Governo Chávez não tem política de segurança, diz analista

O Exército e a Guarda Nacional da Venezuela não estão tomando medidas contra as Farc 

O Exército e a Guarda Nacional da Venezuela não estão tomando medidas contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no lado venezuelano da fronteira, opina Markus Schultze-Kraft, diretor do "think thank" International Crisis Group. Os motivos, diz ele, são a falta de política de segurança no país, os indícios de corrupção e, possivelmente, falta de disposição política.

Leia a íntegra da entrevista concedida à Folha por telefone.


Folha - O sr. acha que o rompimento das relações bilaterais entre Venezuela e Colômbia vai se manter após a posse do Juan Manuel Santos, presidente colombiano eleito?


Markus Schultze-Kraft -  O que vemos da parte de Chávez é de sempre deixar uma porta aberta de que com o novo governo poderá dialogar melhor. Mas é preciso exigir de Caracas que de fato dialogue. Há sinais muito forte quanto à presença de grupos armados em território venezuelano, acusações que não podem ser subestimadas. É do próprio interesse do país fazer frente à presença de grupos armados ilegais estrangeiros em seu território. Nenhum país soberano deveria contentar-se com isso, e sim investigar e tomar medidas punitivas.

Folha - Mas acha que o governo Chávez fará isso em algum momento?

Schultze-Kraft - O problema é que o governo Chávez não tem uma política de segurança, e tem uma taxa de homicídio mais alta que a Colômbia. Não há na Venezuela uma capacidade real de enfrentar grupos armados ilegais estrangeiros. E se suspeita e se alega que as forças de segurança têm elevados níveis de corrupção. [Cria-se a]combinação da dificuldade venezuelana em aplicar a lei em seu território, de problemas de corrupção e da falta de uma política de segurança. Seria imperativo para o governo desenhar uma política [na área].

Folha - Quais as diferenças entre combater o narcotráfico e combater um exército irregular, como as Farc?


Schultze-Kraft - Não se pode separar muito. As Farc estão profundamente envolvidas [no narcotráfico], e portanto é preciso aplicar [contra o grupo] as medidas legais. Mas é certo que as Farc são mais que um narcocartel. São uma organização guerrilheira com uma história de 45 anos com atuação militar distinta das estruturas armadas de grupos de narcotráfico. É um grupo híbrido. Isso tem que ser levado em conta quando alguém desenha uma política de segurança.

Folha - O Exército está preparado para combater do seu lado da fronteira?


Schultze-Kraft -Não achamos que o Exército ou a Guarda Nacional da Venezuela estejam tomando medidas contra as Farc e outros grupos. Se têm capacidade, isso é outra pergunta.

Folha - E por que não?

Schultze-Kraft - Por um lado, não há uma política de segurança desenhada na Venezuela para fazer frente ao problema dos grupos ilegais no país. Por outro, está a corrupção. O narcotráfico corrompe. Em terceiro lugar, há analistas e setores na Venezuela que dizem que, por razões políticas, não são tomadas ações por se considerar que a existência desses grupos no país ajuda a criar uma situação de insegurança que pode ser de benefício do governo. [Haveria] disposição do governo de usar a presença negativa e caótica desses grupos para [trazer] benefícios políticos.

Folha - Em que sentido?


Schultze-Kraft - O argumento de alguns setores é que a presença cria insegurança, dificulta que grupos da sociedade civil possam se organizar. É um fator que debilita a sociedade civil.

Folha - O controle sobre a fronteira está melhor ou pior?

Schultze-Kraft - Infelizmente, a situação se caracteriza pela falta de controle. Não há trabalho conjunto entre os países para patrulhá-la. É um espaço aberto.

Presença de guerrilheiros na Venezuela é "inocultável", segundo analista

Rocío San Miguel é uma das mais conhecidas analistas de temas militares da Venezuela. Crítica do governo Hugo Chávez, ela comenta abaixo a suposta presença de forças guerrilheiras no país --para ela, é "inocultável".

San Miguel afirma não ter dúvidas de que a crise diplomática com a Colômbia viveu 48 horas tensas no fim de semana, com mobilização de soldados dos dois países --ainda que não divulgadas para a imprensa, ela sustenta.

Folha - As Farc e outros grupos armados ilegais estão na Venezuela?


Rocío San Miguel - A presença de grupos armados ilegais na Venezuela há sido uma constante nos últimos 20 anos e tem tido as mais diversas expressões. Mas aconteceu uma mudança substantiva: falam-se de 1.500 guerrilheiros e ao menos cinco acampamentos das guerrilhas. Há tempos a população fronteiriça comenta essa presença. Sabe-se que há acampamentos em Apure, em Barinas e em Zulia.

Temos histórico de incidentes militares com as guerrilhas, e os combates mais duros no lado colombiano aconteceram há seis anos. Houve um ataque do ELN (Exército de Liberação Nacional) a uma instalação da Marinha há mais ou menos 20 anos, por exemplo.

Mas a marca desse período era um ingresso temporário, pontual ao que se sabia. Há dez anos, somaram-se os paramilitares. O que vemos agora é uma guinada: a presença constante dos guerrilheiros e o aparecimento de guerrilhas autóctones, as FBL (Forças Bolivarianas de Libertação), que não existiam há dez anos.

É inocultável a presença de guerrilheiros. Isso prejudica a segurança, as propriedades, o desenvolvimento. É um problema de segurança nacional.

Folha - Por que se deu essa mudança? Atribuiria à afinidade ideológica professada do governo Chávez?

Rocío San Miguel - Há uma afinidade ideológica entre o governo e a guerrilha e ela nunca foi ocultada. Isso não é um delito. O primeiro gesto diplomático que fez o governo ao chegar ao poder em 1999 foi declarar a neutralidade do governo frente ao conflito armado do vizinho. E isso é muito importante.

A cooperação de funcionários venezuelanos com a guerrilha não foi demonstrada até agora. É isso que está querendo Bogotá ao ameaçar levar funcionários do governo, não o Estado venezuelano, ao TPI (Tribunal Penal Internacional).

Há acusações desse tipo feitas pelo Senado dos EUA. E há as perguntas dos venezuelanos: como podem funcionar esses acampamentos sem uma resposta do Estado? Quer dizer, há uma dúvida razoável sobre a cooperação de funcionários com a guerrilha. Até agora, é inexplicável que governo não tenha dado uma resposta aos venezuelanos sobre a presença da guerrilha no país. Deu uma resposta à Colômbia, política. Mas a nós não nos deram resposta se nessas coordenadas [divulgadas pela Colômbia] existem ou não existem guerrilheiros. Essa é a pergunta.

Há ausência de vontade de Estado para combater os grupos armados ilegais, de todo o espectro ideológico. A Venezuela anunciou compras de mais US$ 30 bilhões em defesa, e deveria justificar esse orçamento.

Folha - O que imagina que vai ocorrer agora?

Rocío San Miguel - Frente ao ultimato da Colômbia na OEA (Organização dos Estados Americanos), o que o governo tem feito é ganhar tempo. Esse tempo se estende até quinta, na reunião da Unasul [União das Nações Sul Americanas] no Equador. O maior pico de tensão foi no fim de semana, com mobilização de homens em ambos os países. A situação foi muito mais tensa do que o que apareceu na imprensa.

Agora temos que esperar a reunião de quinta, porque aqui estamos falando de fatores emocionais, e não somente racionais, que podem colocar mais lenha na fogueira. Creio que a tensão já é menor agora. O fim de semana foi um período crítico. Houve aquartelamento de 100% na Venezuela. Numa hipótese de conflito, estamos falando de um oponente que fez um ataque ao Equador, em condições físicas muito semelhantes, em área sem população civil.

Em termos de avaliação militar, essa possibilidade foi vista muito seriamente nos dois lados da fronteira, embora obviamente não fosse desejado por ninguém. Falo desde a perspectiva militar, mas há aspectos legais e de legitimidade. O hemisfério rejeitaria uma ação armada da Colômbia, e seria muito difícil para Bogotá justificar um ataque à Venezuela.

De todo modo, estamos falando de presidentes muito emocionais, e a mim me preocupou particularmente o discurso de Uribe [no domingo], falando que a vitória estava próxima. Isso pode ter muitas interpretações.

Há algo interessante: Maduro disse que leva a Unasul uma proposta de paz. E estamos em guerra?

Folha - O Equador diz que vai cooperar em inteligência, mas que não vai fazer operações conjuntas com os militares colombianos para combater as Farc. Como avalia essa atitude?


Rocío San Miguel - Parece razoável essa atitude. O Equador deu um salto muito importante restabelecendo a cooperação militar e policial com a Colômbia, na chamada Combifron (Comissão da Fronteira). Nós, no Controle Cidadão, há tempos pedimos o governo que retome a Combifron que está suspensa desde 2002.

Hoje, não há cooperação. É nula. Depende da boa vontade um comandante de um lado ou de outro. Não há renovação da acordo de cooperação militar há quase dez anos. Era para ter sido renovado em 2002, e não foi. E isso é inaceitável. É o pior que pode acontecer entre dois países que compartilham 2000 km de fronteira comum.

Folha - Combater as Farc faria o governo se envolver no conflito colombiano como Caracas argumenta?

Rocío San Miguel -Na Venezuela estão proibidos grupos armados à margem da lei, e dever do Estado combatê-los.


Fontes: FOLHA/PAULA ADAMO IDOETA e FLÁVIA MARREIRO

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