Presidente do PT em São Paulo e integrante da coordenação da campanha de Dilma Rousseff à Presidência, Edinho Silva admite que denúncias contra Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil, e polêmicas quanto a posição da petista sobre aborto foram determinantes para o segundo turno nessas eleições.
Em entrevista à Folha, Edinho afirma que denúncias de corrupção no governo federal interromperam a trajetória de Aloizio Mercadante, candidato do PT ao governo do Estado, derrotado por Geraldo Alckmin (PSDB). Leia a íntegra da entrevista.
Folha - Como o senhor avalia a derrota sofrida pelo PT na eleição estadual?
Edinho Silva - O perfil socioeconômico de São Paulo tem que ser entendido melhor pelo PT. Nós estamos nos debruçando sobre isso. E eu penso que nessa campanha conseguimos dialogar melhor com os setores médios do Estado. Agora, São Paulo tem a maior classe média do Brasil. E não é essa classe média emergente, que se abre para o PT porque teve benefícios reais e concretos no governo Lula. É uma classe média que vem de uma outra cultura política, de uma outra tradição política. Se você pegar a história dela, verá que ela sempre foi hegemonizada pelas forças políticas mais conservadoras do Estado.
E ela teve resistência ao PT porque o PT nasce da mobilização sindical, da mobilização social, dos movimentos populares. E essa classe média, ou uma parte significativa dela, resiste ao PT porque estigmatizava o partido pela sua origem. Eu penso que o PSDB --ele nasce como um partido de centro esquerda, mas faz um giro para a centro direita-- quando faz esse giro, ele dialoga com esse setor, representa os interesses desse setor e acaba consolidando um campo importante em São Paulo. E é isso que nós vimos nessas eleições.
E, diante do cenário traçado pelo sr., qual seria a alternativa do PT?
Eu penso que o desafio do PT é conseguir abrir um diálogo com esse setor. E foi interessante a campanha do Mercadante nesse sentido, porque ele conseguiu isso. As nossas pesquisas mostraram. Quando ele discutiu a segurança pública ele dialogou com esse setor. Quando ele discutiu trânsito na região metropolitana ele dialogou com esse setor. Claro que quando ele discutiu educação, por exemplo, ele dialogou com o nosso eleitorado, com o eleitorado que é petista.
As pesquisas qualitativas mostraram que esse setor entende que o PT pode representar uma alternativa para ele, mas ele dialogava com o partido com as crises de 2005 e de 2006 [mensalão e escândalo dos aloprados] na mão. Ele dialogava com o PT, mas com a crise na mão. A qualquer momento ele poderia apresentar a crise como argumento para não votar no PT.
Do mesmo jeito que nós temos pesquisa, eles [o PSDB] também têm. Quando surgiu a crise Erenice [Erenice Guerra, ex-ministra da Casa Civil acusada de tráfico de influência e favorecimento a familiares no governo], eles vinculam com 2005 e 2006, e eles sabiam que onde esses ataques pegariam no eleitorado de São Paulo.
Na opinião do sr. as denúncias contra a Erenice foram determinantes tanto para o segundo turno na eleição nacional quanto para a derrota do Aloizio Mercadante?
Não tenho dúvida nenhuma. Nós vimos nas pesquisas qualitativas que isso vinha com uma força impressionante. Nós começamos a sangrar nesse eleitorado que estava vindo para o PT. Uma parte dele foi para a Marina [Silva, do PV] e o restante para o Serra [José Serra, do PSDB]. O Mercadante parou de crescer imediatamente, e, inclusive, em algumas pesquisas ele teve uma queda. Depois, quando nós fomos para o programa de televisão e começamos a demarcar projeto, voltamos a crescer novamente. Mas nós crescemos naquele eleitorado que era mais suscetível a nós. No eleitorado médio nós tivemos dificuldade de entrar. Nenhum partido tem o que o PT tem em São Paulo, só que 34% de imagem é insuficiente para a gente ganhar a eleição. Nos dá condições de ser a maior bancada do Legislativo, de a nossa coligação fazer 24 deputados federais, uma marca histórica.
Com todos os ataques que o PT sofreu, nós conseguimos fazer uma senadora [Marta Suplicy]e não levamos o Mercadante para o segundo turno por 70 mil votos. Perdemos por conta dos ataques que o PSDB fez na internet em cima da Dilma e do PT, visando São Paulo. Tanto é que se você pegar os últimos 15 dias da campanha o Serra concentrou a agenda dele em SP, porque ele sabia que aqui poderia desequilibrar o pleito em favor dele. Ele não conseguiu abrir os cinco milhões de votos que queria, porque aí teríamos um problema nacional. Mas ele desequilibrou, impediu que a Dilma ganhasse no primeiro turno, e que o Mercadante fosse para o segundo.
Diante dessa dificuldade em dialogar com a maior parte do eleitorado paulista, o senhor não defende uma renovação nos quadros paulistas? Aloizio Mercadante e Marta Suplicy já têm imagens fixadas no imaginário do eleitor...
Eu não personifico a política. Penso que se você tiver um bom quadro para defender, um bom programa e um bom projeto, você ganha a eleição. Essa eleição nós acertamos muito. Tivemos a maior política de alianças, conseguimos unificar o movimento sindical em torno da campanha do Mercadante, o que não é pouca coisa. Conseguimos até lideranças de outros partidos, inclusive do DEM.
O problema é que nós carregamos uma herança, que são as crises de 2005 e 2006, e só o tempo e os acertos do PT vão diminuir essa herança. E ela só não é mais maléfica por conta do êxito do governo Lula. Em 2006 quem resgatou o PT foi o governo Lula. Ele nos deu a segunda chance, enquanto partido. Porque uma crise daquele tamanho, se o PT não tivesse uma liderança como o Lula e se não tivesse o enraizamento social que tem, qualquer outro partido seria dizimado.
O sr. citou o caso Erenice como fator determinante para o segundo turno na eleição presidencial e falou também sobre ataques do PSDB. As polêmicas sobre os valores religiosos da candidata e a posição dela quanto ao aborto também tiveram influência nesse processo?
Eu não tenho duvida nenhuma. Eu não minimizo a influência da falação sobre o aborto. Acho que fez um estrago significativo. Os dois fatores influenciaram a mudança de voto. O Brasil é um país de tradição católica, onde os setores evangélicos crescem muito. Isso percorreu a internet, chegou no nosso eleitorado, em um pedaço dele, chegou na nossa base social, na classe D e na classe C emergente. E chegou, principalmente por meio do catolicismo, nos setores médios. Então, a boataria pegou duas pontas: o eleitor que estava se aproximando de nós e o eleitor que já era nosso.
E como o sr. acha que a campanha de Dilma deve lidar com esse tema agora?
Eu penso que, no segundo turno, o que aparecer você tem que debater. Esse tema precisa de um debate aberto, claro. Defendo que ela diga francamente para o eleitor. No caso Erenice precisamos entender que o eleitor sabe votar, sabe formar opinião. Se a gente for a público e explicar o que aconteceu, um governo do tamanho do governo federal, como uma prefeitura, como um governo de estado, sempre vai ter denúncia. O problema não é ter denúncia, é a postura do governante perante a denúncia. Ou você acoberta, ou investiga e pune. A Dilma tem pulso forte, ela é firme. Se tem uma coisa que ela não é, e nunca vai ser, é frágil para governar. Ela é impositiva. O que tem que mostrar é que sempre que tiver denúncia ela vai investigar e vai punir.
E sobre o aborto?
Eu defendo que a gente enfrente isso de frente. Temos que tratar esse debate com muita transparência. A Dilma, em todas as manifestações dela, defende a vida. Se nós enfrentarmos a boataria e dialogarmos de forma franca com o eleitor, teremos sucesso. Até porque é fácil de debater, porque é uma mentira. O que está em disputa nessas eleições e nós temos que deixar isso claro, é que temos dois caminhos: um representa o Brasil que existia até 2002 e o eleitor conhece, e o outro é o pós-governo Lula.
Ou seja, o sr. defende o investimento na comparação entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula?
Completamente. São dois projetos distintos e nós temos que mostrar isso para o eleitor. Um, no qual o Estado teve papel fundamental para garantir a produção e a distribuição de riqueza, onde o Estado estabeleceu um projeto estratégico que passa pelo fortalecimento de organismos públicos, que passa pelo fortalecimento da Petrobras, por exemplo. Por traz disso, há uma concepção.
É evidente que nessas eleições houve confronto entre o PT e a imprensa. Penso que em alguns momentos nós erramos, mas é claro que teve erro também da imprensa. Mas eu defendo que o PT estabeleça diálogo com a imprensa, que a gente apare as arestas que foram criadas. Não é bom para a democracia um partido do tamanho do PT brigar com a imprensa, nem a imprensa brigar com o PT. Até porque se hoje temos democracia consolidada é porque a imprensa cumpriu o seu papel e o PT também. Nenhuma força política defendeu tanto a liberdade de imprensa como o PT. Tivemos erros dos dois lados, e temos que pacificar essa relação. A imprensa não precisa ser petista, e nem o PT precisa ser o sindicato da imprensa. A imprensa tem o seu papel, e o PT tem o dele.
Como é que o sr. vê o PT pós-Lula?
O PT sabe o seu lugar. Primeiro, só quem não conhece a Dilma é que acha que o PT vai emergir... a Dilma é uma pessoa muito forte, é uma liderança muito impositiva. Ninguém vai governar pela Dilma, ninguém vai impor nada a ela. Não faz parte do perfil dela. Só quem não conhece os bastidores de Brasília acredita nisso. O PT vai dialogar com ela, como o PMDB, o PC do B, como os partidos da base vão. Ela vai construir o governo dela. O PT aprendeu a diferença entre governo e partido. Eu posso defender bandeiras socialistas no PT, porque esse é o papel do partido. Mas o governo não tem que levantar essas bandeiras. O PT sabe o seu lugar.
E como será a atuação do PT paulista durante o governo Geraldo Alckmin?
Sendo a maior bancada, mas não sendo majoritária, o PT também vai ter que construir as suas alianças. Nós defendemos mudanças radicais na educação, na política de segurança pública, que seja refeito o papel do governo dentro da gestão da tripartite [que conta com investimentos dos governos federal, estadual e municipal] da saúde, ampliação do investimento em infraestrutura e interiorização do desenvolvimento. Essas bandeiras é que vão nortear a nossa atuação. O tamanho da oposição do PT vai depender da postura do governo Alckmin diante dessas bandeiras que nós defendemos.
Fonte: FOLHA/DANIELA LIMA
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