Raul Juste Lores
Acabo de ver um dos muitos protestos em Teerã contra o resultado um tanto suspeito das eleições. A polícia está batendo em todo mundo, até em quem está na calçada só assistindo. Universidades e escolas estão fechadas, são proibidas manifestações, parte da internet e do sistema de mensagens por celular está fora do ar. Ninguém pode discutir o resultado. E o Irã voltou a ser o de sempre.
O presidente do Irã, o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, foi reeleito ontem no primeiro turno para mais quatro anos no cargo, segundo cifras oficiais de apuração.
Ahmadinejad teve 62,6% dos votos, o reformista Mir Hossein Mousavi, 32,7% dos votos.
Os dois candidatos declararam vitória ontem à noite, após a campanha mais acirrada na história do país. Na madrugada, assessores de Mousavi já afirmavam que o resultado era uma "fraude".
Horas antes do fechamento das urnas, Mousavi afirmou: "Baseado em contas preliminares, sou o vencedor". Seus assessores diziam que ele obtivera 65% dos votos. Mousavi ainda não havia se pronunciado após a confirmação da vitória de Ahmadinejad.
Tão logo a eleição acabou, a agência oficial de notícias iraniana, Irna, também declarou uma "ampla vitória" do atual presidente.
Com quatro candidatos na disputa, a corrida ficou polarizada entre Ahmadinejad e Mousavi, que entre 1980 e 1988 foi primeiro-ministro do país, cargo que não existe mais, e desde então estava afastado da política. Os dois outros postulantes obtinham, somados, menos de 3% dos votos, até o fechamento desta edição.
Ahmadinejad é mais popular entre camponeses, aposentados, funcionários públicos e militares, depois de manter programas assistenciais no interior, aumentar salários do funcionalismo e provocar os EUA e Israel com um controverso programa nuclear.
Mousavi era o preferido de mulheres, universitários, jovens urbanos, minorias étnicas e na classe média, prometendo menos restrições na vida cotidiana e melhores relações com o Ocidente.
Desde a criação da República Islâmica do Irã, em 1979, todos os presidentes conseguiram se reeleger para um segundo mandato. A reeleição de Ahmadinejad, no entanto, era incerta dados os efeitos devastadores da crise econômica sobre o país, com alta da inflação e do desemprego e queda no preço do petróleo, que move a economia iraniana.
Vários governos ocidentais, inclusive os EUA, torciam por uma vitória de Mousavi, que tem uma retórica mais conciliatória, embora a política externa do Irã e o futuro de seu programa nuclear sejam realmente decididos pelo aiatolá Ali Khamenei, líder supremo.
Campanha inédita

Embora o voto no Irã seja facultativo, a afluência de eleitores foi tão grande que o fechamento das urnas foi adiado em quatro horas -passou das 18h para as 22h locais.
Em 2005, depois de oito anos do reformista Mohammad Khatami no poder e frustração pela lentidão nas mudanças, muitos reformistas boicotaram a eleição, o que facilitou a vitória de Ahmadinejad, então azarão na disputa contra o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997).
Desta vez, a campanha teve comícios gigantes, debates pela TV, dança na rua, carreatas e festa, algo inédito no país.
Mousavi votou ontem de mãos dadas com a mulher, no que virou a assinatura de sua campanha - o casal unido, onde sua mulher, Zahra Rahnavard, participou ativamente da campanha, até em discursos.
Ahmadinejad votou a poucos quilômetros de distância do principal rival, fazendo o tradicional gesto de humildade persa, com os dedos fechados batendo na testa e abaixando levemente a cabeça, o que significa "sou seu servidor".
Longas filas

A campanha festiva que dominou Teerã nas últimas semanas desapareceu no dia da eleição, quando qualquer tipo de propaganda é proibido.
Não existem zonas eleitorais, então o eleitor decide em que lugar de sua cidade vota, seja numa escola, mesquita ou prédio público.
As filas para votar na imponente mesquita de Ershad superavam dois quarteirões.
Como nos principais locais de votação, lá havia filas separadas para homens e mulheres. Os eleitores preenchem as células de votação em várias cabines vizinhas, onde a privacidade é nula. Analfabetos levam parentes às cabines para que preencham para eles a cédula.
Em uma pequena cédula, o eleitor escreve o nome e o código do seu candidato - não há fotos ou o nome impressos. Ao terminar, ele se dirige à mesa de votação, onde apresenta a cédula de identidade e tem o dedo pintado para marcar sua impressão digital, de maneira que um mesmo eleitor não possa votar duas vezes.
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