Matéria Especial: Afeganistão se converte na guerra de Obama

País se consolida como um santuário do terror islâmico e um atoleiro político e militar

Adriana Carranca


Cotidiano da cidade de Cabul, capital do Afeganistão. Foto: Adriana Carranca/AE

CABUL - Aos pés da Cordilheira de Hindu Kush, norte de Cabul, 38 cavaleiros disputam como bárbaros a carcaça de uma cabra sem cabeça, em uma partida de buzkashi - esporte nacional praticado desde os tempos de Gengis Khan. O sangue escorre, tingindo a terra, enquanto os homens tentam derrubar os adversários e dominar o bicho morto. É um jogo bélico. Numa metáfora da guerra, os afegãos dizem que o animal inerte é o próprio Afeganistão, dilacerado por contínuos conflitos.

Seu controle é disputado à força e por jogadores demais: tribos e clãs divididos em etnias, os taleban e seus aliados da Al-Qaeda, as 41 nações cujas forças internacionais ocupam o país, além de potências regionais como Irã, Paquistão e Índia.

Vencer ou não esse jogo definirá o legado diplomático e militar do governo americano de Barack Obama. Subestimada por seu antecessor, George W. Bush, em prol do Iraque, esta é a guerra de Obama. E a menos que haja uma mudança de rumo no país, alertam militares e estrategistas, o Afeganistão poderá se tornar o seu Vietnã. O general David Petraeus, chefe das operações no Afeganistão e Paquistão, a quem é atribuído o mérito de virar o jogo no Iraque, alertou o presidente que o Afeganistão será sua "mais longa campanha na longa guerra contra o extremismo islâmico".

Enviado especial de Obama ao Afeganistão e Paquistão, o veterano Richard Holbrooke, ex-embaixador americano na ONU e arquiteto dos Acordos de Dayton, que puseram fim à guerra na Bósnia, prevê que sua missão será "mais difícil do que no Iraque".

No oitavo ano da invasão, o cenário é hoje pior do que o de ontem. Há uma semana, 27 afegãos morreram no mais audacioso ataque do Taleban em pleno coração de Cabul, quando extremistas islâmicos invadiram o Ministério da Justiça e outros prédios públicos.

Reforço de soldados

Obama autorizou ontem o envio de mais 17 mil soldados. O objetivo é mandar um total de 30 mil, dobrando seu efetivo - medida vista como paliativo até o desenho de uma nova estratégia para o país. "Quem pergunta por que ainda não vencemos desconhece que o país tem 650 quilômetros quadrados de montanhas. Militarmente, é impossível dominar todo o território. Existem áreas a 50 km de Cabul onde ainda não estivemos", desabafou, em entrevista ao Estado, o porta-voz da ISAF (as forças de coalizão subordinadas à Otan), general Richard Blanchette.

Com o reforço, as tropas estrangeiras teriam pouco mais de 90 mil homens. "No Iraque, com território 50% menor do que o Afeganistão e cinco vezes mais rodovias pavimentadas, EUA e aliados chegaram a ter mais de 130 mil. É claro que precisamos de mais soldados", disse o porta-voz do Ministério da Defesa afegão, general Zahir Azimi.

As forças afegãs contam com 88 mil oficiais mal pagos, corruptíveis e despreparados - o contingente deve aumentar em cinco anos para 134 mil, mas seu treinamento leva mais tempo do que no Iraque simplesmente porque os soldados, assim como três quartos dos afegãos, são analfabetos.

No ano passado, os EUA conduziram 3.572 ataques aéreos. Em 2004 foram 86. A ofensiva foi responsável por dois terços dos 2.118 civis mortos em 2008, entre os quais mulheres e crianças - 40% a mais do que em 2007 -, segundo as Nações Unidas. "Cada civil morto pelas forças de coalizão nos rende uns três novos insurgentes e alimenta a antipatia dos afegãos contra os estrangeiros", disse Azimi.

O ano passado foi o mais sangrento também para os militares. Mil soldados afegãos e 290 estrangeiros morreram em combate, segundo o site independente icasualties.org. Destes, 150 eram americanos - pela primeira vez, os EUA perderam mais homens durante o ano no Afeganistão do que no Iraque.

"A mudança de foco dos EUA do Iraque para o Afeganistão veio tarde demais", disse o ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Taleban Wahhed Muzhda, hoje analista e escritor. "Os taleban não têm mais uma agenda de integração nacional. Eles aderiram a um movimento pan-islâmico e agora querem que os americanos saiam não apenas do Afeganistão, mas do Iraque e da Arábia Saudita."

Para afegãos que alimentavam esperança de paz e prosperidade com a invasão americana - celebrada nas ruas de Cabul - estes são dias de desespero. O presidente Hamid Karzai tem grande culpa nisso. De líder promissor, ele é hoje citado nas rodas de Cabul como um presidente ineficiente no comando de um governo corrupto contaminado por senhores de guerra - ex-mujahedin que ajudaram a expulsar os taleban e hoje ocupam cargos oficiais - acusados de ligações com o narcotráfico. O Afeganistão segue mergulhado na miséria, onde 70% da população vive com US$ 1 por dia e a expectativa de vida é de 44 anos.

Obama terá de persuadir o Paquistão a deixar de ser o paraíso de terroristas e assegurar estabilidade regional com a Índia. E lidar, ainda, com a China, que se tornou a maior investidora no Afeganistão, a Arábia Saudita, de onde fluem petrodólares para os terroristas, e o Irã.

Como num buzkashi, o sucesso depende de um difícil balanço entre o uso da força e a capacidade de enxergar e compreender os movimentos dos diferentes jogadores em meio ao caos. Um jogo complicado, mas que Obama não pode se dar ao luxo de perder. "Na visão dos extremistas, o mundo islâmico não estará seguro enquanto os americanos não forem derrotados. E o melhor lugar para se conseguir isso hoje é o Afeganistão", diz Muzhda. "Se vencer aqui, a Al-Qaeda terá vencido no mundo."

'Emirado Islâmico afegão'


Foto: Adriana Carranca/AE

Entre os afegãos, a sensação é de déjà-vu. Radicais de barba longa e turbante negro circulam espalhando o terror em picapes, rifles AK-47 em punho. Impõem regras próprias e decidem o destino dos cidadãos em tribunais conduzidos por mulás, com base na sharia, a lei islâmica.

Relatório publicado em janeiro pelo Conselho Internacional em Segurança e Desenvolvimento apontou que os taleban voltaram a dominar 72% do território - em 2007, controlavam 54%. Isso significa que a maior parte das províncias funciona à revelia do governo de Hamid Karzai e das forças de coalizão. Nelas, o país tem outro nome: Emirado Islâmico do Afeganistão.

"Na minha área, os taleban mandam, nomeiam juízes para aplicar a sharia e ameaçam matar quem ousar trabalhar para o governo, considerados infieis", disse Ahmad Munir, que vive em Barakibarak, na Província de Logar, a apenas 50 km de Cabul. Os radicais controlam estradas, vistoriam carros à procura de "infieis", cobram pedágio de caminhões e bloqueiam a ajuda humanitária.

Enquanto os EUA desviavam militares e dólares para derrubar Saddam Hussein, o comando do Taleban teve tempo de se reorganizar no Paquistão, onde a Al-Qaeda estaria refugiada. Aderiu ao movimento pan-islâmico e se alinhou à organização, assimilando táticas conhecidas do terrorismo internacional, mas não vistas no Afeganistão até recentemente: sequestros e ataques suicidas.

Beneficiados pela frustração e miséria dos afegãos, eles recrutaram no ano passado homens-bomba para 123 atentados. Com os sequestros, negociam a libertação de presos e resgates milionários. Desde a morte de Ajmal Naqshbandi , a imprensa fez um pacto de silêncio para não prejudicar as negociações. A portas fechadas, fala-se em 70 reféns estrangeiros e afegãos, entre eles um conhecido jornalista americano.

Analistas acreditam que o sucesso da insurgência se deve à capacidade do Taleban de manter um comando central coeso. Quando as forças de coalizão lideradas pelos EUA tiraram os taleban do poder, em 2001, eles se dividiram. O comando atravessou a fronteira e sumiu com Osama bin Laden em algum ponto das montanhas e áreas tribais entre o Afeganistão e o Paquistão - acredita-se que o líder taleban, mulá Omar, opere da cidade de Quetta. Ao longo dos anos, ele teria investido em retomar as relações com as tribos pashtuns, etnia dos taleban, e militantes de segundo escalão que haviam voltado a seus vilarejos. Aos poucos, transferiu armas, expertise e dinheiro a eles.

Parte de seu financiamento vem do ópio. Mas também de doadores árabes como os wahabitas (a ala mais radical do Islã), da Arábia Saudita. "Durante seu governo, entre 1996 e 2001, o Taleban tinha pouco contato com a política internacional", diz Waheed Muzhda, que chegou a fazer parte do Ministério das Relações Exteriores dos radicais. "Só havia internet na minha sala e na do mulá Omar. Hoje, eles se comunicam com o mundo."

Os taleban atraíram aliados como os mujahedin Gulbuddin Hekmatyar e Jalaluddin Haqqani. Beneficiados com dinheiro e armas da CIA para expulsar os soviéticos que ocuparam o Afeganistão entre 1979 e 1989, eles se uniram contra a ocupação americana. Com bons contatos no mundo árabe, Haqqani seria o elo dos radicais com a Al-Qaeda . O mujahedin é acusado de recrutar e treinar cerca de 2 mil terroristas estrangeiros para a jihad no Afeganistão, com a ajuda do serviço secreto do Paquistão.

Mesada


Além de um mercado para seus produtos, o Paquistão tem no Afeganistão a rota para a Ásia Central. "O fim do Taleban significaria o fim da mesada americana", disse um diplomata ocidental em Cabul.

No rastro do avanço dos taleban, parte do governo considera negociar com os radicais. Os analistas são céticos. Primeiro, porque, desmoralizado e sem o controle da segurança, Karzai está numa posição desfavorável de barganha. Depois, porque os radicais exigem a saída das forças estrangeiras e, com eles, os dólares da CIA.

Para analistas, a saída das forças estrangeiras levaria o país, no curto prazo, a uma guerra civil, como ocorreu quando os russos saíram. Sem um governo central forte e armados até os dentes, os mujahedin viraram-se uns contra os outros. Os intensos ataques entre 1992 e 1996 deixaram milhares de mortos e um vácuo rapidamente preenchido pelos taleban - filhos de refugiados do regime soviético, tirados de suas famílias e treinados nas madrassas da fronteira do Paquistão para a jihad contra os invasores. Cansados dos conflitos e afundados na miséria, os afegãos aceitaram os jovens religiosos, que prometiam restabelecer a ordem.

A retórica ainda hoje encontra eco. Frustrados com a corrupção do governo, a falta de ajuda e a incapacidade das forças de coalizão de defendê-los, muitos afegãos acreditam que a ordem imposta pelos taleban é melhor do que nenhuma. E a história se repete.


30 ANOS DE VIOLÊNCIA


1979 - URSS invade o Afeganistão. Acusado de colaborar com os EUA, presidente Hafizullah Amin é executado

1980 - Babrak Karmal, aliado de Moscou, assume; mujahedin (combatentes islâmicos), armados pela CIA, aumentam ataques

1986 - Karmal é substituído por Mohamad Najibullah

1989 - Soviéticos retiram-se do país, mas conflitos continuam

1992 - Najibullah cai; mujahedin se dividem e o Afeganistão mergulha em uma guerra civil

1996 - Taleban toma Cabul e institui governo islâmico

1998 - Washington bombardeia supostos refúgios da Al-Qaeda - acusada por atentados contra embaixadas dos EUA no Quênia e Tanzânia - no Afeganistão

1999 - ONU impõe embargo para forçar Cabul a entregar Osama bin Laden

Março de 2001 - Talebans destroem estátuas gigantes dos Budas de Bamiyan

Setembro de 2001 - Ahmad Masood, líder da oposição ao Taleban, é assassinado. Após ataques de 11/9, EUA e Grã-Bretanha atacam Afeganistão

Dezembro de 2001 - EUA ocupam Cabul e o Taleban cai; Hamid Karzai assume o poder

2004 - Nova Constituição é aprovada; Karzai é eleito presidente com 55% dos votos

2005 - País realiza pela primeira vez eleições parlamentares e provinciais

2006 - Otan assume o controle da segurança em todo o país

2007 - Líder taleban Mullah Dadullah morre em combate

2008 - Taleban libertam 350 insurgentes de prisão em Kandahar; ataque suicida mata 50 na Embaixada da Índia

2009 - Obama nomeia Richard Holbrooke seu enviado para região e pede nova estratégia para guerra; Taleban ataca três ministérios, matando 27

O mercado das pulgas de Cabul chama-se Bush Market...


Foto: Adriana Carranca/AE

e vende suplementos nutricionais, rações militares, roupas e artefatos usados por soldados americanos e roubados da base aérea de Bagram. "Propriedade do governo dos EUA. Venda proibida", diz a caixa da Ameriqual Packaging com omelete vegetariano ou batata e bacon desidratados e à vácuo. E há comida com a validade vencida jogada fora por expatriados.

O italiano


Foto: Adriana Carranca/ AE

Alberto Cairo é o estrangeiro querido por todos os afegãos, até os taleban. E ele é católico. Aos 56 anos, 19 deles no Afeganistão, ajudou 90 mil amputados a andar de novo. A maioria atingida por minas terrestres que, embora banidas pela ONU em 1997, fazem duas vítimas por dia no país, como o sapateiro Sher Mohammad, 28 anos. Crianças são 48% delas.


Foto: Adriana Carranca/AE

Ghulam Haidee pediu ao filho que ficasse longe dos taleban. Tradutor, Ajmal, de 23 anos, levaria o repórter italiano Daniele Mastrogiacomo, do "La Repubblica", para entrevistar o temido chefe militar mulá Dadullah (morto em 2007), em Helmand. Ajmal e Mastrogiacomo foram capturados. Duas semanas depois, o italiano foi solto em troca da libertação de cinco insurgentes, em uma negociação que envolveu diretamente o presidente Hamid Karzai. Temendo novos sequestros, os EUA criticaram o acordo e Karzai rejeitou novas conversas com os radicais que exigiam a libertação de outros três taleban em troca de Ajmal. Seu corpo foi devolvido à família 38 dias depois, decapitado. "Ele era um bom muçulmano", diz o pai.

Kafi não viu o filme O Caçador de Pipas, mas podia ter sido o protagonista. Ele é um dos melhores do Afeganistão. Desde a queda dos taleban, as pipas voltaram a colorir a colina de Nader Khan, onde se dão as competições. "É uma tradição afegã", diz o vendedor Wahidullah Zada, preso três vezes pelo Taleban por esconder 30 mil pipas em sua loja, com fachada de detergentes.

Ópio garante 30% do PIB do Afeganistão

Entre os desafios da política externa de Barack Obama para o Afeganistão está o combate ao narcotráfico. O país responde por 93% do ópio, matéria-prima da heroína, produzido no mundo. O cultivo da papoula - a flor de onde se extrai a pasta do ópio - mais do que quintuplicou após a invasão americana. Produzida em 16 das 34 províncias, a safra de 2008 estendeu-se por 157 mil hectares. Em 2002, eram 30,7 mil. As 7,7 mil toneladas de pasta de ópio produzidas no ano passado renderam US$ 3,4 bilhões, ou 30% do PIB do país.

A correlação entre o cultivo da papoula e as áreas dominadas pelos taleban tornou-se evidente - 98% das plantações concentram-se em sete províncias do sul consideradas de "alta instabilidade" pelas forças internacionais. Helmand, província que tem 10 de seus 14 distritos controlados pelos fundamentalistas, responde sozinha por 66% da produção. Apenas 15% das terras afegãs são cultiváveis. Os taleban e os narcotraficantes trabalham em sintonia: os radicais usam os dólares do ópio para financiar a insurgência, as máfias interessam-se em manter o país instável.

O programa de combate ao narcotráfico no Afeganistão custa ao Tesouro americano US$ 1 bilhão por ano. Em sua coluna no Washington Post, Richard Holbrooke, enviado de Obama para a região, qualificou o programa de "o mais ineficiente na história da política externa americana". No artigo, ele diz que o narcotráfico fortalece o Taleban e a Al-Qaeda e pouquíssimo tem sido feito contra os "funcionários de alto escalão do governo que estão no centro do imenso comércio de drogas no Afeganistão".

"O governo tinha de nos encorajar a parar com o cultivo da papoula, mas Karzai e sua máfia não fazem nada. Eles também estão envolvidos com as drogas", diz Abdul Wahab, agricultor de Kandahar, sul do país. Em sua gleba de um jirib - medida equivalente a um quinto de hectare - a papoula é plantada em fevereiro e colhida em junho. No restante do ano, produz romãs e uvas.

No mercadão de Chaman Babrak, em Cabul, não é difícil encontrar produtores que revezam o plantio da papoula com frutas, verduras e legumes. Com o aumento do preços dos alimentos, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) tenta convencê-los a deixar definitivamente a papoula.

Em dezembro, a Usaid e o Ministério da Agricultura afegão promoveram um encontro entre agricultores locais e importadores de romã. "Em média, conseguem US$ 2 mil por acre de romã, enquanto obtêm US$ 1.320 com o ópio", defende Loren Stoddard, da Usaid.

Mas os produtores apontam dificuldades para comercializar as frutas. Os agricultores sofrem com a seca, falta de eletricidade e infraestrutura para o armazenamento da produção e o perigo nas estradas. A papoula é uma planta mais resistente e o escoamento é facilitado pela rede de narcotráfico nas fronteiras com o Paquistão e o Irã.

"Sofremos muitos perigos hoje nas estradas", conta Wahab, que, para vender romãs, tem de fazer o percurso Kandahar-Cabul duas vezes por semana. Abdullah, Ghafar e outros produtores ao lado de Wahab concordam. "Há assaltos, sequestros e temos problemas com as autoridades. Policiais nos param e pedem propina", dizem.

Vício flagela refugiados em Cabul


Crianças jogam bola no campo de refugiados de Shas Shahid. Foto: Adriana Carranca/AE

O assentamento de Shah Shahid, no sudeste de Cabul, é um emaranhado de tendas feitas com pedaços de pano, tapetes velhos e lençóis remendados sobre hastes de bambu. O lixo se acumula na terra seca, cortada por um rastro de esgoto que escorre a céu aberto, exalando um cheiro perturbador. As 50 famílias afegãs que vivem ali - cerca de 400 pessoas - vêm de Jalozai, na paquistanesa Província da Fronteira Noroeste, o maior campo de refugiados afegãos até ser fechado, em 2008.

Assentamentos precários como Shah Shahid proliferaram-se pela periferia de Cabul com os 5 milhões de refugiados afegãos que retornaram ao país desde a invasão dos EUA, em 2001 - 300 mil somente em 2008. Quando chegam, já não encontram suas casas, estão doentes, com fome, desempregados e sem nada.

Milhares retornaram viciados em heroína, abundante nas fronteiras do Paquistão e do Irã, por onde a droga é escoada para EUA, Europa e Ásia, e onde se concentraram os campos nos últimos 30 anos de conflitos.

Hagat Gul, de 21 anos, conta que, na fronteira com o Irã, afegãos ilegais e miseráveis são recrutados para serviços pesados. Gul trabalhava 16 horas por dia em uma construção. O mesmo atravessador lhe conseguiu trabalho e o convenceu a usar heroína "para diminuir o cansaço e dormir melhor". Seu rendimento aumentou e o ganho diário de 200 afeganes (U$ 4) saltou para 750 afeganes (U$ 15). "De repente eu não sentia o peso do trabalho", diz Gul. Até o vício consumir todo o seu salário.

Foi a morte do irmão caçula, em um acidente de carro há seis meses, que o fez procurar ajuda - o menino precisou de uma transfusão, mas o sangue de Gul, único compatível, continha droga e não podia ser doado. Ele tinha os pés descalços, roupas sujas e os olhos perdidos quando o encontramos na porta do primeiro Centro para Tratamento de Drogas de Cabul.

"Só quando os refugiados começaram a voltar, vimos o tamanho do problema", diz o médico Wahedullah Koshar que recebeu mais de 5 mil viciados no centro em Cabul, desde 2001. Deles ouviu histórias chocantes, como o paciente que deu a mulher a um traficante por 3 mil afeganes (U$ 60) e outro que vendeu o filho por 12 mil afeganes (U$ 240). "A heroína é devastadora."

Sanga Amaj, aberto em junho pelo Serviço Social pelas Mulheres Afegãs, é o primeiro centro feminino para tratamento de drogas do país. Financiado pelos EUA e o Ministério de Combate ao Narcotráfico atendeu cerca de 500 mulheres, recrutadas em assentamentos como o Shah Sharhid. Muitas usam ópio como remédio para aliviar dores extremas. Os maridos não as deixam procurar um médico. "Não conseguimos trazer mais da metade delas, porque os maridos não deixam", diz a médica Tloma Homa, de 45 anos. "Quando a mãe usa, os filhos usam. Elas lhes dão chá de ópio para enganar a fome", revela.

Najeeba, de 40 anos, vendeu tudo por 40 mil afeganes (U$ 800) e refugiou-se com a família no Paquistão após o marido ser preso e torturado por talebans. No campo, o dinheiro minguou e Najeeba viu os três filhos passarem fome e o caçula, de 8 anos, morrer atropelado quando vendia água em um farol. Ela começou usando ópio para "aguentar a tristeza" e, sem dinheiro, alimentava os filhos com a droga. "Na divisa com o Paquistão, ópio é mais barato que comida."

Nos centros para viciados, os pacientes recebem seringas descartáveis - a contaminação por HIV vem crescendo no Afeganistão. Eles são estimulados a reduzir as doses, até passarem para o fumo e, então, abandonarem a droga. Ajmal, de 29 anos, voltou do Irã no ano passado. Viciado há 3 anos, ele reduziu pela metade o consumo de heroína para um grama por dia (U$ 4).

As 50 famílias de Shah Shahid ganharam do governo um pedaço de terra em Benisworsik, na Província de Parwan. "Mas não havia emprego, saúde, educação, nada lá. Voltamos para Cabul", diz. "Achamos que encontraríamos paz e qualidade de vida com o novo governo", diz Feda Mohammad, de 35 anos, que desde 1983 migra de um campo de refugiado a outro - os pais morreram, ele se casou e os quatro filhos nasceram em tendas. No caminho, foi deixando tudo para trás. Sobraram cobertores, lençóis, baldes e uma chaleira, em torno da qual passam os dias conversando e tomando chá, único luxo.

Mulheres afegãs vivem à sombra das tradições tribais


Sete anos após a invasão dos EUA, supremacia dos homens continua intocada e papel feminino é marginal/Foto: Adriana Carranca/ AE

O Bazar Mandavi, maior centro comercial de Cabul, tem uma ala para fabricantes de burcas - uma centena deles. Penduradas lado a lado, no mesmo tom de azul, parecem todas iguais. Shahpoor Zaheri, de 41 anos, mostra diferenças no bordado e no tecido. Ele vende 42 burcas por dia. No oitavo ano sem o Taleban, a maioria das afegãs ainda se esconde sob o manto, símbolo da opressão feminina. Num Afeganistão rural e governado por códigos de conduta tribais, é a tradição e não a religião que faz do país o pior do mundo para se nascer mulher.

Embora já possam trabalhar, sair sem burca ou um mahram (homem da família), regras dos taleban, a supremacia masculina permanece imutável na sociedade afegã. O pai é o chefe de família e, na ausência dele, o filho mais velho, mesmo criança. As mulheres da casa têm de obedecê-lo e é ele quem fica com a herança. As mulheres não podem ter propriedades em seu nome. Os meninos devem cuidar dos parentes até o fim da vida e, portanto, representam um investimento de longo prazo, enquanto as mulheres dão gastos. Os pais leiloam meninas e as entregam a quem der o lance mais alto - entre US$ 2 mil até US$ 15 mil. Elas são commodities trocadas em disputas tribais num ritual chamado "buth".

Esses são costumes das tribos pashtun, etnia predominante no Afeganistão. O pashtunwali, código de honra, não está escrito, mas é repetido entre gerações desde o período pré-islâmico. O clérigo Ahmad Malawi, do Conselho Ulema, diz que os tribais acreditam que as tradições são islâmicas. "Eles olham para a modernidade como algo contra a religião, mas isso é uma interpretação fraca do Islã."

Shukria Barakzai é um exemplo entre avanço e tradição. Deputada, ativista e editora da revista feminina Aina-E-Zan, ela vive em casa um casamento arranjado. O marido tem uma segunda esposa porque, depois de gerar três meninas, ela "foi incapaz de lhe dar um filho homem" e se recusou a engravidar de novo. Perdera gêmeos prematuros na guerra civil (1992-1996) porque o hospital não tinha eletricidade para a incubadora.

Uma afegã morre a cada 27 minutos por problemas relacionados à gravidez. Em 100 mil partos, 1,6 mil mulheres não vivem para ver seus bebês, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). É a segunda maior taxa de mortalidade materna no mundo, atrás de Serra Leoa. As afegãs casam-se jovens demais, aos 14 anos, e seu corpo não está preparado para a gravidez. Se chegam ao parto, 135 em cada mil perdem o bebê - 75% delas por falta de cuidados básicos. Os partos (81%) são feitos em casa. Cada afegã tem sete gestações e perde dois filhos, em média. Muitos bebês têm anomalias porque as mães são desnutridas, se medicam e se casam com parentes.

"Embora a situação seja agravada pela falta de médicos nas áreas rurais e dificuldade de acesso, a tradição é ainda o pior inimigo das afegãs", diz o médico pashtun Arif Oryakhail, formado pela Universidade de Cabul, com PhD na Itália. Arif deixou o Afeganistão em 1983 e, ao voltar, em 2006, a mortalidade materna e infantil recuara pouco ou nada, embora o país vivesse uma democracia e tivesse mais recursos. "Nada mudou para as mulheres", diz.


Mortes maternas


No Esteqlal, maior hospital público de Cabul, a maioria dos 45 partos diários ocorre à noite. Por que? "Porque as afegãs não saem sem um homem da família. Elas esperam que cheguem do trabalho para trazê-las à maternidade", "Aí já é tarde." Entre as mortes maternas, 38% são por hemorragia e 26% por obstrução do útero e infecções.

Sharifa, de 20 anos, perdeu tanto sangue que desmaiou antes que duas vizinhas decidissem levá-la ao hospital. A médica Nader Akbary tratou Sharifa sem autorização e doou o próprio sangue para a paciente, que sobreviveu, embora tenha perdido o bebê. "Esses homens preferem enterrar a mulher a trazê-la ao hospital", diz Nader.

O primeiro centro para mulheres queimadas de Cabul fica no Esteklal. De 522 pacientes atendidas em 2008, 30% haviam tentado suicídio por autoimolação, outra tradição perversa. Lailoma, de 16 anos, casada há três, chegou com 60% do corpo queimado. "Elas só querem morrer. Um dia, jogam diesel no corpo e acendem um fósforo. Só consigo salvar 3%", diz Arif.

A médica Massuda Jalal, acredita que o Alcorão pode ajudar as afegãs a vencer o tradicionalismo, "pois permite que homens e mulheres estudem". Ainda assim, 86% das afegãs são analfabetas. Entre os 237 alunos da escola pública Saward Hayte Mawand, no centro, só 54 são meninas. A escola feminina Gozargah tem 4.280 alunas, mas espaço para 10% delas. As demais estudam em tendas no pátio. Para a diretora Mahbooba Khaja Zada, de 30 anos, é um avanço. No regime Taleban, ela educou 180 meninas na sala de casa. "Três ou quatro vezes, eles vieram armados. Mas nós escondíamos os livros sob a mesa e colocávamos o Alcorão."

Apesar de ser filha de um religioso, Fatima Gailani, presidente da Sociedade Crescente Vermelho, é divorciada e casada pela segunda vez com um ministro. Ela fez parte da Loya Jirga, assembleia de líderes tribais consultada para a nova Constituição. "Eu dizia: vocês têm de escolher entre o Alcorão e a tradição, não podem ter ambos. Minha mãe era moderna e usava a burca porque é tradição. Mas, não deve ser obrigação." Shahpoor Zaheri, o vendedor de burcas, diz que na era Taleban vendia 30% mais. Ainda assim, quer os radicais longe. Desde que suas duas mulheres, de 27 e 31 anos, com quem tem 15 filhos, continuem sob a burca.

Candidatas em risco

Fawzia Koofi, Massuda e Shukria são pré-candidatas à eleição presidencial de 20 de agosto. Elas já sofreram atentados e têm guarda-costas. Embora tenham conquistado um lugar na política, com 25% do Parlamento garantido pela Constituição, elas têm um longo caminho. Entre os 57 ministros de Karzai, há uma mulher - a ministra de Relações com as Mulheres. Elas são 9% dos servidores públicos, embora a lei assegure 30%. O Judiciário ainda é reduto dos homens. E 80% dos assuntos referentes às mulheres são decididos em shuras locais - tribunais conduzidos por mulás.

'Que os EUA preparem os caixões para seus soldados'

"Estamos muito próximos da vitória", disse o porta-voz do grupo Zabiullah Mujahid. "Graças a Deus, nossos soldados mataram 5.220 estrangeiros e 7.571 das forças afegãs, destruíram 31 helicópteros e 2.818 veículos militares em 2008", assegurou. Mas os números oficiais são bem menores. Com medo de ser localizado, o próprio Mujahid telefonou à reportagem três vezes para responder à entrevista, cada vez de um número diferente - sem permitir que a ligação durasse mais que cinco minutos. A seguir, trechos da entrevista feita com a ajuda do tradutor e jornalista afegão Farhad Peikar.

Quem são os taleban hoje?

Somos os mesmos e mantemos a mesma estrutura de antes. Nosso querido mulá Omar continua sendo o líder supremo, mulá Brodar continua entre nossos irmãos, mas não posso lhe dar os nomes de outros líderes. Todas as decisões são tomadas por esse conselho de comandantes. E temos governadores em distritos e províncias. Temos o apoio de toda a nação muçulmana afegã.

O que o Taleban quer dessa guerra?

O principal objetivo de nossa jihad (guerra santa) é libertar o Afeganistão das mãos dos infieis e aplicar a sharia (a rigorosa lei islâmica) em nosso país.

Quem são os infieis?

Ora, os americanos e seus escravos afegãos

Quem financia o Taleban e a insurgência?

O Taleban não precisa de suporte financeiro e temos armas suficientes dos tempos da jihad contra os russos e do nosso governo. Além disso, nossos soldados não lutam por um salário, mas por Deus e o Islã, e são alimentados pelo povo afegão, que os acomodam em suas casas.

Os Taleban são acusados de envolvimento com o narcotráfico...

Isso é tudo propaganda de nossos inimigos, eles é que se beneficiam do ópio. Durante nosso governo, nós banimos o ópio.

Os taleban estão preparados para o aumento das forças estrangeiras?

Não se esqueça de quantos soldados os russos tinham. Diga a eles que já preparem caixões para seus 30 mil soldados, ou quantos forem. Quanto mais soldados, melhor, pois teremos a oportunidade de causar mais mortes. Seu fracasso é inevitável, é só uma questão de tempo.

Quantos distritos e províncias os taleban controlam?

Controlamos a maior parte do Afeganistão. Os americanos e seus escravos estão apenas nas grandes cidades, escondidos em seus prédios oficiais, é claro (gargalhadas).

Quais seriam as demandas do Taleban para aceitar negociações?

Só queremos uma coisa: todas as forças estrangeiras fora do país para que a sharia seja aplicada.

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