeiro-ministro no Afeganistão por conta do descontentamento com a gestão do presidente afegão, Hamid Karzai, por conta da corrupção e da incapacidade de governo do líder. Segundo afirma a edição desta segunda-feira, 23, do jornal britânico The Guardian, a criação de um posto para um novo chefe do Executivo ou com papel de premiê pretende reduzir o poder de Karzai e propor que a verba arrecadada pelo governo seja repassada diretamente às províncias.

Segundo o jornal, muitos funcionários europeus e americanos expressaram sua decepção com a corrupção e a incompetência que atribuem ao governo de Karzai. Além disso, o Ocidente não vê nenhuma outra alternativa e acredita que o presidente será reeleito nas eleições de agosto deste ano. O Guardian afirma que os EUA e os europeus querem revisar as atribuições de Karzai, o que será discutido durante a conferência sobre o Afeganistão, prevista para 31 de março em Haia, na Holanda, para a qual Irã e Paquistão foram convidados.

"Karzai não está cumprindo. Se temos que seguir apoiando seu governo, este terá que funcionar de modo adequado e garantir que os níveis de corrupção diminuam. Os níveis de corrupção no país são assustadores", afirmou um diplomata ao jornal. Outra fonte diplomática afirmou que são estudadas outras alternativas para a substituição de Karzai, mas que foram exploradas e descartadas porque nada poderia garantir que o resultado para o país seria "dez vezes pior".

A ideia de uma figura de alto posto Executivo trabalhando com Karzai seria uma das propostas da Casa Branca durante a revisão da estratégia para o Afeganistão. Obama deve falar publicamente nos próximos dias sobre detalhes do novo foco, inclusive sobre o novo papel do presidente afegão. Outras recomendações para a revisão do conflito no Afeganistão seria o aumento de soldados afegãos de 65 mil para 230 mil, assim como 80 mil oficiais de uma força policial; mandar mais civis americanos e europeus para a reconstrução da infraestrutura do país e aumentar o apoio ao Paquistão como parte da polícia para o persuadir no combate contra a Al-Qaeda e o Taleban no país.

A proposta de um chefe do Executivo alternativo é apoiada pelos europeus. "É preciso descentralizar o poder", afirmou um alto oficial da UE. "Precisamos de alguém próximo de Karzai, um tipo de chefe do Executivo". Poder e dinheiro ficariam menos nas mãos dos ministros em Cabul e mais com oficiais e comandam o país fora da capital, nas províncias afegãs. "O ponto em que insistimos é que a hora agora é de promover uma nova divisão de responsabilidades, entre o poder central e os poderes locais", afirmou o oficial europeu.

No programa 60 Minutes exibido neste domingo, Obama confirmou que seu governo fará uma revisão da estratégia para o Afeganistão e o Paquistão - aliado-chave dos EUA na guerra contra o terror, mas que também enfrenta violência de militantes do Taleban -, com base nas recomendações de funcionários americanos de alto escalão e consultas com aliados.

Saída do Afeganistão

O presidente americano disse ainda no programa que as Forças Armadas não conseguirão, sozinhas, resolver a situação no Afeganistão e os Estados Unidos precisam ter uma "estratégia de saída" para suas tropas. "O que nós não podemos fazer é pensar que apenas uma abordagem militar no Afeganistão será suficiente para resolver nossos problemas", disse ele. "Então, o que estamos procurando é uma estratégia abrangente. E terá de haver uma estratégia de saída. Devemos entender que esta não é uma ação perpétua."

Obama tem paulatinamente mudado o foco das atenções militares americanas do Iraque para o Afeganistão, onde a violência cresceu ao nível mais alto desde o começo das operações americanas no país, em 2001. O presidente americano se reunirá com os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), entre os dias 3 e 4 em Estrasburgo, na França, onde apresentará uma revisão completa da estratégia para o Afeganistão. O número de soldados no Afeganistão deverá ser o principal tema de discussão. Obama quer enviar mais 17 mil soldados ao país, que se somarão aos atuais 36 mil.

Opção militar no Afeganistão é ineficaz, diz ministro iraniano

O ministro de Assuntos Exteriores iraniano, Manouchehr Mottaki, pediu nesta segunda-feira, 23, à comunidade internacional para que respeite os desejos do povo afegão, se quiser realmente contribuir para resolver os problemas do Afeganistão, e que se esqueça da opção militar, já que provou ser ineficaz.

Em declarações divulgadas nesta segunda pela televisão iraniana, Mottaki estabeleceu as bases sobre qual será a postura do Irã se decidir aceitar o convite dos Estados Unidos para participar da cúpula internacional sobre o Afeganistão, prevista para finais de março.

"As reuniões que vão acontecer em Roma e Haia devem se concentrar nos desafios que realmente ameaçam o Afeganistão, devem respeitar o desejo do povo afegão e o valor de suas tradições", afirmou Mottaki. "Após sete anos, a comunidade internacional e os países do Ocidente, em particular, devem compreender que a opção militar no Afeganistão não deu frutos. Ficou comprovado que, só levando em conta os desejos e a dignidade do povo afegão, serão alcançados os resultados", acrescentou.

No dia 6, e em um gesto de aproximação sem precedentes, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, convidou o Irã a participar da citada cúpula, após anos de isolamento do regime dos aiatolás. O Irã ainda não respondeu, mas analistas na região acreditam que o país comparecerá ao evento. No mês passado, o presidente Barack Obama anunciou um reforço de 17 mil homens para a missão no Afeganistão, devido ao aumento da violência.

Rebeldes forçam afegãos a dar-lhes abrigo e comida

Pressionados pela miséria, deslocados chegam a receber até US$ 400 por mês do Taleban por esconderijo

Adriana Carranca


Crianças do assentamento de Charahi Sarai: sem água nem luz durante o frio. Foto: Adriana Carranca/AE

CABUL - Cansado do fogo cruzado na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, Wasqa, de 28 anos, subiu num caminhão com a mulher, os cinco filhos, US$ 100, cobertores e latas de comida e atravessou 700 quilômetros até a capital, Cabul. Estima-se que 235 mil afegãos tenham abandonado suas casas desde a intensificação dos conflitos nas províncias do sul e leste do Afeganistão, epicentro da insurgência dos taleban. Sem emprego, dinheiro ou lugar para morar, eles se tornam refugiados no próprio país.

Num único distrito, Lashkar Gar, na Província de Helmand, 23 mil pessoas deixaram suas casas. Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, além do fogo cruzado e dos bombardeios, que em 2008 mataram 2.118 civis, 40% a mais do que no ano anterior, os afegãos são forçados a alimentar e dar abrigo aos taleban, seja sob ameaça ou pela miséria. Os insurgentes chegam a pagar US$ 400 por mês pela ajuda, segundo um médico afegão que atende em áreas onde há insurgência. As famílias passam, então, a ser alvo das forças britânicas que patrulham a área com 7 mil soldados. Ameaçados por todas as partes, eles fogem.

A crise atingiu na mesma medida o Paquistão. Desde que os bombardeios se intensificaram, em agosto, no norte de Peshawar, região da Fata (agência que administra as áreas tribais paquistanesas), refúgio da Al-Qaeda e de comandos taleban, outras cerca de 260 mil pessoas teriam migrado para a Província da Fronteira Noroeste. Jalalozai, o maior campo de refugiados afegãos até ser fechado em 2008, voltou a receber gente. Todos os dias, cerca de 500 pessoas chegam ao assentamento, que já não tem infraestrutura para recebê-los.

Organizações humanitárias temem que a decisão do presidente americano, Barack Obama, de enviar mais 17 mil soldados ao Afeganistão e de pedir mais tropas à Otan intensifique ainda mais os conflitos e, em consequência, a migração interna. Ontem, a organização de direitos humanos Anistia Internacional fez um apelo à Casa Branca para que defina uma estratégia de atendimento aos desalojados. "A solução militar não pode ser o único foco dos Estados Unidos", disse o diretor da organização para a Ásia Pacífica, Sam Zarifi.

A maioria dos afegãos migra para Cabul, onde a segurança ainda é melhor do que em outras áreas - apesar dos recentes ataques suicidas desfechados pelo Taleban na capital - e há mais oportunidades de trabalho do que nas zonas rurais. Como quase todos os refugiados, Agha Guld, de 37 anos, faz biscates na área do assentamento Charahi Sarai, noroeste de Cabul, onde vive com a mulher, Shamila, de 25 anos, e quatro filhos, de entre 2 e 8 anos, sob uma tenda de plástico. Guld oferece-se para lavar carros - três ou quatro lhe rendem 120 afeganes (US$ 2,40) - ou descarregar caminhões no mercado de Sabzi, serviço pelo qual recebe entre 50 e 100 afeganes (US$ 1 e US$ 2 por dia).

Cerca de 770 famílias, ou 4.600 pessoas, vivem no Charahi Sarai em condições precárias, sem água, coleta de lixo ou energia para suportar as temperaturas abaixo de zero de Cabul. No inverno passado, 750 afegãos morreram, segundo o governo. "A minha filha se foi aos 23 anos. Morreu de frio", diz Parrigol, que vive no assentamento. A Agência da ONU para Refugiados distribuiu tendas e cobertores para as 31.897 famílias afegãs desalojadas.

Guantánamo afegã põe presos no limbo

Base americana de Bagram mantém 630 suspeitos de terrorismo detidos sem acusação nem direito a visitas


Khalid conversa por videoconferência com filho detido na Base de Bagram. Foto: Adriana Carranca/AE

CABUL - Vinte meses depois do desaparecimento do filho, Khaliq, de 60 anos - que, como muitos afegãos, não tem sobrenome -, teve a chance de vê-lo novamente. Por meio de uma tela de TV. Num sábado, o filho ia de Sangin para Nad Ali, distritos distantes poucos quilômetros, na Província de Helmand, para uma reunião com agricultores. Nunca mais voltou. Ele está preso desde então na base aérea americana de Bagram, uma hora de carro ao norte de Cabul. Como os outros parentes dos presos de Bagram, Khalid não fora avisado sobre o paradeiro do filho e nunca soube o motivo de sua prisão.

Suspeitos de terrorismo, os presos de Bagram são mantidos isolados, alguns estão lá há seis anos, sem visitas ou benefícios legais. Pelo menos dois presos morreram em 2002 - estavam acorrentados em pé e tinham marcas.

Bagram é a Guantánamo de Barack Obama. Embora o presidente dos EUA tenha anunciado o fechamento da prisão na base americana em Cuba, a Casa Branca tem um plano de US$ 60 milhões para quase dobrar a capacidade de Bagram, hoje com 630 presos. Em Guantánamo restaram 240. Em 2004, a Suprema Corte dos EUA deu aos presos de Guantánamo direito a advogados e julgamento. Os de Bagram não têm nem uma coisa nem outra.

Representados pela organização International Justice Network, de Nova York, quatro detentos de Bagram pedem direito a habeas-corpus.

Eles teriam sido capturados fora do Afeganistão. O juiz da Corte Distrital de Columbia, John Bates, deu prazo até amanhã para que Obama reveja os direitos dos quatro presos. "Exceto pela localização, eles não são diferentes dos presos em Guantánamo", escreveu. Os advogados da gestão George W. Bush argumentavam que Bagram era diferente porque a maioria dos presos foi pega em combate. E libertá-los representaria perigo. Mas os EUA são acusados de enviar não-afegãos suspeitos de terrorismo para Bagram desde que alguns privilégios foram concedidos a presos de Guantánamo.

Em janeiro, Obama criou uma força-tarefa para rever, em seis meses, a política para os presos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) defende que os presos de Bagram tenham todas as garantias legais. Enquanto aguarda, tenta convencer os EUA a, pelo menos, permitir visitas.

Em setembro, os EUA autorizaram o uso de teleconferência, já testado no Iraque. O CICV também promove a troca de cartas, mas a maioria dos afegãos é analfabeta. Das 18 famílias presentes no dia em que o Estado acompanhou o programa, 3 assinaram o livro de visitas. O restante deixou a digital do polegar pintado de azul - não sabem escrever o próprio nome.

Centenas de famílias têm cruzado o país para falar com filhos, pais, maridos ou irmãos nos 20 minutos permitidos - longos para quem antes não tinha nada, curtos para quem tem saudade. Foram mais de 1.800 ligações. Parentes acomodam-se, ansiosos, em três cabines com monitor de TV e telefone, na sede do CICV em Cabul. A organização paga a viagem. Khalid não teria os 100 afeganes (US$ 2) para o ônibus até Helmand.

Quando a imagem do filho aparece na TV, Khalid gruda o telefone na orelha, arregala os olhos e aproxima o rosto envelhecido na tela, como se quisesse ficar mais perto. As emoções variam entre alegria e frustração. "Por que isso aconteceu? Nunca houve crime na família", diz.


Delação de vizinhos

Emocionado, Khalid passa o telefone ao neto, Hamidullah, que não via o pai desde que tinha a metade de seus 5 anos. "O que você está fazendo aí?", perguntou, confuso. A maioria vem de zonas rurais miseráveis, onde não há TV nem luz. Amullah, de 27 anos, acredita que o irmão foi delatado por vizinhos: "É a miséria... Os afegãos estão brigando por comida, dando falsas informações aos americanos, entregando seus irmãos por um punhado de ?nan? (pão)."

O telefone volta para Khalid e ele quer saber se o filho tem permissão para rezar. Mas se cala. Tem medo de que a ligação seja cortada. Os americanos monitoram a conversa e proíbem assuntos fora do círculo familiar, em especial sobre as condições na prisão. O diálogo segue banal. Na saída, Khalid desabafa: "Ficamos quatro meses sem notícias. Achei que ele tinha sido sequestrado. Até hoje não sei qual é a acusação contra meu filho", diz. "O Taleban, esse governo... Não estamos felizes com nenhum deles. Só sabem defender interesses próprios. "

No Afeganistão, quando o pai está ausente é o filho mais velho, e não a mãe, quem assume a casa. Aos 14 anos, o filho de Dawood, um mulá preso quando conduzia a reza na Província de Khost, sustenta oito irmãos e a mãe. "As forças de coalização invadiram a casa e levaram os homens", conta Abdul Wodad, de 40 anos, irmão de Dawood. "Não temos boas lembranças dos taleban, mas a situação atual é agonizante. Prisões sem acusação, bombardeios contra civis, corrupção. Ninguém se importa com o povo afegão."

Mohamed Kamin, de 42 anos, leva pela primeira vez a mãe para ver o irmão, Mujadadi, preso há 25 meses. A família veio de Jalalabad. "Como você está sobrevivendo, meu filho?", pergunta. Ela chora quando ele some da tela.

"A videoconferência é um passo importante para assegurar contato entre os presos e as famílias", diz Franz Rauchenstein, chefe do CICV no Afeganistão. "Mas nada pode substituir o direito a visitas." O CICV também monitora a condição de 13 mil presos pelas autoridades afegãs e tropas da Otan - eram 5 mil em 2006. Estão em celas com capacidade para apenas 25% deles.

PRESÍDIO NA BASE AÉREA

630 suspeitos estão detidos em Bagram - em Guantánamo, são 240 presos

US$ 60 milhões é o orçamento planejado pela Casa Branca para dobrar a capacidade da prisão afegã

Matéria Especial: Afeganistão se converte na guerra de Obama

País se consolida como um santuário do terror islâmico e um atoleiro político e militar

Adriana Carranca


Cotidiano da cidade de Cabul, capital do Afeganistão. Foto: Adriana Carranca/AE

CABUL - Aos pés da Cordilheira de Hindu Kush, norte de Cabul, 38 cavaleiros disputam como bárbaros a carcaça de uma cabra sem cabeça, em uma partida de buzkashi - esporte nacional praticado desde os tempos de Gengis Khan. O sangue escorre, tingindo a terra, enquanto os homens tentam derrubar os adversários e dominar o bicho morto. É um jogo bélico. Numa metáfora da guerra, os afegãos dizem que o animal inerte é o próprio Afeganistão, dilacerado por contínuos conflitos.

Seu controle é disputado à força e por jogadores demais: tribos e clãs divididos em etnias, os taleban e seus aliados da Al-Qaeda, as 41 nações cujas forças internacionais ocupam o país, além de potências regionais como Irã, Paquistão e Índia.

Vencer ou não esse jogo definirá o legado diplomático e militar do governo americano de Barack Obama. Subestimada por seu antecessor, George W. Bush, em prol do Iraque, esta é a guerra de Obama. E a menos que haja uma mudança de rumo no país, alertam militares e estrategistas, o Afeganistão poderá se tornar o seu Vietnã. O general David Petraeus, chefe das operações no Afeganistão e Paquistão, a quem é atribuído o mérito de virar o jogo no Iraque, alertou o presidente que o Afeganistão será sua "mais longa campanha na longa guerra contra o extremismo islâmico".

Enviado especial de Obama ao Afeganistão e Paquistão, o veterano Richard Holbrooke, ex-embaixador americano na ONU e arquiteto dos Acordos de Dayton, que puseram fim à guerra na Bósnia, prevê que sua missão será "mais difícil do que no Iraque".

No oitavo ano da invasão, o cenário é hoje pior do que o de ontem. Há uma semana, 27 afegãos morreram no mais audacioso ataque do Taleban em pleno coração de Cabul, quando extremistas islâmicos invadiram o Ministério da Justiça e outros prédios públicos.

Reforço de soldados

Obama autorizou ontem o envio de mais 17 mil soldados. O objetivo é mandar um total de 30 mil, dobrando seu efetivo - medida vista como paliativo até o desenho de uma nova estratégia para o país. "Quem pergunta por que ainda não vencemos desconhece que o país tem 650 quilômetros quadrados de montanhas. Militarmente, é impossível dominar todo o território. Existem áreas a 50 km de Cabul onde ainda não estivemos", desabafou, em entrevista ao Estado, o porta-voz da ISAF (as forças de coalizão subordinadas à Otan), general Richard Blanchette.

Com o reforço, as tropas estrangeiras teriam pouco mais de 90 mil homens. "No Iraque, com território 50% menor do que o Afeganistão e cinco vezes mais rodovias pavimentadas, EUA e aliados chegaram a ter mais de 130 mil. É claro que precisamos de mais soldados", disse o porta-voz do Ministério da Defesa afegão, general Zahir Azimi.

As forças afegãs contam com 88 mil oficiais mal pagos, corruptíveis e despreparados - o contingente deve aumentar em cinco anos para 134 mil, mas seu treinamento leva mais tempo do que no Iraque simplesmente porque os soldados, assim como três quartos dos afegãos, são analfabetos.

No ano passado, os EUA conduziram 3.572 ataques aéreos. Em 2004 foram 86. A ofensiva foi responsável por dois terços dos 2.118 civis mortos em 2008, entre os quais mulheres e crianças - 40% a mais do que em 2007 -, segundo as Nações Unidas. "Cada civil morto pelas forças de coalizão nos rende uns três novos insurgentes e alimenta a antipatia dos afegãos contra os estrangeiros", disse Azimi.

O ano passado foi o mais sangrento também para os militares. Mil soldados afegãos e 290 estrangeiros morreram em combate, segundo o site independente icasualties.org. Destes, 150 eram americanos - pela primeira vez, os EUA perderam mais homens durante o ano no Afeganistão do que no Iraque.

"A mudança de foco dos EUA do Iraque para o Afeganistão veio tarde demais", disse o ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Taleban Wahhed Muzhda, hoje analista e escritor. "Os taleban não têm mais uma agenda de integração nacional. Eles aderiram a um movimento pan-islâmico e agora querem que os americanos saiam não apenas do Afeganistão, mas do Iraque e da Arábia Saudita."

Para afegãos que alimentavam esperança de paz e prosperidade com a invasão americana - celebrada nas ruas de Cabul - estes são dias de desespero. O presidente Hamid Karzai tem grande culpa nisso. De líder promissor, ele é hoje citado nas rodas de Cabul como um presidente ineficiente no comando de um governo corrupto contaminado por senhores de guerra - ex-mujahedin que ajudaram a expulsar os taleban e hoje ocupam cargos oficiais - acusados de ligações com o narcotráfico. O Afeganistão segue mergulhado na miséria, onde 70% da população vive com US$ 1 por dia e a expectativa de vida é de 44 anos.

Obama terá de persuadir o Paquistão a deixar de ser o paraíso de terroristas e assegurar estabilidade regional com a Índia. E lidar, ainda, com a China, que se tornou a maior investidora no Afeganistão, a Arábia Saudita, de onde fluem petrodólares para os terroristas, e o Irã.

Como num buzkashi, o sucesso depende de um difícil balanço entre o uso da força e a capacidade de enxergar e compreender os movimentos dos diferentes jogadores em meio ao caos. Um jogo complicado, mas que Obama não pode se dar ao luxo de perder. "Na visão dos extremistas, o mundo islâmico não estará seguro enquanto os americanos não forem derrotados. E o melhor lugar para se conseguir isso hoje é o Afeganistão", diz Muzhda. "Se vencer aqui, a Al-Qaeda terá vencido no mundo."

'Emirado Islâmico afegão'


Foto: Adriana Carranca/AE

Entre os afegãos, a sensação é de déjà-vu. Radicais de barba longa e turbante negro circulam espalhando o terror em picapes, rifles AK-47 em punho. Impõem regras próprias e decidem o destino dos cidadãos em tribunais conduzidos por mulás, com base na sharia, a lei islâmica.

Relatório publicado em janeiro pelo Conselho Internacional em Segurança e Desenvolvimento apontou que os taleban voltaram a dominar 72% do território - em 2007, controlavam 54%. Isso significa que a maior parte das províncias funciona à revelia do governo de Hamid Karzai e das forças de coalizão. Nelas, o país tem outro nome: Emirado Islâmico do Afeganistão.

"Na minha área, os taleban mandam, nomeiam juízes para aplicar a sharia e ameaçam matar quem ousar trabalhar para o governo, considerados infieis", disse Ahmad Munir, que vive em Barakibarak, na Província de Logar, a apenas 50 km de Cabul. Os radicais controlam estradas, vistoriam carros à procura de "infieis", cobram pedágio de caminhões e bloqueiam a ajuda humanitária.

Enquanto os EUA desviavam militares e dólares para derrubar Saddam Hussein, o comando do Taleban teve tempo de se reorganizar no Paquistão, onde a Al-Qaeda estaria refugiada. Aderiu ao movimento pan-islâmico e se alinhou à organização, assimilando táticas conhecidas do terrorismo internacional, mas não vistas no Afeganistão até recentemente: sequestros e ataques suicidas.

Beneficiados pela frustração e miséria dos afegãos, eles recrutaram no ano passado homens-bomba para 123 atentados. Com os sequestros, negociam a libertação de presos e resgates milionários. Desde a morte de Ajmal Naqshbandi , a imprensa fez um pacto de silêncio para não prejudicar as negociações. A portas fechadas, fala-se em 70 reféns estrangeiros e afegãos, entre eles um conhecido jornalista americano.

Analistas acreditam que o sucesso da insurgência se deve à capacidade do Taleban de manter um comando central coeso. Quando as forças de coalizão lideradas pelos EUA tiraram os taleban do poder, em 2001, eles se dividiram. O comando atravessou a fronteira e sumiu com Osama bin Laden em algum ponto das montanhas e áreas tribais entre o Afeganistão e o Paquistão - acredita-se que o líder taleban, mulá Omar, opere da cidade de Quetta. Ao longo dos anos, ele teria investido em retomar as relações com as tribos pashtuns, etnia dos taleban, e militantes de segundo escalão que haviam voltado a seus vilarejos. Aos poucos, transferiu armas, expertise e dinheiro a eles.

Parte de seu financiamento vem do ópio. Mas também de doadores árabes como os wahabitas (a ala mais radical do Islã), da Arábia Saudita. "Durante seu governo, entre 1996 e 2001, o Taleban tinha pouco contato com a política internacional", diz Waheed Muzhda, que chegou a fazer parte do Ministério das Relações Exteriores dos radicais. "Só havia internet na minha sala e na do mulá Omar. Hoje, eles se comunicam com o mundo."

Os taleban atraíram aliados como os mujahedin Gulbuddin Hekmatyar e Jalaluddin Haqqani. Beneficiados com dinheiro e armas da CIA para expulsar os soviéticos que ocuparam o Afeganistão entre 1979 e 1989, eles se uniram contra a ocupação americana. Com bons contatos no mundo árabe, Haqqani seria o elo dos radicais com a Al-Qaeda . O mujahedin é acusado de recrutar e treinar cerca de 2 mil terroristas estrangeiros para a jihad no Afeganistão, com a ajuda do serviço secreto do Paquistão.

Mesada


Além de um mercado para seus produtos, o Paquistão tem no Afeganistão a rota para a Ásia Central. "O fim do Taleban significaria o fim da mesada americana", disse um diplomata ocidental em Cabul.

No rastro do avanço dos taleban, parte do governo considera negociar com os radicais. Os analistas são céticos. Primeiro, porque, desmoralizado e sem o controle da segurança, Karzai está numa posição desfavorável de barganha. Depois, porque os radicais exigem a saída das forças estrangeiras e, com eles, os dólares da CIA.

Para analistas, a saída das forças estrangeiras levaria o país, no curto prazo, a uma guerra civil, como ocorreu quando os russos saíram. Sem um governo central forte e armados até os dentes, os mujahedin viraram-se uns contra os outros. Os intensos ataques entre 1992 e 1996 deixaram milhares de mortos e um vácuo rapidamente preenchido pelos taleban - filhos de refugiados do regime soviético, tirados de suas famílias e treinados nas madrassas da fronteira do Paquistão para a jihad contra os invasores. Cansados dos conflitos e afundados na miséria, os afegãos aceitaram os jovens religiosos, que prometiam restabelecer a ordem.

A retórica ainda hoje encontra eco. Frustrados com a corrupção do governo, a falta de ajuda e a incapacidade das forças de coalizão de defendê-los, muitos afegãos acreditam que a ordem imposta pelos taleban é melhor do que nenhuma. E a história se repete.


30 ANOS DE VIOLÊNCIA


1979 - URSS invade o Afeganistão. Acusado de colaborar com os EUA, presidente Hafizullah Amin é executado

1980 - Babrak Karmal, aliado de Moscou, assume; mujahedin (combatentes islâmicos), armados pela CIA, aumentam ataques

1986 - Karmal é substituído por Mohamad Najibullah

1989 - Soviéticos retiram-se do país, mas conflitos continuam

1992 - Najibullah cai; mujahedin se dividem e o Afeganistão mergulha em uma guerra civil

1996 - Taleban toma Cabul e institui governo islâmico

1998 - Washington bombardeia supostos refúgios da Al-Qaeda - acusada por atentados contra embaixadas dos EUA no Quênia e Tanzânia - no Afeganistão

1999 - ONU impõe embargo para forçar Cabul a entregar Osama bin Laden

Março de 2001 - Talebans destroem estátuas gigantes dos Budas de Bamiyan

Setembro de 2001 - Ahmad Masood, líder da oposição ao Taleban, é assassinado. Após ataques de 11/9, EUA e Grã-Bretanha atacam Afeganistão

Dezembro de 2001 - EUA ocupam Cabul e o Taleban cai; Hamid Karzai assume o poder

2004 - Nova Constituição é aprovada; Karzai é eleito presidente com 55% dos votos

2005 - País realiza pela primeira vez eleições parlamentares e provinciais

2006 - Otan assume o controle da segurança em todo o país

2007 - Líder taleban Mullah Dadullah morre em combate

2008 - Taleban libertam 350 insurgentes de prisão em Kandahar; ataque suicida mata 50 na Embaixada da Índia

2009 - Obama nomeia Richard Holbrooke seu enviado para região e pede nova estratégia para guerra; Taleban ataca três ministérios, matando 27

O mercado das pulgas de Cabul chama-se Bush Market...


Foto: Adriana Carranca/AE

e vende suplementos nutricionais, rações militares, roupas e artefatos usados por soldados americanos e roubados da base aérea de Bagram. "Propriedade do governo dos EUA. Venda proibida", diz a caixa da Ameriqual Packaging com omelete vegetariano ou batata e bacon desidratados e à vácuo. E há comida com a validade vencida jogada fora por expatriados.

O italiano


Foto: Adriana Carranca/ AE

Alberto Cairo é o estrangeiro querido por todos os afegãos, até os taleban. E ele é católico. Aos 56 anos, 19 deles no Afeganistão, ajudou 90 mil amputados a andar de novo. A maioria atingida por minas terrestres que, embora banidas pela ONU em 1997, fazem duas vítimas por dia no país, como o sapateiro Sher Mohammad, 28 anos. Crianças são 48% delas.


Foto: Adriana Carranca/AE

Ghulam Haidee pediu ao filho que ficasse longe dos taleban. Tradutor, Ajmal, de 23 anos, levaria o repórter italiano Daniele Mastrogiacomo, do "La Repubblica", para entrevistar o temido chefe militar mulá Dadullah (morto em 2007), em Helmand. Ajmal e Mastrogiacomo foram capturados. Duas semanas depois, o italiano foi solto em troca da libertação de cinco insurgentes, em uma negociação que envolveu diretamente o presidente Hamid Karzai. Temendo novos sequestros, os EUA criticaram o acordo e Karzai rejeitou novas conversas com os radicais que exigiam a libertação de outros três taleban em troca de Ajmal. Seu corpo foi devolvido à família 38 dias depois, decapitado. "Ele era um bom muçulmano", diz o pai.

Kafi não viu o filme O Caçador de Pipas, mas podia ter sido o protagonista. Ele é um dos melhores do Afeganistão. Desde a queda dos taleban, as pipas voltaram a colorir a colina de Nader Khan, onde se dão as competições. "É uma tradição afegã", diz o vendedor Wahidullah Zada, preso três vezes pelo Taleban por esconder 30 mil pipas em sua loja, com fachada de detergentes.

Ópio garante 30% do PIB do Afeganistão

Entre os desafios da política externa de Barack Obama para o Afeganistão está o combate ao narcotráfico. O país responde por 93% do ópio, matéria-prima da heroína, produzido no mundo. O cultivo da papoula - a flor de onde se extrai a pasta do ópio - mais do que quintuplicou após a invasão americana. Produzida em 16 das 34 províncias, a safra de 2008 estendeu-se por 157 mil hectares. Em 2002, eram 30,7 mil. As 7,7 mil toneladas de pasta de ópio produzidas no ano passado renderam US$ 3,4 bilhões, ou 30% do PIB do país.

A correlação entre o cultivo da papoula e as áreas dominadas pelos taleban tornou-se evidente - 98% das plantações concentram-se em sete províncias do sul consideradas de "alta instabilidade" pelas forças internacionais. Helmand, província que tem 10 de seus 14 distritos controlados pelos fundamentalistas, responde sozinha por 66% da produção. Apenas 15% das terras afegãs são cultiváveis. Os taleban e os narcotraficantes trabalham em sintonia: os radicais usam os dólares do ópio para financiar a insurgência, as máfias interessam-se em manter o país instável.

O programa de combate ao narcotráfico no Afeganistão custa ao Tesouro americano US$ 1 bilhão por ano. Em sua coluna no Washington Post, Richard Holbrooke, enviado de Obama para a região, qualificou o programa de "o mais ineficiente na história da política externa americana". No artigo, ele diz que o narcotráfico fortalece o Taleban e a Al-Qaeda e pouquíssimo tem sido feito contra os "funcionários de alto escalão do governo que estão no centro do imenso comércio de drogas no Afeganistão".

"O governo tinha de nos encorajar a parar com o cultivo da papoula, mas Karzai e sua máfia não fazem nada. Eles também estão envolvidos com as drogas", diz Abdul Wahab, agricultor de Kandahar, sul do país. Em sua gleba de um jirib - medida equivalente a um quinto de hectare - a papoula é plantada em fevereiro e colhida em junho. No restante do ano, produz romãs e uvas.

No mercadão de Chaman Babrak, em Cabul, não é difícil encontrar produtores que revezam o plantio da papoula com frutas, verduras e legumes. Com o aumento do preços dos alimentos, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) tenta convencê-los a deixar definitivamente a papoula.

Em dezembro, a Usaid e o Ministério da Agricultura afegão promoveram um encontro entre agricultores locais e importadores de romã. "Em média, conseguem US$ 2 mil por acre de romã, enquanto obtêm US$ 1.320 com o ópio", defende Loren Stoddard, da Usaid.

Mas os produtores apontam dificuldades para comercializar as frutas. Os agricultores sofrem com a seca, falta de eletricidade e infraestrutura para o armazenamento da produção e o perigo nas estradas. A papoula é uma planta mais resistente e o escoamento é facilitado pela rede de narcotráfico nas fronteiras com o Paquistão e o Irã.

"Sofremos muitos perigos hoje nas estradas", conta Wahab, que, para vender romãs, tem de fazer o percurso Kandahar-Cabul duas vezes por semana. Abdullah, Ghafar e outros produtores ao lado de Wahab concordam. "Há assaltos, sequestros e temos problemas com as autoridades. Policiais nos param e pedem propina", dizem.

Vício flagela refugiados em Cabul


Crianças jogam bola no campo de refugiados de Shas Shahid. Foto: Adriana Carranca/AE

O assentamento de Shah Shahid, no sudeste de Cabul, é um emaranhado de tendas feitas com pedaços de pano, tapetes velhos e lençóis remendados sobre hastes de bambu. O lixo se acumula na terra seca, cortada por um rastro de esgoto que escorre a céu aberto, exalando um cheiro perturbador. As 50 famílias afegãs que vivem ali - cerca de 400 pessoas - vêm de Jalozai, na paquistanesa Província da Fronteira Noroeste, o maior campo de refugiados afegãos até ser fechado, em 2008.

Assentamentos precários como Shah Shahid proliferaram-se pela periferia de Cabul com os 5 milhões de refugiados afegãos que retornaram ao país desde a invasão dos EUA, em 2001 - 300 mil somente em 2008. Quando chegam, já não encontram suas casas, estão doentes, com fome, desempregados e sem nada.

Milhares retornaram viciados em heroína, abundante nas fronteiras do Paquistão e do Irã, por onde a droga é escoada para EUA, Europa e Ásia, e onde se concentraram os campos nos últimos 30 anos de conflitos.

Hagat Gul, de 21 anos, conta que, na fronteira com o Irã, afegãos ilegais e miseráveis são recrutados para serviços pesados. Gul trabalhava 16 horas por dia em uma construção. O mesmo atravessador lhe conseguiu trabalho e o convenceu a usar heroína "para diminuir o cansaço e dormir melhor". Seu rendimento aumentou e o ganho diário de 200 afeganes (U$ 4) saltou para 750 afeganes (U$ 15). "De repente eu não sentia o peso do trabalho", diz Gul. Até o vício consumir todo o seu salário.

Foi a morte do irmão caçula, em um acidente de carro há seis meses, que o fez procurar ajuda - o menino precisou de uma transfusão, mas o sangue de Gul, único compatível, continha droga e não podia ser doado. Ele tinha os pés descalços, roupas sujas e os olhos perdidos quando o encontramos na porta do primeiro Centro para Tratamento de Drogas de Cabul.

"Só quando os refugiados começaram a voltar, vimos o tamanho do problema", diz o médico Wahedullah Koshar que recebeu mais de 5 mil viciados no centro em Cabul, desde 2001. Deles ouviu histórias chocantes, como o paciente que deu a mulher a um traficante por 3 mil afeganes (U$ 60) e outro que vendeu o filho por 12 mil afeganes (U$ 240). "A heroína é devastadora."

Sanga Amaj, aberto em junho pelo Serviço Social pelas Mulheres Afegãs, é o primeiro centro feminino para tratamento de drogas do país. Financiado pelos EUA e o Ministério de Combate ao Narcotráfico atendeu cerca de 500 mulheres, recrutadas em assentamentos como o Shah Sharhid. Muitas usam ópio como remédio para aliviar dores extremas. Os maridos não as deixam procurar um médico. "Não conseguimos trazer mais da metade delas, porque os maridos não deixam", diz a médica Tloma Homa, de 45 anos. "Quando a mãe usa, os filhos usam. Elas lhes dão chá de ópio para enganar a fome", revela.

Najeeba, de 40 anos, vendeu tudo por 40 mil afeganes (U$ 800) e refugiou-se com a família no Paquistão após o marido ser preso e torturado por talebans. No campo, o dinheiro minguou e Najeeba viu os três filhos passarem fome e o caçula, de 8 anos, morrer atropelado quando vendia água em um farol. Ela começou usando ópio para "aguentar a tristeza" e, sem dinheiro, alimentava os filhos com a droga. "Na divisa com o Paquistão, ópio é mais barato que comida."

Nos centros para viciados, os pacientes recebem seringas descartáveis - a contaminação por HIV vem crescendo no Afeganistão. Eles são estimulados a reduzir as doses, até passarem para o fumo e, então, abandonarem a droga. Ajmal, de 29 anos, voltou do Irã no ano passado. Viciado há 3 anos, ele reduziu pela metade o consumo de heroína para um grama por dia (U$ 4).

As 50 famílias de Shah Shahid ganharam do governo um pedaço de terra em Benisworsik, na Província de Parwan. "Mas não havia emprego, saúde, educação, nada lá. Voltamos para Cabul", diz. "Achamos que encontraríamos paz e qualidade de vida com o novo governo", diz Feda Mohammad, de 35 anos, que desde 1983 migra de um campo de refugiado a outro - os pais morreram, ele se casou e os quatro filhos nasceram em tendas. No caminho, foi deixando tudo para trás. Sobraram cobertores, lençóis, baldes e uma chaleira, em torno da qual passam os dias conversando e tomando chá, único luxo.

Mulheres afegãs vivem à sombra das tradições tribais


Sete anos após a invasão dos EUA, supremacia dos homens continua intocada e papel feminino é marginal/Foto: Adriana Carranca/ AE

O Bazar Mandavi, maior centro comercial de Cabul, tem uma ala para fabricantes de burcas - uma centena deles. Penduradas lado a lado, no mesmo tom de azul, parecem todas iguais. Shahpoor Zaheri, de 41 anos, mostra diferenças no bordado e no tecido. Ele vende 42 burcas por dia. No oitavo ano sem o Taleban, a maioria das afegãs ainda se esconde sob o manto, símbolo da opressão feminina. Num Afeganistão rural e governado por códigos de conduta tribais, é a tradição e não a religião que faz do país o pior do mundo para se nascer mulher.

Embora já possam trabalhar, sair sem burca ou um mahram (homem da família), regras dos taleban, a supremacia masculina permanece imutável na sociedade afegã. O pai é o chefe de família e, na ausência dele, o filho mais velho, mesmo criança. As mulheres da casa têm de obedecê-lo e é ele quem fica com a herança. As mulheres não podem ter propriedades em seu nome. Os meninos devem cuidar dos parentes até o fim da vida e, portanto, representam um investimento de longo prazo, enquanto as mulheres dão gastos. Os pais leiloam meninas e as entregam a quem der o lance mais alto - entre US$ 2 mil até US$ 15 mil. Elas são commodities trocadas em disputas tribais num ritual chamado "buth".

Esses são costumes das tribos pashtun, etnia predominante no Afeganistão. O pashtunwali, código de honra, não está escrito, mas é repetido entre gerações desde o período pré-islâmico. O clérigo Ahmad Malawi, do Conselho Ulema, diz que os tribais acreditam que as tradições são islâmicas. "Eles olham para a modernidade como algo contra a religião, mas isso é uma interpretação fraca do Islã."

Shukria Barakzai é um exemplo entre avanço e tradição. Deputada, ativista e editora da revista feminina Aina-E-Zan, ela vive em casa um casamento arranjado. O marido tem uma segunda esposa porque, depois de gerar três meninas, ela "foi incapaz de lhe dar um filho homem" e se recusou a engravidar de novo. Perdera gêmeos prematuros na guerra civil (1992-1996) porque o hospital não tinha eletricidade para a incubadora.

Uma afegã morre a cada 27 minutos por problemas relacionados à gravidez. Em 100 mil partos, 1,6 mil mulheres não vivem para ver seus bebês, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). É a segunda maior taxa de mortalidade materna no mundo, atrás de Serra Leoa. As afegãs casam-se jovens demais, aos 14 anos, e seu corpo não está preparado para a gravidez. Se chegam ao parto, 135 em cada mil perdem o bebê - 75% delas por falta de cuidados básicos. Os partos (81%) são feitos em casa. Cada afegã tem sete gestações e perde dois filhos, em média. Muitos bebês têm anomalias porque as mães são desnutridas, se medicam e se casam com parentes.

"Embora a situação seja agravada pela falta de médicos nas áreas rurais e dificuldade de acesso, a tradição é ainda o pior inimigo das afegãs", diz o médico pashtun Arif Oryakhail, formado pela Universidade de Cabul, com PhD na Itália. Arif deixou o Afeganistão em 1983 e, ao voltar, em 2006, a mortalidade materna e infantil recuara pouco ou nada, embora o país vivesse uma democracia e tivesse mais recursos. "Nada mudou para as mulheres", diz.


Mortes maternas


No Esteqlal, maior hospital público de Cabul, a maioria dos 45 partos diários ocorre à noite. Por que? "Porque as afegãs não saem sem um homem da família. Elas esperam que cheguem do trabalho para trazê-las à maternidade", "Aí já é tarde." Entre as mortes maternas, 38% são por hemorragia e 26% por obstrução do útero e infecções.

Sharifa, de 20 anos, perdeu tanto sangue que desmaiou antes que duas vizinhas decidissem levá-la ao hospital. A médica Nader Akbary tratou Sharifa sem autorização e doou o próprio sangue para a paciente, que sobreviveu, embora tenha perdido o bebê. "Esses homens preferem enterrar a mulher a trazê-la ao hospital", diz Nader.

O primeiro centro para mulheres queimadas de Cabul fica no Esteklal. De 522 pacientes atendidas em 2008, 30% haviam tentado suicídio por autoimolação, outra tradição perversa. Lailoma, de 16 anos, casada há três, chegou com 60% do corpo queimado. "Elas só querem morrer. Um dia, jogam diesel no corpo e acendem um fósforo. Só consigo salvar 3%", diz Arif.

A médica Massuda Jalal, acredita que o Alcorão pode ajudar as afegãs a vencer o tradicionalismo, "pois permite que homens e mulheres estudem". Ainda assim, 86% das afegãs são analfabetas. Entre os 237 alunos da escola pública Saward Hayte Mawand, no centro, só 54 são meninas. A escola feminina Gozargah tem 4.280 alunas, mas espaço para 10% delas. As demais estudam em tendas no pátio. Para a diretora Mahbooba Khaja Zada, de 30 anos, é um avanço. No regime Taleban, ela educou 180 meninas na sala de casa. "Três ou quatro vezes, eles vieram armados. Mas nós escondíamos os livros sob a mesa e colocávamos o Alcorão."

Apesar de ser filha de um religioso, Fatima Gailani, presidente da Sociedade Crescente Vermelho, é divorciada e casada pela segunda vez com um ministro. Ela fez parte da Loya Jirga, assembleia de líderes tribais consultada para a nova Constituição. "Eu dizia: vocês têm de escolher entre o Alcorão e a tradição, não podem ter ambos. Minha mãe era moderna e usava a burca porque é tradição. Mas, não deve ser obrigação." Shahpoor Zaheri, o vendedor de burcas, diz que na era Taleban vendia 30% mais. Ainda assim, quer os radicais longe. Desde que suas duas mulheres, de 27 e 31 anos, com quem tem 15 filhos, continuem sob a burca.

Candidatas em risco

Fawzia Koofi, Massuda e Shukria são pré-candidatas à eleição presidencial de 20 de agosto. Elas já sofreram atentados e têm guarda-costas. Embora tenham conquistado um lugar na política, com 25% do Parlamento garantido pela Constituição, elas têm um longo caminho. Entre os 57 ministros de Karzai, há uma mulher - a ministra de Relações com as Mulheres. Elas são 9% dos servidores públicos, embora a lei assegure 30%. O Judiciário ainda é reduto dos homens. E 80% dos assuntos referentes às mulheres são decididos em shuras locais - tribunais conduzidos por mulás.

'Que os EUA preparem os caixões para seus soldados'

"Estamos muito próximos da vitória", disse o porta-voz do grupo Zabiullah Mujahid. "Graças a Deus, nossos soldados mataram 5.220 estrangeiros e 7.571 das forças afegãs, destruíram 31 helicópteros e 2.818 veículos militares em 2008", assegurou. Mas os números oficiais são bem menores. Com medo de ser localizado, o próprio Mujahid telefonou à reportagem três vezes para responder à entrevista, cada vez de um número diferente - sem permitir que a ligação durasse mais que cinco minutos. A seguir, trechos da entrevista feita com a ajuda do tradutor e jornalista afegão Farhad Peikar.

Quem são os taleban hoje?

Somos os mesmos e mantemos a mesma estrutura de antes. Nosso querido mulá Omar continua sendo o líder supremo, mulá Brodar continua entre nossos irmãos, mas não posso lhe dar os nomes de outros líderes. Todas as decisões são tomadas por esse conselho de comandantes. E temos governadores em distritos e províncias. Temos o apoio de toda a nação muçulmana afegã.

O que o Taleban quer dessa guerra?

O principal objetivo de nossa jihad (guerra santa) é libertar o Afeganistão das mãos dos infieis e aplicar a sharia (a rigorosa lei islâmica) em nosso país.

Quem são os infieis?

Ora, os americanos e seus escravos afegãos

Quem financia o Taleban e a insurgência?

O Taleban não precisa de suporte financeiro e temos armas suficientes dos tempos da jihad contra os russos e do nosso governo. Além disso, nossos soldados não lutam por um salário, mas por Deus e o Islã, e são alimentados pelo povo afegão, que os acomodam em suas casas.

Os Taleban são acusados de envolvimento com o narcotráfico...

Isso é tudo propaganda de nossos inimigos, eles é que se beneficiam do ópio. Durante nosso governo, nós banimos o ópio.

Os taleban estão preparados para o aumento das forças estrangeiras?

Não se esqueça de quantos soldados os russos tinham. Diga a eles que já preparem caixões para seus 30 mil soldados, ou quantos forem. Quanto mais soldados, melhor, pois teremos a oportunidade de causar mais mortes. Seu fracasso é inevitável, é só uma questão de tempo.

Quantos distritos e províncias os taleban controlam?

Controlamos a maior parte do Afeganistão. Os americanos e seus escravos estão apenas nas grandes cidades, escondidos em seus prédios oficiais, é claro (gargalhadas).

Quais seriam as demandas do Taleban para aceitar negociações?

Só queremos uma coisa: todas as forças estrangeiras fora do país para que a sharia seja aplicada.

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