
Neda, a jovem morta pela repressão do regime islâmico
Gustavo Chacra
Faz 30 anos que caiu o regime do Xá Reza Pahlevi e as semelhanças com o cenário atual são óbvias. Um regime repressor, jovens nas ruas, mortes, um líder. Na época, o equivalente das Guardas Revolucionárias era a sanguinária Savak.
No Ocidente, poucos acreditavam que fosse possível o xá ser derrubado, com todo o seu poderio militar e o apoio dos EUA. Mas os revolucionários, que englobavam não apenas islâmicos, mas também intelectuais, marxistas, democratas, comerciantes dos bazares e uma série de outras classes da complexa sociedade iraniana conseguiram expulsar o antigo governante de Teerã e iniciar um experimento sem paralelo na história recente.
Não se imaginava, naquele momento, que Ruthola Khomeini fosse instalar um regime islâmico. Mas, aos poucos, os radicais se fortaleceram e o Irã se converteu nesta mistura de teocracia com certas liberdades democráticas como o direito ao voto.
O fortalecimento do aiatolá Khomeini se deveu em grande parte à invasão iraquiana, sob o comando de Saddam Hussein. A população iraniana se uniu e o Irã travou o mais sangrento conflito no Oriente Médio depois do fim da Segunda Guerra. O número de mortos supera o total de vítimas da Guerra do Líbano, Guerra do Iraque, Guerra de 1948, Guerra de Suez, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur.
Hoje, o levante iraniano envolve algumas das classes presentes em 1979. De novo, muitos jovens. A maioria clama por democracia. Destaque para a presença de mulheres. Relatos de jornalistas em Teerã e no Twitter indicam que, aos poucos, policiais iranianos e mesmo soldados leais ao regime começam a mudar de lado. Foi assim que o xá caiu. Não dá para saber até que ponto os casos são isolados ou até mesmo verídicos. Também dizem que os comerciantes dos bazares, uma força importante na história do Irã, estão com Mir Hussein Mousavi, o herói da vez. Sem falar no ex-presidente Rafsanjani.
Para derrubar o regime, seria preciso um estopim. Este já aconteceu, com a provável fraude eleitoral. Depois, vieram as manifestações. O poder econômico, aparentemente, está com os opositores. Se o Exército mudar de lado, cai Ahmadinejad e, muito provavelmente, o aiatolá Ali Khamanei. Mais uma vez, o Irã estaria na vanguarda da história.
Claro, ainda existe risco enorme de o regime se radicalizar, prender Rafsajani, Mousavi e centenas de jovens. Mas, de qualquer forma, Khamanei se tornou um homem comum, muito longe de representar o que Khomeini representou para o início do regime. O líder supremo está com a credibilidade de um Berlusconi na hora de dar uma opinião. E Ahmadinjead, com toda a sua pinta de honesto, de morar em uma casa pobre e com seu terno envelhecido, provou que não passa de um populista que usa um discurso anti-semita com o suposto intuito de defender os palestinos, apesar de apenas prejudicá-los, enquanto é conivente com a morte de jovens em seu próprio país. Tampouco permite que jornalistas estrangeiros possam cobrir os eventos em Teerã, apesar de ter criticado israelenses e egípcios por este mesmo motivo em Gaza. Nas ruas árabes, sua imagem aos poucos se assemelha à de um Hosni Mubarak.
Censura do regime obriga imprensa internacional a inovar na cobertura
As cenas das manifestações no Irã serão lembradas como a primeira vez que um conflito passou a ser coberto, majoritariamente, por pessoas comuns, que testemunharam ou participaram dos acontecimentos - e não apenas por jornalistas.
As imagens da morte da jovem Neda Salehi Agha Soltan, que repercutiram pelo mundo todo no YouTube e se espalharam ainda mais com links postados no Twitter e no Facebook, não existiriam se o assassinato tivesse ocorrido há alguns anos, quando celulares com câmeras e sites de relacionamento eram inacessíveis.
A preocupação é tanta com o surgimento de novas tecnologias que o Centro de Imprensa Estrangeira de Nova York convidou correspondentes internacionais para um workshop sobre como usar o Facebook, Twitter e LinkedIn em grandes coberturas, como a atual no Irã.
O New York Times já avançou neste sentido e, em sua reportagem sobre o Irã de ontem, trazia a assinatura de Nazila Fathi, correspondente do jornal em Teerã, e de Michael Slackman, chefe do escritório no Cairo. Como a jornalista no território iraniano enfrenta restrições para trabalhar, grande parte das informações foi conseguida por meio do correspondente no Egito justamente em sites.
O diário nova-iorquino usa ainda o blog The Lede, postado na capa do jornal, que acompanha em tempo real todos os acontecimentos no Irã por meio do Twitter, vídeos do YouTube e Facebook. A CNN pede que iranianos baixem vídeos no site para que sejam exibidos posteriormente no programa iReport. Na chamada, com o nome de Iran?s Voice ("Voz do Irã"), o canal pergunta: "Você esteve lá? Divida a sua história." A rede de TV Al-Jazira, do Catar, faz o mesmo.
O regime de Teerã tenta bloquear o acesso aos sites. Mas iranianos conseguem burlar a censura. Hoje, no Facebook, jovens iranianos na diáspora, como Mateen, pediam a amigos que enviassem para eles "atalhos virtuais" que ajudassem os iranianos a acessar a internet. Outra saída é buscar sites alternativos, como fazem na Turquia, onde o YouTube é bloqueado, ou os sírios, que não podem acessar o Facebook, apesar de quase todos os jovens de classe média de Damasco terem uma conta.
Em Teerã não é muito diferente de Damasco e as cenas lembram os iranianos em 1979, antes da revolução, que compravam fitas cassetes contrabandeadas com os discursos do aiatolá Khomeini, ainda no exílio, apesar do forte monitoramento da polícia secreta do xá.
MUDANÇA REPENTINA
O avanço é tão rápido que, ainda neste ano, na guerra de Israel contra o Hamas, essas tecnologias não foram muito utilizadas por palestinos na Faixa de Gaza. No conflito, o governo israelense, alegando questões de segurança, não permitiu que jornalistas estrangeiros entrassem no território palestino. Os repórteres tiveram de buscar informações nas redes de TV árabes, como a Al-Jazira, mas não havia tantas imagens distribuídas em tempo real por links no Twitter ou no Facebook. Na Guerra do Golfo (1991), as opções eram ainda menores. Peter Arnett e Bernard Shaw, ambos da CNN, praticamente foram as únicas vozes para todo o Ocidente durante a ofensiva americana contra o regime de Saddam Hussein, que havia ocupado o Kuwait.
A mudança, no entanto, tem provocado debates em programas de TV e nas páginas de jornais dos Estados Unidos e mesmo do Oriente Médio. Tanto a CNN, no programa GPS, apresentado por Fareed Zakaria, como a Al-Jazira debateram os riscos de depender de pessoas que não são jornalistas profissionais para divulgar notícias e imagens.
A CNN montou uma equipe com integrantes que falam persa para verificar se os locais apresentados são mesmo reais. Técnicos verificam se não há adulterações. A Al-Jazira, mesmo antes do advento do Twitter e do YouTube, já fazia o mesmo para checar fitas como as de Osama Bin Laden.
A agência de risco político Stratfor, em análise publicada para seus clientes ontem, alerta para a ameaça de se dar muita importância para as informações postadas no Twitter, afirmando que elas atingem apenas usuários do recurso no país persa, com repercussão limitada ao exterior e entre os fluentes em inglês da elite iraniana. "As tropas do Exército e as outras classes não estão no Twitter", diz a análise, lembrando que mesmo em países do Ocidente o serviço começou a crescer agora. Para a empresa, o melhor seriam repórteres entrevistando as pessoas em persa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário