Gustavo Chacra
Saddam Hussein ainda era vivo e Mahmoud Ahmedinejad era uma obscuro político de Teerã quando George W. Bush assumiu a Presidência dos Estados Unidos há oito anos. Hafez Al Assad havia acabado de morrer e muitos esperavam que seu filho Bashar modernizasse a Síria. Falar mal de Damasco em Beirute era um dogma. E o processo de paz levado adiante por Bill Clinton fracassava, com israelenses e palestinos se digladiando com tanques e homens-bomba nas ruas de Nablus, Jerusalém e Tel Aviv.
Passados oito anos, Yasser Arafat morreu entrincheirado no seu quartel-general em Ramallah (Cisjordânia) e o ditador iraquiano foi enforcado pelo povo que ele oprimira por décadas. Ariel Sharon virou premiê, saiu da Faixa de Gaza e hoje está em coma esquecido enquanto o seu país trava uma guerra naquele mesmo território. Centenas de milhares de libaneses foram às ruas para celebrar a retirada das tropas sírias no que o Ocidente denominou de “Revolução dos Cedros”. O jovem Assad incorporou a imagem do pai e, apesar da modernização econômica, manteve o seu regime fechado.
No seu primeiro discurso do Estado da União, em 27 de fevereiro de 2001, pouco mais de um mês após a sua posse, Bush ignorou o Oriente Médio. A região não foi citada. Tampouco Israel, Irã, Iraque, Hamas ou Hezbollah. A Al Qaeda ainda parecia um inimigo distante que se resumiu à necessidade de os Estados Unidos enfrentarem as novas ameaças do século 21, que “vão de terroristas que nos ameaçam com bombas a tiranos de países párias que tentam desenvolver armas de destruição em massa”.
Na verdade, em vez de bombas, os terroristas da Al Qaeda utilizaram aviões americanos para cometerem o maior atentado terrorista de toda a história. Dos 19 terroristas, 15 eram sauditas, aliados dos americanos. Mas, nos dias que se seguiram, o presidente dos Estados Unidos passou a apontar o dedo para o Afeganistão, com apoio de grande parte do mundo, enquanto alguns de seus assessores já elaboravam uma forma envolver o Iraque no que viria a ser conhecido como a Guerra ao Terror, comandada por uma série de neoconservadores sob a égide do vice-presidente Dick Cheney.
Esta guerra contra o terrorismo, que derrubou o Taleban no Afeganistão e Saddam Hussein no Iraque, resvalou para o restante do Oriente Médio. Especialmente pela analogia entre os ataques suicidas em Israel e nos Estados Unidos. A diferença era que, no caso do 11 de Setembro, o motivo das ações nunca foi claro claro. Nos territórios palestinos, a luta tinha como objetivo, segundo os grupos, acabar a ocupação israelense. Mas era tarde demais e o governo de Bush intensificou uma já forte aliança entre os Estados Unidos e Israel.
Por três anos seguidos, o então premiê de Israel, Ariel Sharon, foi o líder estrangeiro mais vezes recebido na Casa Branca. Já o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, era ignorado pelo presidente americano. Enquanto Sharon era visto como uma pessoa parecida com Bush, possuindo um rancho no Negev que muitos comparavam ao que o presidente dos EUA tem no Texas, Arafat teria contado uma mentira para o líder americano.
O então presidente da Autoridade Palestina sabia da existência um carregamento com 50 toneladas de armamentos iranianos, incluindo mísseis. O barco foi interceptado no mar Vermelho. Os EUA nunca o perdoaram. Era janeiro de 2002, poucos meses depois do 11 de Setembro. Nos meses seguintes, Sharon deu início à mais ampla ofensiva contra os palestinos na Cisjordânia, no que ficou conhecido como Operação Muro Protetor, iniciada após onda de atentados suicidas. Em abril daquele ano, ocorreu o mais duro combate da ação israelense, no que alguns classificaram como o “massacre de Jenin” – investigações posteriores mostrariam que o número de mortes não foi tão elevado como disseram.
Em entrevista coletiva na Casa Branca, quando jornais de todo o mundo relatavam a violência da ação de Israel, Bush afirmou que Sharon era um homem da “paz” e criticou o Arafat por não combater o terrorismo. O presidente americano iria ainda mais longe em 23 de junho de 2002, ao dizer que Arafat deveria ser removido e substituído por um novo líder não envolvido com o terrorismo.
No ano seguinte, isolado pelos americanos e impedido por tanques israelenses de sair da Muqata – seu QG na Cisjordânia –, o presidente da Autoridade Palestina concordou em nomear Mahmoud Abbas como primeiro-ministro. Visto como um moderado, o novo premiê foi convidado por Bush para lançar, junto com Sharon, os acordos de Ácaba (Jordânia) – um audacioso plano de paz chamado de Road Map, que previa uma série de etapas que culminariam na criação de um Estado palestino. Porém nenhum dos lados cumpriu com a sua parte e o projeto foi esquecido.
Arafat morreria no fim de 2004. Abbas foi eleito para sucedê-lo em janeiro do ano seguinte. Sharon ordenou a retirada dos assentamentos de Gaza em meados daquele mesmo ano. Em janeiro de 2006, o Hamas, considerado terrorista pelos americanos, venceu as eleições parlamentares palestinas. Sharon sofrera uma série de derrames na mesma época e nunca mais retomou a consciência. Ehud Olmert se tornou premiê e comandaria Israel em uma guerra contra o Hezbollah no mesmo ano.
No meio de 2007, o Hamas derrubou o Fatah do poder na Faixa de Gaza. Bush decidiu, no fim daquele ano, organizar uma conferência de paz em Anápolis, que também resultaria em um Estado palestino antes do fim de seu mandato. Em vez disso, o atual ocupante desocupará a Casa Branca após uma guerra na Faixa de Gaza com pelo menos 1.300 palestinos mortos. Como herança para Barack Obama, Bush deixa o fardo de negociar a paz entre israelenses e palestinos, que nenhum presidente americano conseguiu desde 1947.
Após o cessar-fogo, será a hora de ver o que realmente aconteceu em Gaza
Infelizmente, neste conflito, que está próximo de se encerrar com o cessar-fogo anunciado por Israel ontem e pelo Hamas hoje, não pude, como quase todos os outros jornalistas, entrar em Gaza. O mais perto que cheguei foi a um quilômetro da fronteira. Histórias como a do médico palestino que trabalha em Israel e perdeu as três filhas em um ataque israelense, a dos ataques às escolas da ONU, dos 95 corpos que acabaram de ser encontrados em meio a escombros, do menino que perdeu a mãe e os irmãos mais velhos foram relatadas por palestinos e membros de organizações internacionais baseados em Gaza.
A minha cobertura se resumiu ao lado israelense e cidades palestinas na Cisjordânia. Visitei em diferentes dias Sderot, Ashkelon e outras localidades no sul de Israel. Não vi destruição. E tampouco senti medo, mesmo quando escutei as sirenes anunciando um foguete se aproximando. E percebi que as pessoas pareciam seguras, andando nas ruas e com restaurantes e comércio aberto. Mas não vivi nestas cidades por oito anos e não tenho a menor condição de medir o que passaram estas pessoas com a chuva diária de foguetes. Tampouco posso esquecer que Israel faz questão de reconstruir lugares destruídos em atentados ou ataques de foguetes. Mas o que posso assegurar é que não se tratava de uma imagem de guerra. E já vi de perto o que é destruição no Líbano.
Visitei Beirute pela primeira vez em 1997 e vi o centro da cidade em ruínas sete anos após o fim da Guerra Civil. Mais importante, estive em Bint Jbeil, Khiam e outras cidades libanesas dois anos antes e um ano depois da guerra entre o Hezbollah e Israel. Podia comparar. Acreditem, não tinha um prédio em pé em Bint Jbeil – ou a edificação estava em reconstrução ou ainda estava no chão.
Apenas os símbolos do Hezbollah, alvo principal da guerra, seguiam no mesmo lugar. Conforme escrevi em reportagem publicada no Estado na época, “na entrada de Bint Jbeil, a vila mais atacada por Israel ao longo do conflito, há um portal do Hezbollah, com um míssil na parte de cima. Quase todos os postes têm fotos de integrantes do grupo mortos em combates ou ações contra Israel e as bandeiras amarela e verde da organização. O mesmo ocorre em Aita al-Shaab, vilarejo fronteiriço perto da localidade israelense onde os soldados foram capturados”.
Não conheço Gaza e não poderei definir exatamente o nível da destruição como fiz no Líbano, por ter visto as cidades antes e depois da guerra. Mas, tenho certeza, o cenário deve ser mais parecido com o de Bint Jbeil do que com o de Sderot - talvez, com os cartazes de "mártires" do Hamas nos postes.
obs. Vi a Tzipi Livni no dia em que ela se reuniu com o Celso Amorim. Benjamin Netanyahu passou por mim no meu primeiro café da manhã em Israel. Entrando no hotel, acabei de cruzar com uns dez seguranças e, no meio, Ehud Barak. Um deles será o próximo premiê de Israel. Não pude deixar de notar que a Livni é, sem dúvida, a que mais chama a atençao.
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