Após duas décadas no governo, coalizão de esquerda pode deixar o poder no Chile

Às vésperas do 1º turno, direitista é favorito à Presidência.
Além dele, esquerda governista enfrenta dissidente neste domingo (13).

Mulher corre nesta quarta-feira (8) nas ruas de Santiago cercada de cartazes da campanha presidencial chilena. (Foto: AFP)

As eleições presidenciais deste domingo (13), no Chile, serão as primeiras após a morte de Augusto Pinochet e, coincidências à parte, podem trazer o fracasso da Concertación, coalizão de centro-esquerda que está no poder há quase 20 anos - desde que o ex-ditador, derrotado num plebiscito, deixou o poder no país. A Concertación lançou como candidato o ex-presidente Eduardo Frei, que enfrenta um forte empresário concorrente da direita e encara ainda a candidatura de um dissidente do Partido Socialista.


"Esta é a primeira eleição desde o retorno à democracia em que todos os candidatos se opuseram a Pinochet no plebiscito de 1988. [Sebastián] Piñera [candidato da direita] também se opôs a Pinochet. Isso o aproxima de setores moderados que estão cansados da Concertación, mas que também estavam temerosos de uma direita demasiado ligada ao autoritarismo", explica em entrevista ao G1 Patrício Navia, cientista político chileno e professor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Nova York.


Eduardo Frei, da Concertación, e Sebastián Piñera, do partido Renovação Nacional, em debate eleitoral do dia 9 de novembro (Foto: Martin Bernetti/AFP)

As pesquisas para o pleito deste domingo apontam Piñera na frente, mas não com votos suficientes para garantir a vitória no primeiro turno. Segundo pesquisa do instituto Ipsos realizada em outubro, Piñera aparece com 36,7% das intenções de voto, contra 27,2% de Eduardo Frei e 17,8% do independente Marco Enríquez-Ominami. A mesma instituição fez pesquisas desde abril, e os resultados comparativos mostraram uma diminuição dos índices de Piñera e um pequeno aumento dos de Frei.

Segundo analistas entrevistados pelo G1, a centro-esquerda sofre um desgaste pelos 20 anos no governo e enfrenta ainda um vácuo de novas lideranças, apesar do alto índice de aprovação do governo de Michelle Bachelet. "Ao mesmo tempo em que amam Bachelet, eles estão menos empolgados com a Concertación. Existe uma percepção generalizada de que a Concertación é elitista e não chega ao 'povo' chileno", explica Peter Siavelis, doutor em filosofia e autor de "The President and Congress in Postauthoritarian Chile" (sem tradução em português).

"O problema é que o sucesso da Concertación foi construído em um modelo político que se baseou em uma série de acordos formais e informais entre elites para subscrever a transição democrática e evitar uma mudança desestabilizadora. Esses acordos excluíram o grande público e levaram a uma diminuição da confiança nos partidos políticos e na democracia em si."

Quer o governo perca ou ganhe as eleições, um fato certo é que as coisas estão mudando na política do Chile. E estão mudando rápido. Logo após ter sido impedido de concorrer nas primarias de sua legenda para definição do candidato presidencial, o jovem Marco Enríquez-Ominami, de 36 anos, saiu do Partido Socialista e levou muitos apoiadores para uma candidatura independente. Apesar de sua criticada falta de experiência na política (ele só exerceu um cargo, como deputado), seu nome desponta nas pesquisas.

A dificuldade da direita em ser maioria

Apesar de estar na frente nas pesquisas e de ter um candidato não diretamente ligado com o pinochetismo, a direita não conseguiu ainda ser maioria. Para Peter Siavelis, esse grupo sempre representou cerca de 30% dos votos no país. "Para ganhar, os partidos da direita precisam circular entre o centro. Apesar da assertiva que sempre se ouve de que o Chile é um país conservador, politicamente ele é um país de centro-esquerda."

Já o professor da Unesp e autor de "Democracia e socialismo: a experiência chilena", Alberto Aggio, acredita que "a direita ainda não se livrou inteiramente da marca deixada por Pinochet". Em uma entrevista ao jornal espanhol "El País", o ex-presidente do Chile Ricardo Lagos afirmou que todos os que estão em volta de Piñera são herdeiros de Pinochet. A frase causou impacto.

Segundo o cientista político Patricio Navia, não são todos em volta do candidato que compartilham do pinochetismo. Mas há muitos. "Até agora, ele parece ter dificuldades para convencer uma maioria de chilenos de que os colaboradores de Pinochet não terão influencia em um possível governo. Se ele conseguir convencer de que será ele que estará no poder, ganhará as eleições no segundo turno."

Conheça os principais candidatos à Presidência do Chile

A disputa eleitoral pela Presidência do Chile está acirrada e, pela primeira vez em vinte anos, um candidato que não pertence à coalizão de centro-esquerda está na frente nas pesquisas e tem fortes chances de ser eleito. As últimas pesquisas, no entanto, indicam um segundo turno entre o empresário Sebastián Piñera e o candidato do governo, o ex-presidente Eduardo Frei.

Conheça os principais candidatos nas eleições do dia 13 de dezembro:

Sebastián Piñera (Coalizão para a Mudança)


Sebastián Piñera após registrar candidatura em setembro deste ano (Foto: Martin Bernetti/AFP)

O candidato do partido Renovação Nacional na coalizão direitista aparece em primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto do Chile. Piñera perdeu as eleições presidenciais em 2005 no segundo turno e foi o escolhido pela chapara para uma nova aposta para 2010.

Aos 60 anos, Piñera é economista e fez mestrado e doutorado na mesma área. Ele trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) e atuou como professor universitário. Ele já foi senador e presidente do partido.

Veja o site da campanha de Piñera, em espanhol

No programa de governo do candidato são apresentados 75 compromissos, definidos como "metas exigentes, mas factíveis". Conheça algumas das propostas de Piñera:

Criação de 1 milhão de novos empregos com "salários justos e dignos";
Criação de 10 mil novos cargos de policiais e ampliação do plano de segurança;
Implantação do programa 'vida nova': construção de 10 centros de reabilitação para jovens envolvidos com drogas.
Criação de um ministério do desenvolvimento social subordinado diretamente à presidência.
Construção de 10 hospitais de excelência e 76 consultórios médicos.
Ampliação da licença maternidade de três a seis meses.

Eduardo Frei (Concertación)

O ex-presidente e candidato Eduardo Frei em campanha em setembro deste ano (Foto: Claudio Santana/AFP)

O engenheiro do Partido Democrata Cristão tenta um novo mandato como presidente do Chile - ele exerceu o cargo de 1994 a 2000. A liderança veio de família, já que seu pai, Eduardo Frei Montalva, governou o Chile em 1964.

Aos 67 anos, Frei já foi senador e chegou a assumir a presidência da Casa.


Veja o site do candidato, em espanhol

Conheça algumas de suas propostas:

Uma das medidas prioritárias seria a convocação de um debate nacional para um acordo entre trabalhadores, empresários e o Estado no desenvolvimento de um projeto para mudar as leis trabalhistas do país.
Aumento da oferta de berçários e creches e criação de um mecanismo de discriminação positiva' para facilitar o ingresso de estudantes pobres.
Construir 50 'centros de excelência clínica' com alta tecnologia médica.
Possibilitar maior autonomia política para as regiões, deixando os moradores elegerem suas assembleias regionais por voto direto e os prefeitos poderão ser retirados por um plebiscito;
Aumentar o número de policiais nas ruas e a criação de um ministério da segurança cidadã para prevenir, reprimir e reabilitar;
Na economia, a chapa apresenta 12 medidas para proteger os consumidores, potencializar a competência e evitar os monopólios.

Marco Enríquez-Ominami (candidato independente)

Marco Enriquez-Ominami antes de debate na TV, em novembro deste ano (Foto: Martin Bernetti/AFP)

Com apenas 36 anos, o candidato tem uma história de exílio na ditadura ainda pequeno - cursou a escola primária na França, para só depois voltar ao Chile. É formado em filosofia, estudou cinema e mantém uma produtora de vídeos.

Veja o site do candidato, em espanhol

Foi eleito deputado em 2005, pelo Partido Socialista - seu único cargo político. Ominami decidiu se candidatar a presidente após não ter sido um dos candidatos das primárias de seu partido. Ele deixou a chapa e virou independente, apesar de se declarar um 'herdeiro da presidente Bachelet'. Na comparação das últimas pesquisas de intenção de voto, sua evolução é significativa.

Conheça algumas de suas propostas:

O candidato propõe a realização de uma nova Constituição "produto de um amplo processo de debate e consulta" baseada nos direitos fundamentais, representativa do direito das maiorias e protetora das minorias;
Realização de uma reforma tributária para que "os que ganham mais paguem mais";
Ampliação da descentralização política e fortalecimento das autoridades regionais;
Criação de um ministério social, para cuidar especificamente das políticas de proteção social;
Impulso ao desenvolvimento de novas fontes de energia renovável;
Aumentar a tributação ao álcool e ao tabaco

Fontes: G1/Giovana Sanchez

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