Empresas querem recriar Mercosul e transformar o bloco em área de livre comércio

A mudança liberaria o Brasil para fechar, sozinho, acordos bilaterais

O setor privado está "cansado" do Mercosul e pede a "reinvenção" do projeto de integração regional. Uma alternativa que volta a ganhar força é dar um passo atrás e transformar o bloco de união aduaneira em área de livre comércio. Na área de livre comércio, não existem tarifas entre os países. Por ser uma união aduaneira, o Mercosul tem que adotar também uma TEC (Tarifa Externa Comum) para importação de produtos de terceiros países e é obrigado a negociar acordos em conjunto.



A mudança liberaria o Brasil para fechar, sozinho, acordos bilaterais como blocos importantes, como, por exemplo, a União Europeia, cujas negociações com o Mercosul serão retomadas na quarta-feira (4) em Lisboa. Para os empresários, o conflito com a Argentina - que paralisou caminhões na fronteira — e a entrada da Venezuela no Mercosul , deixa o bloco mais fragilizado nas negociações. O diretor de comércio exterior da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Roberto Giannetti da Fonseca, afirma:

Não podemos ficar amarrados ao protecionismo da Argentina. Sou a favor de dar um passo atrás e reinventar o Mercosul como área de livre comércio.

Aguinaldo Silva, o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), questiona:

Que união aduaneira é essa? Está permitindo desvio de comércio para os chineses. Não é uma questão de desprezar o Mercosul, mas saber se funciona.

O desvio de comércio a favor da China, provocado pelas licenças não automáticas da Argentina, acabou com a paciência dos empresários. A avaliação é que o Brasil só fica com o ônus da união aduaneira, mas não aproveita os benefícios. A admissão da Venezuela é mais um fator que complica as negociações com outros países, porque o presidente Hugo Chávez é contra acordos bilaterais. Para Lúcia Maduro, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Venezuela deixa o Mercosul mais "complexo" e "paralisado".

O presidente da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), Humberto Barbato, também apoia a transformação do Mercosul em área de livre comércio. Os celulares estão sob ameaça de mais impostos na Argentina:

A indústria brasileira não tem solicitado o mesmo nível de proteção dos argentinos.

Um dos motivos que ajuda a explicar o desinteresse dos empresários pelo Mercosul é que o bloco perdeu importância nas exportações brasileiras, por conta das barreiras argentinas e da diversificação de clientes. Em 1998, Argentina, Uruguai e Paraguai absorviam 17,4% das vendas do Brasil. No ano passado, esse porcentual caiu para 11%. De janeiro a setembro, por conta da crise, estava em 9,3%.

O presidente da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), Sérgio Amaral, ressalta que o momento das duas economias é de "profundo descompasso". Enquanto o Brasil atrai investimentos e acumula reservas, a Argentina enfrentar escassez de divisas. Para os empresários, o Mercosul chega mais fraco para a reunião com a União Europeia.

Uma das exigências dos europeus é a livre circulação de produtos no bloco, que está em risco com as licenças adotadas por Argentina e Brasil. Os argentinos bloquearam a última tentativa de acordo com a UE, ao resistir a abrir o mercado automotivo. O país também não apoiou a conclusão da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio.

Fontes: O ESTADO - R7

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