A desonestidade intelectual de Bento XVI

Antonio Ribeiro


O mundo tem uma população de 70 milhões de aidéticos, dois terços deles vivem na África, entre os quais 2,8 são indivíduos com menos de 14 anos cuja metade morre sem receber tratamento. No horizonte do ano 2010, estima-se que 36 milhões de africanos estarão contaminados pelo vírus da AIDS — mais da soma dos habitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Do ponto de vista teológico, é legítimo a Igreja Católica aconselhar a abstinência sexual — inexistente até em conventos —, o casamento cristão e a fidelidade para lutar contra a epidemia letal. Embora anacrônica e de comprovada ineficiência, a posição da Igreja merece o que vem recebendo no seu interior e fora dela, a descrença. O problema é de outra ordem.

Antes mesmo de pousar em Iondé, capital dos Camarões, iniciando sua primeira visita a África que inclui escala em Angola, o papa Bento XVI declarou que o uso dos preservativos — a primeira vez que um pontífice descarta o termo contraceptivo — agrava a situação da AIDS. Noves fora a afirmação do secretário da Educação do governo Ronald Reagan, William Bennett, de que o uso de preservativos era maior nas comunidades infectadas, não há nenhum estudo epidemiológico que sustenta os preservativos como algo que ajuda propagar a AIDS. Na verdade, o postulado consiste em uma desonestidade intelectual. A falácia que tenta persuadir pela existência de mais leitos hospitalares, a maior incidência de doenças. Equivale dizer que o mosquiteiro dissemina a malária. Bento XVI tenta vender a idéia que o uso do preservativo tira a responsabilidade do individuo. Ou seja, ele não sente-se na obrigação de conter, controlar sua sexualidade. Pura enganação. Equivale dizer que o cinto de segurança nos carros dá mais ímpeto aos motoristas para pisar fundo no acelerador.

O Centers for Disease Control and Prevention afirma haver “compreensiva e conclusiva” evidência de que os preservativos de latex, quando usados de forma consistente e correta são altamente eficazes na prevenção da transmissão do vírus da AIDS. Estudos do respeitável Cochrane Collaboration concluíram que os preservativos podem reduzir em até 80% a transmissão da AIDS.

Reparem, o problema não é ser tradicionalista ou progressista. Isto é uma bobagem. Cada um escolhe ser o que bem entende. Nem tampouco questionar valores morais. A Igreja é o que é devido aos seus fundamentos. A questão é distorcer dados científicos e, ainda mais grave, numa situação extremamente delicada.

A eleição de Bento XVI foi saudada como a chegada de um intelectual no comando da Igreja. No entanto, a sabedoria tem se revelado, muitas vezes, adições de mais mal ao mal. Professor de teologia, dogmático e tradicionalista, Bento XVI não é diplomata nem homem de comunicação. Com frequência o papa mostra-se naive em política, comete gafes que o obriga, como na semana passada e primeira vez na história pontifical, publicar uma carta para colar os cacos causados pela falta de perícia. Depois do perdão ao bispo britânico Richard Williamson que nega o Holocausto e a excomunhão da equipe médica que praticou o aborto na menina pernambucana de 9 anos e 35 quilos, grávida de gêmeos, depois de ser estuprada pelo padrasto, a Igreja Católica não precisava de mais um tropeço. A declaração sobre os preservativos lembra os tempos em que a Igreja condenava a batata como diabólica porque crescia debaixo da terra.

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