“Eu gostaria de uma eleição plebiscitária, ou seja: nós contra eles, pão pão, queijo queijo”
Bastaria ensinar ao país que Dilma Rousseff era o codinome com que disputaria a própria sucessão para que o jogo começasse com o placar já assinalando 80% a 4%. Um oceano de brasileiros felizes contra a poça de insatisfeitos profissionais, imaginou o campeão da bazófia. A goleada estava garantida.
“A maior obra de um governo é eleger o sucessor”, avisou em fevereiro passado o chefe de Estado ao abandonar o emprego para virar chefe de facção e animador de palanque. Nos oito meses seguintes, o governante fora-da-lei atropelou a Constituição, debochou da Justiça Eleitoral, afrontou o Ministério Público, zombou dos adversários.
Presidente de todos os brasileiros, açulou a radicalização maniqueísta, abençoou a beligerância das milícias, colocou a administração federal a serviço de uma candidatura ─ tudo para transformar em herdeira uma formidável nulidade. Conseguiu. Ganhou a eleição. Mas vai sair do governo menor do que parecia ao entrar. E não foi pouco o que perdeu.
O país redesenhado pelas urnas do dia 31 informou que a estratégia do “nós contra eles” foi uma má ideia. Disfarçado de Dilma Rousseff, Lula sepultou os sonhos presidenciais de José Serra. Mas ressuscitou, com dimensões especialmente impressionantes, a oposição que não houve em seus oito anos de reinado.
No mundo dos ibopes e sensus, os que não se ajoelham no altar de Lula nunca ultrapassaram a fronteira dos 5%. Sabe-se agora que somam 45% do eleitorado. O Brasil insatisfeito é infinitamente maior que Serra, muito mais combativo que o PSDB. E está disposto a resistir energicamente ao prolongamento da Era da Mediocridade.
Popularidade não rima com voto, reiterou a paisagem eleitoral. No Brasil das pesquisas, Lula vai beirando os 100% de aprovação (ou 103%, se a margem de erro for camarada). Na vida como ela é, a unanimidade foi rebaixada a 56% dos votos válidos. A dupla Lula-Dilma venceu na metade superior do mapa. Foi derrotada na metade muito mais desenvolvida. Os 10 Estados que elegeram candidatos do PSDB e do DEM abrangem 53% do eleitorado.
Se o PSDB não assimilar a partitura composta pela resistência democrática, que destaca enfaticamente valores éticos e morais, vai perder o bonde da história.
Os eleitores que não compraram a dupla Lula-Dilma também rejeitam partidos que só agem ─ e com dolorosa timidez ─ quando começa a temporada de caça ao voto. Se os líderes tucanos não aprenderem a opor-se o tempo todo, e desde já, logo não terão ninguém a liderar. Os descontentes descobriram que podem viver sem eles. E saberão o que fazer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário