Dois macacões, uma botina e uma imensa vontade de ajudar

As sensações de um médico brasileiro a caminho do Haiti

CRISTIANE SEGATTO

Todos nós nos comovemos com a dor das vítimas do terremoto no Haiti. Ninguém fica impassível. Talvez a exceção sejam as pessoas que, por algum distúrbio, não têm a chamada empatia. São aqueles indivíduos que não conseguem se colocar no lugar do outro. São incapazes de perceber e se solidarizar com o enorme sofrimento desse povo. Sentir a dor à distância é uma coisa. Querer estar lá e socorrer as vítimas com as próprias mãos é outra. Só a minoria se sente compelida a pegar o primeiro voo disponível para Porto Príncipe. Por quê?

Tenho curiosidade de entender o que separa os dois grupos. Que força move os voluntários que se sentem moralmente obrigados a estar no Haiti? Por que tantas pessoas deixam o conforto de suas casas para se arriscar num país estranho e devastado pela natureza, pela política, pela violência, pela fome? Fazem isso pela mais genuína solidariedade, imagino. Mas há formas mais seguras de ser solidário. Quem se mobiliza à distância (organizando a ajuda humanitária ou arrecadando dinheiro, por exemplo) também presta solidariedade. Tenho a impressão de que algumas pessoas só se sentem verdadeiramente úteis se estiverem em ação. Na linha de frente.

Sou do time dos fracos. E há fracos em todas as profissões que podem ser requisitadas numa tragédia como essa: entre os jornalistas, os diplomatas, os funcionários públicos, os médicos, os enfermeiros etc. É por isso que admiro a coragem dos que se oferecem para o combate.

O Ministério da Saúde abriu inscrições para profissionais interessados em prestar socorro ao Haiti. Em poucos dias, recebeu 3,5 mil voluntários. Muitos são especialistas em emergência da rede SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Um deles é o médico Wilson Carletti, 50 anos, do SAMU da capital paulista. Carletti está de sobreaviso. Pode ser convocado a viajar a qualquer momento. Tudo depende das prioridades da Força Aérea Brasileira (FAB).

Para passar quinze dias no meio do caos, Carletti tem direito a uma bagagem magérrima. Leva dois macacões, uma botina, camisetas, cuecas, sabonete, xampu, desodorante, escova de dentes. E a máquina fotográfica para registrar o inesquecível. Capitão da reserva da Polícia Militar, Carletti trabalhou no Corpo de Bombeiros durante doze anos. Passou um ano atuando como médico numa reserva ianomâmi na selva amazônica antes de integrar o SAMU paulistano.

A mãe e a namorada (Carletti é divorciado e não tem filhos) pedem que ele desista da ideia de ir ao Haiti. Até agora não conseguiram. "Elas sabem que isso faz parte de mim", diz. A resistência é feita também pelo gato Chorão, o bicho de estimação de nome muito apropriado que Carletti tem em casa. "Ele anda abanando o rabo de um jeito estranho. Acho que está percebendo que vou viajar", diz.

Cinquenta e três profissionais do SAMU da capital paulista estão preparados para a viagem. Mas não sabem se serão realmente convocados. São médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e condutores de veículos. Além de ambulâncias, levarão oxigênio, pranchas, colares de imobilização, medicamentos para baixar a pressão ou reverter uma parada cardíaca. Conversei com Carletti para tentar entender o que vai pela cabeça dessa brava gente.


MOCHILA PRONTA
Carletti está preparado para partir para o Haiti

ÉPOCA – Por que resolveu ir ao Haiti?
Wilson Carletti – Quando vi aquela destruição não consegui ficar parado. Preciso ir e ajudar. Sou médico. Quando vejo uma pessoa, uma criança sofrendo logo balança um sininho dentro da gente. É só vontade de ajudar.

ÉPOCA – Que tipo de trabalho o sr. acha que vai fazer lá?
Carletti – Vamos atender o que vier. Uma queda, uma pessoa que foi mexer nos escombros e aquilo desabou de novo. O que aparecer. A nossa grande especialidade é atender fora do hospital. Estamos acostumados a lidar com pessoas presas nas ferragens dos veículos. Numa catástrofe como essa não há hospital. Por isso acho que seremos úteis.

ÉPOCA – Resgatar gente com vida é cada vez mais difícil, para não dizer impossível... Qual o papel de unidades móveis como as do SAMU nessa situação?
Carletti – É preciso entender que o atendimento pré-hospitalar não termina nunca. Antes do terremoto, milhares de pessoas tinham doenças crônicas (problemas cardíacos, renais, diabetes etc). Quem sobreviveu continua tendo essas doenças. Essa gente (independentemente do terremoto) está precisando de cuidados médicos. Vai precisar de atendimento de emergência, pré-hospitalar. Vamos ajudar, sim. Nossa função é parecida com a dos Bombeiros. Em São Paulo, nesse momento, muitas pessoas estão se ferindo e precisam de atendimento de emergência. No Haiti, antes e depois do terremoto, ocorre a mesma coisa.

ÉPOCA – O que o sr. acha que vai viver no Haiti?
Carletti – Vou encontrar algo e sentir algo que nunca senti. Será uma enorme lição de vida. Vamos encontrar pessoas que perderam absolutamente tudo. Milhares de famílias desestruturadas de uma hora para outra. Não vamos mais ter o direito de reclamar de tanta coisa. Vamos aprender a valorizar cada dia vivido com saúde. Tenho 26 anos de profissão nessa área de emergência. Já enfrentei várias situações dramáticas, mas nada parecido com o que está acontecendo no Haiti. Corpos insepultos, infecções, tensão, violência, gente com fome, com sede. Um quadro dantesco. Espero estar apto a desempenhar minhas funções.


ÉPOCA – A violência é o que mais assusta?
Carletti – Tenho mais medo de um novo terremoto. Com bandido a gente dialoga. Estamos acostumados a trabalhar sob escolta armada. Com a natureza, não tem conversa. Vamos montar as barracas ao ar livre (longe de qualquer construção) e torcer para tudo dar certo.


ÉPOCA – Em quais tragédias brasileiras o sr. trabalhou?
Carletti – Foram várias. Trabalhei no resgate das vítimas do desabamento do teto da Igreja Renascer em 2009 e nos dois acidentes aéreos recentes que aconteceram em São Paulo. O do avião da TAM que caiu perto do aeroporto de Congonhas em 2007 e o do outro avião da TAM que caiu no Jabaquara em 1996. Vimos cenas horríveis. No acidente de Congonhas, muitos dos corpos foram calcinados. Viraram pó. No outro acidente, vimos cadáveres em estado muito mais impressionante. Víamos pessoas carbonizadas espalhadas por uma grande área no Jabaquara.

ÉPOCA – Esse acidente foi o que mais lhe marcou?
Carletti – Foi muito triste e impressionante. Mas o mais marcante foi o incêndio na favela da Vila Socó, em Cubatão, em 1984 (que matou quase 100 pessoas). Havia corpos carbonizados espalhados por todos os lados, no meio da lama, no lodo. Lembro de uma criança que foi encontrada morta dentro de uma geladeira. Quando os pais, desesperados, viram fogo por todos os lados colocaram a criança na geladeira achando que seria a única forma de salvá-la. Morreram todos. É impossível esquecer uma coisa dessas.

ÉPOCA – Os acidentes no trânsito de São Paulo são uma tragédia invisível?
Carletti – O trânsito é uma tragédia diária, cotidiana. É uma tragédia a conta-gotas, da qual ninguém se dá conta. Sofro muito quando a vítima é uma criança. Ela é um agente vulnerável que não pediu para estar ali. Corta o coração.

ÉPOCA – Os médicos no Haiti são obrigados a escolher quem atender. Como vocês se acostumam a escolher quem merece viver?
Carletti – Em catástrofes todos os protocolos internacionais orientam que sejam atendidos primeiro os que têm mais chance de sobrevivência. Fazemos um rápido exame clínico e vemos quem deve ser atendido antes. Mas o médico não se acostuma. Nunca me acostumei. Apenas suporto. Quem está na linha de frente precisa tomar esse tipo de decisão. Mas nunca vou me acostumar com o sofrimento do outro. A Zilda Arns, que morreu em combate, nunca se acostumou com o sofrimento do outro. Temos de manter essa chama viva.

A mochila de Carletti está pronta. Chorão já percebeu que o dono vai passar uns tempos fora. Só não pode imaginar o tamanho do desafio que o aguarda. Esse é um trabalho para heróis. Para super-heróis. De macacão, botina, carne e osso.

Fonte: Época

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