Zelaya deixa embaixada brasileira em Honduras rumo ao exílio

Presidente deposto ficou mais de 4 meses abrigado em Tegucigalpa. 'Voltaremos', disse ele antes de embarcar para o exílio.

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, deixou nesta quarta-feira a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, onde estava isolado havia quatro meses. Ele seguiu para o aeroporto da cidade de onde embarcará, com a mulher e os filhos, para a República Dominicana, após fracassar em sua campanha para reverter o golpe que o derrubou do poder, em 28 de junho do ano passado. A informação da saída de Zelaya foi confirmada por um militar hondurenho à rede de TV americana CNN, na porta da embaixada.

Zelaya viajará como convidado do presidente dominicano, Leonel Fernández, que o acompanhará no avião. "Tenho um convite (...) para ir à República Dominicana e irei aceitar o convite, obviamente com a aprovação do novo governo", disse Zelaya a uma rádio local ontem.


Militares guardam a bagagem do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, nesta quarta-feira (27), em frente ao prédio da Embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. (Foto: AFP)

O presidente deposto está refugiado desde 21 de setembro na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, que está cercada por mais de cem soldados e policiais com ordens para prendê-lo.

Após meses de adiamentos, o Congresso concedeu anistia política para os envolvidos na crise política do país na noite desta terça-feira, o que não afeta as acusações penais contra o presidente deposto.

Já o presidente Porfírio Lobo, que tomou posse mais cedo, assinou o salvo-conduto que permite que o presidente deposto deixe a embaixada para o aeroporto, sem correr risco de ser preso.

Em seu primeiro discurso após tomar posse, Lobo disse ainda que a anistia é o "princípio da reconciliação" e que se aplicará apenas a feitos de ordem política. "A família hondurenha quer se reconciliar", disse Lobo, eleito em uma votação contestada por muitos países, por ser realizada sob o governo interino de Roberto Micheletti, que ascendeu ao poder após a deposição de Zelaya, em 28 de junho.

A partida de Zelaya marca um fracasso da diplomacia regional para tentar reverter o golpe, já que vários meses de negociações com o governo interino para a restituição de Zelaya no poder terminaram sem acordo. O Brasil, querendo demonstrar poder político na região, ofereceu refúgio a Zelaya, e seus seguidores transformaram a sede diplomática em um caótico acampamento sob cerco militar.

O presidente interino, Roberto Micheletti, nomeado pelo Congresso no mesmo dia do golpe, se aferrou ao poder apesar da pressão internacional, o que incluiu a suspensão de ajuda financeira dos EUA e de organismo internacionais. Desde o momento do golpe, Micheletti dizia que só entregaria o poder ao presidente que fosse eleito, em novembro.

O novo presidente afirmou nesta terça-feira que acompanhará Zelaya até o aeroporto, acompanhado de Fernández e do presidente da Guatemala, Álvaro Colom.

Zelaya foi deposto e expulso de Honduras por militares nas primeiras horas de 28 de junho do ano passado, quando pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça. Ele foi expulso, com apoio da Suprema Corte e do Congresso, sob a alegação de que visava a infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.

Depois de passar três meses viajando pelo continente em busca de apoio internacional, voltou clandestinamente a Honduras e se abrigou na embaixada brasileira, a espera de um grande apoio popular que fortalecesse sua causa. A estratégia, contudo, não deu certo e Zelaya acabou com uma dúzia de apoiadores na embaixada e sem o apoio vocal e reiterado dos países boliviarianos e do Brasil.

Zelaya e Brasil saem como derrotados da crise em Honduras

A crise em Honduras chega a um novo momento com a posse, nesta quarta-feira, do presidente eleito Porfírio Lobo. Após a cerimônia, o presidente deposto, Manuel Zelaya, perde qualquer chance de retornar ao poder e deixa a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa rumo a República Dominicana sem a Presidência, apoio interno e internacional e a anistia.

Mas a lista de perdedores vai além de Zelaya. Inclui ainda o Brasil --com seu apoio insistente a restituição do presidente deposto, mesmo quando essa não era mais viável-- a mediação fracassada da OEA (Organização dos Estados Americanos) e o discurso duro --mas que rapidamente se silenciou-- do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

No lado dos ganhadores, está o presidente interino, Roberto Micheletti, que deixou o poder como a peça de resistência diante dos esforços internacionais para a volta de Zelaya e com o título de deputado vitalício. Figuram ainda os Estados Unidos, que, apesar da relutância em admitir um golpe de Estado em Honduras, demonstraram ser a maior força de mediação no continente.



Fontes: FOLHA / MÁRCIA SOMAN MORAES  - TV Globo

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