
Polícia saiu às ruas em Teerã neste sábado/Reuters
Manifestantes planejavam grande ato neste sábado, desafiando alerta de 'banho de sangue' feito por aiatolá
TEERÃ - A polícia iraniana dispersou milhares de manifestantes que protestavam neste sábado, 20, em frente à Universidade de Teerã contra o resultado das eleições presidenciais, disseram testemunhas. Algumas pessoas estavam sendo atacadas pelos policiais, segundo a agência France Presse. Paralelamente, a explosão de uma bomba próxima ao santuário do fundador da Revolução Iraniana, aiatolá Ruhollah Khomeini, matou pelo menos duas pessoas e deixou outros oito feridos, informou a agência semioficial iraniana Fars.
Os manifestantes planejavam um grande ato para este sábado, desafiando as recomendações do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que afirmou na sexta-feira que os organizadores seriam responsáveis por um "banho de sangue". Mais cedo, a mídia estatal iraniana informou que dois grandes protestos foram cancelados pelos opositores, mas, por causa das restrições à imprensa, as informações não puderam ser confirmadas de forma independente.
Outra testemunha contou à agência Associated Press que os agentes antidistúrbio usavam gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersá-los. Fumaça podia ser vista próxima à Praça Enghelab (Revolução), onde estavam manifestantes do candidato derrotado Mir Hossein Mousavi, que alega ter sido vítima de fraude a favor do presidente Mahmoud Ahmadinejad na votação do último dia 12. Fontes disseram que cerca de 3 mil manifestantes reunidos no centro de Teerã gritavam "Morte ao Ditador!" e "Morte à Ditadura!"
Desde a divulgação da surpreendente vitória de Ahmadinejad em primeiro turno, a oposição realiza grandes protestos diários, e alguns deles terminaram com enfrentamentos entre as forças da ordem - apoiadas por milicianos islâmicos Basij - e grupos de manifestantes. Os três candidatos foram convocados neste sábado para uma reunião extraordinária do Conselho de Guardiães, para analisar as 646 queixas formais por irregularidades no pleito.
O Conselho, órgão legislativo iraniano, explicou que os candidatos foram chamados para que "expressem sua opinião e digam suas queixas aos 12 membros do Conselho antes da decisão final". O organismo se mostrou disposto a recontar de forma parcial as urnas em locais onde houve denúncias, embora pareça muito pouco provável que atenda à principal reivindicação da oposição, que é uma nova eleição. Em seus 30 anos de existência, o Conselho de Guardiães nunca anulou um processo eleitoral.
'BANHO DE SANGUE'
Falando a milhares de pessoas na Universidade de Teerã durante a tradicional prece de sexta-feira, Khamenei, maior autoridade do Irã, afirmou que "o povo escolheu quem queria" e responsabilizou o "extremismo" da oposição por qualquer ato de violência. "As demonstrações de rua são inaceitáveis. Elas são uma afronta à democracia após as eleições", disse Khamenei. "O resultado da eleição vem das urnas, não das ruas. Hoje, a nação iraniana precisa de calma."
O líder supremo aproveitou também para atacar o que chamou de "interferência das potências estrangeiras", que questionaram o resultado da eleição. O aiatolá disse que os "inimigos do Irã tentam minar a legitimidade do establishment islâmico". Fazendo referência à invasão dos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, ele criticou os americanos. "Não precisamos de conselhos deles sobre direitos humanos."
Mousavi não deu declarações após o discurso de Khamenei. Segundo analistas, o líder opositor tem agora uma escolha difícil: suspender os protestos ou desafiar o aiatolá e aprofundar a crise. Na sexta-feira, a Anistia Internacional estimou que dez pessoas morreram desde o início dos protestos no Irã, há uma semana - segundo dados oficiais, o número de mortos nao passa de oito.
Sob censura, iranianos criam comunidade virtual anônima
Fórum 'Why We Protest' reúne 1,8 mil usuários para troca de informações, vídeos e fotos sobre crise política
Além do uso de redes sociais como Twitter e Facebook para troca de informações, os iranianos criam agora fóruns virtuais para burlar a censura oficial. Em uma página intitulada Why We Protest, mais de 1,8 mil usuários publicam desde convocações para novas manifestações contra o resultado das eleições presidenciais até fotos e vídeos da repressão oficial.
O fórum é divido nas seções 'Dentro do Irã', 'Ativismo', 'Geral', 'Discussão Internacional', 'Tradução', 'Em Memória' e 'Miscelânia', e funciona como um verdadeiro guia tanto para os manifestantes da oposição quanto para quem busca informações sobre os protestos. No tópico 'Pessoas Desaparecidas', por exemplo, diversos listas sobre pessoas presas e feridas pela repressão têm sido criadas pelos usuários. Os internautas também trocam dicas sobre como manter o anonimato para evitar represálias.

Comunidade organiza protestos e fornece relatos de quem vive a crise iraniana. Crédito: reprodução
Diante do veto ao trabalho da imprensa independente no Irã, a internet se tornou a principal fonte de informações sobre a crise política, que começou no último dia 12, com denúncias de fraude sobre o pleito que deu a reeleição ao presidente Mahmoud Ahmadinejad. Neste sábado, por exemplo, diversas imagens de um novo enfrentamento da polícia com manifestantes em Teerã foram divulgadas primeiro pela rede e horas depois divulgadas por redes de televisão mundiais.
A veracidade das informações publicadas tanto nos fórums virtuais quanto nas redes sociais, entretanto, não pode ser confirmada.
Fontes: Reuters - Agência ESTADO
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