Abbas Kiarostami, o mais premiado diretor iraniano no exterior, diz que se recusou a votar e revela sua frustração com a Revolução Islâmica
O cineasta iraniano Abbas Kiarostami, de 68 anos, fez mais de 40 filmes no Irã. Ele é conhecido como o artista que permaneceu no país após a Revolução Islâmica de 1979, quando muitos outros fugiram para o exterior. A ironia é que há 12 anos nenhum dos seus filmes pode ser exibido no Irã - como se ele fosse um exilado dentro de seu próprio país. "A imagem demonizada do Irã no mundo está relacionada ao governo, e não ao povo iraniano", assegura.
A eleição presidencial do país, precedida de uma acirrada campanha, não entusiasmou Kiarostami. Ele faz parte da minoria de 15% do eleitorado que não se deu o trabalho de votar. "Mais do que a República Islâmica, questiono a própria república", diz ele. "Não admito votar em alguém que, depois de eleito, passará dois anos reforçando a própria posição e os dois anos seguintes se preparando para a próxima eleição."
O comentário sugere um ceticismo desesperado em relação ao processo político iraniano. "Hoje pode-se conquistar um mandato de quatro anos com a promessa de um quilo de laranjas", disse, referindo-se à distribuição gratuita de alimentos e dinheiro vivo que marcou a campanha do presidente Mahmoud Ahmadinejad para conquistar votos.
FRUSTRAÇÃO
Kiarostami nasceu em 1940 na capital iraniana. Depois de obter o diploma em Belas Artes pela Universidade de Teerã, ele trabalhou como desenhista e foi empregado de uma agência de publicidade cinematográfica antes de se juntar ao Centro para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos (Kanun), em 1969, estabelecido pela mulher do xá Reza Pahlevi. O departamento de cinema que ele montou, e no qual trabalhou até 1992, o deixou livre para fazer experimentos sem limitações comerciais.
Ele partilhou sua frustração durante a Revolução Islâmica de 1979, que foi sequestrada pelo fundamentalismo religioso. "Me envolvi na política apenas duas vezes: quando tinha 15 anos (após o golpe apoiado pela CIA em 1953 contra Muhammad Mossadegh, que restaurou o xá ao poder) e durante a revolução", diz ele. "Nunca mais participarei de eventos políticos. Tenho certeza que a revolução teve motivações legítimas, mas é sempre um processo emotivo e irracional."
O início dos anos 1980 foi também uma época de "revolução interna", conforme o seu casamento de 1969 com Parvin Amir-Gholi, uma designer, chegava ao fim. A necessidade de cuidar dos dois filhos é em parte o que o manteve no Irã. Ahmad, que hoje mora nos Estados Unidos, trabalha com computadores e faz filmes experimentais, enquanto Bahman é cineasta.
Seu mais novo filme, Shirin, um experimento ousado, consiste em 90 minutos de planos próximos retratando mais de 100 mulheres - entre elas uma Juliette Binoche de lenço na cabeça -, enquanto assistem a um filme inspirado num poema do século 12 de autoria de Nezami Ganjavi sobre um triângulo amoroso envolvendo uma princesa da Armênia e um príncipe persa. A luz proveniente da tela oscila sobre os rostos das mulheres; as expressões delas criam sozinhas o drama.
Shirin não será exibido no Irã, mas deve seguir o roteiro de seus filmes anteriores: depois de lançado no exterior, cópias ilegais e baratas do filme acabam chegando de volta ao país sob a forma de DVDs piratas. "Nossa política governamental se concentra no uso do cinema enquanto ferramenta de propaganda e manipulação religiosa", diz ele. Como exemplo, ele diz que as mulheres são obrigadas a aparecer na tela sempre com o véu. "Isso é absolutamente irreal, pois elas não usam o hijab em suas próprias casas", diz.
FILMES APOLÍTICOS
Os filmes de Kiarostami são com frequência vistos como apolíticos, uma afirmação às vezes ligada à crítica que o acusa de fazer filmes para plateias estrangeiras. Ele disse que as questões políticas envolvidas nas suas produções estão relacionadas à escolha do tema e da locação - os pobres do campo ou o Curdistão iraniano - e acredita que a função do cinema é fazer perguntas, e não respondê-las. "Se político significar partidário, eu nunca faria um filme político; não estou tentando obter uma reação das pessoas, e sim chegar a uma verdade da vida cotidiana."
Muitos de seus filmes foram considerados responsáveis por oferecer ao público ocidental um entendimento mais profundo do Irã.
"Aquilo que temos dentro de nós - dor e tristeza - é universal. A minha dor de dente é igual à de um americano ou de um palestino. Todos partilhamos das mesmas relações com a emoção e a vida particular."
Fontes: O ESTADO DE S PAULO -
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