Tudo normal no Irã


Adriana Carranca

A crise que abala os alicerces do regime iraniano era prevista. A começar por um número: mais de 70% da população tem até 30 anos. Nascidos após a Revolução Islâmica, em 1979, esses jovens não se identificam com seus ideais. Eles não viram o nacionalista Mohammed Mossadegh, líder do governo mais democrático que o Irã já conheceu, ser deposto por um golpe apoiado pela CIA, em 1953, episódio emblemático, que levou a uma crescente insatisfação do povo iraniano e mais tarde deu espaço ao surgimento de um novo líder, aiatolá Khomeini, culminando com a sua vitória, em 1979.

O movimento atual segue a mesma lógica do passado. Com a vantagem da revolução tecnológica que permite ao povo organizar-se mais facilmente hoje, via Internet - o governo até tenta, mas é impossível bloquear todos os sites, blogs, chats e a comunicação por celular, e o farsi, idioma oficial do Irã, já é o segundo da blogosfera ao lado do francês.

O nacionalismo enraizado na cultura de um povo altamente politizado e mobilizado, heranças da antiga Pérsia, não devem ser desprezados. Não é a primeira vez que os iranianos vão às ruas e nem será a última. Quando estive em Teerã, em junho e julho de 2007, o governo anunciara um programa de racionamento da gasolina - embora seja o terceiro maior produtor mundial de petróleo, o Irã não tem tecnologia para o refino e importa quase a metade do combustível consumido internamente - gerando violentos protestos. Também presenciei mulheres em passeata por igualdade de direitos e estudantes que pediam liberdade de imprensa. Todos eles foram seguidos de violenta resposta da polícia.

Mas, os persas não são um povo de se dobrar facilmente.

Que o regime atual, como é, terá de se reinventar de alguma forma ou estará fadado ao fracasso é certo. Na história recente do Irã, no entanto, falta ainda um importante personagem para que o movimento reformista culmine com uma nova revolução e a queda da ditadura islâmica: um líder com a mesma força e carisma do então jovem religioso e idealista Ruhollah Khomeini. Resta saber se Mir Hossein Mousavi terá fôlego para tanto.

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