A arriscada aposta americana

Fernando Canzian

EM NOVA YORK - Oitenta anos se passaram entre a crise de 1929 e a atual. As duas são comparáveis por serem globais e igualmente assustadoras. A de hoje nos deixa muito mais apreensivos e fascinados pelo fato de estarmos no meio dela, dia-a-dia, e não apenas lendo a seu respeito nos livros de história.

Entre uma crise e outra, o mundo ficou um bom tempo escaldado e evitou os excessos que detonaram a primeira. Até esquecer o assunto e começar um outro ciclo, levando a novo estouro.

Assim como em 1929, os EUA estão no centro do problema. Para tentar debelar o caos atual, o presidente Barack Obama lançou uma proposta ousada: pretende gastar quase duas vezes mais dinheiro do que espera arrecadar em impostos. A cada US$ 1 que entrar no caixa, quase US$ 2 serão gastos.

O rombo que essa política vai provocar será superior a tudo o que o Brasil produz em um ano inteiro, atingindo estimados US$ 1,75 trilhão (ou o equivalente a 12,3% do PIB dos EUA). É uma enormidade sob qualquer parâmetro e representará, em relação ao PIB dos EUA, o maior buraco desde 1942, quando os EUA estavam metidos na caríssima Segunda Guerra.

O democrata Obama projeta um relativo reequilíbrio das contas nacionais apenas no final do seu mandato, em 2012. Isso seria obtido com cortes profundos nos gastos no Iraque (de onde os norte-americanos pretendem sair daqui a 19 meses) e gradual aumento da receita.

Os EUA pretendem aumentar os impostos sobre indivíduos solteiros que ganham mais de US$ 200 mil por ano (R$ 460 mil) e casais com rendimentos acima de US$ 250 mil (R$ 575 mil). Além disso, querem taxar mais as grandes companhias e estancar a evasão de tributos via paraísos fiscais.

Obama é ambicioso na proposta. Ela pretende universalizar a proteção mínima na área da saúde a todos os norte-americanos e colocar nas mãos do Estado quase todo o financiamento à educação universitária.

Além disso, o presidente promete colocar mais dinheiro no cerne da atual crise: o sistema financeiro. Pela proposta, a ajuda total aos bancos pode superar US$ 1 trilhão (quase o PIB brasileiro).

Mas a maior aposta de Obama, que parece extremamente arriscada, é contar com o relativo equilíbrio das contas públicas de seu país daqui a quatro anos.

A proposta orçamentária e suas projeções só fecham a conta se os EUA voltarem a crescer logo, a partir de meados de 2010. É isso que vai determinar o seu sucesso. Mas nada neste momento garante que isso poderá acontecer. Ao contrário, todos os novos indicadores, nos EUA e nas economias mais importantes do mundo, vão justamente no sentido contrário.

Os EUA e a economia global cresceram nos últimos cinco anos catapultados pela mais extraordinária expansão do crédito que o mundo já viu. Nada de tão sensacional em termos financeiros aconteceu em várias gerações. Nada. A ponto de países periféricos do Leste Europeu, da Ásia, da África e mesmo do centro da Europa experimentarem taxas de crescimento impressionantes nos últimos anos. Todos apoiados nessa farra do crédito.

A crise atual, histórica, é a conta dessa farra. Haverá outra tão cedo?

É difícil imaginar isso levando em conta termos históricos, onde 2012 ou antes ainda (como prevê o novo Orçamento dos EUA) é menos do que uma piscadela.

Diante da rápida deterioração atual, Obama pode não ter outra alternativa. A não ser apostar alto e pisar fundo no acelerador dos gastos. Mas vale repetir sempre o mantra desta crise: ela é resultado do alto endividamento, das famílias, das empresas e dos bancos. Se a aposta de Obama der errado, à lista de endividados será acrescentado o Estado. Quem irá financiá-lo?

Os problemas de hoje, já imensos, ficarão ainda maiores. Pois não haverá mais a quem recorrer.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.

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