Gustavo Chacra
O principal personagem da eleição israelense é o neo-fascista Avigdor Lieberman, com seus seguidores que entoam gritos de "morte aos árabes". Ele é bem claro no seu lema de campanha – “sem lealdade, sem cidadania”. Seu objetivo é que os árabes de Israel, ou palestinos de 1948, como também são conhecidos, percam a cidadania israelense caso continuem sem servir ao Exército. Estes árabes correspondem a 20% da população de Israel. De cada dez, oito são muçulmanos, um é cristão e o outro druzo. Os druzos, com a exceção dos que vivem nas colinas do Golan, se alistam nas Forças Armadas. Porém são raros os cristãos e os muçulmanos que se tornam militares de Israel, pois não concordam em combater palestinos, a quem consideram irmãos - os judeus ortodoxos também podem se recusar em ir para o Exército.
Estes árabes se sentem discriminados em Israel. Acham errado o caráter judaico do país, com uma bandeira que possui um símbolo religioso. Dizem ser tratados como segunda classe. Ao mesmo tempo, preferem permanecer como israelenses a se tornarem palestinos caso um Estado seja criado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Eles querem ficar onde estão, pois suas famílias vivem nestas terras há séculos. Criticam Lieberman lembrando que ele sequer nasceu em Israel. É um imigrante da ex-União Soviética.
Apesar do preconceito que sofrem, os árabe-israelenses são os palestinos que vivem em melhor situação no Oriente Médio. Por este motivo, simbolizam em parte uma ideologia que cresce entre os palestinos. Já que não conseguem um Estado, por que não lutar para se tornarem cidadãos de um Estado bi-nacional? Dessa forma, assim como os árabe-israelenses, teriam seguro saúde e acesso a uma economia avançada como a de Israel. Em pouco tempo, superariam os judeus em população e automaticamente tomariam o poder. No auge do sonho, uma coalizão árabe assumiria o governo em Israel.
Ser árabe-israelense pode ser a melhor saída para os palestinos - e a pior para os israelenses judeus. Além dos árabes de Acre, de Haifa e de Nazaré, em breve os palestinos de Nablus, Hebron, Ramallah e talvez até mesmo Gaza estarão lutando para ser cidadãos de Israel. Afinal, a vida deles nunca foi tão boa como até os anos 1980, quando um morador de Gaza podia trabalhar em um hotel de Tel Aviv e visitar amigos em Jenin e namorar uma mulher em Jaffa. A idéia é que volte a ser desta forma, mas com o direito ao voto.
Thomas Friedman escreveu no “New York Times” certa vez que, em alguns anos, os palestinos levantarão a bandeira de um Estado bi-nacional e os jovens judeus americanos não terão como defender Israel nas universidades. Afinal, argumentar contra o pedido de “um cidadão, um voto” é bem mais complicado do que dizer que um Estado palestino colocaria em risco a segurança de Israel.
Nesta eleição, os israelenses têm a chance histórica de negociar uma paz com todos os seus vizinhos para que seja finalmente criado um Estado palestino. Para começar, deveriam fazer uma contra-proposta ao plano de paz árabe capitaneado pela Arábia Saudita. Caso contrário, o ideal do Estado bi-nacional será a prioridade dos palestinos. Inclusive, já é nos círculos intelectuais árabes do Oriente Médio. Apenas não dominou as ruas de Ramallah e Gaza pois esta proposta certamente enfraqueceria o Fatah e o Hamas. Ironicamente, eles são a última barreira que falta para os palestinos passarem a lutar não pela Palestina, mas para serem cidadãos de Israel.
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