Divergências travam acordo
Uma exaltação diplomática envolve o final da 15ª Conferência do Clima (COP-15) em Copenhague nesta sexta-feira (18), com o presidente Barack Obama se encontrando com o premiê da China a portas fechadas, enquanto líderes mundiais fazem pressão para salvar o acordo de aquecimento global, em meio a profundas divisões entre nações ricas e pobres. Hoje, o premiê chinês Wen Jiabao boicotou a reunião com demais países.
Nem Obama ou o premiê chinês Wen Jiabao ofereceram quaisquer compromissos para cortar as emissões de gases-estufa que causam o aquecimento global --tema principal da conferência. Wen boicotou a reunião com 20 países, enviando um emissário do governo chinês.
Com as negociações sobre o clima em desordem, Obama e Wen se reuniram por quase 1 hora, e até a tarde de hoje tinham dado alguns passos em direção a um acordo, segundo informou um alto funcionário da administração Obama, falando sob condição de anonimato.
"Estamos prontos para ter isso [o acordo] pronto hoje, mas deve haver movimentos de todos os lados para reconhecimento de que é melhor para nós agir do que falar", disse Obama, insistindo na alternativa de um monitoramento transparente das promessas de cada país nas respectivas reduções de emissão.
Wen disse a delegados que uma redução da intensidade de carbono entre 40% e 45% vai exigir "esforços extremos". "Vamos honrar nossa palavra com ações reais", disse Wen.
Abandonando quaisquer esperanças de alcançar um acordo global, um grupo de por volta de 25 países elaborou uma declaração de duas páginas definindo os elementos críticos --dentre eles, a mobilização de US$ 30 bilhões nos próximos três anos para ajudar países pobres a combater a mudança climática, em uma escala que chega a US$ 100 bilhões por ano até 2020.
Documento
Os jornalistas Claudio Angelo e Luciana Coelho, correspondentes da Folha em Copenhague, obtiveram hoje a versão preliminar da declaração política que será o único resultado da conferência do clima de Copenhague. O texto ainda deve sofrer mudanças antes de ser assinado hoje, último dia da cúpula, mas alguns de seus principais pontos são:
- Nome do acordo: ainda não existe. O texto fala em Copenhague X, onde o X pode ser "declaração".
- Redução de emissões dos ricos: Ficam estabelecidos dois anos-base: 1990 e 2005, como forma de acomodar o interesse dos EUA. As metas de redução agregadas ainda estão em aberto.
- Redução de emissões dos emergentes: não há detalhamento. O texto fala que as ações de mitigação deverão ser refletidas nos inventários nacionais de gases-estufa, a serem produzidos de dois em dois anos. "Esclarecimentos podem, a pedido, ser fornecidos pela parte a que diz respeito". A auditagem do cumprimento será doméstica, para acomodar o interesse dos emergentes.
- Financiamento: há números, US$ 30 bilhões para ações entre 2010 e 2012, US$ 100 bilhões em 2020, vindos de "uma ampla variedade de fontes."
- Implementação: o acordo deve entrar em vigor em 2016.
Cúpula terminará sem acordo
A 15ª Conferência da Mudança do Clima da ONU (COP-15) acabará sem acordo entre países ricos e emergentes. Líderes optaram por fazer apenas uma declaração política, segundo fontes ouvidas pela Folha.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que há dois dias tenta mediar com o francês Nicolas Sarkozy uma saída do impasse, declarou-se "frustrado" em sessão plenária com líderes mundiais, em discurso antes da declaração final. Na plateia estão Barack Obama, Gordon Brown, Wen Jiabao, Angela Merkel e outros.
Lula fez também uma oferta de doação para um fundo global de combate à mudança climática, como antecipado pela Folha na última quarta-feira.
O secretariado da ONU responsável pela convenção do clima estuda convocar um novo encontro no próximo semestre, uma espécie de COP-15 "bis". Esta, segundo fontes que tiveram acesso à proposta, deve acontecer fora das mãos da presidência dinamarquesa.
A avaliação geral no Bella Center, sede do evento, é que a Dinamarca foi um redundante fracasso, dizem delegações de países emergentes e europeus ouvidas pela Folha. A crise de confiança provocada pela apresentação abrupta de uma proposta unilateral logo no início da conferência é uma das principais razões para o naufrágio da cúpula
A versão de declaração que circula pelo Bella Center, resultante de horas de reunião entre os principais líderes mundiais, não estabelece metas de corte de gases-estufa para 2020. Fala-se apenas em uma redução de 50% das emissões até 2050 e genericamente de um fundo de US$ 100 bilhões para o mesmo ano, sem dizer de onde vem o dinheiro nem como ele será usado.
Em discurso duro, feito de improviso e longamente aplaudido, Lula enumerou as ações do Brasil e disse que o país estaria disposto a contribuir para um fundo se isso salvar a conferência.
"Não sei, se não fizemos até agora, um anjo ou um sábio descerá e colocará na nossa cabeça a inteligência que faltou até agora", afirmou Lula. "Todos nós poderíamos oferecer um pouco mais se tivéssemos assumido boa vontade nos últimos tempos."
O presidente também ressaltou os esforços dos países emergentes. "No Brasil tem muitos pobres, na África tem muitos pobres, na China e na Índia tem muitos pobres."
Já o americano Barack Obama, que tomou seu lugar no púlpito, criticou os países que não aceitam se submeter à verificação de suas ações --crítica velada à China. Os países desenvolvidos usam esse argumento para justificarem sua inação.
Minutos antes, Lula havia reclamado da "intrusão nos países em desenvolvimento e países pobres".
Fonte: FOLHA - AP
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