O presidente sul-coreano, Lee Myung-Bak, pediu nesta sexta-feira à Coreia do Norte que cesse as "provocações militares", no dia em que os dois países lembram o 60º aniversário do começo da Guerra da Coreia (1950-53), em um contexto de grande tensão na península.
Sessenta anos depois de um conflito que deixou quase 3 milhões de mortos, a península continua dividida e separada por uma fronteira fortemente militarizada.
As tensões entre os dois países são grandes, principalmente depois do naufrágio de uma corveta sul-coreana, incidente que Seul atribui à marinha do Norte.
Em uma cerimônia em Seul, na presença de centenas de veteranos, o presidente Lee prestou homenagem aos soldados sul-coreanos e às forças da ONU.
Tropas de 21 países participaram no conflito do lado sul-coreano.
O presidente Lee declarou que o objetivo da Coreia do Sul "não era um confronto militar, e sim uma reunificação em paz". No entanto, o presidente pediu mais uma vez ao Norte que apresente desculpas pelo afundamento do navio Cheonan.
Também pediu ao Norte que "cesse suas provocações militares irresponsáveis e se comprometa a fazer com que "70 milhões de coreanos vivam juntos".
Durante uma cerimônia, o chefe das forças americanas na Coreia do Sul, general Wletr Sharp prometeu uma resposta "rápida e resoluta" a qualquer provocação do Norte.
Investigação
De seu lado, Pyongyang rejeitou qualquer responsabilidade no incidente de 26 de março, que custou a vida de 46 marinheiros sul-coreanos.
Uma investigação internacional atribuiu o naufrágio do navio de guerra a um torpedo norte-coreano.
A Coreia do Sul recorreu oficialmente ao Conselho de Segurança da ONU em relação a este incidente, um dos mais graves desde o armistício da Guerra da Coreia em 1953.
A Coreia do Norte ameaçou com uma reação militar em caso de uma condenação da ONU.
Conflito
As duas Coreias se encontram numa situação anacrônica na medida em que apenas assinaram um armistício e não um tratado de paz ao fim do conflito de 1950-1953, por isso continuam teoricamente em guerra.
A guerra, que terminou em 27 de julho de 1953 com um armistício, deixou entre dois e quatro milhões de mortos e terminou na criação de uma zona de segurança na fronteira mais militarizada do mundo.
O conflito começou em 25 de junho de 1950 quando o Exército norte-coreano atravessou o paralelo 38 para invadir o Sul, tomando Seul em três dias.
Em 3 de julho, o general americano Douglas McArthur foi nomeado comandante das forças da ONU, essencialmente americanas.
Vinte e oito mil e quinhentos soldados americanos continuam posicionados na Coreia do Sul para apoiar os 655 mil militares sul-coreanos frente a um exército norte-coreano de 1,2 milhão de homens.
Na quinta, Pyongyang atribuiu uma vez mais o início do conflito de 1950 "às provocações do Sul" e por "60 anos de hostilidades e pelo sangue derramado", segundo a agência KCNA.
Coréia do Norte exige indenização pelos estragos sofridos na guerra
O governo do presidente dos EUA, Barack Obama, ridicularizou a Coreia do Norte nesta sexta-feira por pedir US$ 65 trilhões (cerca de R$ 115,8 trilhões) de indenização aos EUA pelos danos causados pela Guerra da Coreia (1950-1953).
Nesta sexta-feira completam-se 60 anos do início do conflito.
O Departamento de Estado dos EUA afirmou que a economia da nação comunista é um "caso perdido" devido às suas próprias políticas, e que a Coreia do Norte não pode culpar ninguém, além de si mesma, por seu isolamento e a miséria de seu povo.
Fila de refugiados sul-coreanos deixa Yongdong, tentando salvar seus pertences/AP - 26.jul.50
O porta-voz do Departamento de Estado, P.J. Crowley, chamou o pedido de indenização de "absurdo" e reforçou que Pyongyang deve respeitar acordos e renunciar às armas nucleares e parar de ameaçar seus vizinhos.
A Coreia do Norte, que chama o conflito de Guerra de Libertação da Pátria, disse que ele foi iniciado pelos EUA.
Na quinta-feira, a agência de notícias oficial Korean Central News divulgou uma lista com os danos que o Norte diz ter sofrido nas mãos dos EUA desde 1945. A KCNA diz que o Comitê para Investigação dos Estragos Feitos pelos EUA à Porção Norte da Coreia descobriu que o custo total financeiro sofrido pela Coreia do Norte chega a US$ 65 trilhões. A quantia é cerca de cinco vezes a dívida nacional dos EUA.
Críticas e comparações
Em meio a crescentes tensões entre as Coreias do Norte e do Sul, aliada aos EUA, Crowley notou que Seul agora é uma potência econômica e democrática, enquanto Pyongyang sofre sob uma ditadura que destruiu a economia nacional.
"O Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul é agora seis vezes maior que o da Coreia do Norte, o que, para todos os intentos e propósitos, um caso econômico perdido", disse P.J. Crowley aos jornalistas. "Nós certamente esperamos que a Coreia do Norte olhe para o modelo exemplar de desenvolvimento e democracia da Coreia do Sul e escolha um rumo diferente do atual."
Crowley disse que a situação é uma "tragédia" para os norte-coreanos e colocou a culpa no "comportamento do governo da Coreia do Norte".
"É a hora de a Coreia do Norte aceitar a responsabilidade completa pelo que aconteceu nas últimas seis décadas", disse. "Em vez de entregar uma conta absurda aos EUA de, que?, US$ 65 trilhões, como já dissemos e repetimos várias, várias vezes há uma opção disponível à Coreia do Norte."
O humor neste 60º aniversário do início da guerra é bem diferente daquele visto no 50º aniversário, que ocorreu dias depois da conclusão da primeira reunião entre as duas Coreias em Pyongyang em toda a história.
A Coreia do Sul acusa a Coreia do Norte pelo afundamento da corveta sul-coreana Cheonan, em 26 de março, que matou 46 pessoas. Pyongyang nega a responsabilidade pelo incidente, apesar de uma investigação ter demonstrado o contrário.
As relações já eram ácidas desde que o conservador presidente Lee Myung-bak assumiu o governo em Seul em 2008, com uma linha mais dura em relação ao Norte que seu antecessor liberal.
Manifestações no Norte
Milhares de norte-coreanos se manifestaram na capital Pyongyang nesta sexta-feira para condenar os EUA e a Coreia do Sul no 60º aniversário do começo da Guerra da Coreia. Enquanto isso, Seul pediu que Pyongyang admita responsabilidade pelo afundamento de seu navio em março.
O líder Kim Jong-il não foi visto no evento.
Na Coreia do Norte, soldados e civis participam de manisfestação no centro de Pyongyang/AP
Uma grande faixa no protesto de Pyongyang mostrava um homem chutando um soldado americano, com o slogan "Exército dos EUA, fora". Outro dizia "Ponha-os para fora com um só soco", segundo gravações da emissora APTN.
Ao menos 120 mil pessoas marcharam pelas ruas, "erguendo gritos de ódio e ira contra os imperialistas americanos e o grupo de traidores sul-coreanos bajulando-os", segundo a agência de notícias oficial Korean Central News.
Soldados e civis lotaram a praça central da capital norte-coreana para gritar frases e ouvir a um discurso condenando os EUA, segundo imagens da APTN.
"Para estabelecer a dignidade de nosso povo e a autonomia de nosso país, nosso povo e Exército vão continuar a fortalecer a força nuclear para autodefesa", disse Kim Ki Nam, secretário do Comitê Central do Partido Trabalhista da Coreia do Norte.
Manifestações no Sul
Em Seul, uma cerimônia lembrou a guerra conhecida como "25/6", pelo dia em que começou. O presidente Lee Myung-back entregou placas de homenagem a representantes de países que enviaram soldados ou suprimentos para ajudar na guerra.
Veteranos da guerra participam em Seul de cerimônia pelos 60 anos do início da Guerra da Coreia/Ahn Young-joon/AP
"A Coreia do Norte deveria clara e francamente admitir e pedir desculpas por seus erros nessa provocação", disse Lee, referindo-se ao afundamento do navio sul-coreano em março.
Ele também pediu que Pyongyang assuma uma postura responsável em relação à comunidade internacional.
Participaram veteranos sul-coreanos e estrangeiros do conflito, embaixadores internacionais e soldados sul-coreanos e americanos. Os EUA têm cerca de 28.500 soldados na Coreia do Sul.
Guerra
O conflito da Coreia começou nas primeiras horas de 25 de junho de 1950, com um ataque de soldados norte-coreanos ao Sul.
A península Coreana foi dividida em 1945 após a derrota do Japão na Segunda Guerra (1939-45).
Os EUA e outros 15 países enviaram tropas para ajudar a Coreia do Sul, enquanto soldados chineses lutaram com a Coreia do Norte e a União Soviética forneceu apoio aéreo.
Três anos de combate devastaram os dois lados.
A luta terminou com um armistício, não um tratado de paz permanente, deixando a península em um estado de guerra oficialmente.
Refugiados em ponte sobre rio Taedong, Pyongyang, na tentativa de fugir do avanço das tropas chinesas/Max Desfor/AP - 4.dez.50
Fontes: FOLHA - AFP




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