Oito funcionários da embaixada britânica em Teerã são detidos

Segundo agência local, detidos tiveram papel importante em protestos. Irã acusa, entre outros países, o Reino Unido de incentivar distúrbios.

Oito funcionários locais da embaixada britânica em Teerã foram detidos pela polícia iraniana neste domingo (28), acusados de participar dos distúrbios que ocorrem no país após a polêmica reeleição do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad

Segundo a agência de notícias local "Fars", as oito pessoas "desempenharam um papel importante" na onda de protestos e na violência que sacudiu o Irã desde que foram conhecidos os resultados eleitorais, que a oposição denunciou como fraudulentos.

O regime iraniano acusou os países ocidentais, e em especial Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, de incentivar os distúrbios e de tentar com isso causar o que denomina como uma "revolução de veludo".

Solução

No sábado, o órgão supremo de arbitragem iraniano, presidido pelo ex-presidente Akbar Hashemi Rafsandjani, conclamou os candidatos derrotados na eleição presidencial a cooperarem com o conselho constitucional para encontrar uma solução ao conflito em torno da reeleição de Mahmud Ahmadinejad.

No âmbito diplomático, Ahmadinejad respondeu novamente ao presidente dos EUA, Barack Obama, enquanto o ministério das Relações Exteriores criticava as declarações "apressadas" do G8, cujos chanceleres pediram o fim da violência que tomou conta do país depois da contestada eleição de 12 de junho.

O Conselho de Discernimento conclamou "todos os candidatos a cooperarem ao máximo com o Conselho dos Guardiões da Constituição, e a aproveitarem a oportunidade para apresentar seus documentos para um exame completo e preciso" do processo eleitoral", segundo um comunicado citado pela agência Isna.

O Conselho dos Guardiões anunciou sexta-feira a criação de uma comissão especial com representantes dos candidatos que será encarregada de preparar um relatório sobre a eleição, e voltou a negar que tenham sido cometidas fraudes durante o processo eleitoral.

Mir Hossein Moussavi, principal adversário de Ahmadinejad e líder do movimento de contestação, e o candidato reformador Mehdi Karubi, continuam pedido a anulação da eleição por fraude.


Violência

Com seu apelo a passar pelos "canais apropriados", o Conselho de Discernimento parece estar tentando encontrar uma solução pacífica para a contestação, que deixou pelo menos 20 mortos em duas semanas.

Moussavi e Karubi ainda não responderam ao convite de participar da comissão especial, nem nomearam representantes, segundo o Conselho dos Guardiões. O conservador Mohsen Rezai, que terminou em terceiro na eleição de 12 de junho, anunciou que participará do processo, desde que os demais candidatos façam o mesmo.

O órgão de arbitragem é encarregado de resolver os litígios entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiões. Ele também aconselha o guia supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
O Conselho de Discernimento também pediu ao Conselho dos Guardiões "um exame preciso de todas as queixas", e "respostas às ambiguidades" acerca da votação. A comissão especial deve recontar 10% dos votos.

''A Revolução Iraniana está agora em sua fase stalinista''

Para pensador, Irã vive estágio de autoritarismo semelhante ao de outros sistemas revolucionários, como a União Soviética


atual tormenta política no Irã não se restringe a indivíduos como a manifestante Neda Agha Soltan, que teve sua morte registrada em vídeo, a líderes opositores como Mir Hossein Mousavi ou a homens do regime como o líder supremo, Ali Khamenei. Trata-se, sobretudo, de uma crise de "legitimidade da própria ideia de república islâmica". A opinião é do mais influente historiador vivo do Oriente Médio, o britânico catedrático da Universidade Princeton Bernard Lewis. Aos 93 anos, ele disse por telefone ao Estado que o Irã vive "um estágio de autoritarismo experimentado em outros sistemas revolucionários, como França e URSS". E alerta: "O problema não é só que o Irã quer a bomba, mas que é bem capaz de usá-la."

Como o senhor avalia os protestos no Irã? A combinação de uma república, de fisionomia ocidental, com uma teocracia islâmica está em crise?

Já faz muito tempo que a população iraniana está cada vez mais descontente com seu governo. Agora, isso está vindo à tona. Mas não é algo novo. Acho que há uma perda de legitimidade do regime. Tem-se a impressão de que não se trata de uma objeção restrita a indivíduos. Há um sério questionamento de toda a ideia da república teocrática que foi estabelecida pelos assim chamados "revolucionários" de 1979.

Há ameaça à existência do regime?

Sim, está começando a parecer um desafio à preservação do governo. Até agora, o regime tem demonstrado uma extraordinária durabilidade e convicção, seguindo seu rumo por 30 anos, apesar do que foi feito contra ele.

Analistas dizem que o regime de Ali Khamenei está se tornando uma típica ditadura do Oriente Médio, sem espaços de liberdade, como eleições.

Já é uma típica ditadura. As eleições são encenação. Elas não são o que esperamos que sejam.

O que a história persa pode nos dizer sobre a atual situação? O sr. escreveu, por exemplo, sobre a influência da religião maniqueísta na cultura iraniana. Como essas heranças se manifestam?

É preciso ter em mente que a maioria dos países da região que hoje chamamos de Oriente Médio é uma criação moderna. São invenções recentes, com suas fronteiras desenhadas por estadistas ocidentais. O Irã não é isso. Ele é uma nação antiga, um país e uma nação no sentido ocidental dessas duas palavras. O Irã existe há milênios. Há um sentimento real de nacionalidade e patriotismo entre os iranianos. É algo diferente da maior parte dos países da região, nos quais não há patriotismo. Eles só têm um nacionalismo simples ou uma identidade religiosa. O Irã é um país real, com forte senso de identidade nacional e histórica. É isso que vemos em exercício agora.

Como o sr. avalia ascensão iraniana no Oriente Médio?

Isso certamente é visto por muitos como uma ameaça, algo que se manifesta de várias maneiras. Alguns enxergam o problema de uma perspectiva nacional: o Irã não é árabe. Vizinhos árabes veem tentáculos iranianos se estendendo por uma rota ao norte, do Iraque à Síria, e por uma rota ao sul, em Gaza. Isso é tido como uma ameaça mortal. Esse é o aspecto nacional, pode-se chamá-lo ainda de imperialismo iraniano. Outros sentem-se ameaçados pelo que pode ser definido como o aspecto radical-revolucionário. É preciso lembrar que a maior parte dos regimes no Oriente Médio é de autocracias que governam povos mais ou menos descontentes. Os iranianos tiveram uma verdadeira revolução. O termo "revolução" é pouco usado por governos no Oriente Médio. Mas o que ocorreu no Irã foi uma verdadeira revolução - no mesmo sentido que usamos a palavra para nos referirmos à Revolução Francesa ou à Revolução Russa. Os revolucionários iranianos passaram pelos mesmos "cenários" dessas duas outras revoluções e estamos agora numa fase que pode ser chamada de stalinista ou napoleônica.

O sr. concorda com a ideia de que, caso o Irã alcance capacidade nuclear militar, isso iniciará uma nova era na região?

Um Irã nuclear mudará tudo. O perigo real não é apenas a alteração da situação atual, mas o fato de que os iranianos podem realmente usar a bomba. Lembre-se que o presidente Mahmoud Ahmadinejad e seu grupo têm o que pode ser definido como mentalidade apocalíptica. No islamismo, como no cristianismo e no judaísmo, há uma visão do fim dos tempos. Na versão cristã, Jesus retorna e derrota o anti-Cristo, estabelecendo o reino dos céus na Terra. A versão islâmica é a do Mahdi, descendente do Profeta Maomé, que vem ao mundo, enfrenta o Dadjdjal - equivalente ao anti-Cristo - e estabelece o reino dos céus na Terra. Pelos discursos de Mahmoud Ahmadinejad e de seu grupo, sabemos que eles acreditam que vivemos a fase apocalíptica dessa história. E essa é a luta entre fiéis e infiéis, muçulmanos e o restante do mundo. Certamente é uma mentalidade extremamente perigosa.

Isso significa que a dissuasão nuclear não se aplica ao caso iraniano?

Durante a Guerra Fria, americanos e soviéticos tinham armas nucleares. Mas eles eram dissuadidos de usá-las por causa do que veio a ser definido como "destruição mútua assegurada" (MAD, pela sigla em inglês). Eles sabiam que, se um usasse a bomba, o outro retaliaria e ambos seriam aniquilados. Para pessoas com mentalidade apocalíptica, destruição mútua assegurada não é uma forma de dissuasão, mas de indução. Esta é a mentalidade de um grupo significativo e isso torna a situação extremamente perigosa para o Oriente Médio e para o mundo inteiro.

Fontes: G1- Estadão/Roberto Simon

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails