Exército cingalês afirma ter resgatado todos os civis de zona de guerra

As tropas do exército do Sri Lanka resgataram mais de 50 mil civis das mãos dos rebeldes do movimento dos Tigres de Libertação do Tâmil Eelam (TLTE), declarou neste domingo o porta-voz do exército, Udaya Nanayakkara.

"Mais de 50 mil pessoas saíram da zona de guerra nos últimos três dias, o que significa que resgatamos todos os civis que eram usados como escudos humanos pelos Tigres Tâmeis", disse Nanayakkara.

Há semanas as autoridades de Colombo afirmam que os rebeldes --confinados a uma área de 3,5 km2 no noroeste do país-- mantinham como "reféns" entre 15 e 20 mil civis. A ONU estima que havia no mínimo 50 mil pessoas encurraladas na zona de guerra.

Nanayakkara também disse que os rebeldes ainda controlam uma pequena porção da selva.

Horas antes, Nanayakkara havia anunciado que soldados cingaleses mataram ao menos 70 rebeldes dos Tigres Tâmeis que tentavam fugir da zona de guerra.

A ação ocorre no dia seguinte à declaração de vitória do presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, após um quarto de século de guerra civil com os Tigres Tâmeis.

"O meu governo, com o total comprometimento das nossas forças armadas, conseguiu, em uma operação humanitária inédita, finalmente derrotar militarmente o TLTE [nome oficial do grupo, Tigres de Libertação do Tâmil Eelam]", disse o presidente, que visita a Jordânia. "Eu retornarei para um país totalmente livre dos atos bárbaros do TLTE", declarou.

O site TamilNet.com, que defende a guerrilha, no entanto, divulgou uma mensagem assinada pelo líder tâmil S. Pathmanathan na qual ele diz que a abordagem do governo, "de encerrar a guerra em 48 horas por meio de uma carnificina e um banho de sangue de civis", não resolve "um conflito de décadas". "Pelo contrário, só agrava uma crise que já atingiu níveis inéditos."

O líder que assina a mensagem é apontado, há anos, como chefe do braço armado do grupo e é procurado pela Interpol (polícia internacional). Por promover assassinatos e explosões de homens-bomba, o grupo é considerado terrorista pelos Estados Unidos, Europa e Índia.

Especialistas afirmam que, uma vez derrotado militarmente, o grupo voltará às suas raízes, em uma guerrilha esparsa, com financiamento dos tâmeis.

Conflito

Os Tigres Tâmeis lutam para criar um território independente para a minoria étnica tâmil, que sofreu discriminação nos sucessivos governos da maioria cingalesa. No passado, os rebeldes chegaram a controlar uma parte do norte e do leste do Sri Lanka e a formar forças próprias, uma significativa frota naval e uma ínfima frota aérea. Em janeiro deste ano, o governo do Sri Lanka decidiu iniciar a sua "ofensiva final" contra a guerrilha.

Desde então, os rebeldes perderam terreno. Nos últimos meses, ficaram confinados a uma faixa estreita de floresta e de praia com com cerca de 3 km2 --equivalente a 30 campos de futebol-- na Província Oriental, que ficou anos sob controle efetivo dos rebeldes. Nesta zona de guerra estão, além dos rebeldes, entre 30 mil e 80 mil civis, estima a ONU (Organização das Nações Unidas).

Desde janeiro, conforme a ONU, cerca de 6.500 civis foram mortos na zona de guerra, à qual apenas a Cruz Vermelha tem acesso. Na quinta-feira passada (14), a Cruz Vermelha afirmou que o Sri Lanka passa por uma "catástrofe humanitária imaginável" e que a população "estava abandonada à própria sorte".

Crise humanitária

Cerca de 11,8 mil civis fugiram da zona de guerra apenas neste sábado. No total, há cerca de 200 mil refugiados no país. "Não temos acesso ao processo. Tememos muito pela segurança das 30 mil a 80 mil pessoas que ainda estão na zona de guerra", afirmou o porta-voz da ONU Gordon Weiss.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, enviou à região Vijay Nambiar, cujo objetivo é, mais uma vez, negociar com as autoridades do Sri Lanka uma trégua humanitária. O governo do Sri Lanka rejeita qualquer proposta de trégua por crer estar perto da vitória.

O premiê britânico, Gordon Brown, disse neste sábado que o governo do Sri Lanka sofrerá "consequências" se não permitir que a população civil tenha acesso à ajuda humanitária e se não colocar encerrar sua ofensiva. Em comunicado, o premiê lembrou que seu governo pediu "repetidamente o fim da violência" naquele país, antiga colônia britânica.

No final de abril passado, os chanceleres David Miliband (Reino Unido) e Bernard Kouchner (França) fizeram uma rara viagem ao Sri Lanka para pedir trégua, sem sucesso. Na época, Rathnasiri Wickremanayake, premiê do Sri Lanka, os chamou de "marionetes que se dizem especialistas" e os acusou de tentar evitar a prisão dos líderes tâmeis. Sob o Reino Unido, eram os tâmeis que gozavam de privilégios sobre os cingaleses.

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