Brasil quer participar com Turquia nas negociações de potências sobre Irã

Brasil quer continuar inserido nas negociações

O Brasil deseja participar, ao lado da Turquia, das negociações do chamado grupo 5+1, formado pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU --Reino Unido, China, Rússia, Estados Unidos e França-- mais a Alemanha, sobre o programa nuclear iraniano.

As declarações foram dadas nesta terça-feira em Madri por Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O acordo assinado ontem determina que o Irã envie 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a 3,5%, em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% na Rússia ou França --suficiente para a produção de isótopos médicos em seus reatores e muito abaixo dos 90% necessários para uma bomba. O urânio enriquecido seria devolvido ao Irã no prazo de um ano.

A troca acontecerá na Turquia, país com proximidades com Ocidente e Irã, e sob supervisão da AIEA e vigilância iraniana e turca.

A troca de urânio iraniano em solo exterior era tema da proposta feita pelo grupo dos 5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha) em outubro passado, sob mediação da AIEA. Na época, o Irã rejeitou a proposta por falta de garantias da entrega do urânio enriquecido e, em fevereiro passado, iniciou o enriquecimento de urânio a 20% em seu próprio território.

Sanções

Anteriormente nesta terça-feira, em uma aparente reação ao acordo nuclear selado ontem pelo Irã, os Estados Unidos anunciaram um acordo com a Rússia e a China sobre novas sanções contra o Irã a respeito de seu programa nuclear, e disseram que irão submeter uma resolução nesta terça-feira à ONU.

"Nós chegamos a um acordo de esboço da resolução, com a cooperação da Rússia e da China", disse a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, a respeito do diálogo entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha.


"Nós pretendemos enviar o documento do Conselho de Segurança da ONU hoje", acrescentou Hillary em texto divulgado pelo Departamento de Estado americano.

Os EUA e seus aliados acusam o Irã de usar seu programa civil de produção de energia nuclear para desenvolver armas atômicas, acusação que o governo iraniano nega.

O Irã já sofreu três rodadas de sanções por causa do seu programa nuclear, apesar de insistir no caráter pacífico de suas atividades.

A proposta assinada em Teerã foi feita no ano passado pela ONU sob a premissa de que o Irã abandonaria o enriquecimento de urânio e ficaria mais distante de purificar o material radiativo até o grau necessário para o uso em armas.

Mas, após anunciar o acordo com Brasil e Turquia, o Irã informou que não pretende abandonar suas atividades de enriquecimento de urânio.

Turquia e Brasil

Anteriormente nesta terça-feira, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu em Madri que a comunidade internacional apoie o acordo alcançado com o Brasil e o Irã para o enriquecimento de urânio iraniano em território turco.

"Eu apelo à comunidade internacional que apoie a declaração final em nome da paz mundial", declarou o primeiro-ministro durante coletiva de imprensa à margem da cúpula União Europeia-América Latina. "Nós devemos parar de falar em sanções contra o Irã", afirmou.

Ontem, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que o acordo "fecharia o caminho" para a possibilidade que a comunidade internacional imponha novas sanções ao regime iraniano.

Além disso, o chefe da diplomacia brasileira acrescentou que o acordo representaria o princípio para abordar "outras questões sobre o conflito nuclear".

Amorim destacou que foi a primeira vez em que o Irã se comprometeu por escrito a enviar urânio ao exterior para recuperá-lo tempo depois, como já propuseram Rússia, Estados Unidos e Reino Unido em novembro do ano passado.

Nesta ocasião, explicou o ministro brasileiro, o Irã recebeu as garantias que pedia para fechar um acordo.

Análise: acordo com Irã dá protagonismo global a Brasil e Turquia
SIMON CAMERON-MOORE/Reuters

Ao convencer o Irã a aceitar o intercâmbio de material nuclear, eventualmente reduzindo os temores de que o país possa desenvolver armas nucleares, Brasil e Turquia se colocavam de maneira praticamente inédita no centro de uma disputa global.

Os dois países podem ter obtido uma grande conquista diplomática com o acordo assinado nesta segunda-feira em Teerã. Ou podem ver o fato ser minimizado por grandes potências, temerosas de que as concessões sejam poucas e tardias demais para afastar as preocupações relativas ao programa nuclear iraniano.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, fizeram uma aposta com o seu prestígio internacional, condicionando-o ao cumprimento dos compromissos assumidos pelo Irã.

Brasil e Turquia ocupam vagas temporárias no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), e cobiçam um papel maior na arena internacional. Mas críticos dizem que Lula e Erdogan podem ter superestimado suas capacidades na abordagem ao Irã.

Turquia

"A Turquia assumiu um grande risco porque isso pode se revelar muito constrangedor", disse Faruk Logoglu, ex-embaixador turco em Washington. "O Irã é um jogador muito astuto neste jogo."

Os Estados Unidos acham que o Irã tentará se aproveitar das incertezas e divisões que opõem, de um lado, as potências ocidentais, e, de outro, a Rússia e a China, que relutam em aceitar novas sanções. Os céticos de Washington podem ver o acordo com o Irã como mais uma manobra, na qual Turquia e Brasil seriam ingenuamente instrumentalizados.

O desespero de Erdogan para superar o impasse entre o Ocidente e o Irã e para impedir mais sanções da ONU ao país vizinho, no entanto, é compreensível.

A Turquia está se recuperando vigorosamente da recessão, e Erdogan, um líder islâmico moderado, aposta nisso para tentar conquistar um terceiro mandato no ano que vem.

As sanções ao Irã afetariam duramente a Turquia. O país tem um comércio de US$ 11 bilhões com a República Islâmica, de onde compra quase 30% de seu gás.

A rivalidade histórica entre Turquia e Irã teria deixado o Irã relutante em ceder a Erdogan todo o crédito por um eventual acordo. O envolvimento de Lula eliminou tais restrições.

Agenda de Lula

Como líder de um país distante e economicamente blindado dos impactos de uma crise no Irã, e já no fim de seu segundo mandato, Lula tem bem menos a perder do que Erdogan.

Seu governo costuma ser criticado pela política externa tímida em certos aspectos, que evita o confronto em questões de direitos humanos.

Em 2009, Lula disse que o tumulto pós-eleitoral no Irã era parte de uma disputa política rotineira, ao contrário de outras potências mundiais, que criticaram duramente o governo iraniano.

Mediar um acordo com o Irã pode ajudar o Brasil a demonstrar sua musculatura diplomática como líder do mundo em desenvolvimento, além de ajudar Lula a se tornar um ativista global contra a pobreza depois que deixar a Presidência, em janeiro.

Mas Lula também corre o risco de se distanciar do governo dos Estados Unidos, já descontente com sua posição a respeito do Irã. Caso a aposta dele fracasse, ele pode ser criticado por sua inexperiência em grandes questões internacionais.

Fontes: FOLHA - Efe - Reuters

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