Oposição faz novo protesto contra reeleição no Irã; Conselho investiga denúncias


Presidente Mahmoud Ahmadinejad (esq.) ganhou reeleição sob críticas de Mir Mousavi

Centenas de oposicionistas desafiaram nesta segunda-feira o decreto do governo e retornaram às ruas da capital Teerã para protestar contra a reeleição do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, na eleição de sexta-feira passada (12).

O líder reformista e candidato derrotado, Mir Hossein Mousavi, acusa o presidente de ter fraudado o resultado da votação e confirmou sua presença na manifestação marcada para a tarde desta segunda-feira, o que acalmou as especulações sobre seu estranho sumiço após o comício eleitoral.

Ahmadinejad, reeleito com aproximadamente 62% dos votos, já negou a fraude e comparou a insatisfação dos eleitores com a que os torcedores sentem quando seu time de futebol perde um jogo.

Segundo a rede de televisão CNN, os manifestantes se reuniram na Universidade Teerã para mais um dia de protestos contra Ahmadinejad, apesar do decreto estabelecido pelo governo proibindo as manifestações convocadas por Mousavi.

O jornal espanhol "El País" relata que os oposicionistas gritam slogans contra o presidente como "Morte ao Ditador" e "Onde está meu voto?". A publicação relata ainda que os manifestantes se depararam com dezenas de seguidores do presidente reeleito, a maioria em motocicletas e armados com paus. A imprensa iraniana ignorou os protestos e o governo já advertiu os jornalistas estrangeiros que devem deixar o país assim que suas permissões de permanência expirarem.

"É horrível, vergonhoso e paradoxal o que você vê na TV", disse um apoiador de Mousavi à CNN.

O grupo de direitos Repórteres Sem Fronteiras afirmou que quatro repórteres foram presos por autoridades iranianas, incluindo um jornalista que ganhou o prêmio da organização em 2001. A organização afirmou ainda que não tem informação sobre outros dez repórteres que estavam no país. Vários correspondentes receberam ligações, presumivelmente procedentes do Ministério de Orientação Islâmica, nas quais foram lembrados de que em nenhum caso serão estendidos seus vistos.

Fontes do Ministério de Orientação Islâmica negaram o envio deste fax e falaram da existência de muitos "rumores" no país. Ao menos dois jornalistas estrangeiros foram detidos e outros receberam golpes por parte da polícia e dos Basij enquanto cobriam as manifestações, segunda a agência de notícias Efe.

O assédio à imprensa internacional, que sofre muitas dificuldades para poder informar sobre os atuais distúrbios no Irã, começou no sábado passado (13), com os primeiros protestos da oposição.

Alguns correspondentes estrangeiros, considerados testemunhas incômodas, receberam um fax de advertência dizendo que podiam ser detidos a qualquer momento nas ruas e que seu credenciamento poderia ser retirado.

Manifestação

O opositor Mousavi confirmou em seu site que participará de uma manifestação convocada para esta segunda-feira em Teerã.

Mousavi, que há vários dias estava sob vigilância na própria casa, deve pedir calma aos eleitores depois de uma noite de violência na capital. No mesmo protesto, que inicialmente havia sido proibido pelo Ministério do Interior, estará o também candidato reformista à Presidência Mehdi Karrubi.

Aparentemente, os dois opositores tiveram uma reunião neste domingo à tarde com o líder supremo da Revolução Islâmica, aiatolá Ali Khamenei, com quem discutiram a situação do país.

Segundo a agência de notícias Fars, durante o encontro, Khamenei garantiu que as denúncias serão devidamente investigadas. Em troca, pediu a Mousavi que mantenha a calma.

"Em outras eleições, alguns candidatos também tiveram problemas, que foram tratados pelo Conselho dos Guardiães e dentro das vias legais. Naturalmente, as questões devem ser tratadas por meio das vias legais", afirmou Khamenei.

Investigação

O porta-voz do Conselho dos Guardiães, Ali Kadjodai, confirmou nesta segunda-feira que, "a partir de amanhã", o órgão examinará as cartas em que dois dos candidatos à Presidência do Irã denunciam fraudes e falhas nas eleições de sexta-feira (12).

Segundo o Conselho, as cartas foram entregues ontem, e o processo de análise deve durar de "sete a dez dias".

"A lei permite aos candidatos um prazo de três dias para protestar. Portanto, os candidatos têm tempo até o fim do horário comercial de hoje para apresentar suas reclamações", disse Kadjodai, ouvido pela televisão local.

O porta-voz, no entanto, afirmou que o Conselho dos Guardiães só aceitará as queixas que estiverem bem documentadas e que possam ser processadas. "Por exemplo, um dos candidatos reclamou dos debates [na televisão], pelos quais não somos responsáveis. Porém, trataremos da questão das cédulas e da presença de representantes dos candidatos nos colégios eleitorais", acrescentou.

Apesar de ter pedido ao Conselho dos Guardiães que "examine minuciosamente" a carta com as denúncias de Mousavi, no sábado passado (13) o líder supremo deixou claro sua opinião. Em declarações públicas, Khamenei declarou seu apoio à vitória do atual presidente e pediu aos outros candidatos que aceitem o resultado.

O Irã agora aguarda a decisão das autoridades eleitorais sobre o resultado do pleito. Mas, desde a fundação da República Islâmica, há 30 anos, o poderoso Conselho dos Guardiães nunca tomou uma decisão de tal envergadura.

Dúvidas sobre a vitória de Ahmadinejad


Raul Juste Lores

Apenas duas horas após o fechamento das urnas, a agência estatal de notícias divulgou a vitória de Ahmadinejad, antes mesmo do Conselho Eleitoral. São 40 milhões de votos em cédulas de papel escritas a mão. Normalmente, o processo leva de 2 a 3 dias.

Blecaute informativo, com bloqueio de internet, mensagens de celular e telefonia em boa parte do país. Governo proíbe reuniões públicas e manda fechar universidades e escolas até segunda ordem.

Ahmadinejad foi eleito no segundo turno em 2005 com 14 milhões de votos. O comparecimento então foi de apenas 52%, com o boicote de boa parte da classe média pró-reformista.

Nesta eleição, com 84% de comparecimento e entusiasmo de seus opositores, Ahmadinejad teve 24,5 milhões de votos.

A crise econômica dura mais de um ano, com inflação de 23,6% e desemprego de 20%. O crescimento do PIB caiu mais da metade de 2007 a 2009, o que normalmente afeta o governo atual.

Poucas horas após a divulgação do resultado, líderes reformistas são presos e governo avisa que não renovará o visto de jornalistas estrangeiros.

Centenas de protestos aconteceram ontem no Irã, após o Conselho Eleitoral divulgar a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad, com 62,7% dos votos.
Ele derrotou o reformista moderado Mir Hossein Mousavi, que teve 33,7% dos votos. O opositor disse que houve "irregularidades em massa" e pediu a anulação das eleições.
Os comitês dos candidatos reformistas, Mousavi e Mehdi Karubi, amanheceram cercados por paramilitares. Em sua página na internet, Mousavi pediu calma aos partidários para evitar ainda mais violência.
Ahmadinejad disse, em comunicado televisivo, que o resultado "é uma grande vitória" e acusou a imprensa internacional estar "totalmente mobilizada contra o nosso povo".
O presidente, no cargo desde 2005, tem previsto para a manhã deste domingo um comício na praça Azadi ("liberdade") .
Nas últimas semanas, a grave crise econômica, racha inédito na liderança islâmica e bem-sucedida campanha entre jovens e mulheres tinham tirado o favoritismo de Ahmadinejad.
Várias medidas de segurança foram implementadas. Estão proibidos comícios e reuniões públicas até segunda ordem.
As universidades iranianas foram fechadas por ordem ministerial e provas marcadas no fim de semana, em temporada de exame, foram adiadas.
O serviço de mensagens enviadas por celulares foi suspenso anteontem e funcionou precariamente ao longo do sábado, assim como a telefonia celular.
Várias cidades ficaram sem internet. Sites da campanha de Mousavi, inclusive seu boletim de notícias, estavam bloqueados na manhã de ontem.
A TV estatal não para de exibir mensagens pedindo "calma e aceitação dos resultados", e são exibidas imagens de líderes reformistas pedindo "calma" -ainda que esses depoimentos tenham sido gravados na semana passada, em outro contexto.
O Ministério da Cultura anunciou ontem que não renovará os vistos de jornalistas estrangeiros no país, que são concedidos por períodos de até uma semana. Acredita-se que já na quarta-feira não haverá imprensa estrangeira em Teerã.

Repressão

Marchas espontâneas, reunindo de 50 a 10 mil pessoas, aconteceram pela capital ao longo do dia, cantando "Roubo, roubo, roubo" ou "Ditador, bye, bye, ditador, bye, bye". A maioria terminou com manifestantes ensanguentados ou detidos.
Militares, paramilitares e a temida milícia dos basijis, os "vigilantes da revolução", estavam espalhados pela cidade.
A avenida Fatemi, onde fica o Ministério do Interior, que divulgou os resultados, foi fechada por diversos quarteirões, tanto para carros como para pedestres. Estes apanhavam de cassetetes da polícia se tentassem atravessar a rua.
O repórter da Folha foi agredido a cassetetes por um policial, enquanto se protegia em uma marquise da multidão que corria -e se derrubava- fugindo da repressão na avenida Fatemi. Diversos fotógrafos ficaram sangrando -eram os maiores alvos da polícia. Houve protestos também em outras partes do país.

Incógnita

A grande interrogação é como se comportarão as dezenas de milhares de jovens que tomaram as ruas de Teerã nas últimas três semanas, fazendo festiva campanha para Mousavi -o clima de democracia e liberdade que marcou a campanha se dissipou rapidamente.
Na quarta-feira, o chefe político da Guarda Revolucionária disse que qualquer "revolução de veludo" seria reprimida exemplarmente -em referência à revolta popular e estudantil que derrubou o comunismo na antiga Tchecoslováquia.
Mousavi cancelou duas entrevistas coletivas e ainda continuava em reuniões fechadas no Ministério do Interior.
Seu comitê divulgou mensagem em que ele diz que não se "renderá a esta perigosa charada". "Os pilares da República Islâmica estão em risco por algumas autoridades que querem estabelecer uma tirania", disse.

Fotos da Repressão







Fontes: FOLHA - AFP - CNN

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