Ex-fuzileiro naval patrulha fronteira dos EUA por conta própria

ANDREA MURTA

Enquanto a Casa Branca e o governo do Arizona disputam de quem é a autoridade para coibir a imigração ilegal, cada vez mais americanos ligados a grupos de direita e até neonazistas agem sozinhos: pegam em armas e patrulham a fronteira de olho em narcoterroristas e gente tentando chegar aos EUA pelo deserto.

Jason T.Ready, 37, um ex-fuzileiro naval da Flórida, vem ganhando fama por fazer isso. Três dias depois da entrada em vigor da polêmica nova lei de imigração do Arizona, que criminaliza no Estado a presença ilegal nos EUA, ele voltou com seu grupo para região próxima da cidade de Stansfield para uma de suas operações.

Ele já faz isso desde 1996, mas diz que a situação tem piorado --e a resposta, aumentado. "Estamos nos espalhando como vírus".

Ontem, o último reforço de 1.200 homens da Guarda Nacional enviados pelo governo estreou na fronteira. Agentes oficiais dizem que ações como a de Ready são perigosas e indesejadas, mas ele não liga.

Acusado de racismo, disse em entrevista à Folha, por telefone em Phoenix, que seu trabalho é humanitário. Quase desligou quando indagado sobre a associação com grupos defensores da "supremacia branca".

Mas admite discursar em eventos do Movimento Nacional Socialista (MNS), que defende que apenas heterossexuais de 'puro sangue branco' deveriam permanecer nos EUA e que 'todos os não brancos devem sair, por meios pacíficos ou pela força'.

FOLHA- Como é o trabalho de patrulha?

JASON T. READY- Nosso foco é procurar narcoterroristas. Há grupos ligados aos carteis cruzando nossa fronteira nacional com máscaras de esqui, levando drogas e atirando na polícia. Também lutam entre si. Você tem que entender que isso não é mais só na fronteira, ocorre a 30 km, 40 km de Phoenix.

Às vezes nos deparamos com imigrantes ilegais. Se precisam de ajuda, entramos no "modo humanitário". Muitas dessas pessoas sofreram abusos, estupros, foram abandonadas, estão perdidas, não têm água. Nós protegemos a área, damos água e remédios e os entregamos para a patrulha de fronteira [oficial, para que sejam deportados].

Já vi muitos corpos no deserto. Também é comum encontrarmos cavalos exaustos que foram roubados e depois largados pelos 'narcos'. Cuidamos deles. Trabalhamos com várias agências federais, xerifes e policiais.

Fazemos tudo isso com nosso próprio dinheiro, voluntariamente. Claro que é perigoso, mas estamos dispostos a sacrificar tudo para fazer a coisa certa.

FOLHA- Quantas pessoas há no seu grupo?

READY- Nunca damos números ou nomes por razões de segurança. Mas nesse trabalho temos vários tipos de colaboradores, de vovozinhas que escrevem cartas de apoio a policiais, passando por jornalistas, assistentes humanitários e nós, que saímos à procura dos bandidos.

FOLHA- Qual é sua motivação?


READY- Quando terroristas do Terceiro Mundo estão invadindo sua fronteira e seu país e lançando uma guerra química [de drogas], há um problema. Os governos federal, estadual e local são corruptos. Não é que não podem fazer a segurança da fronteira, é que não querem. Vemos o governo como parte do problema, e isso inclui o capitalismo de carteis do México. E estão se espalhando. Estão na Bolívia também. É um problema humanitário. É preciso parar esses caras. Eu decidi fazer algo, e estou mostrando que mesmo com poucos recursos é possível agir.

FOLHA- E quanto aos imigrantes?

READY- Em geral ficam felizes de nos ver. Quando os encontramos estão andando pelo deserto há dias, viram gente morrer, estão cobertos de cactus, sem água, sem celular. Quando veem que temos armas mas somos os "mocinhos", vamos cuidar deles e os proteger até a chegada dos agentes de fronteira para leva-los para casa, ficam muito agradecidos. Há quem chore e reze [por nós]. Se quer falar de raça, estou vendo "marrons" abusarem "marrons" diariamente [traficantes de pessoas que extorquem mexicanos pela ida até os EUA].

Posso te dizer que depois de ver tanta coisa hoje considero os ilegais como refugiados políticos. Temos uma crise no país vizinho e estamos só focados no Oriente Médio. Temos que fortalecer a fronteira por nossa própria segurança, mas temos que agir no México e considerar até uma intervenção militar para derrubar os oficiais corrompidos pelos carteis.

Podemos ter uma força multinacional. Se fizemos no Iraque e Afeganistão, por que não aqui [na fronteira]?

Se não fizermos algo, os EUA também serão dominados por eles.

FOLHA- Há xerifes da região de fronteira que pedem ao sr. para não patrulhar, certo?

READY- Sim, são xerifes "políticos" e não sei se são pagos pelos carteis. Usam mais recursos para prejudicar nossas operações do que qualquer outra coisa.

FOLHA- A lei SB1070 pode ser parte da solução?

READY- Essa lei é uma medida reativa a uma crise. Um exercício de frustração. Não é a solução final. Nada político vai funcionar até que a fronteira seja protegida fisicamente por tropas e tenhamos operações para caçar e matar narcoterroristas. Sem isso, nenhuma ação pró ou contra imigração vai funcionar.

FOLHA- No passado o seu nome foi associado a grupos de "supremacia branca"...

READY- Eu não uso essa palavra. Duvido que você chamaria qualquer grupo "supremacia judaica". Não use essa expressão ou eu termino essa conversa agora. Se você tiver uma pergunta madura, faça.

FOLHA- O sr. discursou em eventos do MNS?

READY- Claro, mas por que você está frisando isso? Eu já falei em eventos gays e de negros também. Já falei com todo tipo de grupo e isso se chama liberdade política. Não tenho mais medo de falar com grupos nacionalistas do que de qualquer outro tipo. Todos os grupos devem se unir nessa questão. Falo com grupos de detentos também, isso faz de mim um criminoso condenado?

Se queremos ter soluções reais, temos mesmo de falar com os nacionalistas e descobrir por que estão tão raivosos que levantam suásticas nas ruas.

FOLHA- O que o sr. responde aos que o acusam de racismo contra mexicanos?

READY- Se eu fosse racista, deixaria eles lá no deserto para morrer. Que forma melhor de fazer um genocídio? Minhas ações falam por si.

FOLHA- A situação da fronteira mudou do governo passado para o do presidente Barack Obama?

READY- Em termos políticos é tudo a mesma coisa. O que eu vi mudar é que eu vejo mais treinamentos de milícias e compras de armas desde que Obama chegou ao poder.

Estou no Arizona desde 1997 e a situação [do fluxo de imigrantes] piorou muito. Temos regiões que agora são como buracos do terceiro mundo. Parecem El Salvador e Guatemala. Há lixo e gangues por todo lado. Não tem ninguém correndo para morar na Guatemala, certo? Não quero trazer o quadro de lá para cá também. As pessoas fugiram de seus países e estão reconstruindo tudo de negativo que tinham lá por aqui. Estão destruindo minha nação e trazendo toneladas de lixo. Temos um problema também de valores culturais.

FOLHA- Que valores?

READY- Há uma arrogância enorme dos que dizem que os imigrantes não precisam aprender inglês. Eu falo várias línguas, mas a linguagem de negócios universal é o inglês. Não aprender é um desperdício para eles, que estão aqui de toda forma.

E literalmente, não dá para ficar jogando lixo na rua, pichar os bairros e não entender padrões corretos de saúde e limpeza. Não funcionou no terceiro mundo e não vai funcionar aqui. Não jogam nem papel higiênico no lixo.

Sem mencionar doenças do terceiro mundo como tuberculose e Chagas que foram curadas aqui há muito tempo e estão voltando com os imigrantes.

FOLHA- O que o sr. pensa das propostas de reforma migratória que incluem caminhos para cidadania de ilegais nos EUA?

READY- Sou totalmente contra. Deportaria todos eles. Não acho que quem furou fila deveria ser recompensado. Há um monte de gente na fila tentando um visto, aprendendo inglês e a Constituição, e seria um insulto que esses fossem preteridos.

Também acho que temos que reavaliar o sistema de imigração legal. Há coisas desenhadas para desalojar americanos. Temos recursos finitos.

Aliás, tem umas 5 bilhões de pessoas no mundo que estão piores que os mexicanos. Até que encontremos soluções para pessoas na Índia, no Paquistão, no Camboja... deixar que venham todos para cá destruir nosso país não é o caminho.


Fonte: FOLHA

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