A falta de aparições públicas do principal oponente de Ahmadinejad, o ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi, levou a especulações de que ele havia sido preso. O jornal israelense Haaretz divulgou que o oposicionista havia sido detido quando estava a caminho da casa do líder supremo, mas não há outras confirmações da informação.
No coração da capital, manifestantes, principalmente jovens, acusaram durante o dia o ultraconservador presidente de ter usado fraudes para roubar a vitória eleitoral de seu rival reformista, que nos últimos dias chegou a ser visto como favorito devido à grande mobilização de jovens em torno de sua candidatura. Eles entraram em choque com a polícia no centro de Teerã, jogando pedras e ateando fogo a pneus.
Segundo os resultados oficiais, Mousavi teve 33,75%, diante de 62,6% dos votos recebidos pelo ultraconservador Ahmadinejad, que conquistou a vitória em primeiro turno. O conservador Mohsen Rezai recebeu 1,73% dos votos, e o reformista Mehdi Karubi, 0,85%.
Os confrontos, que incluíram raras cenas de manifestantes mascarados enfrentando diretamente os policiais, empurram o autodenominado movimento reformista para uma decisão crucial: continuar a desafiar as poderosas forças de segurança do Irão, ou, como eles têm feito normalmente, recolherem-se de novo em desânimo e frustração por mais uma vez perder terreno para o poderoso sistema de poder islâmico do país.
Pelo menos por um dia, o tom e táticas foram mais as mais combativas desde que o governo esmagou protestos estudantis em 1999. Jovens lançavam pedras e garrafas em unidades antimotim e chamavam Ahmadinejad de líder ilegítimo.

Partidário de Mir Hossein Mousavi conversa com policial durante protesto contra resultado oficial das eleições
Em uma importante rua de Teerã, aproximadamente 300 jovens bloquearam a via formando um cordão humano enquanto gritavam "Ahmadinejad, vergonha para você. Deixe o governo em paz".
O ministro do interior, Sadeq Mahsouli, que supervisionou as eleições e chefia as forças policiais do país, avisou a população para não participar de nenhuma "reunião não autorizada".
Antes, a poderosa Guarda Revolucionária alertou que não iria tolerar nenhum desafio feito pelo "movimento verde" de Mousavi.
Em vários outros pontos da cidade, como na Universidade de Teerã, policias dispersaram manifestações com gás lacrimogêneo.
Reação
O novo herói dos reformistas, Mir Hossein Mousavi, declarou-se o verdadeiro vencedor da disputa presidencial logo depois que as urnas foram fechadas na sexta-feira, e chamou os seus apoiadores a resistirem a um governo baseado em"mentiras e ditadura".
A força das autoridades foi tão visível, no entanto, quanto os protestos: houve bloqueio das mensagens de texto, dos sites pró-Mousavi e do popular site de relacionamentos Facebook. À noite, o sinal de celular foi suspenso em Teerã.

Partidários de Mir Hossein Mousavi protestam contra resultado de eleição que deu vitória a Mahmoud Ahmadinejad
Durante a noite era impossível ter um balanço claro de quantas pessoas haviam ficado feridas ou sido presas. A polícia invadiu a sede do maior partido reformista do país, a Frente de Participação do Irã islâmico, e prendeu vários dirigentes reformistas, disseram, sob condição de anonimato, ativistas políticos próximos ao partido.
Mousavi não apareceu em público neste sábado, mas publicou em seu site a mensagem: "As pessoas não vão respeitar aqueles que tomam o poder por meio da de fraude". No entanto, ele pediu calma aos seus apoiadores.
Pela manhã, a campanha de Mousavi pediu ao Conselho de Guardiães --que precisa ratificar o resultado da votação-- que anulasse a eleição.
Mas o líder supremo do país rejeitou qualquer contestação e defendeu a vitória de Ahmadinejad, a quem deu apoio tácito durante a campanha.
E em mensagem transmitida pela TV, Khamenei pediu aos outros candidatos que aceitassem os resultados da disputa e destacou que os 24 milhões de votos recebidos pelo presidente demonstravam o apoio do povo ao regime. Em um sinal de discordância direta incomum com a figura mais importante do país, a Associação do Clérigo Combatente, fundada pelo ex-presidente reformista Mohammad Khatami (1997-2005), que apoiou Mousavi, pediu a anulação da votação e defendeu a realização de uma nova eleição.
"Livre e saudável"
Diante das resistências, Ahmadinejad, negou neste sábado as acusações de fraude nas eleições e assegurou que a vitória pertence ao povo do Irã.
Em discurso na televisão estatal, Ahmadinejad qualificou as eleições de "justas" e felicitou as pessoas que trabalharam no processo, porque, em sua opinião, "fizeram um trabalho impecável".
O ultraconservador afirmou ainda que a eleição que lhe garantiu a vitória no primeiro turno foi "livre e saudável" e criticou a imprensa internacional pela forma como cobriu a eleição. "Todas as máquinas de política e de propaganda no exterior e [suas] seções dentro do país mobilizaram-se contra a nação", disse o presidente.
A Casa Branca informou neste sábado que está acompanhando de perto as denúncias de irregularidades nas eleições iranianas.
"Seguimos observando a situação muito de perto, incluindo os relatórios sobre irregularidades", afirmou em comunicado o porta-voz oficial, Robert Gibbs.
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, também falou hoje sobre os resultados das eleições iranianas, ao dizer que espera que estes reflitam a "verdadeira vontade e desejo" do povo iraniano.
Campanha
Mahmoud Ahmadinejad era considerado imbatível até o início da campanha, mas uma grande mobilização em torno de Mousavi, principalmente de jovens, mulheres e da população urbana, embaralhou o processo de sucessão.
O presidente, favorito na zona rural, contou com o apoio de setores conservadores e era visto como o preferido de setores organizados que normalmente votam em bloco, como o Exército e a Guarda Revolucionária.
Os dois principais opositores protagonizaram uma campanha agressiva, com acusações mútuas de manipulação de dados. Em um inédito debate, assistido por mais de 40 milhões de pessoas, Mousavi disse que o presidente mentia sobre os dados da economia para esconder a inflação resultante do que chamou de incompetência para administrar o país. Ahmadinejad reagiu e disse que os aliados do opositor --como o ex-presidente e chefe do Conselho de Discernimento, Akbar Rafsanjani-- enriqueceram por meio da corrupção.
Os dois também discordaram sobre a política externa. Mousavi acusou o presidente de isolar internacionalmente o país ao negar o holocausto. Mas os quatro concorrentes concordaram em manter o programa nuclear do país, oficialmente com fins de produção de energia. Os Estados Unidos acusam o país de estar tentando desenvolver armas nucleares.
Fontes: REUTERS - FOLHA
Nenhum comentário:
Postar um comentário