Restrição. Igreja está localizada na única área de zoneamento residencial do Brás/Leonardo Soares/AE
A Justiça determinou na segunda-feira (23) o fim dos cultos na sede da Igreja Mundial do Poder de Deus localizada no Brás, região central de São Paulo.
Falta de segurança e de alvará definitivo, obstrução ao trânsito e lotação acima da permitida estão entre as irregularidades cometidas no templo, segundo a juíza Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi, da 13ª Vara da Fazenda Pública.
A decisão atende a uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual (MPE), a pedido de um grupo de moradores vizinhos do templo. No processo, a vizinhança também acusa a prefeitura de ignorar as denúncias de desrespeito à lei do silêncio e de lotação acima de 8.040 pessoas.
Aos domingos, quando caravanas de todo o País começam a chegar ao Brás ainda de madrugada para o culto das 9 horas, cerca de 15 mil pessoas lotam o antigo galpão, de 110 mil metros quadrados, conforme relato feito aos promotores. A Igreja Mundial é uma das cinco maiores pentecostais do País.
A reportagem tentou contato com seus representantes na tarde de ontem, mas não obteve retorno. Após culto, à noite, um representante da igreja afirmou que somente o departamento jurídico vai se pronunciar sobre o assunto.
Vizinhos filmaram 31 horas de culto e juntaram 212 fotos
Uma câmera digital foi o principal instrumento dos moradores do Condomínio Fontana Liri para obter a liminar que determinou o fechamento da Igreja Mundial do Poder de Deus no Brás. Foram 31 horas de filmagens e 212 fotos com imagens que retrataram um templo sempre superlotado, com as saídas de emergências obstruídas e ausência de fiscalização nos dias de cultos.
"Foi um verdadeiro documentário. Cada domingo era a vez de um morador ir disfarçado ao culto fotografar os absurdos", conta um dos vizinhos que denunciaram o funcionamento irregular do templo na Prefeitura. "Mas tudo o que nós falávamos para a Prefeitura era ignorado. Parecia que estávamos inventando que ninguém conseguia sair de casa no domingo. Aí mostramos ao Ministério Público o que realmente acontece, com nossa garagem obstruída por ônibus de caravana, com os camelôs nas calçadas, com gente amontoada na igreja", acrescenta o morador.
A mobilização dos vizinhos incluiu reuniões conjuntas entre representantes da igreja, do Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) e do MP. "Um dia um segurança da igreja percebeu que eu estava lá dentro acompanhando o culto, com a máquina digital. Fui colocada para fora na hora", conta uma enfermeira, também moradora do condomínio na frente da igreja.
Sem socorro.
Os vizinhos do templo resolveram mobilizar-se contra a Igreja Mundial após uma tentativa de socorro esbarrar no trânsito da Rua Carneiro Leão. Niob de Lourdes Fonseca, de 57 anos, morreu no dia 7 de setembro de 2008, meia hora após se engasgar com um pedaço de pernil. "Coloquei ela no meu carro, mas o trânsito estava parado, era dia de culto. Meu marido ainda tentou ir pela calçada, mas, quando chegamos ao hospital, ela já estava morta", conta uma enfermeira que mora no mesmo condomínio.
Moradores ainda contam que acionaram, sem sucesso, a Guarda Civil Metropolitana para alertar sobre a presença de camelôs nas calçadas do entorno. "Quando os carros e ônibus ficavam parados em cima das calçadas, ligávamos para a CET. E nunca nada foi feito", relata outro vizinho, que foi três vezes aos cultos de domingo e conseguiu fotografar uma saída de emergência bloqueada por um caminhão de som. Ele também fazia as filmagens da janela do seu quarto, no sexto andar, durante os cultos realizados às quartas-feiras.
Ranking.
Em maio, o Estado mostrou que, com uma média de cinco representações por mês, os templos religiosos de São Paulo lideraram o ranking de queixas de barulho feitas ao Ministério Público em 2009. Desde a implementação das regras do Programa de Silêncio Urbano (Psiu), em 1994, foi a primeira vez que eles superaram bares e casas noturnas em reclamações.
Hoje são cerca de 22 mil templos na capital paulista. Uma das representações foi feita pelos moradores do Brás contra a Igreja Mundial. Em outro caso, no Tatuapé, zona leste, vizinhos conseguiram lacrar um templo da Assembleia de Deus na Rua do Oratório após reclamações no MP e na Prefeitura. É comum ainda que vizinhos de paróquias onde são realizados casamentos nos fins de semana acionem o MP.
No Jardim Lusitânia, ao lado do Parque do Ibirapuera, na zona sul, por exemplo, o trânsito causado nas noites de sábado pelos casamentos da Igreja Santo Ivo, no Largo da Batalha, é motivo frequente de queixas.
Outras reclamações terminaram em entendimento entre as partes, antes de chegarem à Justiça. Foi o caso do templo da Igreja Universal em Moema, cujos pastores colocaram portas com proteção acústica após vizinhos acionarem om MP.
Fontes: O ESTADO DE S PAULO/DIEGO ZANCHETTA - IG
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