As relações diplomáticas a Colômbia e a Venezuela voltaram a passar por um novo período de crise nesta semana depois que o embaixador colombiano na OEA (Organização dos Estados Americanos) denunciou na entidade a presença de cerca de 1.500 guerrilheiros em 87 acampamentos no país vizinho, na última quinta-feira (22).
Os presidentes Hugo Chávez (esq.) e Álvaro Uribe se cumprimentam durante encontro em Cartagena, Colômbia, em 2009/ Mauricio Duenas/24.01.2009/AFP
Irritado, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, decidiu romper relações com Bogotá. Fez o anúncio no mesmo dia, ao lado do ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona. Ele também colocou as forças armadas de prontidão na fronteira com a Colômbia.
Para o professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Marcos Alan Ferreira, a crise econômica venezuelana e a proximidade com as eleições legislativas explicam em parte o comportamento intempestivo de Chávez.
- A tendência é de que daqui a algum tempo, depois das eleições [legislativas] na Venezuela tudo volte ao normal. Há muitas visões de que essas ameaças do Hugo Chávez respondem mais a uma crise interna que ele está vivendo, de desabastecimento, como também na questão de segurança – Caracas é uma das cidades mais perigosas das Américas. É uma maneira de desviar a atenção da população venezuelana em um momento em que ela começa a ficar mais descontente.
Ferreira não descarta que o episódio ainda ganhe novos capítulos.
- Na verdade, isso é tradicional. Que se chama a tensão ao plano externo para que se esqueça do que ocorre no plano interno. Então é possível que vejamos mais bravatas do Chávez neste sentido.
O professor ainda coloca que estas atitudes de Chávez são parte da relação dele com o seu eleitorado, que é forte nas camadas mais pobres da Venezuela.
- A tática funciona porque ele ainda consegue encontrar apoio na sociedade venezuelana para este tipo de postura. Não funciona, por exemplo, com a classe média, que nunca o apoiou. Então é uma maneira de trazer de volta o eleitor que é a base política dele.
Na verdade, as relações entre os dois países tiveram vários momentos de crise e tensão desde 1999, quando Chávez chegou ao poder na Venezuela. Para Ferreira, além da conjuntura atual, as diferenças ideológicas também jogam um papel importante no atual quadro político entre os dois países.
Chávez, um político de esquerda e antiamericano, se contrapõe a Uribe, de direita e próximo dos Estados Unidos.
Questionado sobre se a atual situação é a mais difícil entre os dois países, Ferreira foi prudente e apontou que em outras ocasiões também se pensou o mesmo.
- Temos que ver que também houve em 2003 um anúncio de rompimento, que ficou mais no âmbito do discurso do que um rompimento propriamente dito. Então eu acho que essa crise, junto com a de 2003, eu acho que seriam sim as maiores crises diplomáticas entre os dois países.
Brasil tem de atuar como mediador do conflito
Espanha, França, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e até a Rússia se colocaram para amenizar as tensões no norte da América do Sul, mas o Brasil tem e deve ser o mediador deste conflito, na opinião de Ferreira.
- O Brasil tem que ser o mediador dessa crise, porque tem buscado projetar liderança cada vez mais no plano internacional. Então vejo que o Brasil tem que tomar a frente nessa crise, que é uma questão regional, e desde o governo Itamar Franco já vem e foi bastante alargada com o Lula.
Assim,o país pode inclusive enfrentar as críticas de que tenta interferir em questões muito distantes para os brasileiros – como a questão nuclear iraniana – em detrimento de assuntos mais próximos e em sua área tradicional de influência.
Segundo o professor, o Brasil também é um mediador ideal para a tensão por ser neutro. Lula tem uma boa relação com Chávez, e o Brasil aumentou seu comércio com a Colômbia durante o governo do presidente Álvaro Uribe, que está prestes a passar sua faixa para Juan Manuel Santos.
Outra questão que fortalece as credenciais brasileiras para a mediação é o fato de que um possível conflito entre os dois países teria consequências para o Brasil, como um acúmulo de refugiados nas regiões fronteiriças.
Fonte: R7/Dayanne Mikevis

Nenhum comentário:
Postar um comentário