Expedição ao Interior da Antárdida - Deserto de Cristal

À partir de hoje, estaremos publicando o diário de bordo, de Daniel Piza, colunista do ´´ Estadão ´´, que está acompanhando a primeira expedição científica brasileira, ao interior do continente antártico.

Base Comandante Ferraz ( cams ao vivo )

Dados do Projeto
The International Polar Year

No interior da Antártida



Diário branco (1) 21.11.2008


Finisterra. Fim do Mundo. Estou em Ushuaia, a cidade mais meridional da América do Sul, na Terra do Fogo, na Patagônia argentina. Hoje embarco no NApOc (navio de apoio oceanográfico) Ary Rongel, ancorado aqui no porto em frente ao hotel onde estou, Canal Beagle. Vamos para a base brasileira na Antártida, a Estação Comandante Ferraz, acompanhando pesquisadores que vão trabalhar lá alguns meses do verão. Passaremos pelo Cabo Horn e pelo Estreito de Drake e já fui avisado de que muito enjôo é inevitável. Não importa. Sempre desejei ver geleiras de perto, abordar o continente branco e sua sinistra beleza, pisar nesse deserto de cristal. Um leitor adolescente de Darwin, Cousteau e do Atlas da Enciclopédia Mirador traz uma dívida consigo mesmo. Não vejo a hora de saldá-la. E de saudar a branquidão.

Ushuaia já vale a pena. É uma cidadezinha com 70 mil habitantes e o centro comercial consiste em três avenidas e uma dúzia de travessas. Vende-se artesanato (quase tudo em torno de pingüins, naturalmente), vai-se a bons restaurantes de pescados e carne, há um interessante museu marítimo. Turistas, sobretudo europeus (franceses, alemães e holandeses foram os que mais vi), andam para cima e para baixo, maravilhados com a Patagônia. O vôo de Buenos Aires faz escala em El Calafate, depois de 3 horas, e a vista de cordilheiras e lagos congelados - pincelados de azul aqui e ali, pois estamos no verão - tirou o fôlego de todos. Mais uma hora e estamos em Ushuaia. O mais bonito aqui é também a cadeia de montanhas com picos de neve circundando a cidade e a baía. Um pouco adiante os Andes afundam e o Atlântico e o Pacífico se encontram.


Apesar da boa temperatura (14 graus na hora do almoço), os ventos dão amostra do que deve ser isto aqui no inverno. Compro remédios, tiro muitas fotos, leio os livros que trouxe, escrevo estas mal tecladas. Mas a partir de sábado é que a ação a bordo começa. Volto a este diário assim que tiver condições, o que me dizem será logo. Até.


Diário branco (2)
22.11.2008



Hoje o navio partiu, sob chuva fraca, e o Drake nos espera com seu cartão de más-vindas. Ontem fui ao Parque Nacional da Terra do Fogo, a 20 km daqui de Ushuaia, e achei muito bonito com seus contrastes da mata e das águas com os picos lambidos de neve, além de uma barragem feita por castores que se escondem da nossa vista. Na enseada do Canal Beagle, as praias são de pedrinhas verdes – e pensar que Darwin deve ter se fascinado com esse minério e com essas rajadas de vento em 1832.


À tarde, depois de comer um cordeiro que os “fueguinos” preparam numa roda de espetos, fui ao navio me instalar num camarote de nome nada inspirador, Decepción (nome de uma ilha antártica), uma cabine para seis marmanjos (por sorte, com quatro) que exige enorme poder de manobra para dormir em beliche triplo com 50 cm de vão e tomar banho. Na Praça d’Armas, uma sala com mesa de refeitório e TV com DVD, conhecemos o piloto Luiz Felipe, o médico Arnaldo, o dentista Cristiano e outros oficiais. O DVD era aquele das auto-intituladas “divas” e Celine Dion começava a esgoelar aquela canção do filme Titanic quando os presentes disseram com humor: “Pula, pula, música proibida a bordo”. Dormi bem. Zarpamos. Volto ao diário quando possível, pois há 40 horas de travessia pela frente e a ordem é não se concentrar a não ser em evitar enjôo.

Diário branco (3) 24.11.2008



Até o momento em que escrevo, o Drake foi generoso conosco. O balanço do navio não passou de 20º, as ondas ficaram abaixo de três metros. As escotilhas dançam do céu para a água, mas sem causar tontura para a grande maioria dos viajantes. Graças ao Meclin, tomado antes de partir, não enjoei nada até agora. Navegando a 12 ou 13 nós, com vento batendo quase de popa, a travessia foi cumprida no prazo e já estamos abaixo do paralelo 60, que define o círculo subpolar. No trajeto não se viram ilhas, apenas o mar levemente agitado. E as aves que acompanhavam o Ary Rongel: petréis, pombas-do-cabo, skuas.

Hoje chegaremos à base da Bulgária, para onde o Brasil leva tambores de óleo, e depois seguimos para a Estação Comandante Ferraz, onde deveremos ter dois dias antes de partir no vôo de volta. Lá conheceremos pesquisadores que também acabaram de chegar à Antártica. É tudo que nos foi permitido. É mais do que recompensador.

Começa hoje a primeira expedição brasileira ao interior da Antártida. Sete cientistas brasileiros e um chileno, coordenados pelo glaciologista Jefferson Simões, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), viajarão a 2.400 km de distância da base brasileira, Estação Comandante Ferraz, que fica na ilha Rei George, a noroeste do continente, desde 1984.

Batizada de “Deserto de Cristal”, a expedição é a iniciativa mais importante do País no Ano Polar Internacional, decretado para o estudo do aquecimento do continente. Segundo os estudos preliminares de Simões e sua equipe, as variações de temperatura da Antártida – uma calota de gelo de quase 14 milhões de km², mais de 60% superior ao território nacional – têm tanta influência quanto a Amazônia no sistema climático do Brasil.

Os pesquisadores vão ficar 40 dias acampados sobre as geleiras, enfrentando temperaturas de até 35º C negativos. No local onde vão se instalar, Monte Johns, jamais visitado até hoje, o objetivo é perfurar o manto de neve para estudar a presença de gás carbônico. “Vamos colher o testemunho do gelo”, resume Simões. “A pesquisa em acampamentos é cada vez mais importante.” Eles ficarão a “apenas” 1.100 km do Pólo Sul.

Além da expedição, a viagem que se inicia hoje também levará pesquisadores para uma temporada de três meses na base brasileira, como se faz habitualmente nesta época do ano, de clima mais ameno e menos imprevisível. O Brasil investe cerca de R$ 25 milhões no ProAntar (Programa Antártico), menos da metade de China e Índia. A estação consome quase 40% desse valor. Além disso, o ProAntar terá navio novo a partir de janeiro.

A expedição custa R$ 700 mil, verba do Ministério da Ciência e Tecnologia, que já investiu outros R$ 10 milhões por conta do Ano Polar. O presidente Lula, que visitou a Comandante Ferraz no ano passado, liberou a quantia depois de ver como as condições de trabalho e pesquisa estavam se deteriorando. Ainda não há certeza de que o novo patamar de investimento vá ser mantido nos próximos anos. Mas Simões diz que já houve um “ponto de inflexão” na visão que o Brasil tem de sua participação na Antártida.

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