O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) negou que esteja fiscalizando a campanha de arrecadação de dinheiro promovida pela Record para reconstruir casas afetadas pela chuva em Santa Catarina, diferentemente do que a emissora vem divulgando.
Desde a última sexta-feira (28), a emissora divulga o número de uma conta bancária do Instituto Ressoar (ONG que pertence à TV) para que os telespectadores façam doações. Para dar credibilidade à campanha, a rede informou durante a programação que os gastos seriam auditados pelo Ministério Público.
De acordo com o colunista, a emissora realmente enviou ao MP-SP um ofício pedindo a fiscalização da conta. O MP-SP, por sua vez, desmentiu que esteja auditando os recursos, afirmando, por meio de sua assessoria de imprensa, que não cabe à entidade fiscalizar esse tipo de campanha.
ONG que atuou em tsunami e furacão Katrina permanece em SC; mortos são 116
Voluntários Peter Leach e Shawn Halbert da ONG inglesa Shelter Box chegam a Santa Catarina para ajudar vítimas das enchentesDois integrantes da ONG inglesa Shelter Box afirmaram que a situação em Santa Catarina é "bastante crítica".
Mas, segundo eles, como as famílias desabrigadas conseguiram acesso imediato a abrigos provisórios, elas estão conseguindo viver com um mínimo de "dignidade". Dois membros da entidade chegaram ao Estado no fim de semana para ajudar nos trabalhos de socorro.
Segundo boletim divulgado na noite de hoje pela Defesa Civil, o número de mortos por causa das chuvas no Estado chega a 116. Outras 31 pessoas estão desaparecidas. Mais de 78 mil tiveram que deixar suas casas. Já decretaram estado de calamidade pública 14 cidades.
"É um desastre terrível. Os serviços de emergência estão lidando com muitas ocorrências [ao mesmo tempo], principalmente deslizamentos", diz Shaun Halbert, 55, cirurgião veterinário e integrante da ONG. "A situação é bastante crítica. É preciso continuar monitorando nos próximos dias e semanas."
A ONG inglesa está fazendo um levantamento sobre as enchentes na região e analisando o melhor modo de prestar apoio aos flagelados. A organização têm um projeto de fornecer "caixa-abrigo" ("shelter box") a atingidos por desastres.
Cada caixa entregue atende dez pessoas. Dentro delas, há um kit com uma barraca, utensílios domésticos, como panelas, ferramentas e cobertores. Segundo eles, a resposta das autoridades em Santa Catarina foi "dada a tempo" e talvez não seja preciso enviar as caixas. A ONG, no entanto, bancará o transporte do material para o Brasil, se necessário.
Halbert e o voluntário da ONG Peter Leach, 26, vieram ao Brasil convidados pelo Rotary Clube em Santa Catarina para estudar possível apoio às vítimas no Vale do Itajaí.
No sábado (29) e no domingo (30), Leach e Halbert percorreram por terra e pelo ar regiões atingidas no município de Luiz Alves, próximo a Blumenau. "Os governos locais estão lidando muito bem com a situação, que consideramos ser muito séria", disse Halbert. Para ele, tempo de resposta para acolher as pessoas é a principal tarefa em caso de desastres naturais.
Mas a ONG considera que um dos principais fatores em um desastre natural também é a mobilização da população do país atingido, principalmente na área de doações.
"A generosidade é uma fonte importante para enfrentar os problemas no Vale do Itajaí. É preciso que as pessoas continuem a receber colchões, cobertores e comida", diz.
Fundada em 2000 e com sede em Cornwall, sul da Inglaterra, a Shelter Box atua de maneira emergencial para garantir abrigo a vítimas de conflitos armados e desastres naturais. Em um prazo de 12 horas, assim que seus membros forem contatados, a organização tem condições de levar os primeiros kits às famílias afetadas.
O kit com o abrigo é usado hoje por famílias vítimas de um terremoto no Paquistão e para abrigar refugiados de guerra civil na África. O tsunami no leste da Ásia, quando mais de 200 mil pessoas morreram, foi o maior projeto de socorro no qual a ONG se envolveu.
O número de mortes provocadas pelas chuvas em Santa Catarina subiu para 116, segundo boletim divulgado pela Defesa Civil do Estado por volta das 20h desta segunda-feira. As mortes confirmadas são de dois moradores de Luiz Alves --uma das cidades mais prejudicadas pelas chuvas: uma mulher de 66 anos e um menino de sete anos.
A Defesa Civil Estadual de Santa Catarina --que centraliza as informações sobre o desastre-- informou ontem que, oficialmente, o número de desaparecidos passou de 19 para 31. Segundo o órgão do governo estadual, as informações foram repassadas pela Delegacia Geral de Polícia Civil, daí a correção do número.
A quantidade de pessoas que tiveram de deixar suas casas permanece a mesma, de 78.707. Desse total, 27.410 são desabrigados e 51.297 estão desalojados.
Campanha e doações
Para evitar a fuga de turistas na temporada de verão, Santa Catarina vai promover uma campanha publicitária após o desastre das chuvas.
Em Blumenau, a prefeitura pretende realizar uma festa de Natal para arrecadar recursos que possibilitem a reconstrução da cidade. Outras prefeituras catarinenses também trabalham para evitar prejuízos.
Enquanto isso, as doações aos atingidos pelas chuvas em Santa Catarina continuam. Ontem a Defesa Civil Estadual divulgou uma lista de produtos necessários para ajudar as vítimas. As doações por meio das contas bancárias ultrapassaram R$ 7 milhões.
Para o governador de SC, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), a prioridade no momento é resgatar as vítimas das enchentes e dos deslizamentos no Estado. "Nossa maior preocupação neste momento é que a chuva pare e que, dessa forma, possamos colocar em prática a segunda etapa, que é a de recuperação das áreas danificadas", afirmou.
Piloto de equipe de resgate diz que nunca viu algo como a tragédia de SC
"Transporto equipes de médicos, enfermeiros, de busca e salvamento, cães farejadores, faço sobrevôos com geólogos e outros profissionais para diagnóstico da situação e outras missões. Também faço resgate de vítimas e até de cadáveres." É assim que o tenente-coronel Cleberson Pereira Santos, 41, piloto de helicóptero do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, descreve o trabalho que vem realizando desde a terça-feira (25) em Santa Catarina.
Duas equipes mineiras foram enviadas pelo governo estadual para auxiliar o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina no auxílio às vítimas das enchentes. Santos, com 18 anos na corporação e 12 como piloto, diz que nunca havia presenciado uma situação semelhante.
"Em uma primeira fase, foi priorizado o resgate de pessoas com risco de morte e famílias que estavam isoladas. Depois, foi realizado o transporte de alimentos, água e medicamentos. Atualmente são realizadas missões variadas, pois ainda há deslizamentos", afirma Santos.
Segundo ele, a equipe comandada por ele conseguiu resgatar mais de 20 vítimas, transportou aproximadamente três toneladas de alimentos e 300 quilos de medicamentos. Em quatro dias, o helicóptero "Arcanjo 1" fez 25 horas de vôo.
O piloto afirma que é recebido com gratidão pelas pessoas resgatadas. "Apesar das dificuldades, [as pessoas] sempre encontram otimismo para nos receber bem e agradecer pelos trabalhos realizados."
Casado com uma piloto de helicóptero da Polícia Militar de Minas Gerais e pai de três filhos, Santos diz que quando vê famílias dizimadas pela tragédia agradece por não sofrer uma situação semelhante.
"Ao realizar os vôos e deparar com tamanha destruição cabe a cada um de nós uma reflexão: por que isto está acontecendo? Estamos agredindo a natureza e ela está apenas respondendo a esta agressão? Não sei dizer."
Mais de 700 animais domésticos morreram em Itajaí
A aposentada Marli Duarte, 67, pensou que voltaria no mais tardar em três horas quando saiu da casa que dividia há seis anos com o yorkshire Tom, próximo às margens do rio Itajaí-Mirim, em Itajaí. Deixou o cachorro em cima da cama do quarto e saiu para a casa de uma comadre a três quarteirões dali. "A água estava na minha canela. Não vou me perdoar. Poderia ter levado ele [Tom] comigo", diz Marli. Tom morreu afogado, com a subida da água.
O caso dele não foi isolado em meio à tragédia que vitimou ao menos 116 pessoas em Santa Catarina durante as últimas semanas. Ainda não há números oficiais de centros de controle de zoonoses dos municípios mais afetados.
O presidente da Aipra (Associação Itajiense de Proteção aos Animais), Roberto Pereira, contudo, diz não ter dúvidas de que pelo menos 700 animais domésticos morreram, só em Itajaí, em decorrência das chuvas. A maioria, diz, eram cães.
"Eu vi mais de 200 animais mortos na cidade, entre cães, gatos, cavalos e bois. As pessoas abandonaram os animais. Na pressa em sair de casa, deixaram os cachorros presos em correntes, ou trancados dentro de casa", diz Pereira.
Para ajudar a cuidar dos que se salvaram das enxurradas e inundações, pelo menos quatro entidades de defesa dos animais, de Blumenau, Itajaí, Itapema e Joinville, divulgaram contas-correntes para receber doações para compra de rações para os animais.
A Coordenadoria do Bem-estar Animal de Florianópolis, vinculada à Secretaria Municipal de Saúde, começou uma campanha de arrecadação na tarde de sexta-feira (28). Em três horas, informou ter conseguido 300 quilos de ração. Uma fábrica de ração de Penha, município vizinho a Itajaí, doou 1,25 toneladas durante a semana passada.
O voluntariado pró-animais já era coisa normal para a comerciante Suraia Sehn, 49, de Itajaí. Ela vive com 13 vira-latas em casa. Com a chuva, conta, teve que sair e colocou cinco em cima de um guarda-roupa, outros cinco em cima de outro armário e mais três sobre o armário da cozinha.
"Durante cinco dias, eles ficaram lá. Eu saía de barco da casa da minha amiga, onde estava abrigada, e levava comida para eles. Salvei todos."
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