Plano faz parte da nova estratégia dos EUA para a guerra no país asiático que será anunciada às 23h desta terça
WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciará nesta terça-feira, 1, que enviará mais 30 mil soldados americanos ao Afeganistão em seis meses, num rápido aumento de tropas, mas ao mesmo tempo a duração do serviço no Afeganistão será limitada, disse um funcionário do governo americano. Todos os soldados deverão estar no Afeganistão até julho de 2010.
Após três meses de deliberações vistas por alguns críticos como atraso e indecisão, Obama deve apresentar seu plano em um discurso para cadetes da Academia Militar dos EUA em West Point, Nova York. O anúncio desta noite revelará a aguardada mudança na estratégia de guerra com a qual ele espera derrotar o Taleban e permitir a saída dos EUA do Afeganistão.
As tropas deverão ser lideradas pelos fuzileiros navais de Camp Lejune, na Carolina do Norte, e poderão partir ainda em dezembro, como parte do plano para acelerar tanto o envio dos soldados quanto a futura partida deles do Afeganistão, de acordo com um funcionário da Casa Branca. Os reforços serão enviados mais rápido do que se imaginava. Antes, se esperava que levasse pelo menos um ano até que todos os soldados fossem enviados ao fronte de batalha.
Os fuzileiros navais deverão lutar na província afegã de Helmand, onde os EUA já possuem bases. As demais tropas deverão integrar o Exército, incluídos soldados da base de Fort Campbell, que deverão ser enviados à província afegã de Kandahar. Um outro funcionário, que também falou sob anonimato antes do anúncio de Obama, que será feito mais tarde, disse que o presidente insistirá no estabelecimento de uma etapa final para o novo envio de tropas.
Obama decidiu que os planos para um lento aumento de tropas adicionais para a guerra de oito anos não funcionarão, então ordenou um fluxo bem mais rápido de soldados ao Afeganistão, disse o funcionário. A duração do envio das tropas adicionais, que elevarão a 100 mil o total de soldados norte-americanos no Afeganistão, não estava imediatamente clara.
Num discurso que poderá ser definidor da sua presidência e uma aposta que poderá ter peso nas chances de Obama obter um segundo mandato, o presidente se dirigirá ao país inteiro no discurso transmitido pela televisão na noite de hoje (23h do horário de Brasília). Obama espera restaurar o apoio ao esforço da guerra afegã, em meio a um público americano cada vez mais pessimista sobre o sucesso. O presidente americano pretende enfatizar que os EUA não assumiram um "compromisso por tempo indeterminado" no Afeganistão, mas querem entregar o poder a forças afegãs novamente treinadas e começar a retirar suas forças assim que isso for praticável.
Obama não deverá fixar uma data específica para a retirada americana. A estratégia prevê um aumento das tropas em várias etapas, seguida por uma retirada gradual e a entrega da responsabilidade pela segurança às forças afegãs nos próximos três a cinco anos, disseram assessores.
Ao mesmo tempo, segundo o funcionário, Obama pede que os países aliados da organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) enviem entre 5 mil e 10 mil soldados para o Afeganistão. Ainda não está claro como o pedido de Obama será recebido pela Otan, uma vez que a guerra afegã é ainda mais impopular na Europa que nos EUA. A principal missão das novas tropas será reverter os ganhos do grupo fundamentalista Taleban e garantir a segurança nas cidades do sul e do leste afegãos.
Apoio afegão
Antes do discurso, Obama falou por uma hora por videoconferência com o presidente afegão Hamid Karzai.
Washington vem tendo uma relação tensa com Karzai desde que Obama chegou ao poder. A tensão se agravou nos últimos três meses em função da eleição presidencial afegã marcada por acusações de fraudes.
Obama também pretende persuadir Karzai, que deve escolher os integrantes de seu novo gabinete nos próximos dias, a reprimir a corrupção e melhorar a governança, em troca do apoio americano.
Na posse do líder afegão, no mês passado, os dois lados minimizaram suas diferenças. Karzai prometeu combater a corrupção, e a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, elogiou as medidas que ele anunciou. Também se prevê que Obama enfatize a necessidade de o Paquistão fazer mais para combater militantes que atravessaram a fronteira do Afeganistão. A administração já disse que acertar a política em Islamabad é tão importante quanto em Cabul.
Após anúncio, Obama lutará para custear plano no Afeganistão
Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciar sua nova estratégia para a guerra no Afeganistão, na noite desta terça-feira, 1º, ele terá pela frente uma imediata luta política sobre como pagar por isso.
Após uma revisão de meses, Obama falou com o secretário de Defesa, Robert Gates, e outros altos funcionários civis e militares, na noite de domingo, sobre sua decisão de enviar mais dezenas de milhares de soldados para o Afeganistão. O presidente detalhará o plano em um discurso na Academia Militar de West Point, em Nova York. A nova estratégia deve incluir, além de mais soldados, metas para uma futura transferência do controle para as forças locais.
O anúncio do reforço nas tropas será o ponto de partida no esforço da Casa Branca para persuadir um cético Congresso a apoiar a nova estratégia de guerra - e para aprovar os dezenas de bilhões de dólares em novos gastos, em uma época de crescentes déficits federais.
Pode ser uma jornada difícil. O alto preço com o aumento das tropas já recebe oposição inclusive de democratas do Congresso, aprofundando o distanciamento de Obama e seu próprio partido sobre o conflito.
Alguns democratas tendem a apoiar uma nova proposta de impor um imposto de guerra para ajudar a financiar o conflito. Essa proposta é do deputado democrata David Obey, do Wisconsin, que comanda o Comitê Orçamentário da Casa. A administração, porém, deve ainda analisar o projeto, que pode ter dificuldades para passar no Legislativo. O texto prevê que os norte-americanos em geral paguem 1% sobre o imposto de renda, e os mais ricos paguem até 5% para esse fim.
"Se o presidente pretende superar nossas objeções, ele terá que carregar o fardo de pedir um imposto para pagar por isso", disse o congressista democrata Mike Honda, da Califórnia, outro membro do Comitê Orçamentário. "Você está falando sobre aproximadamente US$ 30 bilhões ou US$ 40 bilhões por ano em novos gastos", notou.
Congressistas republicanos pressionam Obama para que ele atenda completamente aos pedidos de mais tropas dos militares. Os republicanos, contrários a um imposto de guerra, preferem em geral que se empreste o dinheiro adicional necessário para o reforço nas tropas, ou que sejam realocados outros fundos do governo.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que Obama tocará na questão do custo em seu discurso desta terça-feira. Gibbs adiantou, porém, que o presidente não será específico sobre quanto precisa para financiar a expansão do esforço de guerra. "Eu não acho que a intenção do discurso seja fazer uma exposição profunda sobre isso", disse o porta-voz.
A disputa do governo com congressistas democratas reflete as duras estatísticas sobre os crescentes custos da guerra afegã. Os EUA atualmente gastam quase US$ 3,6 bilhões no Afeganistão, um valor que deve crescer bastante com o envio de mais tropas.
A Casa Branca estima que enviar mais 30 mil soldados - para auxiliar os 68 mil militares norte-americanos já presentes - acrescentaria aproximadamente US$ 30 bilhões em novos custos por ano, ou quase US$ 1 milhão por soldado ou Marine. O Pentágono estima o custo em quase US$ 500 mil por soldado, em um total de aproximadamente US$ 15 bilhões por ano em novas despesas.
Analistas independentes do orçamento em geral acreditam que os números do Pentágono são mais precisos. Eles esclarecem, porém, que é difícil gerar estimativas precisas sobre quanto a decisão de expandir a guerra pode custar.
O Pentágono já sinalizou que os EUA pela primeira vez começaram a gastar mais dinheiro no Afeganistão que no Iraque. O orçamento da administração de 2010 para o Pentágono, divulgado em maio, pedia US$ 65 bilhões para a Afeganistão e US$ 61 bilhões para o Iraque.
Funcionários de Defesa disseram que a administração pedirá ao Congresso que aprove gastos suplementares no Afeganistão nos próximos meses, para financiar os reforços.
O general James Conway, comandante dos Marine Corps, disse que muitos dos altos custos ficam por conta de dificuldades e gastos com combustível dos veículos, comida e outros suprimentos, no país de difícil acesso.
Em um discurso no meio de outubro, Conway disse que o combustível militar, que custa perto de US$ 1 por galão nos EUA, chega às vezes a US$ 400 no Afeganistão, quando somados todos os custos embutidos. Os Marines no sul afegão gastam mais de 88 mil galões de combustível por dia, segundo ele.
O general explicou que muito desse produto passa por rotas de suprimento no Paquistão, e que é preciso pagar "grandes quantias de dinheiro a tribos, para que elas não briguem entre si" nem atrapalhem as vias.
O coronel T. C. Moore esteve recentemente no Afeganistão, fazendo parte de um grupo estabelecido por Conway para estudar a forma de se reduzir os custos com energia. Moore disse que a maior parte do custo ocorre após a chegada do combustível ao Afeganistão, quando ele precisava ser levado através de áreas instáveis até as bases dos Marines. "A última milha custa a maior parte do dinheiro, simplesmente porque é tão perigoso", disse o coronel.
Fontes: O ESTADO - AE
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