O lulismo, ou a mentira como conforto intelectual

Marcos Guterman

Há pelo menos três boas desculpas para os seguidos escândalos do final do mandato do presidente Lula. A primeira delas é o interesse eleitoreiro da oposição. A segunda é a versão segundo a qual o governo anterior também aprontava. A terceira minimiza os crimes, dando-lhes caráter de coisa comum.

Como toda boa desculpa, os argumentos acima servem somente para burlar a realidade, de modo a relativizar os desmandos da administração lulista, isto é, de modo a diminuir-lhes a importância ante a missão histórica que Lula julga cumprir. Tudo o que interessa, ao fim e ao cabo, é o “bem do povo”. Em nome disso, opera-se uma clara inversão moral: aceita-se como “natural” que haja corrupção, porque, afinal, “todo mundo faz” – e, ademais, a vulnerabilidade da administração pública é vista como problema menor, quando não como mera construção da “oposição golpista”, quando colocada na perspectiva das conquistas sociais do lulismo.

A experiência dos grandes regimes autoritários do século 20 mostra que eles se assentaram em modelos desse tipo. Em torno de um líder carismático, o real dá lugar à retórica, e a história é substituída pela certeza de que o passado não existe senão como prova da necessidade da revolução que o líder opera. É dele que emana o sentido de tudo – e então, aos demais, resta renunciar à razão, já que refletir sobre o real e suas contradições é tarefa que cabe somente ao líder, travestido de profeta.

A experiência desses regimes também mostra que mesmo cidadãos intelectualmente muito preparados aceitam a ideia de que o líder está ali para salvá-los da insegurança da democracia, um regime tão frágil que precisa ser cultivado dia a dia para sobreviver. No Estado autoritário de perfil totalitário, por outro lado, nada é confuso – ao contrário: é confortavelmente lógico. Se o líder determina que algo é verdade, então materializa-se a verdade, mesmo que não seja.

Desse modo, as “verdades” emanadas do líder devem ser defendidas a todo custo, porque permitir que elas sejam negadas, por meio do contraditório, significa desmontar todo o sistema de pensamento sobre o qual se assentam as mentiras usadas justamente para destruir a pluralidade democrática.


Fonte: Marcos Guterman/ O ESTADO DE S PAULO

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