O futuro azul de James Cameron

Estreia sexta a superprodução Avatar, ficção científica com o que há de mais atual em efeitos especiais.



Em conversa com a imprensa mundial há alguns dias, o cineasta James Cameron ouviu de uma jornalista: "Vejo em seu filme traços de muitos outros filmes. Vejo traços de Pocahontas, de westerns, de Titanic, de Exterminador do Futuro. O que você acha disso?"

Como acontece em conversas com centenas de jornalistas que fazem parte das campanhas mastodônticas de lançamentos de filmes mais mastodônticos ainda, James Cameron não respondeu. Rebateu: "Você pode achar o que quiser. É sua opinião. Cada um vê meus filmes como bem entende. E eu conto a história que quero contar."

Pode não ter sido a resposta esperada, mas a pergunta procedia. Há muito o que se ver em Avatar, a história da nativa que vê alienígenas (ou seriam colonizadores?) invadirem sua terra e violarem todas as regras ecológicas de uma forma que faria os ecologistas de Copenhagen terem pesadelos. Há cenas de batalha na florestas, que deixam a sensação de que Luke Skywal ker vai sair de trás de uma das árvores a qualquer momento.
E, mais uma vez, é Sigourney Weaver quem encarna a pesquisadora que prefere tomar partido do "lado selvagem" da história. Também é possível enxergar no filme a crítica ao imperialismo norte-americano, que loteia o mundo segundo seus interesses mercadológicos e - palavras do personagem Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) - "combate terror com terror".



Em Avatar, épico de ficção científica que se passa em 2154, Cameron conta um conto e agrega milhares de outros pontos. Tudo começa quando Jake Sully, um ex-marine que ficou paraplégico, é enviado a Pandora, uma lua que orbita o distante sistema estelar de Centauro. Sua tarefa é se infiltrar na comunidade nativa, os azuis Na"vi, seres de 10 pés de altura, com rabos de cavalo e imensos olhos dourados, e ajudar os humanos a descobrir como explorar a fonte de "unobtainium", um mineral raríssimo que pode resolver o problema de falta de energia na Terra. Para ganhar a confiança do inimigo e descobrir como controlá-los, Jake ganha seu próprio Avatar. Sua versão Na"vi é a mistura de seu DNA com a dos nativos. Mas, ao conhecer Neytiri (a Na"vi cuja missão é ensiná-lo a ser um dos azuis) Jake descobre que nem tudo é tão "preto-no-branco". Ou melhor, que a fraternidade é azul.

Para contar esse drama de fantasia, os efeitos especiais em 3D são cruciais. Cameron é mestre em fazer os filmes mais caros da história. Assim o fez em Exterminador do Futuro e Titanic. E assim o faz em Avatar. A brincadeira custou nada menos que US$ 380 milhões. Suficiente para levar para as telas a sensação quase real de voar junto com Neytiri (Zoë Saldana) e Jake Sully (Sam Worthington) nos cenários da terra de Pandora. Há algo de O Abismo (do próprio Cameron). As florestas que brilham no escuro são perfeitas recriações "a seco" do fundo do mar e sua fluorescência.

Ao ver as medusas (espíritos ancestrais) flutuarem no ar e pousarem nos braços do "escolhido" Jake, sabe-se já que um óculos 3D é imprescindível para melhor aproveitar a viagem que Cameron começou a conceber há quase 15 anos. "Concordo que em 3D o filme é melhor. Se puder, vou fazer todos os meus próximos filmes com esta tecnologia. Mas não acho que a versão 2D perca muita coisa. Um filme bom é um filme bom e acho que o essencial da história está todo lá", respondeu o diretor, quando questionado sobre a técnica empregada para causar a sensação de estar voando nas asas dos animais pré-históricos.

Se 3D não é a "chave da questão", os efeitos visuais são, de qualquer forma, cruciais neste épico estelar. Transformar Zoë, Worthington, Sigourney, entre outros, em dois Na"vis é tarefa que até pouco tempo parecia impensável. "Esperei anos para ter esta tecnologia. Por isso, a história demorou tanto para ser contada. O segredo é combinar cenas reais, animações e, ao mesmo tempo, unir as duas para criar uma terceira realidade", explica o diretor.

Para isso, Cameron utilizou tanto a tecnologia de criação de efeitos especiais quanto a milagrosa câmera virtual. "Essa câmera me permitiu filmar, e ver o que filmava, diretamente no mundo virtual já criado pelos técnicos de efeitos especiais. Então, quando eu filmava Zoë ou Sam, o que eu via na tela era Neytiri e o Avatar de Jake", continua. "Não queria criar animações em computador usando as expressões dos atores. Eu queria um híbrido, exatamente como no experimento do filme. O que fizemos foi passar esta camada de efeito sobre os próprios atores. Tudo ficou muito orgânico. A única liberdade que tivemos foi a de criar movimentos que os atores seriam incapazes de fazer, como mexer as caudas e as orelhas, por exemplo."

Por essas e por outras, que, como diz Worthington, Avatar não é um filme em que ele atuou, mas um filme que ele "experimentou". No entanto, como bem observou Sigourney, muitas vezes diretores se esquecem de que efeitos especiais não devem existir somente para encher os olhos. "O melhor de Avatar não são os efeitos. Mas a sensação de que os efeitos não existem por si. Servem para contar melhor uma história que já é incrível."

Zoë, a única figura do elenco cujo rosto real nunca é visto na tela, concorda: "Este foi o papel mais difícil de minha carreira. Tanto fisicamente quanto mentalmente. Aprender a ser outra criatura, aprender a língua Na"vi, por exemplo, exigiu meses de treino. Minha mãe achava que eu era louca porque ficava fazendo sons estranhos na hora do jantar. Mas valeu a pena. Não é meu rosto que conta. Há muito mais de mim no meu próprio avatar."

No fim, após mais de duas horas de realidade virtual, conclui-se que este é um filme sobre ver. "É sobre como só vemos o que queremos e como tudo muda quando nos colocamos no lugar do outro. Vale tanto para outras culturas quanto para nosso próprio bairro. Precisamos aprender a ver além", concorda James Cameron.


Fonte: O ESTADO; Flávia Guerra

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