Hugo Cháves: Em seis dias, seis medidas rumo à ditadura

Em menos de uma semana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, adotou seis medidas que aumentam o poder do Estado e ameaçam ainda mais a liberdade no país.


O presidente venezuelano fecha o cerco contra inimigos com medo de perder apoio nas eleições (Foto: AFP)

A três meses das eleições parlamentares e com 80% do eleitorado desconfiando dos candidatos de seu partido, Chávez fechou o cerco a três inimigos: as Empresas Polar, principal produtora de alimentos da Venezuela; o Banco Federal, oitavo maior do país; e a emissora de TV Globovisión, último reduto de oposição editorial à política chavista.

Começou no último domingo. O caudilho decretou a prisão do empresário Guillermo Zuloaga, principal acionista da Globovisión, sob acusação de crimes financeiros; propôs a mudança de nome de uma das maiores companhias de petróleo do mundo, a estatal PDVSA, para Petróleos da Venezuela Socialista; nacionalizou o Banco Federal, pertencente a um dos sócios da Globovisión, Nelson Mezerhane; aprovou a Lei de Terras, que dá ao Estado papel determinante no controle do setor alimentício; anunciou a desapropriação da empresa de autopeças Autoseat e avisou que o poderia estatizar parte da Globovisión.

O medo de Chávez pode ser justificado pelo que aponta a pesquisa da empresa Hinterlaces, divulgada nesta semana. A instabilidade política e econômica do país já preocupa os eleitores: 48% dos venezuelanos alegam não ter preferência por nenhum partido político e 80% desconfiam dos candidatos a deputado do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Chávez. Para as eleições presidências de 2012, mais surpresas. Cerca de 64% dos pesquisados querem ter um novo governante.

Hoje, o presidente não enfrenta problemas para aprovar o que quer que seja na Assembleia Nacional. Seu partido e seus aliados têm quase todas as 167 cadeiras da Casa - apenas 12 assentos são ocupados por dissidentes chavistas, já que em 2005 a oposição boicotou a eleição, retirando todas as candidaturas.

A situação do país, no entanto, não está como Chávez gostaria. No final de maio, o Banco Central da Venezuela informou que o Produto Interno Bruto (PIB) havia retrocedido outra vez, pelo quarto trimestre consecutivo, em 5,8%. A inflação mensal de abril atingiu 5,2% e a população enfrenta o desabastecimento de diversos alimentos, além de uma crise energética que a levou a seis meses de um duro racionamento. Até o banho quente dos venezuelanos foi limitado a três minutos.

Para Alberto Pfeifer, membro do Conselho Empresarial da América Latina e do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (USP), as circunstâncias indicam que Chávez pode ter tomado as decisões em uma tentativa de imputar aos seus inimigos políticos a culpa dos desequilíbrios da economia. "Quando sente que o apoio começa a balançar, Chávez toma uma atitude para centralizar o poder e se afirmar não só diante da oposição, mas dentro do próprio eleitorado", afirma.

Até agora, Chávez contou com um esquema que vem sendo estruturado durante seus 11 anos no cargo. Ele gradualmente montou uma enorme rede de rádios, jornais e TV pró-governo. Também acrescentou uma estrela à bandeira da Venezuela, criou um novo fuso horário com meia hora de diferença das nações vizinhas e até renomeou o país - agora chamado de República Bolivariana da Venezuela. Diversos setores da economia também foram colocados sob controle governamental, desde projetos multibilionários de petróleo a redes de supermercado e torradores de café.

Com a intervenção no Banco Federal, Chávez passa a controlar 26% do setor bancário do país. Há dois anos, a participação era de 10,9%. "A política de desapropriações fere os princípios basilares da economia de mercado e do estado democrático de direito. Os empresários saem, o Estado assume, entra gente que não está preparada e, com isso, o país perde", afirma Pfeifer.

Federico Ravell, acionista e ex-diretor da Globovisión, que foi afastado do cargo em fevereiro "por fortes pressões do governo", disse a VEJA.com que não está surpreso com as medidas colocadas em prática na última semana. "Chávez fez isso porque está consciente de que pode perder parlamentares nas eleições. Pode perder a base governista porque todos na Venezuela sabem que a situação é insustentável, a economia está terrível. Podem não querer mais apoiar Chávez". Segundo ele, a situação deve piorar até as eleições. "Chávez está atacando os meios de comunicação, os empresários e quer se apropriar do país."

Leia abaixo a cronologia das medidas aprovadas na última semana:


11/6 - Autoridades decretam a prisão do empresário Guillermo Zuloaga, principal acionista da emissora de TV Globovisión, sob acusação de crimes financeiros.

13/6 - Chávez propõe mudar o nome de uma das maiores companhias de petróleo do mundo e uma das maiores fornecedoras de petróleo bruto aos Estados Unidos. A estatal venezuelana PDVSA passaria a se chamar Petróleos da Venezuela Socialista.


14/6 - Chávez nacionaliza o Banco Federal, pertencente a um dos sócios da Globovisión, citando problemas de liquidez e risco de fraude. Esse banco é responsável pela folha de pagamentos emissora, o que deixa os funcionários preocupados com o recebimento dos salários.


15/6 - A Assembléia Nacional aprovou a Lei de Terras, que condena o latifúndio e dá ao Estado um papel determinante no controle do setor alimentício. A medida cria uma empresa pública para a produção, fabricação, distribuição, comercialização e marketing, em nível nacional e internacional, de produtos agrícolas e alimentares.

17/6 - Chávez anuncia a desapropriação da empresa de autopeças Autoseat da Venezuela, que mudará de nome e ficará sob "controle operário".


17/6 - O presidente avisa que o governo pode estatizar parte da Globovisión, última rede de televisão que faz oposição à sua administração.

Fontes: Veja - Agências

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