Concessão de Prêmio Nobel da Paz a dissidente gerou novos apelos por mudanças
O Partido Comunista da China (PCCh) - legenda única que governa o país - abriu nesta sexta-feira (15) sua plenária anual, uma semana depois da concessão do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo e no momento em que aumentam as reivindicações de dirigentes, como o primeiro-ministro, Wen Jiabao, para que seja iniciada uma reforma política no centro do regime.
A agenda oficial da reunião, sempre envolta em segredos, prevê o debate do plano quinquenal 2011-2015 para fixar a política econômica do período, mas os observadores também estarão atentos a possíveis discussões internas no partido que governa a China desde 1949.
Em sua edição desta quinta-feira (14), o jornal South China Morning Post repercutiu os frequentes apelos públicos de Wen por mudanças políticas na China. Outros meios de imprensa oficiais e não oficiais estenderam esses pedidos à opinião pública.
Jornais como o China Youth Daily (filiado à Liga de Juventude Comunista), o Beijing News, o Oriental Morning Post e outros rotativos do centro e do sul da China transmitiram os pedidos de Wen, aproveitando sua recente aparição nos veículos americanos de imprensa Time e CNN.
Primeiro-ministro promete lutar por reforma
Em entrevista à emissora CNN na semana passada, Wen disse que lutará pela reforma política, "apesar do forte vento e da dura tempestade". Alguns analistas receberam as declarações com ceticismo, avaliando que são um gesto destinado a aplacar as críticas da comunidade internacional contra o histórico de violações aos direitos humanos na China. Outros, no entanto, assinalam que o primeiro-ministro chinês representa correntes reformistas no centro do PCCh, contrárias ao endurecimento nas decisões políticas do presidente do país, Hu Jintao.
As distintas visões de Wen e Hu se baseiam, entre outras coisas, na atitude de ambos no ano de 1989, marcado pelas manifestações pró-democracia na Praça da Paz Celestial. Naquele ano, Wen demonstrou um tímido apoio aos estudantes, participando da reunião dos manifestantes com o então secretário do PCCh, Zhao Ziyang. Ao mesmo tempo, Hu, que já era o titular do principal cargo do Partido no Tibete, se encarregou de reprimir as revoltas na região.
Os atuais apelos de Wen despertaram otimismo em meios de imprensa, como o diário Xiaoxiang Morning Post, que veiculou a seguinte manchete: "China está prestes a lançar seus terceiros 30 anos de reforma" (após as três décadas de maoísmo e as três de abertura econômica).
Censura continua
Apesar de o chefe de governo liderar a corrente reformista, a censura continua. Algumas declarações de Wen à CNN não puderam ser publicadas pela imprensa chinesa, e o mencionado título do Xiaoxiang Morning Post foi retirado da internet.
Em sua entrevista à emissora americana, o primeiro-ministro chinês assegura que "a liberdade de expressão é indispensável para qualquer país, para um país que está no curso de seu desenvolvimento e se fez forte", afirmando, no entanto, que esse direito já está previsto na Constituição chinesa.
Outros altos dirigentes do PCCh, como Yu Keping, citado pela agência Xinhua, mencionaram também a ideia de uma nova onda de reformas de 30 anos, mais focada em assuntos sociais e políticos. Na última quarta-feira (12) foi divulgada a existência de uma carta pedindo reformas políticas assinada por veteranos do PCCh, entre eles Li Rui, antigo secretário do governante Mao Tsé-tung, e o ex-editor-chefe do Diário do Povo, Hu Jiwei.
Prêmio Nobel da Paz está preso
Esses movimentos internos acontecem no momento em que a comunidade internacional multiplicou seus apelos pela democratização da China, fomentada pela concessão do Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo.
Liu, condenado em 2009 a 11 anos de prisão por subversão, foi castigado por participar da redação da Carta 08, que pedia reformas políticas no país asiático. Outros dissidentes políticos e conhecidas figuras da cultura chinesa, como o artista Ai Weiwei e o jornalista Michael Anti, também aderiram às chamadas por reformas em foros da internet, apesar da forte censura imposta por Pequim a qualquer notícia que se refira à concessão do Nobel.
Fontes: R7 - Efe
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