
Os oito pesquisadores,a poucas horas do embarque para a Antártica
o Brasil começou a fazer história na Antártica por volta das 12h de 27 de novembro. Esse foi o horário para as mais de 100 toneladas do avião russo Ilyushin 76TD tocarem uma pista de gelo a 80º de Latitude Sul, abrindo caminho para a primeira expedição científica brasileira ao interior do continente.
Nos 25 anos anteriores, o país se limitou a realizar pesquisas e marcar presença na periferia do continente - onde inclusive montou uma estação, a de Comandante Ferraz, em 1984. Dessa vez, uma equipe financiada com recursos federais e liderada pelo glaciólogo gaúcho Jefferson Simões irá cerca de 2 mil quilômetros além, ao centro de um continente que se transformou em uma das últimas fronteiras da ciência. A expedição foi batizada de Deserto de Cristal.
Durante 40 dias e sob sensações térmicas que alcançam -40ºC, Simões e outros sete cientistas coletarão amostras de solos e rochas e perfurarão as camadas de neve a fim de reconstituir a história da atmosfera nos últimos 500 anos. Entre outras coisas, o resultado desse trabalho contribuirá para os estudos sobre o aquecimento global.
Ansiosos, os oito pesquisadores prepararam os equipamentos em Punta Arenas, no sul do Chile.
- Nosso desafio é empreender e inovar sob condições extremas para desvendar a história do clima e o papel da humanidade - disse ontem Simões.
Ao chegarem, sua primeira tarefa será erguer barracas na neve e organizar as três toneladas de equipamentos. Também levantarão um armazém de provimentos, prepararão motos de neve e montarão banheiros (todos os dejetos têm de retornar à América do Sul).
Nos primeiros dias, ainda poderão consumir alimentos frescos, privilégio que acabará junto com o estoque de frutas e saladas que levam com eles desde o Chile. Depois disso, viverão à base de comida pré-pronta. A única concessão no cardápio frugal serão goles de vinho tinto chileno, comprado em garrafas suficientes para espantar o frio e integrar a equipe, isolada no ponto extremo do planeta.

Jefferson Simões, da UFRGS, no Pólo Sul em 2004
Líder da expedição Deserto de Cristal, o gaúcho Jefferson Simões já participou de 17 missões na Antártica. Numa delas, em 2004, ele se tornou o primeiro brasileiro a alcançar o Pólo Sul por terra (foto).
Todas suas incursões ao interior antártico, porém, foram em missões estrangeiras. Desta vez, é o Brasil que comanda a expedição.
Por que é importante
Em primeiro lugar, a cobertura de gelo do planeta tem papel fundamental no sistema ambiental. Alguns dados:
(1) Os mantos de gelo e geleiras cobrem uma área de 16 milhões de km2, atingindo uma espessura máxima de 4.776 m na Antártica
(2) Este volume de gelo (28 milhões km3), se derretido, equivaleria a um aumento de 60 metros no nível médio dos mares. Qualquer modificação nesta massa, por conseqüência, teria implicações importantes para as regiões costeiras
(3) O Manto de Gelo Antártico (13,95 milhões de km2, 90% do volume do gelo terrestre) é o principal sorvedouro de energia (heat sink) do planeta e portanto um dos principais controladores do sistema climático
(4) A maioria da água de fundo dos oceanos é formada debaixo das plataformas de gelo antárticas (partes flutuantes do manto) ou sob o cinturão de mar congelado (sea ice) que circunda aquele Continente
(5) A área coberta por gelo marinho no hemisfério sul oscila sazonalmente entre 3 e 19 milhões de km2, alterando marcadamente o padrão de troca de energia entre o oceano e atmosfera ao longo do ano
(6) A estratigrafia e química da neve do gelo polar e de geleiras de altitude fornecem uma das melhores técnicas paleoclimáticas, possibilitando a reconstrução da evolução atmosférica ao longo de 800 mil anos.
Continuando a explicação: projeções do IPCC (o painel da ONU que estuda mudanças climáticas) indicam que, mantidos os atuais índices de emissões dos gases estufa, a temperatura média do planeta provavelmente aumentará entre 1,8°C e 4ºC nos próximos 100 anos, contribuindo para o derretimento das massas de gelo do planeta e conseqüentemente aumentando do nível médio dos mares entre 18 e 59 centímetros.
Isso resultará em implicações diretas para as zonas costeiras do Brasil. Além disso, grande parte do território brasileiro é afetada diretamente pelas massas de ar e correntes oceânicas que se deslocam da Antártica e do Oceano Austral (como é conhecido o oceano que circunda o continente branco). Variações na cobertura do gelo antártico (glacial e marinho), por exemplo, afetam a dinâmica das massas de ar polar, causando implicações sobre os diversos tipos climáticos brasileiros.
Ainda, como já disse, as camadas de gelo das geleiras e mantos de gelo contêm o melhor registro paleoclimático para os últimos 800 mil anos. Ao analisar essas camadas de gelo, que é uma das coisas que faremos no interior da Antártica, teremos valores de referência para interpretar as variações climáticas modernas e avaliar o impacto do ser humano no meio ambiente.
Finalmente: apesar do importante papel da Antártica no sistema ambiental e, mais particularmente, a proximidade do Brasil com a maior massa de gelo da Terra (o Rio Grande do Sul, por exemplo, está mais perto da Antártica do que de Roraima), as investigações nacionais sobre o tema ainda são muito restritas. Ao completar 25 anos, o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) nunca realizou estudos no manto de gelo, pois está restrito à área costeira e oceânica ao norte do Círculo Polar Antártico. Daí a importância dessa expedição, na qual avancaremos muito além de onde jamais chegamos numa missão brasileira.
Esperamos voltar de lá com respostas para os principais fenômenos climáticos que atingem o planeta (e portanto cada um de nós) neste exato momento. Mas antes, é claro, esperamos condições adequadas de tempo para partirmos aqui do sul do Chile. Espero que nos acompanhem nessa jornada. Aos gaúchos, lembrem-se que a Antártica é tão importante quanto a Amazônia para o meio ambiente do Rio Grande do Sul. Um abraço.
Chegada
Superado o mau tempo, finalmente começou a primeira expedição brasileira ao interior da Antártica. A equipe chegou bem e já envia relatos desde o extremo sul do planeta.
O acampamento foi erguido a 80º de Latitude Sul e 81º de Longitude Oeste, diretamente sobre o gelo antártico (que tem uma espessura de 700 metros e está a 920 metros de altitude). Os oito membros da expedição estão a 1.083 quilômetros do Pólo Sul. Uma curiosidade: não há noite por lá nesta época do ano.
Registro histórico

Nunca tantos brasileiros estiveram tão isolados, em um lugar tão distante, em uma latitude tão alta, em nome da ciência. Acampamento montado, esse é o primeiro registro da expedição Deserto de Cristal.
Agora há pouco, o professor Jefferson Simões, líder da expedição, conversou com o repórter Carlos Wagner por telefone. Sim, apesar de estarem na Antártica, eles têm telefone. E internet. É tudo por satélite, mas pega.
Mãos à obra

O professor Jefferson Simões, líder da expedição Deserto de Cristal, acaba de enviar essa foto dos pesquisadores Heitor Evangelista (UERJ) e Luiz Fernando Magalhaes Reis (UFRGS) preparando as motos de neve para a primeira missão de campo.
A equipe instalou hoje uma estação de amostragem de ar a 15 quilômetros do acampamento da expedição. O deslocamento até o local dura duas horas e 30 minutos. No caminho, os pesquisadores enfrentaram temperatura de -30ªC e rajadas de vento de até 70 km/h.
A rotina deles passa a incluir agora uma viagem diária à estação para coletar informações e fazer a manutenção do equipamento.
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