A Vila 17 de Novembro é a maior invasão de terras da história recente argentina. Remete à data em que 7.500 famílias ocuparam um terreno alagadiço do tamanho de 13 campos de futebol, em Lomas de Zamora, na periferia pobre de Buenos Aires.
Contatei um líder comunitário e, no último dia 28, fui visitar a invasão. Encontrei um local inabitável aos meus olhos de classe média: lixo, entulho e esgoto corrente em um terreno tomado por água contaminada _situação que, pela inclinação natural do terreno, se agrava a cada chuva.
Ali também conheci pessoas como a paraguaia Catalina Aguero, 45, que mostrava com bom humor a palafita erguida pelo marido carpinteiro em meio à água poluída. “Tenho minha ilha de Caras.”
E o também paraguaio Alfredo González, 46, que aterrava com entulho o pedaço de brejo em que espera viver no futuro. “Aqui ninguém te ajuda, temos que lutar com as próprias mãos.”
Voltei surpreso por encontrar alegria e esperança em um lugar tão triste. E pensando que a tal busca incessante por felicidade pode ser mais simples _um pouco daquela culpa que move a esmola, redime todo o mal e se esvai no semáforo seguinte.
Deixo o texto que surgiu dessa visita, que parte da experiência dessa favela em construção para tratar da pobreza na Argentina e dos impactos da crise econômica no país:
Por fora das estatísticas, pobreza e desemprego crescem na Argentina
Em meio à crise, 7.500 pessoas invadem terras na periferia de Buenos Aires
Enquanto para o governo da Argentina a pobreza atinge o menor nível em 20 anos -um dos vários índices oficiais sob suspeita de manipulação no país-, a crise econômica viu surgir a maior invasão de terras da periferia de Buenos Aires.
Batizada Vila 17 de Novembro, a enorme favela em construção alude à data em que 7.500 pessoas tomaram uma área de 14 x 6 quarteirões (cerca de 1.400 x 600 metros) de escombros, lixo e água poluída em Lomas de Zamora, a 15 km do Obelisco.
Ali encontrei o brasileiro César Ramirez, 30, que trocou o trabalho na soja em Naviraí (MS) pela vida no entorno pobre da Grande Buenos Aires. Casou-se e teve um filho no país e agora torce pela posse da terra. Desempregado, montou uma despensa em casa onde vende "até óleo por litro, como os argentinos". "Aqui [Argentina] não tem serviço."

Entrevistando o brasileiro César Ramirez, que montou uma venda na invasão
Ramirez e a Vila 17 de Novembro são expressões da crise econômica na Argentina, que repete o roteiro visto em outros países, com queda na atividade econômica e no comércio exterior, mas também expõe fraquezas do modelo kirchnerista -gestões Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner. Mostram aumento da miséria e deterioração do mercado de trabalho que números oficiais não alcançam.
Para o governo, pobreza e desemprego caíram em 2008 e chegam, respectivamente, a 15,3% e a 7,3% da população. Para calcular o número de pobres, o governo usa o custo da cesta básica -medido com índices de inflação sem credibilidade desde janeiro de 2007, por mudanças de metodologias no Indec (o IBGE local).
"Recalculamos o custo da cesta todo mês e temos diferenças de 50% com o governo. Quando usamos essa cesta, a pobreza não diminui, mas volta a aumentar a partir de 2007", afirma o economista Ernesto Kritz, para quem 11,2 milhões de argentinos (32% da população do país) vivem abaixo da linha de pobreza.
Segundo Kritz, a crise mundial retraiu o consumo e ajudou a baixar a inflação de alimentos, maior responsável pelo avanço da pobreza. "Mas o que se poderia ter ganho com a desaceleração se perdeu na piora do mercado de trabalho."
A Vila 17 de Novembro é um mar de pobreza a 15 km do Obelisco
Outro termômetro da crise argentina é o serviço estatal de conciliação obrigatória para a abertura de ações trabalhistas. No último dia 28, dezenas de pessoas se aglomeravam por atendimento em um só balcão.
"Não temos recursos humanos e materiais para atender a todos", disse o atendente Federico Vendejo. Segundo ele, 40 mil pessoas já abriram ações no serviço neste ano -60% a mais em relação a 2008.
Desemprego
Não há dados consolidados sobre demissões no país, mas desde o início da crise o governo passou a complementar em até R$ 350 os salários de 60 mil trabalhadores privados, sob o compromisso temporário de 1.200 empresas de não demitir.
Para Kritz, há pelo menos 320 mil desocupados fora das cifras oficiais. O governo diz que a economia cresceu 2,4% no primeiro bimestre deste ano -de 2003 a 2008 o PIB avançou, em média, 8% ao ano-, mas informes privados apontam recessão desde outubro.
Anunciada no verão, a bateria de medidas anticrise do governo não decolou. Centrada em créditos para a compra de carros e de eletrodomésticos, atingiu, em média, 10% das metas de vendas. "Anunciava-se um plano de troca de geladeiras, mas no dia seguinte não havia geladeiras nem financiamento", afirmou Vicente Lourenzo, da Confederação Argentina da Média Empresa.
Isolada do crédito internacional desde o calote de sua dívida, em 2002, e com empréstimos que representam apenas 12% do PIB, a Argentina sofreu pouco o contágio financeiro inicial da crise. O impacto veio com as quedas no intercâmbio comercial (30%) e no ritmo de crescimento da arrecadação, que se mantém em alta (14% em abril) pelo efeito da inflação e da estatização dos fundos privados de previdência.
Crianças da Vila 17 de Novembro brincam em água insalubre
Fuga de capitais
"A estatização gerou uma saída de capitais ainda maior na economia", afirma Marina Dal Poggetto, da consultoria Bein e Associados. A fuga de capitais chegou a US$ 23 bilhões em 2008 e neste ano já supera em 150% a do mesmo período do ano passado.
Dos superávits que sustentaram os anos de crescimento, o comercial se mantém pelos entraves a importações adotados pelo governo desde o início da crise -e que reduziram em 43% as vendas brasileiras ao país vizinho neste ano. Já o superávit fiscal registrou queda de 61% em março, em um cenário de gastos em alta e compromissos financeiros crescentes.
O economista Aldo Ferrer, ligado ao governo, afirma que a Argentina está longe de uma crise como a de 2001-2002. "A situação fiscal está sólida e não há problemas de dívida. O setor financeiro está sólido e solvente, e o banco central tem bom nível de reservas [US$ 46 bilhões; o Brasil tem US$ 201,5 bilhões] e capacidade de administrar o câmbio."
Longe dessa discussão e perto da crise, o brasileiro César Ramirez tem outra preocupação: o destino de seu lote invadido na Vila 17 de Novembro. Após seis meses, a área foi declarada de interesse público para desapropriação, mas a negociação do Estado com os donos das terras segue a passos lentos. "Se tudo der certo, em um ano volto para o Brasil."
Um sonho conjunto: entrada de uma das casas da Vila 17 de Novembro
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