Amorim ja´está em Teerã e negociando
Lula chega a Moscou antes de visita a Teerã: presidente está confiante sobre acordo nuclear com governo iraniano/Alexander Natruskin/Reuters
O chanceler Celso Amorim já se encontra na capital iraniana, Teerã, onde deve antecipar reuniões e preparar a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chega no sábado e fica até segunda-feira.
A expectativa é grande já que Lula, extremamente otimista, acredita na possibilidade de convencer o Irã a aceitar o acordo proposto por potências do Ocidente sobre seu programa nuclear.
"Com as conversas a cada dia trazendo o Irã mais para perto, estou me tornando um grande otimista", disse Lula, segundo a rede americana CNN. "Eu era um otimista ontem, e sou mais otimista hoje. E provavelmente serei ainda mais otimista após o encontro com o presidente [Mahmoud] Ahmadinejad."
Os EUA e alguns de seus aliados acusam o Irã de desenvolver um programa nuclear com fins militares, mas Teerã defende que a finalidade é pacífica e se recusa a negociar. Os EUA pressionam por uma quarta rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) contra o país do Oriente Médio.
Lula planeja pressionar os líderes iranianos a rever uma proposta sob a qual o Irã enviaria urânio baixamente enriquecido a outro país e, em retorno, receberia urânio altamente enriquecido -- um plano que fracassou em outubro do ano passado.
O Brasil, que possui um programa nuclear para a produção de eletricidade e tem em sua Constituição um veto à fabricação de armas nucleares, opõe-se à imposição de novas sanções ao Irã e defende o direito de um programa nuclear pacífico ao país islâmico.
Será a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro ao Irã, em retribuição à visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil em novembro de 2009.
Proposta
O Brasil apresentou uma proposta segundo a qual o Irã trocaria urânio pouco enriquecido por combustível nuclear na Turquia, país que tem estreitos laços tanto com Ocidente como com o Oriente Médio. O Irã enviaria urânio ao exterior e o receberia de volta enriquecido a 20%, nível suficiente para fins pacíficos.
Segundo a imprensa iraniana, Ahmadinejad disse que aceitou "em princípio" a proposta de Lula durante uma conversa telefônica com o líder venezuelano, Hugo Chávez.
No ano passado, o Irã já rejeitou no ano passado uma oferta similar da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em virtude da qual Rússia e França teriam enriquecido urânio com destino às usinas nucleares iranianas.
Roda de apostas
O presidente Lula ao lado do colega russo Dmitri Medvedev; falha na tradução evita gafe do brasileiro/Sergei Chirikov/Efe
Durante visita oficial à Rússia, em entrevista concedida no Kremlin, Lula disse que há 99% de chances conquistar um acordo com o Irã durante sua passagem pelo país. Ao seu lado, o presidente russo, Dmitri Medvedev, não foi tão otimista: afirmou que as chances são de 30%.
"Se não chegarmos a um acordo, volto para casa feliz, porque ao menos não fui negligente", disse o presidente.
Considerado um carismático negociador, Lula conta com o apoio da França, Turquia e da Rússia, ainda que comedido, mas os EUA já advertiram que o Irã não leva o encontro a "sério".
Para a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, Lula enfrenta uma "montanha a ser escalada" para tentar persuadir o Irã a limitar suas ambições nucleares.
"Eu disse a meus colegas em muitas capitais do mundo que eu acredito que não teremos nenhuma resposta séria dos iranianos até que o Conselho de Segurança aja", disse ela, referindo-se aos esforços liderados pelos EUA para a imposição de uma quarta rodada de sanções da ONU contra o Irã.
O porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, P.J. Crowley, disse que se o Irã não mudar seu comportamento após a visita de Lula, o país deverá pagar o preço.
"Neste ponto acreditamos que deverá haver consequências por um fracasso em responder", disse Crowley.
Agenda oficial
Agenda oficial de Lula no Irã prevê encontros com o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei (à esq.) e o presidente Mahmoud Ahmadinejad/Reuters
Lula deve chegar a Teerã neste sábado. No domingo, ele deve se reunir com o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei; com o presidente Mahmoud Ahmadinejad; e com o presidente do Parlamento, Ali Larijani. Participa também do encerramento de encontro empresarial Brasil-Irã.
Já na segunda-feira, o presidente participa da cerimônia de abertura da 14ª Reunião de Cúpula de Chefes de Estado do G15.
Segundo o Itamaraty, além do programa nuclear iraniano e do Oriente Médio, também serão discutidas relações econômicas bilaterais. O Irã é atualmente o terceiro maior parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio e um dos maiores destinos das exportações brasileiras de alimentos, segundo o Ministério de Relações Exteriores.
Análise
Especialistas ouvidos pela agência France Presse indicam que o Brasil chega ao encontro em Teerã com mais chances de se inserir como um ator de peso nas relações internacionais do que em Jerusalém, quando Lula tentou servir como mediador do conflito entre israelenses e palestinos.
O apoio russo,francês e turco deve ser um diferencial, apesar de os EUA deixarem claro que não acreditam que o encontro resulte em solução alternativa às sanções.
Para Sabrina Medeiros, professora de Relações Internacionais da Escola Naval de Guerra do Rio de Janeiro, o Brasil toma uma iniciativa que é "coerente" com as prioridades estratégicas do país, com mais chances de sucesso do que em outros esforços diplomáticos anteriores.
Ao contrário do que ocorreu com a viagem de Lula a Israel e aos territórios palestinos, neste ano, desta vez o presidente conta com o apoio de líderes importantes, como o presidente francês Nicolas Sarkozy, que já expressou suporte "integral" à iniciativa brasileira.
Às reuniões com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, Lula não deve levar nenhuma solução "nova". Os esforços são de tentar convencer o país a aceitar as propostas que já estão em jogo.
O presidente "não levará ao Irã nenhuma proposta nova. O que Lula deseja é ajudar em um processo de diálogo que possa levar a um acordo", disse o porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach.
e o porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach.
A chave para o sucesso seria achar uma fórmula capaz de satisfazer a todas as partes envolvidas e que permita ao Irã enriquecer urânio a 20% fora de suas fronteiras, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU (Organização das Nações Unidas).
Para o governo norte-americano Teerã tenta ganhar tempo ao aceitar a oferta brasileira de mediação. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, conversou por telefone com o ministro de Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, e argumentou que o Irã não demonstra sinais de estar interrompendo o enriquecimento de urânio, como exigido por várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
O enriquecimento de urânio pode produzir combustível para reatores nucleares ou, se aperfeiçoado, produzir material para bombas atômicas.
O porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, P.J. Crowley, disse que se o Irã não mudar seu comportamento após a visita de Lula, o país deverá pagar o preço.
"Neste ponto acreditamos que deverá haver consequências por um fracasso em responder", disse Crowley.
Medvedev
Já Medvedev disse nesta sexta-feira esperar que a visita de Lula ao Irã termine com sucesso e alertou que pode ser a última chance para o Irã evitar a imposição de novas sanções.
"Realmente espero que a missão do presidente brasileiro termine em um sucesso. É, talvez, a última chance", disse Medvedev em entrevista coletiva conjunta com Lula em Moscou.
Medvedev também pediu que os líderes iranianos escutem as propostas de Lula.
Há menos de 24 horas, contudo, Medvedev conversou por telefone com o americano Barack Obama e concordou em instruir seus negociadores a intensificarem os esforços na direção de novas sanções, informou a Casa Branca.
Um comunicado da Casa Branca afirma que os dois presidentes discutiram em conversa por telefone "o bom progresso" que está sendo feito pelas principais potências mundiais.
Eles "concordaram em instruir seus negociadores a intensificarem seus esforços para chegar a uma conclusão o mais rápido possível", afirma o comunicado.
Fontes: FOLHA - Agências



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