Potências acertam resolução com sanções contra o Irã

EUA acusam o Irã de esconder informações sobre seu programa nuclear. Esboço de resolução circulará entre membros do Conselho de Segurança.

Hillary Clinton/Reuters

As principais potências mundiais concordaram com um esboço de resolução com sanções contra o Irã que circulará entre os membros do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas nesta terça-feira (18), disse a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton.


"Planejamos passar um esboço de resolução para todo o Conselho de Segurança hoje", afirmou Hillary em um texto divulgado pelo departamento de defesa. O texto vem no dia seguinte ao fechamento de um acordo de troca de urânio enriquecido do Irã com a participação do Brasil e da Turquia. O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir nesta terça-feira.

'Brasil errou', diz analista americano sobre o acordo nuclear com Irã

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o acordo firmado para enriquecimento de urânio do Irã na Turquia foi uma vitória da diplomacia. Já para o físico e analista norte-americano David Albright, foi um erro.

"O Irã tem um histórico de não cumprir acordos, e podemos ver isso hoje, já que eles continuarão enriquecendo urânio a 20%. [...] Acho que foi um erro. O governo brasileiro conseguiu uma pequena concessão do Irã, mas que provavelmente não vale a pena. O Brasil arrisca piorar suas relações com os Estados Unidos", disse em entrevista ao G1 o presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional (ISIS, na sigla em inglês), organização de Washington que monitora a proliferação nuclear.

Segundo o texto do documento assinado em Teerã e anunciado nesta segunda (17), o Irã enviará 1.200 kg de urânio de baixo enriquecimento para a Turquia, que devolverá o material enriquecido até um ano depois para um reator de pesquisas do Irã. Esses são quase os mesmos termos de um acordo esboçado em outubro passado e apoiado por EUA, Rússia e França, com revisão da Agência Internacional de Energia Atômica.

"Mas não é idêntico", argumenta Albright. "Há diferenças sérias. Uma delas é que, em outubro, o montante do urânio pouco enriquecido que o Irã enviaria para fora era entre 70% e 80% do total. Hoje deve ser cerca de 50%. Outra coisa é que o acordo original era um termo para tentar alavancar a confiança e estimular mais as negociações. Esse acordo é basicamente para acabar com as sanções, e nesse sentido ele é quase destrutivo para o processo de negociação."

Como resposta ao acordo, a Casa Branca informou que acredita que está havendo progresso na definição de novas sanções contra o Irã e que o acordo precisa ser submetido à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e que só depois disso ele poderá ser aceito pela comunidade internacional.

"[O acordo] definitivamente não atende às preocupações fundamentais, que são as de que o Irã parece buscar armas nucleares e se recusa a cooperar com a AIEA. É legal, mas é como uma atração secundária. E certamente não há porque parar de se discutir sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU."

'Experts' em política internacional discordam sobre acordo com Irã

O acordo feito por Brasil e Turquia com o Irã, que prevê a troca de combustível nuclear, ainda precisa de tempo para produzir efeito nas relações iranianas com o Ocidente, afirmam brasileiros especialistas em política internacional ouvidos pelo G1.

Para Cristina Soreanu Pecequilo, da Unesp, o acordo é positivo por abrir a possibilidade de diálogo em uma mesa de negociações até agora travada. Para Samuel Feldberg, da USP, o diálogo, neste caso, é inócuo.

“A partir do momento em que você conseguiu chegar a um termo em uma negociação quando essa negociação estava absolutamente parada, a gente tem que levar em conta a possibilidade que isso dê certo”, afirma Cristina. “O acordo pode levar a uma nova dinâmica. Seria o momento de as outras potências estarem envolvidas positivamente nisso”, acredita.

Feldberg, do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP, discorda. “Sem dúvida nenhuma, podemos dizer que a via diplomática está aberta. Mas qual o problema de negociar, se você não vai cumprir com o que for combinado?”, questiona.


“No meu entender, esse acordo é uma rota de fuga. O Irã encontrou no Brasil um instrumento para adiar ao máximo possível a imposição de sanções. Mas do ponto de vista da efetividade e da capacidade de influenciar os acontecimentos ou o comportamento do Irã, ele é completamente inócuo”, afirma.

O acordo prevê que o Irã envie 1.200 kg de urânio de baixo enriquecimento para a Turquia, que devolverá o material enriquecido para um reator de pesquisas no Irã. Para o funcionamento do reator, o urânio precisa estar enriquecido a uma porcentagem mais alta do que a necessária para a simples geração de energia elétrica – mas ainda longe dos 90% de enriquecimento necessários para a construção de uma arma nuclear.

A base do acordo é a mesma de uma proposta feita pela ONU em outubro de 2009, que previa, no entanto, o envio do urânio iraniano para a França e a Rússia. Na ocasião, o Irã chegou a concordar, mas só se a troca ocorresse em seu território – o que a ONU considerou inaceitável.

Para Feldberg, os valores do acordo de outubro estão desatualizados. “O Irã continuou enriquecendo urânio de lá para cá. Qualquer quantidade que for negociada com o mesmo objetivo já está defasada”, afirma. “Por todos os lados em que se analisa não há sentido em se anunciar esse acordo como uma vitória ou uma realização importante”, acredita.

Para o coordenador de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco, Alexandre Uehara, é preciso aguardar para fazer qualquer análise real dos benefícios do acordo.

“Queremos acreditar que vá para frente. Mas precisamos esperar um pouquinho mais. É difícil acreditar neste momento que eles vão interromper o enriquecimento ou abandonar a tecnologia para o enriquecimento”, afirma.

Para Uehara, a posição do Irã é complicada. “Não concordo com a política externa do Irã, é claro, mas olhando a posição do país, ele realmente está bastante acuado. É um país que não tem boas relações com os Estados Unidos e que está cercado por um posicionamento estratégico militar americano. Tem Israel próximo, que tem uma forte aliança com os Estados Unidos. De um lado, um Iraque ocupado por americanos. Do outro, a ação militar americana no Afeganistão”, explica.

“Isso faz com que, preocupado com sua própria sobrevivência, ele veja a possibilidade de ter armas nucleares como defesa de uma maneira interessante”, afirma Uehara. “É claro que ao agir assim, ele também cria tensões maiores e a possibilidade de conflito aumenta”, explica.

Para Cristina Pecequilo, a pressão sobre o Irã é maior do que a que foi feita contra a Coreia do Norte. “O que a gente está vendo é uma pressão desproporcional sobre o Irã, diferente daquela que foi exercida sobre a Coreia do Norte. O que o Irã hoje faz é tentar negociar termos favoráveis a ele similares aos que a Coreia do Norte teve”, afirma.

Ela acredita, que para isso, o Brasil e, principalmente, a Turquia são de grande ajuda. “A Turquia tem um papel muito importante, porque é um país islâmico, que faz a ponte entre o Ocidente o Oriente”, acredita.

Participação brasileira

Tanto ela quanto Uehara classificam como positiva a mediação brasileira do problema nuclear.

“Hoje você tem um espaço no sistema internacional para que potências regionais como o Brasil e a China tenham espaço na negociação. Diplomaticamente, elas agregam credibilidade quando existe uma certa saturação nas negociações com os Estados Unidos e a Rússia. As grandes potências deveriam ver isso como algo positivo”, afirma Cristina.

“O Brasil daqui para frente será cada vez mais chamado a participar de questões internacionais. Não é uma questão de opção, mas de como fazer para agir de maneira responsável. O Itamaraty tem sido muito competente nessa função”, acredita Uehara.

Samuel Feldberg, no entanto, não vê a participação do país com os mesmos bons olhos. “O Brasil não precisava se envolver nessa polêmica. O Brasil não tem nada a ganhar. Não tem questões comerciais importantes a serem resolvidas, não depende do petróleo do Irã, não tem nada a ganhar. E o custo desse envolvimento é extremamente alto. O Brasil certamente vai ouvir dos Estados Unidos quando ficar comprovado que o Irã não tomou nenhuma atitude”, afirma.

Fontes: G1/Giovana Sanchez - Agências

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