Acidentes já não assustam em estrada que liga Cabul e Jalalabad. Num único dia, 13 acidentes ocorreram em apenas duas horas.
Dexter Filkins Do New York Times, em Sarobi, Afeganistão
Mesmo num país atormentado pela guerra e bombardeios suicidas, é difícil encontrar algo tão aterrorizante quando a estrada nacional que passa por um desfiladeiro em Cabul.
O trecho de 65 quilômetros, um precipício impressionante de montanhas e abismos entre Cabul e Jalalabad, toma vidas com tanta frequência que a maioria das pessoas parou de contar há muito tempo. Carros viram e se achatam. Caminhões despencam no vale. Ônibus se arriscam e batem.
Vista da estrada que liga Cabul a Jalalabad: trecho é emoldurado por abismos de rochas a mais de 600 metros acima do rio Cabul (Foto: Moises Saman / New York Times)
O caos se desdobra num dos cenários mais encantadores do mundo. O desfiladeiro, em alguns lugares com não mais que poucos metros de largura, é emoldurado por abismos de rochas a mais de 600 metros acima do rio Cabul. A maioria das pessoas morre, e a maioria dos carros bate, enquanto passam por uma das curvas impossíveis que oferecem visões mais incríveis das fissuras e colinas.
De fato, dirigir sobre o desfiladeiro de Cabul é uma experiência especialmente afegã, uma dança complexa envolvendo beleza e morte.
“Fico aqui vendo pessoas batendo o carro o dia todo”, disse Mohammed Nabi, que vende peixe frito numa barraca ao ar livre na beira da rodovia. “O curso da história provou que o povo afegão é valentão. Por isso não dirigimos com segurança”.
Recentemente, num único dia 13 acidentes ocorreram na estrada em apenas duas horas, todos eles catastróficos, quase todos fatais. A garoa constante tornou o dia mais calamitoso que os demais.
Numa cena, uma família ensanguentada chorava por parentes presos num carro amassado. Em outra, um micro-ônibus estava esmagado sob o peso de um caminhão. Em outra cena, o fundo de um desfiladeiro estava cheio de destroços contorcidos de carros.
Mesmo com esses acidentes se espalhando por toda a rodovia, os carros passavam por eles negligentemente. Os táxis e ônibus acenavam e ultrapassavam uns aos outros em velocidades assustadoras, com milímetros separando-os de uma catástrofe sangrenta.
“A luta com o Talibã dura apenas um dia ou dois, mas os acidentes ocorrem todo dia”, disse Juma Gul, dono de uma loja de tecidos em Sarobi, olhando diretamente para a estrada. “É tipo um teatro. Às vezes, um carro voa no ar”.
A fatalidade da rodovia vem da mistura única de geografia, da própria estrada, e da indiferença dos motoristas às leis da física.
Vale de 300 metros
A estrada de duas faixas mal tem espaço suficiente para dois carros passarem. Na faixa de dentro, menos de um metro fora da janela, fica uma parede de pedras sem árvores se erguendo quase perpendicularmente. Um aparador curto protege a faixa exterior – atrás dele, o chão de um vale com 300 metros de profundidade.
Para os motoristas, é claro, isso significa que praticamente não existe margem de erro. Ou eles batem de frente para a parede de pedras, ou caem da beirada, ou os carros colidem.
A única observação de alerta é fornecida por crianças, que moram nas pobres vilas ali perto. Geralmente com 4 ou 5 anos de idade, elas ficam nas beiradas, usando garrafas verdes de refrigerante amassadas como bandeiras, acenando para os motoristas quando o caminho está livre.
Soldado afegão desvia o tráfego após colisão envolvendo três veículos que deixaram pelo menos duas pessoas gravemente feridas (Foto: Moises Saman / New York Times)
Nessas circunstâncias, você imaginaria que os motoristas deveriam agir com cautela, lentamente, se arrastando e esticando o pescoço para se proteger contra o tráfego que vem na próxima curva. Na verdade, era assim durante grande parte da história.
Ao longo dos séculos, inúmeras forças invasoras passaram pelo desfiladeiro ou ali perto a caminho da passagem de Khyber. Entre elas estava um grupo de 17 mil soldados e civis britânicos que foram massacrados quando se retiravam de Cabul no fim da primeira guerra anglo-afegã, em 1842. Dr. William Brydon, que entrou em Jalalabad a cavalo, foi o único europeu sobrevivente.
História
A estrada de Cabul a Jalalabad foi pavimentada pela primeira vez pelo governo alemão em 1960. Na década de 1980 ela foi quase totalmente destruída durante a rebelião contra a invasão soviética. Na década seguinte, quando o Talibã e outros grupos armados lutaram pelo controle do país, a estrada foi bombardeada e ficou cheia de buracos. As crateras eram tão grandes que os táxis desapareciam durante minutos e só ressurgiam quando se esforçavam para sair do outro lado.
Era uma estrada difícil e tinha seus próprios perigos - trechos da estrada muitas vezes desmoronavam -, mas a velocidade não era um deles. Isso mudou em 2006, quando um projeto apoiado pela União Europeia finalmente pavimentou toda a estrada. Agora os afegãos podem finalmente dirigir na velocidade em que quisessem.
E eles querem. Os carros passam zunindo em velocidades assustadoras, muito mais depressa do que o permitido em uma estrada semelhante no Ocidente, se houvesse uma. Como pilotos de corrida, os afegãos disparam pelas curvas mais fechadas, puxando os carros de volta para suas pistas ao primeiro sinal de um desastre iminente. Na maior parte das vezes eles se safam.
O perigo é reforçado por outros fatores. Teoricamente, o governo do Afeganistão exige que os motoristas passem por um teste para obter a carteira de motorista, mas poucas pessoas aqui possuem uma.
Fonte: G1


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