Portugal já está mais quente, seco e perigoso



Só num ano, 2005, a seca obrigou a racionar a água em quase todo o País e os prejuízos económicos ascenderam a 800 milhões de euros. Noutro Verão, 2003, o balanço dos fogos também foi trágico: 20 mortos, centenas de casas e quase meio milhão de hectares de floresta destruídos pelas chamas. Mas outro risco tem--se tornado uma ameaça constante, sempre que o mar rouba terreno à costa, pendurando construções em arribas periclitantes. Estas situações catastróficas não são cenários futuros mas episódios que já ocorreram em Portugal. Com as alterações climáticas, só tenderão a agravar-se.

"Não vamos ter propriamente fenómenos novos, mas assistir a consequências muito mais preocupantes de problemas que já temos", afirmou ao DN Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas. O coordenador do Projecto SIAM, que analisou os efeitos das mudanças do clima no nosso território, coloca dois temas no topo das preocupações: falta de água e erosão costeira.

Se, nos primeiros anos da década, os estudos apontavam já para um risco de erosão e de perda de terreno em mais de 60% do litoral português, a previsão da subida do nível do mar agravará ainda mais a fragilidade da costa. Mas, mais do que proteger zonas sensíveis, alimentando praias com areia ou consolidando arribas, é preciso definir os casos em que vale a pena intervir, defende o especialista. "Não temos uma monitorização constante. Nem instrumentos para decidir, por exemplo, que numa zona vale a pena intervir porque a morfologia e a ocupação turística o justificam. E noutra optamos por deixar cair", acrescenta. Duarte Santos dá o exemplo da Costa de Caparica: porque se gastam milhões de euros a deitar areia numa praia que defende parques de campismo, se as correntes do mar tendem a levar esses sedimentos?

Grande parte da riqueza, das infra-estruturas, e até da população do País, fixaram-se no litoral. Aí estão zonas turísticas, centros urbanos e complexos industriais. Por isso, defende a elaboração de um plano de desocupação das zonas perigosas. Decisões políticas delicadas que terão de ser tomadas, a bem da segurança de bens e pessoas.

Outro problema grave que o futuro nos reserva é a escassez dos recursos hídricos. Com o aquecimento do planeta, tenderão a extremar--se os fenómenos climático, e em Portugal, esta tendência traduzir-se--á em mais secas e ondas de calor, mas também em cheias. Situações-limite como a de 2005, em que a agricultura foi arrasada e milhares de pessoas tiveram restrições de água, repetir- -se-ão. Todos os anos, os agricultores do Sul queixam-se da diminuição da chuva e lutam contra os efeitos da seca. Entre 2080 e 2100, a redução da precipitação poderá atingir valores correspondentes a 20% e 40% do total anual.

O agravamento das ondas de calor trará uma temperatura insuportável ao Sul, falta de água e incêndios. No Verão, o turismo será difícil e tenderá a haver alteração nos fluxos. O Algarve pode tornar-se um destino de Primavera ou Outono.

Fonte: DN GLOBO / RITA CARVALHO

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