Ação militar israelense: atualização/ update 4

Até 750 podem ter sido feridos e 275 mortos no dia mais sangrento para os palestinos em 4 décadas; Hamas diz que 'resistirá'

GAZA - Os ataques israelenses contra o sul da Faixa de Gaza continuaram durante as primeiras horas deste domingo, 28. Aviões de combate israelenses desfecharam um ataque que, de acordo com testemunhas, atingiu um caminhão de combustível que se deslocava na periferia da cidade de Rafah, próximo à fronteira egípcia. Segundo a rádio do Hamas, houve vários mortos e feridos, mas a informação não pôde ser confirmada. Israel afirmou ainda que atacou uma mesquita na cidade de Gaza neste sábado porque o local era usado para "atividades terroristas". Trabalhadores de equipes médicas palestinas disseram que pelo menos dois palestinos foram mortos. 275 pessoas já morreram num dos dias mais sangrentos das últimas décadas de conflito no Oriente Médio.

A CNN informou que ocorreram três explosões na fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza. Um porta-voz militar israelense disse à agência France Presse em Tel-Aviv que as forças de Israel continuam os ataques contra alvos do Hamas na Faixa de Gaza, no segundo dia da maciça operação militar iniciada neste sábado, em retaliação ao lançamento de foguetes pelos palestinos. Segundo a rádio pública de Israel, foram realizados cerca de 20 ataques aéreos noturnos.

Um porta-voz militar israelense disse que Israel procurou evitar os ataques contra instituições religiosas, mas afirmou que "os responsáveis por agressões contra Israel não encontrarão refúgio em lugar algum". Ele afirmou que a mesquita encontra-se no distrito de Rimal. O porta-voz afirmou ainda que foguetes palestinos atingiram casas de oração, e uma sinagoga foi danificada no sábado.

Segundo autoridades palestinas da área de saúde informaram a diferentes agências de notícias, o total de feridos seria de pelo menos 380, podendo chegar a 750. Equipes de socorro ainda trabalham para resgatar sobreviventes presos sob os escombros e espera-se que o número de vítimas aumente nas próximas horas.

A TV mostrou vários prédios destruídos e a revolta da população, além de cadáveres com o uniforme do Hamas, que controla Gaza. O grupo islâmico já anunciou que resistirá "até a última gota de sangue", cujo alerta coincidiu com a primeira informação de Israel sobre o ataque, iniciado por volta das 11h30 locais (8h30 em Brasília).

O Ministério da Saúde da Autoridade Nacional Palestina (ANP), na Cisjordânia, lançou uma chamada para que a população doe sangue, que será transferido, junto com remédios e ambulâncias, às áreas atingidas.

Segundo o jornal israelense Haaretz, a maioria dos mortos é formada por militantes do Hamas. Ainda de acordo com a publicação, o ataque, realizado com 60 caças F-16, teria acertado 95% dos alvos.

Estes bombardeios aéreos são os mais intensos que Israel lançou contra Gaza nas últimas quatro décadas, e podem indicar a iminência de uma operação terrestre. Autoridades de segurança de Israel vêm mencionando essa possibilidade há alguns dias.

Pânico nas ruas

Alguns dos mísseis israelenses caíram sobre áreas densamente povoadas, provocando pânico pelas ruas. Entre as áreas atingidas, está o porto da Cidade de Gaza.

Crianças fugiram apavoradas com as explosões seguidas de fogo e nuvens pretas. Corpos de policiais palestinos foram alinhados em uma rua movimentada da cidade.

Como resposta, militantes do Hamas dispararam foguetes, matando uma civil israelense e ferindo quatro outras pessoas em Negev.

Pouco depois do ataque, o Egito abriu a passagem fronteiriça de Rafah para permitir a entrada de ajuda humanitária e a retirada de feridos.

Histórico

Israel deixou Gaza em 2005 após 38 anos de ocupação, mas a retirada não melhorou a relação do país com os palestinos no território como as autoridades israelenses esperavam. Ao invés disso, a retirada foi sucedida por aumento nos ataques de militantes contra comunidades na fronteira com Israel, provocando resposta do exército israelense.

O último ataque de Israel, ocorrido entre o final de fevereiro e o início de março deste ano, levou ambos lados a propor um cessar-fogo, que durou seis meses e começou a ruir em novembro.

Com 200 ataques de morteiros e mísseis contra a fronteira israelense desde que o cessar-fogo acabou, na semana passada, e 3 mil desde o início do ano, a pressão cresceu em Israel para uma ação militar.

Os líderes israelenses fizeram várias ameaças nos últimos dias e consideram o Hamas responsável pelo fracasso da trégua. Apesar da crescente tensão, os palestinos não esperavam um ataque até pelo menos domingo. A expectativa era de que o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, não autorizasse nenhuma operação nesta semana.

Segundo a imprensa israelense, o governo daria tempo às autoridades egípcias de realizar uma última tentativa de mediação entre Israel e o grupo palestino Hamas. No começo da semana, o grupo islâmico disse que Israel iria abrir os portões do inferno caso realizasse ataques.

ONU pede fim dos conflitos em Gaza

O Conselho de Segurança da ONU divulgou um pedido de paz para a faixa de Gaza e a suspensão imediata dos ataques entre Israel e insurgentes palestinos do Hamas, que mataram ao menos 225 pessoas e feriu cerca de 750 ontem. A declaração do órgão internacional não impediu que as Forças Armadas israelenses iniciassem o segundo dia dos bombardeios aéreos contra o território palestino.

Os 13 membros do Conselho de Segurança da ONU condenaram os bombardeios de Israel, que surgiram em resposta ao lançamento de foguetes caseiros pelos membros do Hamas na semana passada. No último dia 19 terminou um cessar-fogo de seis meses negociado entre o Hamas, que controla Gaza, e o governo de Israel.

Ao mesmo tempo, o Conselho criticou duramente a facção Hamas. É "completamente inaceitável" lançar ataques contra Israel após uma paz que durou vários meses, afirmou o porta-voz do Conselho de Segurança da ONU, Gordon Johndroe. "Essas pessoas não são nada além de criminosas, e Israel busca defender seu povo dos terroristas que matam seus iguais indiscriminadamente", diz a declaração.

"Eles precisam parar. Nós já dissemos antes que eles tinham que escolher: não dá para ter um pé na política e um pé no terror."

Ainda não é possível precisar o número de mortos no segundo dia de ataques.A nova operação destruiu a estrada Saladino, a principal de Gaza, sem deixar vítimas; uma oficina metalúrgica usada para a fabricação de foguetes; e a sede da organização Al-Nour, vinculada ao Hamas.

Ontem, o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, pediu o fim dos confrontos e disse que está "profundamente alarmado com a violência pesada e o banho de sangue de hoje em Gaza", além da "continuidade da violência no sul de Israel".

Por terra

O Exército israelense aumentou o efetivo na fronteira com a faixa de Gaza no fim da noite de sábado para uma possível invasão por terra do território. A informação foi divulgada pela imprensa israelense, mas o governo não confirmou. Ontem, o premiê de Israel, Ehud Olmert, afirmou que seu governo dará para o Exército todo o tempo que for necessário para devolver uma "vida normal" aos habitantes do sul de Israel.

"Israel fez tudo o que estava em sua mão para manter o cessar-fogo com o Hamas, mas nosso desejo de calma foi respondido com terrorismo", disse Olmert em referência aos projéteis palestinos lançados nos últimos dias contra Israel.

Resposta palestina

Khaled Mashaal, líder máximo do grupo radical islâmico Hamas, convocou seus seguidores para realizar uma nova Intifada contra Israel em resposta aos bombardeios. Ele se referia às revoltas populares de civis palestinos contra Israel.

Do exílio em Damasco (Síria), Mashaal defendeu que os palestinos se unam e dêem uma resposta "dura" aos ataques para que Israel "beba do mesmo copo que os palestinos". Para a terceira Intifada --a primeira ocorreu entre 1987 e 1993 e a segunda, em 2000 Mashaal sugeriu que sejam utilizados ataques suicidas.

Leila Shahid, a representante da ANP (Autoridade Nacional Palestina) na União Européia, acusou Israel de ter cometido um "crime de guerra" ao realizar uma grande ofensiva contra grupos radicais palestinos instalados na faixa de Gaza. "Nada justifica o bombardeio de uma população civil de 1,5 milhão de habitantes que vivem em 356 km quadrados."

Em resposta aos ataques neste sábado, o Hamas disse ter lançado dezenas de foguetes Qassam [de fabricação caseira] contra o sul de Israel. Um deles acertou uma casa e matou uma mulher. Outros dois foguetes caíram na cidade de Ashkelon sem provocar vítimas, segundo a polícia de Israel. O comando do Hamas disse que não se renderá aos ataques israelenses.

Reação mundial

Diversos países se manifestaram sobre os ataques. O Brasil criticou a "reação desproporcional" de Israel e pediu que Israel e o grupo radical islâmico Hamas parem com seus ataques e iniciem um diálogo, segundo nota do Ministério das Relações Exteriores.

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pediu clemência ao Hamas para que não aumente a escalada de violência mas, em comunicado emitido pela Casa Branca, sua gestão chamou os radicais de terroristas.

O alto representante para Política Externa e Segurança Comum da União Européia (UE), Javier Solana, pediu um cessar-fogo imediato. Solana reivindicou, de ambas as partes, a máxima contenção.

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, afirmou a jornalistas que a operação de Israel em Gaza "não será fácil nem será breve". "Há um momento para calma e um para luta, e chegou a hora de lutar."

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