Líder supremo do Irã nega fraude em eleição e alerta manifestantes


Líder supremo diz que vitória de Ahmadinejad foi "definitiva" e alertou manifestantes contra protestos

Em sua primeira aparição pública desde o início da crise política no Irã, o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, defendeu a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, rejeitou as denúncias da oposição de fraude eleitoral e alertou os manifestantes que devem parar com os protestos que ocupam as ruas de Teerã há seis dias.

Em um discurso agressivo, segundo analistas iranianos e regionais, Khamenei encerrou a esperança da oposição por negociação e afirmou que os manifestantes seriam "responsabilizados pelo caos" se não encerrarem os dias de protestos massivos --os piores desde a Revolução Islâmica de 1979.


Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ouve discurso do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em sua defesa

"Há uma diferença de 11 milhões de votos. Como alguém pode fraudar 11 milhões de votos?", disse. "O povo escolheu quem queria. A eleição demonstrou a confiança no regime islâmico", disse, argumentando que o pleito teve uma participação recorde de 85%.

Khamenei foi comedido em sua defesa a Ahmadinejad, que ouviu de perto o discurso. Ele afirmou que suas ideias estão mais próximas das de ahmadinejad do que das propostas da oposição. Embora cauteloso, o discurso deve dar força à autodefesa de Ahmadinejad, que afirmou em entrevista que suas declarações foram tiradas de contexto e que sua reeleição é uma vitória de todos.

Khamenei afirmou ainda que qualquer dúvida sobre os resultados das eleições de 12 de junho deve ser investigada por meio dos canais legais e pediu que os oposicionistas abandonem os protestos diárias nas ruas do centro de Teerã.

Ele confirmou a reeleição do presidente Ahmadinejad com 24,5 milhões de votos, de um total de 40 milhões, e descartou uma fraude na vitória do ultraconservador. Ele afirmou que a vitória do presidente é "definitiva" e, por isso, não há justificativa para a anulação do pleito --pedido dos oposicionistas.

Ahmadinejad ganhou a reeleição na eleição do último dia 12 de junho com cerca de 63% dos votos contra 34% do reformista Mir Hossein Mousavi, principal líder da oposição. Mousavi, apoiado por outros reformistas, acusou Ahmadinejad de fraudar o pleito, com atraso na entrega de cédulas, violação de urnas em setores rurais e outras denúncias de irregularidade que somaram 646 queixas ao Conselho dos Guardiões, órgão legislativo responsável por ratificar o resultado do pleito.

Histórico

Em um sermão para dezenas de milhares de pessoas na Universidade de Teerã, Khamenei destacou o fato de que cerca de 40 milhões de iranianos --85% da população-- apoiaram com seu voto os princípios da revolução em uma "festa histórica".


O discurso de Khamenei foi visto como um duro golpe para os oposicionistas, já que ele era visto como única porta de negociação com o governo. Khamenei foi quem intercedeu no Conselho de Guardiães, um órgão legislativo de 12 integrantes que é o pilar da teocracia iraniana, para avaliar a denúncia de fraude da oposição, liderada pelo candidato reformista moderado Mir Hossein Mousavi.

O Conselho rejeitou a proposta de anular a votação, mas aceitou fazer a recontagem parcial, das urnas contestadas pela oposição. Segundo um porta-voz do organismo, a oposição apresentou 646 queixas de fraude, incluindo a falta e o atraso na chegada de cédulas aos colégios eleitorais, pressão sobre os eleitores e o itinerário alterado de urnas em zonas rurais.

Culpa

O líder supremo iraniano também acusou os "inimigos do Islã" de tentar provocar inquietação entre os muçulmanos, mas disse que desde o início da Revolução Islâmica, há 30 anos, muitos eventos podiam ter derrubado o sistema, mas "o navio sempre atracou no porto".

"Depois dos protestos nas ruas, algumas potências estrangeiras [...] começaram a interferir nos assuntos do Estado questionando o resultado do voto. Eles não conhecem a nação iraniana. Eu condeno duramente tal interferência", disse Khamenei.

Após o início dos protestos, muitos países ocidentais criticaram a postura do governo e pediram que Ahmadinejad investigasse as denúncias de fraude. A União Europeia foi quem adotou o discurso mais rígido. A França chegou a convocar o embaixador iraniano no país para justificar-se e o Reino Unido advertiu que a crise poderia afetar as relações bilaterais.

Os Estados Unidos, país considerado grande inimigo do Irã, preferiram adotar um tom mais cauteloso. O presidente dos EUA, Barack Obama, fez manifestações comedidas de apoio ao direito de manifestação e em favor do respeito à vontade dos eleitores iranianos, dosadas com declarações de imparcialidade.

Khamenei, contudo, não poupou Washington. "Os comentários americanos sobre os direitos humanos e limitações sobre as pessoas não são aceitáveis porque eles não têm ideia sobre o que é direito humano depois do que fizeram no Afeganistão e no Irã e em outras partes do mundo. Nós não precisamos de conselho sobre direitos humanos deles", completou.

Nesta semana, o governo iraniano lançou uma campanha para tentar conter os efeitos dos protestos em sua imagem internacional que inclui a expulsão de todos os jornalistas e agências de notícias estrangeiras e a proibição de conteúdo que "crie tensão" na Internet --último veículo de expressão dos oposicionistas em um país onde censura é rotina.

Ahmadinejad

Ahmadinejad saiu em sua própria defesa e concedeu entrevista a uma agência estatal para rebater as críticas da oposição e dos países ocidentais.

Após comparar os protestos por suposta fraude eleitoral da oposição, que já duram quase uma semana, com reclamações de torcedores de um time de futebol que perdeu, o ultraconservador afirmou que suas declarações foram tiradas de contexto.

"Eu falava daqueles que começaram os distúrbios, iniciaram incêndios e atacaram as pessoas", disse Ahmadinejad à agência estatal IRINN. "Eu afirmei que essas [pessoas] são nada, eles não são nem ao menos parte da nação do Irã. Eles são alienados na relação com o Irã."

No domingo (14), em um comício pela sua vitória na praça Vali-e Asr, em Teerã, Ahmadinejad afirmou que a nação iraniana está unida. "Em um jogo de futebol, há 50 mil a 70 mil expectadores. Aqueles cujo time perdeu estão bravos e farão qualquer coisa para libertar sua raiva. Quarenta e cinco milhões de pessoas participaram da eleição no Irã. Elas eram os jogadores e elas determinaram o resultado."

A frase impulsionou os protestos diários em massa da oposição, que grita frases como "morte ao ditador" e "onde está o meu voto?".

Analistas veem disputa entre clero e militares no Irã

Para além da disputa sobre o resultado real da eleição no Irã, um número cada vez maior de especialistas vê no país persa uma batalha que opõe parte significativa do clero às forças da Guarda Revolucionária e dos basiji, seu corpo de reservistas.

Sob a Presidência de Mahmoud Ahmadinejad, oficial da guarda durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), esses setores militares alcançaram influência econômica e política inédita, dizem os analistas -a maioria iranianos no exterior.

Questionado entre seus pares, o líder supremo Ali Khamenei apoiou a primeira eleição de Ahmadinejad, em 2005.

Mas seu próprio poder teria sido minado pela aliança de conveniência contra setores reformistas ou pragmáticos, representados pelos ex-presidentes Mohammad Khatami (1997-2005) e Hashemi Rafsanjani (1989-1997).

"A Guarda Revolucionária em geral aceitou a liderança do clero (...). Mas enquanto [o aiatolá Ruhollah] Khomeini a mantinha longe da política, Khamenei a encorajou a se envolver em batalhas políticas", escreveu Abbas Milani, diretor de estudos iranianos da Universidade de Stanford (EUA), na revista "The New Republic".

Agora, afirmou Milani, o líder religioso está numa encruzilhada: "É difícil imaginar a guarda suprimindo os atuais protestos e depois simplesmente devolvendo o poder ao clero".

A guarda, com cerca de 120 mil integrantes, foi criada por Khomeini para zelar pela segurança nacional. Os basiji dizem ter 12,5 milhões de voluntários (numa população de 66 milhões), mas apenas 90 mil andam armados e têm soldos.

A preocupação de parte do clero com o poder paramilitar já vinha crescendo. Em 2005, o candidato reformista Mehdi Karubi, que voltou a concorrer neste ano, denunciou a guarda por supostamente controlar portos clandestinos. O dinheiro de importações ilegais, acusou, financiou a campanha eleitoral de Ahmadinejad.

O presidente cultiva a fama de incorruptível e humilde, em contraste com a imagem pública de religiosos como Rafsanjani.

Para ele, a Guarda Revolucionária seria o verdadeiro esteio do regime. Mesmo quem defende que Ahmadinejad foi reeleito legitimamente concorda em que seu poder ante o clero é superior ao de seus antecessores.

"Esta eleição fez de Ahmadinejad um presidente poderoso, talvez o mais poderoso desde a revolução", disse George Friedman, da Stratfor, respeitada firma de consultoria geopolítica.

Fontes: FOLHA - AP - REUTERS -

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