Terça-feira, 09 de dezembro de 2008
Chegada
Deu tudo certo. Quatro dos oito pesquisadores brasileiros da expedição Deserto de Cristal chegaram ontem às 13h45min (horário de Brasília) ao Monte Johns, uma das regiões menos conhecidas da superfície da Terra, na parte ocidental do manto de gelo antártico.
O acampamento foi montado a 79º55' S, 94º23' W (basta pôr essas coordenadas no Google Earth para saber onde eles estão agora). Nos próximos dias, eles perfurarão 150 metros no gelo, em busca de respostas para as variações climáticas.
Fazem parte dessa missão os pesquisadores Jefferson Simões (UFRGS), Francisco Aquino (UFRGS), Marcelo Cataldo (UERJ) e Luis Fernando Magalhães Reis (UFRGS). Como os quatro estão isolados a 2.115 m de altura, não estão conseguindo enviar fotos. Assim que retornarem ao acampamento-base, porém, os leitores do blog devem ter novidades.
A propósito: a temperatura ontem no Monte Johns era de -19ºC. E a sensação térmica, de -25ºC.
Segunda-feira, 08 de dezembro de 2008
Monte Johns
Antes de arrumar as coisas para passar 10 dias no Monte Johns, a 250 quilômetros do acampamento-base da expedição brasileira na Antártica, o professor Jefferson Simões conversou com o repórter Daniel Cardoso por telefone.
Simões e mais três cientistas (metade da equipe) devem decolar às 12h rumo ao Monte Johns.
Segunda-feira, 08 de dezembro de 2008
Enquanto isso...

... antes do vôo para o Monte Johns, previsto para daqui a pouco, os brasileiros seguem trabalhando firme no gelo. O fim de semana foi de movimentação intensa a 80º de latitude sul.
Na foto, o pesquisador Ulisses Bremer investiga o perfil de alteração do solo congelado (o chamado permafrost).
Nova fase
Uma semana após chegarem à Antártica, os integrantes da primeira expedição brasileira ao interior do continente inauguram hoje a segunda fase da exploração. A bordo de um bimotor Twin Otter, quatro cientistas (metade da equipe) viajam um local ainda mais hostil que o do acampamento-base.
Há apenas um registro na história de uma expedição ao Monte Johns, onde os brasileiros devem pousar por volta das 12h (horário de Brasília).
— Voaremos 250 quilômetros em pouco mais de uma hora de viagem. Montaremos três barracas no local e daremos início à perfuração de até 150 metros na neve. É a etapa mais importante da expedição — explica, por telefone via satélite, o glaciólogo gaúcho Jefferson Simões, líder do grupo.
Os cientistas coletarão amostras de gelo, que serão analisadas mais tarde. Como a neve que caiu centenas de anos atrás nunca derreteu — e ainda foi sendo coberta por novas camadas ao longo dos séculos —, cavar na Antártica significa voltar no tempo.
Ao analisar as camadas inferiores, os cientistas terão acesso a amostras da atmosfera em outras épocas, podendo avaliar e compreender as variações climáticas modernas. De acordo com Simões, o objetivo é perfurar 150 metros no gelo, o que equivale dizer que alcançarão amostras de 400 anos atrás.
O Monte Johns está a 2,2 mil metros de altitude. De uma temperatura de -15ºC no acampamento-base, os quatro cientistas (três brasileiros e um chileno) passarão a -27°C, com a sensação térmica podendo chegar a -35°C.
— Temos que evitar o congelamento da pele exposta. Isso ocorre quando a sensação térmica cai abaixo de -40°C — diz Simões.
Segundo ele, a única jornada ao Monte Johns registrada até hoje foi feita por americanos em 1961. A viagem brasileira, no entanto, depende das condições do tempo hoje. Se tudo der certo, o avião decolará às 10h (11h em Brasília). Simões e outros três cientistas devem ficar 10 dias no local. Em seguida, retornarão ao acampamento-base, no monte Patriot.
Os cientistas brasileiros chegaram ao acampamento em 30 de novembro e o grupo, formado por oito pessoas, fica na Antártica até janeiro.
Gigante no gelo

Eis aí o Ilyushin 76TD. É como se chama o gigantesco avião que nos trouxe — com nossas toneladas de equipamentos — até aqui o extremo sul da Terra. Notem que o cargueiro aterrissou com rodas (e não esquis) sobre o gelo azul.
E o vento levou

Rosemary Vieira e Ulisses Bremer estudando os processos erosivos glaciais nos montes Independence
Na sexta-feira, enfrentamos novamente ventos com rajadas de mais de 39 nós (70 quilômetros por hora). Fica difícil a viagem de motos de neve nessas condições.
Aproveitamos para arrumar a carga para a nossa missão ao Monte Johns, que começará amanhã (segunda). Nas barracas e no módulo de fibra de vidro o barulho do vento era constante e quase ensurdecedor.
Ops! Quando encerrava este relato, vi algo vermelho voando. Era um de nossos trenós. Correria! Ainda bem que parou a uns 100 metros do acampamento. Alguém havia esquecido de amarrá-lo. Na janta seguinte, tivemos uma conversinha amiga sobre o assunto. :-)
O importante é que o grupo já está ambientado. Já o horário de trabalho é determinado basicamente pelas condições meteorológicas. Refeição regular, só o jantar. O resto depende da rotina de atividades, que pode ser a qualquer hora do dia e durar entre 12 e 24 horas contínuas.
De sol a sol, sem noite no meio

Heitor, Marcio e Luiz Fernando montam estação de amostragem atmosférica
Retomando nosso diário. O título do post tem a ver com o fato de o sol nunca se pôr por aqui. É o famoso sol da meia-noite.
Pois bem. Lá por quinta-feira, finalmente pegamos um período de tempo bom (ou seja, pouco vento). Aproveitamos para sair (Heitor, Márcio, Luiz Fernando e eu) às 22h30min (portanto dia) para uma viagem de 25 quilômetros, ida e volta. Seria praticamente um passeio, se não fossem os infernais sastruguis (pequena dunas de até 50 centímetros de altura na superfície da neve), que tornam a viagem uma seqüência de solavancos a cada 10 metros de distância. Dez quilômetros depois, nossas costas estavam moídas.
Nosso objetivo era instalar uma estação de monitoramento da composição atmosférica (foto acima). Essa parte do trabalho é um experimento da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) realizado pelos professores Heitor Evangelista e Marcio Cataldo. A intenção é estudar a relação atmosfera-gelo, identificando a fração dos elementos químicos na atmosfera que efetivamente se precipitam no gelo, constituindo um "arquivo histórico" nas camadas de neve.
Para facilitar a compreensão: imagine uma nevasca 500 anos atrás sobre a Antártica. Essa neve caiu aqui onde estamos e jamais derreteu. Depois foi caindo mais neve, ao longo dos anos, e a camada foi crescendo. De maneira que temos sob os nossos pés, agora, uns 700 metros de neve acumulada antes de chegar propriamente ao continente. Quanto mais perfurarmos essa neve, mais "voltamos no tempo", já que a neve lá da base dessa camada é a mais antiga, enquanto a do topo é a mais recente. Esse experimento da Uerj é fundamental para descobrirmos a composição da atmosfera centenas de anos atrás, comparando-a com a atual.
A estação que montamos nessa viagem, enfrentando essas pequena dunas, também fará uma coleta integrada de microorganismos (fungos, bactérias e esporos) que possam estar em suspensão no ar.
A Antártica, o Brasil e a criosfera

Apenas para ilustrar, vejam aí os mapas da Antártica e do Brasil sobrepostos. Incluindo as plataformas de gelo, a Antártica tem uma área de 14 milhões de quilômetros quadrados. O Brasil tem 8,5 milhões de quilômetros quadrados.
Mais de 99% da Antártica é coberta de gelo. A parte da superfície terrestre coberta por gelo ou neve se chama criosfera. Ela é fundamental para entender as variações climáticas no planeta e regular o nível dos oceanos.
Falando no assunto, recebemos uma grande notícia a caminho daqui. O governo federal aprovou a criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera. Ele terá sede no Instituto de Geociências da nossa UFRGS e, com a ajuda de sete laboratórios nacionais, implementará o programa nacional de pesquisa da criosfera.
O programa inclui a montagem na UFRGS do laboratório nacional para análise e interpretação de testemunhos de sondagem de gelo e do centro nacional de monitoramento da criosfera (principalmente para avaliar o impacto do derretimento de parte do gelo para o nível médio dos mares).
A expedição Deserto de Cristal, portanto, passa a ser agora oficialmente a primeira do Instituto Nacional da Criosfera.
A 5.746 quilômetros de Porto Alegre
Bom dia. Manhã ensolarada em Porto Alegre. Quem for hoje para os lados do Anfiteatro Pôr-do-Sol e quiser ter uma leve idéia de onde estão os brasileiros que ora vasculham o gelo antártico em busca de respostas para o aquecimento global, faça o seguinte: olhe para o sul, na direção do Beira-Rio.Deixe sua imaginação levá-lo, e calcule mentalmente uns 5.746 quilômetros além do estádio. Justo lá, na borda do Monte Patriot, é possível que esteja Rosemay Vieira, a primeira mulher brasileira a participar de uma expedição ao interior da Antártica.
Nesta foto que a equipe enviou neste fim de semana para o blog, Rosemary examinava sedimentos glaciais a uma temperatura de -20°C. Tudo isso a 5.746 quilômetros de Porto Alegre e a pouco mais de mil do Pólo Sul.
4 de dezembro
Manhã ventosa, tarde calma.
O grupo do estudo da interação atmosfera/gelo da UERJ fez sua primeira coleta de neve recente. Depositada durante a madrugada, a neve amostrada carrega consigo informações a respeito do material em suspensão atmosférica durante o evento de precipitação, processo não tão comum neste período do ano em Patriot Hills.
3 de dezembro
As condições meteorológicas pioraram rapidamente, a temperatura caiu para -19ºC e a sensação térmica para -32ºC. Nada de anormal para Patriot Hills. O problema é evitar o congelamento da pele exposta, o que ocorre quando a sensação térmica cai abaixo de -40°C. Assim, estabelecemos como limite dos trabalhos de campo (ou, mais corretamente, de gelo) este valor. Abaixo disto, ficamos em casa (ou seja, de uma barraca para outra!).
Tentamos viajar a tarde de motos de neve 15 quilômetros até o local para instalação da estação de amostragem de ar do grupo da UERJ. Após 3 quilômetros de viagem perdemos a visibilidade. Havia muita neve à deriva. Voltamos. Nada de anormal, temos que aguardar um tempo um pouco melhor.
1º e 2 de dezembro: montando o acampamento
O primeiro acampamento brasileiro no interior da Antártica foi montado nas coordenadas 80°18'S, 81°22'W (insira-as no Google Earth para saber onde fica).
Está 2.157 quilômetros ao sul da Estação Antártica Comandante Ferraz e a 1.083 quilômetros do Pólo Sul Geográfico. Estamos a aproximadamente 920 metros de altitude e aqui o gelo tem espessura de 700 metros (ou seja, o continente está 700 metros abaixo dos nossos pés).
Na montagem de um acampamento polar, a primeira coisa a fazer é sempre colocar de pé aquela barraca maior que usamos como área de refeições e convivência. É ali que teremos nossas refeições e discutiremos nossas ações diárias. Mas o mais importante: é ali que manteremos constantemente o derretimento de neve para prover nossa água.
Nossa barraca-cozinha tem forma oval e aproximadamente 12 metros quadrados de área útil. Não é muito espaço para oito pessoas, mas dá para ficar em pé na área central.
Enquanto parte do grupo montava as cinco barracas-pirâmides, uma para ser usada como banheiro e as outras como dormitório (por dupla), outra parte do grupo tratava de preparar um módulo de fibra de vidro deixado no local por nossos colegas do Instituto Antártico Chileno.
Infelizmente, o módulo chileno não teve manutenção ao longo dos últimos 3 anos e estava soterrado na neve. Nossos colegas do acampamento vizinho, Antarctic Logistics & Expeditions, desenterraram o módulo com um trator, mas teremos que tirar muito gelo de dento dele. Lentamente, ao longo desses três anos, a neve entrou pelas menores frestas, acumulando dentro do módulo. Nos verões, a temperatura dentro do módulo foi suficiente para descongelar a neve, que logo recongelou. Assim, encontramos cadeiras, mesas, colchões e alimentos envoltos por uma massa de gelo. Serão no mínimo dois dias para quebrar o gelo e limpar o módulo.
Às 7 horas da manhã, estamos com o acampamento montado e podemos dormir. A partir de agora serão as condições meteorológicas que determinarão nosso horário de trabalho e descanso. O ciclo de 24 horas perde o sentido e temos que aproveitar o máximo aqueles momentos em que é permitido trabalho fora das barracas.
O dia 2 de dezembro foi dedicado a preparar as motos de neve e trenós e a limpar o domo de vidro. No meio do dia tínhamos o módulo de fibra de vidro ainda com gelo dentro, mas já podíamos usar como escritório, ligar nossos computadores e os telefones satelitais. Também ficou de quarto de dormir para o líder da expedição. Tudo isto na agradável temperatura interna de -4°C.
O grupo de geomorfologia e pedologia do NUPAC-UFRGS, deslocou-se em motos de neve até a moraina Cassassa, no vale Universidad, 10 km ao sul do acampamento. Foi feito reconhecimento da vertente sul dos montes Patriot e da face nordeste dos montes Independence. Embora os ventos catabáticos estivessem muito fortes, as primeiras amostras de sedimentos de moraina já foram coletadas e foram localizados sítios de interesse para amostragens de solos no monte Simmons e de sedimentos na zona de gelo azul.
21 a 30 de novembro, Punta Arenas, Chile
Em toda a expedição científica ao Exterior, e principalmente para a Antártica, o período mais cansativo é aquele da preparação final. Preparar a carga, que deve estar em perfeita condições. Nada pode faltar (lembrem-se que estaremos a mais de 3 mil quilômetros do supermercado mais próximo, no caso em Ushuaia na Argentina). Tivemos ainda que lidar com três aduanas sul-americanas (Brasil, Argentina e Chile), pois nossa carga (incluindo duas motos de neve) viajaram entre Porto Alegre e Punta Arenas via terrestre (no trajeto ainda enfrentamos uma greve da aduana chilena).
Ou seja, chegamos extenuados em Punta Arenas. Os primeiros três dias foram dedicados para montar as motos de neve, preparar a carga para o vôo até a Antártica e comprar frutas e verduras (um luxo para um expedição polar). Tudo pronto no dia 26 de novembro, começamos nosso período de espera. Paciência é o nome do jogo da exploração polar. Ao longo de nossa jornada teremos que esperar sempre por condições ideais do tempo meteorológico. Vôos ou travessias de moto de neve em más condições podem fazer a diferença entre um bom trabalho e um acidente (às vezes,
Relatos
Finalmente conseguimos um tempo livre para escrever notas sobre o andamento de nosso trabalho. Como de praxe, este tempo livre decorre do mau tempo meteorológico. Nos dois últimos dias (3 e 4 de dezembro), a temperatura caiu até -19°C, a sensação térmica está na casa dos -32°C e há muita neve. Ou seja, hora de ficar em nossas barracas ou no módulo azul emprestado pelo Instituto Antártico Chileno. A seguir, vamos fazer uma espécie de diário da nossa rotina nas últimas duas semanas. Acompanhem.
Mãos à obra

O professor Jefferson Simões, líder da expedição Deserto de Cristal, acaba de enviar essa foto dos pesquisadores Heitor Evangelista (UERJ) e Luiz Fernando Magalhaes Reis (UFRGS) preparando as motos de neve para a primeira missão de campo.
A equipe instalou hoje uma estação de amostragem de ar a 15 quilômetros do acampamento da expedição. O deslocamento até o local dura duas horas e 30 minutos. No caminho, os pesquisadores enfrentaram temperatura de -30ªC e rajadas de vento de até 70 km/h.
A rotina deles passa a incluir agora uma viagem diária à estação para coletar informações e fazer a manutenção do equipamento.
Registro histórico

Nunca tantos brasileiros estiveram tão isolados, em um lugar tão distante, em uma latitude tão alta, em nome da ciência. Acampamento montado, esse é o primeiro registro da expedição Deserto de Cristal.
Agora há pouco, o professor Jefferson Simões, líder da expedição, conversou com o repórter Carlos Wagner por telefone. Sim, apesar de estarem na Antártica, eles têm telefone. E internet. É tudo por satélite, mas pega.
Chegada
Superado o mau tempo, finalmente começou a primeira expedição brasileira ao interior da Antártica. A equipe chegou bem e já envia relatos desde o extremo sul do planeta.
O acampamento foi erguido a 80º de Latitude Sul e 81º de Longitude Oeste, diretamente sobre o gelo antártico (que tem uma espessura de 700 metros e está a 920 metros de altitude). Os oito membros da expedição estão a 1.083 quilômetros do Pólo Sul. Uma curiosidade: não há noite por lá nesta época do ano.
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