Milícia recupera controle das cidades; grupo diz que 'opções estão abertas' se Israel não cumprir retirada
CIDADE DE GAZA - Num desafio aos esforços israelenses e da comunidade internacional para evitar que o grupo islâmico recupere seu arsenal de foguetes e de outras armas após a guerra de Gaza, o Hamas prometeu nesta segunda-feira, 19, que vai se rearmar. Segundo Abu Ubaida, porta-voz do braço armado do Hamas, em entrevista coletiva, "todas as opções estão abertas" se Israel não retirar suas tropas da Faixa de Gaza em uma semana, exigência feita pelo Hamas quando o grupo anunciou um cessar-fogo no domingo, após três semanas de combates. Insistindo que não cederá a pressões do grupo, o Exército começou a desocupar suas posições no território palestino. O conflito, que durou três semanas, deixou cerca de 1.300 palestinos e 13 israelenses mortos.
"Façam o que quiserem. Fabricar as armas santas é nossa missão e sabemos como adquirir armas", disse Ubaida em entrevista coletiva. Falando a jornalistas com o rosto mascarado por um lenço xadrez, o representante das brigadas Ezzedin Al Qassam afirmou que apenas 48 combatentes estão entre os mais de 1.300 mortos no conflito com Israel. "Anunciamos ao nosso povo o martírio de 48 combatentes de Al Qassam". Israel afirma que mais de 500 militantes foram mortos durante a ofensiva desde 27 de dezembro. Segundo Ubaida, a capacidade de lançamento de foguetes do Hamas não diminuiu apesar de ser o principal objetivo do Exército israelense na região. "Nosso arsenal de foguetes não foi afetado e disparamos durante o conflito sem interrupção".
As forças policiais do Hamas retomaram o controle na Faixa de Gaza, onde as tropas israelenses continuam sua retirada. Dúzias de agentes da polícia do Hamas, que foram alvo das tropas israelenses durante as últimas três semanas, retornaram esta manhã às ruas principais da Cidade de Gaza, onde tentavam organizar o trânsito. Desde que Israel começou um cessar-fogo e as milícias palestinas horas depois o seu de uma semana, cada um por seu lado, as ruas da cidade estão repletas de gente que, após semanas de clausura, pôde sair finalmente para visitar seus familiares, avaliar os danos e começar a retornar à normalidade. Segundo o Ministério da Saúde, os feridos superam os 5.500. Por sua vez, o Ministério da Habitação na região apresentou os primeiros dados de danos, que cifram o número de casas totalmente destruídas em 4 mil e danificadas mais de 20 mil.
Além da polícia, os ministérios e instituições públicas começaram também a voltar ao trabalho. "Apesar de o ministro do Interior, Said Siyam, ter sido assassinado durante a guerra, o Ministério continua seu trabalho com base em um plano de segurança que ele aprovou", declarou aos jornalistas Ihab al-Ghusein, porta-voz desse Ministério em Gaza. O Interior trabalhará para manter e proteger a frente interna palestina, porque isso ajudará a apoiar a resistência armada contra as agressões.
O líder máximo do Hamas em Gaza, Ismael Haniyeh, assegurou no domingo em mensagem televisada que considerou o cessar-fogo um "triunfo" que "tem que abrir uma porta para o diálogo e a reconciliação interna". Apesar da trégua, no norte de Gaza foram registrados combates entre os poucos milicianos que ainda não aceitaram o cessar-fogo e as tropas israelenses que continuam no território, segundo cadeias de rádio locais. A maior parte das facções palestinas e seus braços armados aceitaram o cessar-fogo unilateral de Israel com o fim das hostilidades de uma semana, mas alguns grupos, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina (PFLP), rejeitaram deixar de lutar antes que as tropas israelenses abandonem totalmente seu território.
Israel, que já havia declarado seu próprio cessar-fogo unilateral, ameaçou renovar a ação militar se o Hamas tentar contrabandear armas para a Faixa de Gaza. Israel quer que o Egito evite que as armas cheguem a militantes palestinos por meio de túneis na região da fronteira com a Faixa de Gaza. Na sexta-feira, Israel assinou um acordo de segurança com os Estados Unidos que pede um aumento no compartilhamento das informações, assistência técnica e uso de vários "ativos" norte-americanos para evitar que armas cheguem ao Hamas por terra, mar ou ar.
Ajuda humanitária
Israel autorizou nesta segunda-feira a entrada de cerca de 200 caminhões carregados com ajuda humanitária em Gaza e de um carregamento de 400 mil litros de combustível, segundo afirmo à AFP o comandante e porta-voz do Exército Peter Lerner. "Um comboio de 120 caminhões deve chegar levar ajuda ao terminal de Kerem Shalom e outro com entre 60 e 70 caminhões no cruzamento fronteiriço de Karni. Segundo ele, 40 toneladas de alimentos e medicamentos entraram no território palestino desde o começo da ofensiva.
Tropas sairão de Gaza antes de posse de Obama, afirma Israel
JERUSALÉM - Oficiais israelenses afirmaram que as tropas vão deixar a Faixa Gaza antes da posse de Barack Obama como novo presidente dos Estados Unidos, que ocorre nesta terça-feira, 20. Esta é a primeira indicação oficial de que Israel planeja uma rápida retirada das suas forças após anunciar um cessar-fogo unilateral na tarde de sábado, 17.
Segundo o jornal Yedioth Ahronoth, se não for registrado nenhum novo incidente, as forças israelenses teriam completado sua retirada da faixa palestina antes das 17h (horário de Brasília) de terça-feira, assegura a versão digital do periódico, que cita fontes governamentais. A rápida saída de tropas seria um sinal para a nova Administração americana, com a qual Israel espera continuar cooperando em matéria de antiterrorismo e para evitar o tráfico de armas para Gaza. "Se o cessar-fogo for respeitado, então queremos ir o mais rápido possível", declarou Mark Regev, porta-voz do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, que declinou, no entanto, confirmar se a retirada se completará nos dois próximos dias. "Israel deixará completamente a faixa. Não queremos ocupar lugar algum de Gaza", acrescentou.
O Exército israelense afirmou no domingo, 18, que iniciou a retirada das tropas da Faixa de Gaza depois das três semanas da ofensiva no território. O movimento foi anunciado horas depois do grupo islâmico Hamas anunciar um cessar-fogo de todas as facções palestinas por uma semana para que os soldados israelenses deixassem o território. Os militares não informaram o número de soldados que estão deixando a região, mas um canal de TV israelense mostrou tanques e infantaria seguindo em direção à fronteira.
Israel anunciou um cessar-fogo unilateral no fim da noite de sábado, mas afirmou que manterá militares no território enquanto se discute meios para prevenir que o Hamas não se rearme. O grupo palestino anunciou neste domingo que suspenderá o lançamento de foguetes e deu a Israel sete dias para retirar suas tropas do território palestino. Porém, militantes chegaram a disparar dois foguetes contra Israel após o anúncio da trégua imediata, segundo afirmou a polícia israelense. "Um foguete atingiu a área de Netivot e o outro uma vila no sul de Israel", disse o porta-voz da polícia, Micky Rosenfeld. Não houve mortes decorrentes dos ataques.
O grupo militante enfatizou que a trégua será temporária a menos que Israel atenda essas exigências. O vice-líder do Hamas, Moussa Abu Marzouk, em um pronunciamento na televisão síria, declarou cessar-fogo com Israel em Gaza em nome de todos grupos armados de militantes palestinos. Ele acrescentou que a trégua durará uma semana, de forma a permitir que Israel retire todas as tropas da Faixa de Gaza e remova os bloqueios da região, facilitando a passagem de ajuda humanitária.
A trégua unilateral declarada por Israel teve início às 2h (horário local, 22h em Brasília). Horas depois, a cidade israelense de Sderot foi atingida por cinco foguetes que não deixaram vítimas, segundo um porta-voz militar israelense. Os ataques não são surpresa. O Hamas disse que não aceitaria a presença de forças israelenses na Faixa de Gaza e que "continuaria a resistir". Israel disse que a retirada total da região depende de um cessar-fogo do Hamas.
Líder da Autoridade Nacional Palestina propõe coalizão ao Hamas
O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, propôs nesta segunda-feira ao movimento islâmico radical Hamas a formação de um governo de unidade nacional, que deve organizar eleições legislativas e presidenciais simultâneas.
"De agora em diante, é necessário um governo de unidade nacional, que se encarregue de organizar eleições legislativas e presidenciais na Cisjordânia e faixa de Gaza", declarou Abbas em um discurso pronunciado durante a abertura da cúpula de líderes árabes, no Kuait.
Segundo Abbas, o governo de união é necessário para estabelecer a trégua duradoura nos territórios palestinos e pressionar Israel para a derrubada do bloqueio sobre a faixa de Gaza. A declaração vem um dia após o início da retirada das tropas israelenses de Gaza, após tréguas separadas anunciadas por Tel Aviv e pelo Hamas, que encerraram 22 dias de ofensiva militar. Mais de 1.200 palestinos foram mortos e cerca de 5.000 ficaram feridos na operação.
O Hamas, que ganhou as eleições de 2006, tomou controle da faixa de Gaza após confrontos com o partido laico rival Fatah, de Abbas. Abbas, que controla a Cisjordânia, é apoiado pela maior parte dos países ocidentais, mas visto como político fraco por países árabes como a Síria.
A Presidência de Abbas na ANP acabou oficialmente no último dia 8, mas um porta-voz do grupo em Gaza disse que não contestará por enquanto o poder de Abbas, argumentando que a prioridade atual é o combate ao ataque de Israel. Abbas disse que convocará eleições após a reconciliação entre Fatah e Hamas.
A divisão entre os próprios palestinos foi refletida também no posicionamento do mundo árabe sobre co confronto em Gaza. Os líderes árabes fizeram três reuniões nos últimos cinco dias, mas não chegaram a um consenso nas posições apresentadas por Egito e Arábia Saudita de um lado e Síria e Qatar do outro.
A Síria, um dos principais apoiadores do Hamas, pediu que a cúpula do Kuait declare Israel como uma entidade terrorista e force o país a abrir as fronteiras do território palestino.
Já o presidente egípcio, Hosni Mubarak, afirmou que o Hamas foi o responsável pela ofensiva por se recusar a estender a trégua e deve arcar com as consequências.
Mediação
Abbas pediu ainda que as conversas de reconciliação entre ANP e Hamas comecem imediatamente no Egito, que mediou a última trégua bilateral oficial entre Israel e Hamas na faixa de Gaza, que acabou oficialmente no dia 19 de dezembro do ano passado.
Argumentando a violação desta trégua, Israel iniciou uma grande ofensiva militar contra o Hamas na faixa de Gaza.
Os líderes árabes se reúnem no Kuait para discutir o resultado da ofensiva israelense em Gaza, a reconstrução dos territórios palestinos e a cooperação econômica árabe.
A reunião tem a presença de 17 dos 22 países membros da Liga Árabe, incluindo o presidente sírio, Bashar al-Assad, o egípcio, Hosni Mubarak, o rei Abdullah, da Arábia Saudita e Abbas.
O encontro de dois dias começou no palácio dos hóspedes, Bayan Palace.
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