Irã prendeu centenas de dissidentes em operações longe das ruas


A tirania em ação

Em ações focalizadas, muitas vezes à noite, tendo como alvo pessoas previamente identificadas, o governo iraniano prendeu nas últimas duas semanas centenas de ativistas, jornalistas e estudantes em todo o país, na mais ampla repressão a dissidentes chave desde a Revolução Islâmica 1979. As operações foram realizadas durante os dias de protestos também sem precedentes em 30 anos contra supostas fraudes na eleição do dia último 12, que deu a vitória ao presidente ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad.

De acordo com testemunhas e organizações de direitos humanos, a mais contundente reação das autoridades aconteceu longe das multidões por meio de detenções que visaram pessoas selecionadas. Eles disseram que agentes de segurança à paisana colocaram dezenas dos mais experientes líderes pró-reforma do país atrás das grades.

O governo iraniano afirma que só as pessoas responsáveis por fomentar distúrbios --cujas identidades não foram divulgadas -- foram detidas.

As detenções têm atingido o conjunto de potenciais líderes do movimento de protesto que defende que o presidente Ahmadinejad roubou a eleição por meio de fraude. A ação também aponta para possíveis julgamentos com altas sentenças em um tribunal especial criado para lidar com os casos de distúrbio.

Com o principal candidato reformista, o ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi, sob constante vigilância policial, os protestos exigindo uma nova votação têm perdido força.

Muitos dos detidos durante as manifestações foram libertados após alguns dias, mas a maioria permanece em poder do governo, o que espalhou o medo entre apoiadores de Mousavi.

"Nós ouvimos algumas notícias sobre pessoas que são presas durante a noite, e estamos preocupados se isso poderá acontecer conosco", disse nesta sexta-feira sob condição de anonimato, por e-mail, um morador de Teerã que participou dos protestos.

As detenções focadas em certas pessoas parecem ter começado no dia seguinte à eleição. Vários dos mais conhecidos políticos reformistas iranianos foram detidos, incluindo o irmão e alguns aliados do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005).

Desde então, pelo menos mais 230 estudantes, professores, jornalistas e reformistas foram presos, segundo a Campanha Internacional para os Direitos Humanos no Irã. Apenas a libertação de 29 deles chegou ao conhecimento da organização, baseada em Nova York.

Aparentemente as operações de prisão se aceleraram à medida em que a repressão aos protestos nas ruas ficou mais violenta.

Na segunda-feira à noite, agentes de segurança prenderam quase todo o pessoal do jornal de Mousavi, "The Green Word". De acordo com o site do candidato, 25 pessoas foram detidas na operação. Apenas quatro ou cinco pessoas que estavam fora do escritório durante a ação ficaram livres, segundo o jornal.

Nesta quinta-feira, as autoridades prenderam 70 professores universitários reformistas depois que eles se reuniram com Mousavi, informou o site do candidato. Pelo menos 66 foram libertados mais tarde, disse Hadi Ghaemi, porta-voz da Campanha Internacional para os Direitos Humanos no Irã.

Entre os mais proeminentes reformistas detidos estava Ebrahim Yazdi, 78, que foi um auxiliar importante do fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini, e serviu como Ministro das Relações Exteriores, após a revolução de 1979. Yazdi estava internado devido a um problema na bexiga quando agentes entraram em seu quarto em 17 de junho, desconectaram seus tubos intravenosos e levaram-no para a prisão de Evin, em Teerã.

"Eles não exibem quaisquer documentos legais ou judiciais, não há nada", disse Yazdi por telefone, em Teerã. "Mesmo na prisão, eles não me interrogaram. Ninguém veio me dizer por que eles estavam me prendendo."

Yazdi disse que foi tratado com respeito e libertado no dia seguinte. Mas muitos outros membros do seu Movimento da Liberdade do Irã continuam na prisão, juntamente com líderes de outros partidos reformistas, alguns dos quais serviram no governo de Khatami.

Entre os detidos estão Abdollah Ramezanzadeh, ex-porta-voz do governo Khatami; Saeed Hajjarian, um conselheiro de Khatami que foi paralisado em uma tentativa de assassinato em 2000, e o advogado de direitos humanos Abdolfattah Soltani, que foi preso em seu escritório por agentes de segurança que fingiram ser clientes, segundo a Campanha Internacional para os Direitos Humanos no Irã.

Funcionários ainda detiveram brevemente a filha, e outros quatro parentes de um dos mais poderosos homens do Irã, o ex-presidente aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997). As detenções foram vistas como uma advertência a Rafsanjani, o conservador líder do conselho que teoricamente tem o poder de destituir o líder supremo do país e que muitos acreditam que está ao lado da oposição --o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, determinou que o resultado da eleição deve ser respeitado e ordenou o fim dos protestos.

"As pessoas que eles prenderam representam um amplo espectro de orientação política," disse Yazdi. "É muito mais amplo do que no passado."

A TV estatal começou a transmitir supostas confissões de manifestantes de rua que dizem ter agido para desestabilizar o governo em nome do Reino Unido e de outras nações ocidentais.

"Esses tipos de prisões geralmente são realizadas de forma a produzir algum tipo julgamento-show", disse Ahmad Sadri, professora de sociologia da Faculdade Lake Forest, em Illinois, que escreve uma coluna para o diário reformista iraniano "Etemad-e-Melli" (Confiança Nacional) de propriedade do candidato reformista Mehdi Karubi.

O editor-chefe do jornal foi colocado em prisão preventiva na semana passada, segundo o Comitê para proteção de Jornalistas, que diz que cerca de 40 jornalistas foram presos. Entre eles está o correspondente da revista Newsweek, Maziar Bahari, uma cidadão iraniano-canadense, e Iason Athanasiadis, um repórter grego do jornal "The Washington Times".

Detenções de jornalistas estrangeiros sem laços familiares com o Irã têm sido raras nos últimos anos. O governo grego disse que Athanasiadis, que viveu no Irã entre 2004 e 2007, foi colocado em prisão preventiva na semana passada devido a uma alegada violação de visto. O governo deu poucas informações sobre o caso.

Os pais de Athanasiadis entraram com um recurso pela libertação dele, caracterizando-o como um repórter, fotógrafo e cineasta com "um amor especial ao Irã, e um profundo respeito pela sua cultura e tradições religiosas".

Prisões foram realizadas não só em Teerã, mas em cidades menores, como Hamedan, Zanjan e Shiraz, disseram grupos de direitos humanos. O número de detenções fora de Teerã não pôde ser verificado de forma independente.

"Isso provoca uma paranoia coletiva de que nenhum lugar é seguro; você pode não pode ficar em sua casa, você não pode ficar no hospital", disse Afshon Ostovar, que está escrevendo uma tese de doutorado sobre as forças de segurança do Irã para a Universidade de Michigan.

As prisões focalizadas, longe das ruas, permitem às autoridades reprimir os dissidentes ao mesmo tempo em que evitam o fluxo de vídeos amadores e fotografias que têm exibido os confrontos dos manifestantes com a polícia ou com os milicianos leais ao governo.

A mais famosa dessas imagens mostrou a morte da jovem Neda Agha Soltan sangrando até a morte depois de receber um tiro em uma rua de Teerã.

"É muito mais fácil prender as pessoas à noite que quebrar cabeça à luz do dia", diz Ostovar. "Não há nenhuma câmara, não há nenhuma prova, não há imagens."

Autoridades iranianas aparentemente identificaram alguns dos líderes dos protestos por meio do monitoramento de celulares, contas de e-mail e da atividade de redes sociais na internet.

O medo da vigilância oficial tem forçado alguns apoiadores da oposição à autocensura.

"Em qualquer manifestação, nós desligamos nossos celulares e retiramos as baterias, porque nós ouvimos que as eles podem rastrear as pessoas pelos telefones mesmo quando eles estão desligados," disse o manifestante de Teerã por e-mail.

Muitos temem que o governo possa identificar os manifestantes ao rastrear os computadores que visitam certos sites.

Sadri, o professor em Illinois que regularmente visita o Irã, disse que começou a dosar suas críticas ao governo nos jornais, adotando uma abordagem indireta para evitar enfurecer o governo.

"É escrito muito mais com alegoria e símbolos", afirmou.

Manifestantes são passíveis de execução, diz clérigo do Irã em sermão

O clérigo Ahmed Khatami disse nesta sexta-feira, em um sermão transmitido pela TV, que os líderes dos protestos que geram caos político no país há quase duas semanas serão punidos com rigor e que alguns são "passíveis de execução", de acordo com tradução da agência de notícias Associated Press.

Conforme a agência Reuters, o que o clérigo disse foi que os manifestantes são "mohareb", pessoas que entram em guerra a Deus, e que devem ser punidos "com rigor e selvageria". Pela lei islâmica, a punição para os "mohareb" é a execução.

"Qualquer um que luta contra o sistema islâmico ou o líder da sociedade islâmica o fazem até a destruição completa", disse o clérigo Khatami, em discurso pronunciado na Universidade de Teerã. "Pedimos que o Judiciário confronte os líderes dos protestos, das violações, e aqueles que apoiam os Estados Unidos e Israel fortemente e, sem piedade, dê uma lição a todos."

O clérigo, além de acusar os manifestantes de estarem em "guerra com Deus", também criticou a mídia estrangeira de divulgar falsas notícias, principalmente a britânica BBC. "Em sua inquietação, os britânicos têm se comportado de forma obscura e é certo acrescentar o slogan "abaixo o Reino Unido' ao slogan "abaixo os EUA'", disse o clérigo que, na sequência, foi interrompido pela plateia, que gritava "morte a Israel".

O governo iraniano acusa a mídia ocidental de incentivar os protestos e já cassou as licenças de trabalho dos jornalistas estrangeiros e expulsou dois diplomatas britânicos --o Reino Unido reagiu, expulsando dois diplomatas iranianos.

No seu sermão, Khatami ressaltou que a jovem Neda Agha Soltan, 27, morta com um tiro durante um protesto em Teerã, foi assassinada pelos próprios manifestantes, e não pelas forças iranianas. "A prova de que eles [manifestantes] fizeram isso é a propaganda que foi levantada contra o sistema", disse.

O vídeo com a morte de Neda rodou o mundo e virou símbolo dos protestos contra a reeleição de Ahmadinejad.

Suspeitas

Mais cedo, o Conselho de Guardiães, a máxima instância constitucional do país e responsável pela fiscalização da eleição, negou haver traços de fraude no pleito e constituiu uma comissão de personalidades políticas e representantes dos três candidatos derrotados por Ahmadinejad --entre eles, o principal líder da oposição, Mir Hossein Mousavi-- e afirmou que todos farão a recontagem dos votos de 10% das urnas, para provar a "sanidade" do processo.

"Na presença da comissão, 10% das urnas serão analisadas e as suas conclusões serão divulgadas", explicou o porta-voz. Entre os integrantes da comissão estão o chanceler Ali Akbar Velayati e o ex-presidente do Parlamento Gholam Ali Hadad Adel.

O resultado oficial da eleição, que deu vitória para o presidente Mahmoud Ahmadinejad, com 62,63% dos votos contra 33,75% do principal adversário, reformista Mis Hossein Mousavi, é duramente contestado pela oposição. As manifestações, concentradas em Teerã, configuram a maior crise política do Irã desde a Revolução Islâmica de 1979 e têm sido reprimidos com grande violência por parte do governo e pela milícia islâmica, conhecida como basij.

O próprio Conselho de Guardiães admitiu que houve fraude em ao menos 50 cidades do país, nas quais o número de votos superou o de eleitores registrados. No entanto, o órgão entendeu que isso afetou apenas 3 milhões de votos e, por isso, não é suficiente para questionar a vitória de Ahmadinejad.

Comentário: se nao houve fraude, porque o medo de uma contagem completa?

O conselho recebeu até agora dos três candidatos derrotados --Mousavi, Mehdi Karubi e Mohsen Rezai-- 646 queixas de irregularidades na votação.

Comentário final:

Até quando o mundo islâmico terá que suportar as maldades de alguns que se utilizam da religião como instrumento de tirania?

Fonte: FOLHA - AP - Reuters

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